[TOLKENIANA] ÉOWYN: UMA MULHER COMO DEUS ORDENA


Literatura / domingo, dezembro 3rd, 2017

Isac­co Tac­coni
Radio Spa­da
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

Devo con­fes­sar a min­ha obje­ti­va difi­cul­dade em escr­ev­er sobre a mul­her em ger­al e, no pre­sente caso, das fig­uras fem­i­ni­nas tolkieni­anas por uma dupla razão: 1) a criatu­ra «mul­her» é a meu ver um ver­dadeiro e próprio mis­tério ain­da não ple­na­mente com­preen­di­do, o qual papel teológi­co na história do mun­do e da Igre­ja é tão com­plexo quan­to cru­cial; 2) Os per­son­agens tolkieni­anos acres­cen­tam a essa com­plex­i­dade que definirei «ginecológ­i­ca», dos extratos e das nuanças numerosas ao menos quan­to refi­nadas. Por isso «o dev­er do necessário se tor­na árduo quase ao helêni­co tropo, e para não lançar fora as sementes con­ser­van­do sãos espíri­to e mente, vou bus­can­do luzes e graças Daque­le que ape­nas a recebe e dá em cópia a raça humana».Não por aca­so os poet­as de todos os tem­pos requer­eram o socor­ro de uma «Musa» (a par­tir da qual a «músi­ca»), espe­cial­mente para can­tar as vir­tudes e as graças de uma criatu­ra como a mul­her que, se inten­ta e se recol­he na piedade e a cari­dade, pode tornar sinal predile­to de coisas celestes.

Então, eis aqui­lo de que creio pre­cis­ar: um socor­ro que aris­totelica­mente se move como causa segun­da em uma cadeia hierárquica, descen­den­do do Céu dan­tesco até a sel­va de lanças de Pelen­nor. Se bem que se pode­ria obje­tar que a pre­sente empre­sa de comen­tar a figu­ra de Éowyn não pareça dev­er inco­modar o Céu, todavia, neste pon­to inter­rog­a­rei o meu con­tes­ta­dor deste modo: “o que mais impor­ta aos olhos de Deus: uma peque­na ação fei­ta por amor a Ele, ou uma grande empre­sa, por mais que seja boa e hon­oráv­el, por amor próprio?” Teresin­ha de Lisieux, a san­ta do «pequeno cam­in­ho», nos deixou uma pre­ciosa her­ança, a nós que podemos aspi­rar a uma san­ti­dade como «pequenos» cumprindo bem cada gesto, nos ensi­nan­do a apan­har um alfinete da ter­ra por amor do Amor, como se tivésse­mos apan­hado uma moe­da empregáv­el no paraí­so. E nós tam­bém naque­le caso poder­e­mos diz­er ver­dadeira­mente: “a sua graça em mim não foi vã” [1], uma vez que se o Bom Deus por um pequeno gesto ofer­ta­do a ele com pureza de intenção aumen­ta na alma o grau de glória, ver­tendo nele como em uma taça uma medi­da mais larga de graça san­tif­i­cante, tan­to mais não des­den­hará de socor­rer a pobre mente daque­le que bus­ca boas palavras para can­tar as suas belezas: «Cre­do vidére bona Domi­ni in ter­ra vivén­tium». E creio que em fun­do seja pro­pri­a­mente esta a chave de leitu­ra do per­son­agem Éowyn: o heroís­mo da devoção escon­di­da.

Hoje, nes­ta nos­sa história, não há orcs para matar mes­mo se o inimi­go que nos para no cam­in­ho é ain­da mais temív­el e obscuro. A viagem de todo ines­per­a­da que recla­ma a nos­sa atenção, se desen­volve mais na bus­ca de uma respos­ta sobre a iden­ti­dade pro­fun­da da Dama Éowyn. A breve descrição que des­ta figu­ra Tolkien fornece ao leitor é sufi­cien­te­mente elo­quente para per­mi­tir-se imag­i­nar a graça, a nobreza e a cas­ta beleza.

Quan­do os “três caçadores” chegam a Edo­ras guia­dos por Gan­dalf redi­vi­vo, trans­for­ma­do no «Bran­co», cân­di­do como a neve depois de ter pas­sa­do através da por­ta da morte, encon­tram um reino divi­di­do e dis­per­so, Théo­den fil­ho de Then­gel, dom­i­na­do por um venenoso con­sel­heiro, e a qual povo dis­per­so e ame­dronta­do o espera des­per­tar. Ao lado do vel­ho rei, um pouco reti­ra­da, se ergue alta e silen­ciosa, sobrin­ha do rei e pri­ma do herdeiro ao trono ago­ra defun­to. A jovem prince­sa, como con­ta Tolkien: “se virou para olhar para trás. No seu olhar grave e pen­sati­vo, colo­ca­do sobre o rei, se dis­tin­guia uma ter­na piedade.  Esplên­di­do o seu ros­to, e os lon­gos cabe­los iguais a um rio de ouro. Era bran­ca e fina na bran­ca veste cingi­da de pra­ta; mas pare­cia forte e sev­era como aço, uma fil­ha de rei. Assim Aragorn viu pela primeira vez a luz do dia  Éowyn, Dama di Rohan, e a encon­trou bela, bela e fria, como uma man­hã pál­i­da de pri­mav­era, e não ain­da mat­u­ra­da em mul­her” [2].

Entre todos os per­son­agens fem­i­ni­nos que encon­tramos no Sen­hor dos Anéis, Éowyn aparece como a úni­ca ver­dadeira mul­her, humana, real. Enquan­to Arwen e Gal­adriel, pro­pri­a­mente por serem elfos, são de qual­quer modo sub­traí­das a con­cre­tude da humanidade, envolvi­das como são por uma áurea sacral, Éowyn ao con­trário car­rega sobre si o dra­ma da condição mor­tal assi­nal­a­da por desilusões, amar­guras e respon­s­abil­i­dades não queri­das, mas vir­il­mente acol­hi­das e afrontadas com hero­ica for­t­aleza. O mes­mo con­to do seu amor não cor­re­spon­di­do por Aragorn con­tribui a nos mostrar uma jovem mul­her mar­ca­da pelo sofri­men­to e pelo aban­dono. Orfã e acol­hi­da na casa do tio, con­stri­ta pelos even­tos a assi­s­tir impo­tente o seu rei, seduzi­do por dia­bóli­cos con­sel­hos de um traidor, Éowyn car­rega em si como em uma sín­tese todos aque­les val­ores da anti­ga cul­tura anglo-saxã car­ac­ter­i­za­da pela hon­ra e pela fidel­i­dade ao rei e a ter­ra, unidos a vir­tude cristã, em par­tic­u­lar a piedade e a for­t­aleza. Fil­ha de rei mas solitária no Palá­cio de Ouro de Meduseld, pode ape­nas supor­tar e rezar diante do enfraque­c­i­men­to do seu reino e dos sofri­men­tos do seu povo. Ao desabrochar do primeiro amor exper­i­men­ta a humil­hação da recusa, e ao incumbir-se da guer­ra é deix­a­da para trás e quase aban­don­a­da. Mas não é a sua, a dor da frus­tração daque­las mul­heres que se sen­tem como “apri­sion­adas” entre os muros domés­ti­cos, perseguin­do utopias sub­ver­si­vas de aven­turas e emoções lib­ertárias. Uma per­spec­ti­va que um rea­cionário anti­mod­er­no como John Ronald Reuel Tolkien nun­ca teria atribuí­do a um dos seus per­son­agens, se não para lhe evi­den­ciar a sua inat­ur­al feiu­ra. Não nos esqueçamos que o Nos­so [Tolkien] foi teste­munha daque­le des­graça­do movi­men­to rev­olu­cionário de eman­ci­pação fem­i­nista (bem aten­tos, não “fem­i­ni­no”) do Women’s Suf­frage Fed­er­a­tion, a quem per­ten­ci­am, em larga parte prove­nientes da bur­gue­sia local e vito­ri­ana­mente hipócri­ta da sociedade ingle­sa do final do sécu­lo XIX, acabaram ironi­ca­mente reba­ti­zadas como “sufraguetes”. Tal movi­men­to, mes­mo se na sua origem prove­niente do exte­ri­or, se difundiu pro­pri­a­mente da Inglater­ra toman­do as dimen­sões de uma cor­rente inter­na­cional, pre­cur­sor daque­les movi­men­tos mundi­al­is­tas de con­tes­tação que car­ac­ter­i­zam a segun­da metade do sécu­lo XX.

Tolkien era um sim­ples filól­o­go medieval­ista que ama­va con­tos e as fábu­las, e odi­a­va a lit­er­atu­ra a ele con­tem­porânea. Estran­ho a febre do “pro­gres­so” da mod­ernidade car­ac­ter­i­za­da pelo pos­i­tivis­mo e pelo nat­u­ral­is­mo, ele era um Católi­co romano impetu­oso e sin­cero em uma Inglater­ra ain­da dura­mente anti-católi­ca e anti-papista. Ali­men­tan­do a luta pela sobre­vivên­cia em uma sociedade sub­stan­cial­mente agnós­ti­ca, mas env­erniza­da por uma reli­giosi­dade vaga­mente puri­tana fil­ha daque­le mes­mo angli­can­is­mo lib­er­al do qual tomou dis­tân­cia John Hen­ry New­man, e a qual incon­sistên­cia e hipocrisia foram denun­ci­adas, e sagaz­mente escarneci­das, por Gilbert Kei­th Chester­ton.

Tudo isso nos faz com­preen­der como nada mais estran­ho ao nos­so pro­fes­sor de Oxford é essa visão da mul­her reprim­i­da e frus­ta­da em seus deveres de esposa e de mãe, isto é, pre­cisa­mente, de «mul­her». Ao con­trário, o mod­e­lo fem­i­ni­no que Tolkien tem sem­pre bem em mente e ao qual se inspirou, não foi a “rebelde”, a self-made woman fem­i­nista, então mate­ri­al­ista e agnós­ti­ca, do começo do sécu­lo XX, mas uma mul­her real e bem pre­cisa que já encon­tramos nas prece­dentes pági­nas des­ta Rubri­ca: sua mãe, a vir­tu­osa Mabel Suffield.

«Quan­do pen­so na morte da min­ha mãe – escrevia Tolkien em 1965 ao fil­ho Michael – extrema­da pelas perseguições, pela pobreza e pelas con­se­quentes doenças, no esforço de trans­mi­tir a nós rapazes a fé, e quan­do recor­do o minús­cu­lo quar­to que dividíamos, alu­ga­do na casa de um carteiro de Red­nal, onde ela mor­reu total­mente soz­in­ha, muito doente para rece­ber a extrema unção, encon­tro muito duro e amar­go o fato de que os meus fil­hos se dis­tan­ciem da Igre­ja. Nat­u­ral­mente Canaã parece difer­ente àque­les que chegaram a ela provin­do do deser­to; e os últi­mos habi­tantes de Jerusalém podem pare­cer muitas vezes tolos ou canal­has, ou pior. Mas “in hac urbe lux solem­nis” sem­pre me pare­ceu ver­dadeiro». Este é o “ide­al-real” de mul­her que Tolkien tutela cuida­dosa­mente em seu coração e que ressurge como uma lumi­nosa recor­dação (e uma admoes­tação exem­plar) nas pági­nas dos seus escritos: uma mul­her como Deus orde­na. Assim, real­mente forte foi a mar­ca que o exem­p­lo de vir­tude hero­ica da mãe foi impres­sa em seu fil­ho John, que ele não se sep­a­rou jamais, nem mes­mo para seguir o amor da sua vida, a jovem angli­cana Edith Bratt. Tan­to é ver­dadeiro que para Tolkien a con­ver­são des­ta ao catoli­cis­mo era con­di­tio sine qua non para o seu matrimônio. Ao fim a Graça lev­ou a mel­hor sobre a natureza. A paciên­cia e, sobre­tu­do, a doce firmeza de John con­seguiram vencer as resistên­cias da namora­da que se fez bati­zar em 8 de janeiro de 1914. Depois de anos de tra­bal­ho e de pri­vações, em parte cau­sadas tam­bém pela guer­ra, John e Edith se casaram em 22 de março de 1916 pouco antes que ele par­tisse para com­bat­er na França [3].

Este breve inciso biográ­fi­co que nos aju­da a com­preen­der aque­la que, se quer­e­mos, poder­e­mos chamar “a visão da mul­her em Tolkien”, dev­e­ria tam­bém nos con­vencer, ao menos espero, que Dama Éowyn não tem nada a ver com as fig­uras como Olympe de Gouges, teóri­ca do fem­i­nis­mo (guil­hoti­na­da pelo seu ami­go Robe­spierre), ou com Lady Nan­cy Astor, primeira mul­her elei­ta ao par­la­men­to do Reino Unido.

De qual­quer modo, deixan­do à parte qual­quer out­ra pos­sív­el dis­tração, retomem­os deci­di­da­mente o fio do nos­so dis­cur­so que se lib­era como um can­to sobre as pradarias da alta planí­cie de Rohan, entre o relin­char dos cav­a­l­os e o repique dis­tante das cor­ne­tas.

Depois de ter rece­bido a ordem do rei Théo­den de per­manecer em Edo­ras, o jovem Mer­ry triste e abati­do por não poder par­tic­i­par da guer­ra ao lado dos seus ami­gos, se embate com um mis­te­rioso jovem guer­reiro de Rohan chama­do “Dern­helm”. Este “se aviz­in­hou inob­ser­va­do e mur­murou algu­ma coisa a baixa voz na orel­ha do Hob­bit. «Onde existe a von­tade, nada é impos­sív­el, se é dito por nós»” [4]. Um sábio con­sel­ho este que definirei pro­pri­a­mente “de home­ns”, já que as duas fac­ul­dades que dis­tinguem e sep­a­ram como um abis­mo o homem do resto dos bru­tos são pro­pri­a­mente o int­elec­to, com a sua capaci­dade de con­hecer e rece­ber a ver­dade, e a von­tade livre, com o seu ina­to dese­jo de pos­suir o bem. Ora, ambas essas fac­ul­dades da alma tem neces­si­dade de serem purifi­cadas e reti­fi­cadas, isto é, «endi­re­itadas», e a von­tade em par­tic­u­lar neces­si­ta ser às vezes, ou mel­hor orde­na­da, para aqui­lo que Aristóte­les, e com ele San­to Tomás, chama­va «bem hon­esto», isto é, o bem moral obje­ti­vo, queri­do por si mes­mo e não por um out­ro moti­vo, dis­tin­guin­do-se por isso do «bem útil» dese­ja­do enquan­to meio para um fim ulte­ri­or, e do menos notáv­el «bem deleitáv­el» dese­jáv­el pelo praz­er que poder­e­mos obter conseguindo‑o.

Em qual­quer modo, este ato de von­tade deci­di­do e gen­eroso será o começo da con­ver­são de uma alma que, para poder voltar a apreçar o val­or da sua vida, dev­erá descer quase ao lim­i­ar da morte. “«Então, ven­ha comi­go»”, disse o Cav­aleiro. «Te levarei sobre o meu cav­a­lo, escon­di­do sob o meu man­to até que este­jamos dis­tantes e esta obscuri­dade seja mais som­bria. Tan­ta boa von­tade não deve ser des­en­co­ra­ja­da. Não diga mais nada a ninguém, e ven­ha»”[5].

Ape­nas sobre os cam­pos de Pelen­nor o próprio Mer­ry, jun­to ao leitor atôni­to, desco­brirá que aque­le guer­reiro silen­cioso e fino é na real­i­dade Éowyn, prince­sa de Rohan. Em efeito no livro ela man­i­fes­ta com ener­gia o seu dese­jo em traços implacáveis de cumprir proezas glo­riosas com­bat­en­do e mor­ren­do no cam­po de batal­ha. A hon­ra e a glória pare­cem quase uma obsessão para ela, tan­to de lança-la no descon­for­to quan­do se vê con­stri­ta nas Casas de Cura de Minas Tirith a sub­me­ter-se as curas necessárias que a impe­dem de tornar a batal­ha. Mas aque­la sua arremeti­da impetu­osa e impa­ciente deri­va, como dirá Gan­dalf, de um mal âni­mo inte­ri­or provo­ca­do-lhe pelos venenosos dis­cur­sos de Gri­ma Ver­milin­guo, que insti­la­ram em seu coração, além da tris­teza, a intol­erân­cia e a insat­is­fação por ser mul­her, reduzi­da a servir um fra­co e estul­to rei. “Ela no seu cor­po de garo­ta – dirá Gan­dalf a Éomer – pos­suía um espíri­to e uma cor­agem, sem dúvi­das, iguais a sua audá­cia. E, todavia, esta­va des­ti­na­da a servir um vel­ho, que ama­va como um pai, e o via se arru­inar em uma estultí­cia mesquin­ha e des­on­rosa; o seu papel lhe pare­cia mais ignó­bil do que aque­le bastão sobre o qual o rei se apoia­va” [6].

Por­tan­to, o seu fim de rivalizar com os home­ns não é a absur­da pre­ten­são de ver recon­heci­dos os seus dire­itos de mul­her. Em out­ras palavras não é uma reivin­di­cação igual­itária enquadra­da em uma per­spec­ti­va de eman­ci­pação do gênero fem­i­ni­no que a impul­siona a fugir dos muros da casa ado­ti­va, mas uma pro­fun­da e pes­soal inqui­etude inte­ri­or, causa do seu deses­per­a­do dese­jo de cav­al­gar para uma “obscuri­dade ain­da mais som­bria”. Esta jovem prince­sa parece bus­car até mes­mo a morte para colo­car fim ao seu mal viv­er. Um tor­men­to inte­ri­or que oscila entre um sofri­men­to tipi­ca­mente ado­les­cente e aque­la sufo­cante melan­co­l­ia que tira a paz e o gos­to das coisas sim­ples e ordinárias, sug­erindo som­bras e ima­gens de feli­ci­dade dis­tantes daque­les que podemos definir os próprios “deveres de esta­do”. Na real­i­dade, ela vai bus­can­do alívio a sua pro­fun­da infe­li­ci­dade e insat­is­fação, que não encon­trará, como é óbvio, sobre os cam­pos de batal­ha, mas no encon­tro de um homem que lhe dará o seu coração ofer­tan­do-lhe o seu amor puro, acolhendo‑a por aqui­lo que ela é.

A sua lon­ga con­va­lescença nas Casas de Cura será a cir­cun­stân­cia prov­i­den­cial para que ela pos­sa encon­trar final­mente aque­la paz inte­ri­or que nem os feitos históri­cos nem algu­mas aven­turas pode­ri­am con­ced­er. Um pouco como acon­te­ceu a San­to Iná­cio de Loy­ola depois de ter sido feri­do em uma per­na no assé­dio de Pam­plona. Con­stri­to ao leito por um lon­go perío­do e não ten­do a dis­posição os livros da cav­alar­ia que ele tan­to ama­va ler, Igná­cio se resig­nou a dev­er ler a Vida de Cristo de Ludol­fo o Car­tuxo e a Leg­en­da aurea de Jacopo, ou Thi­a­go, de Varazze. Será este o começo daque­le enam­orar tão inten­so e sin­cero por Nos­so Sen­hor Jesus Cristo que o con­duzirá, depois de uma «vigília de armas» a depor a sua espa­da aos pés de Nos­sa Sen­ho­ra no monastério benediti­no de Montser­rat.

Mes­mo no caso de Éowyn a doença será ocasião para med­i­tar sobre a própria existên­cia apro­fun­dan­do-se naque­la noite escu­ra da alma que a levará, depois de uma pro­fun­da purifi­cação inte­ri­or, a luz da alba. Uma alba assim clara­mente anun­ci­a­da, como de um arauto celeste, daque­las sim­ples palavras que Pic­car­da Donati, no céu da lua, dirige a Dante: «E a sua von­tade a nos­sa paz». É este o seg­re­do da feli­ci­dade que colo­ca o homem diante da ver­dade últi­ma do seu próprio exi­s­tir: ser para Deus e em Deus. Não impor­ta qual seja a hon­ra (ou a des­on­ra) que nos vem trib­u­ta­da, nem a posição social que deve­mos ocu­par, nem a humil­dade dos car­gos que deve­mos desen­volver. A úni­ca coisa que con­ta é cumprir «a sua von­tade», que a Div­ina Providên­cia nos man­i­fes­ta indu­bitavel­mente através da idade em que nos encon­tramos, as qual­i­dades que pos­suí­mos, as enfer­mi­dades que deve­mos supor­tar, o sexo e o grau social que ela mes­ma dis­pôs para nós.

Mas creio que nos seja mais útil deixar falar dire­ta­mente o tex­to em que Éowyn desco­bre todo véu da tris­teza, lib­er­a­da do peso opri­mente de uma ambição des­or­de­na­da. Será na disc­re­ta, lumi­nosa ordi­nar­iedade do amor espon­sal que ela encon­trará aque­la feli­ci­dade que cria pos­sív­el só na emoção de feitos hero­icos e nas glórias dos grandes palá­cios. O que se pode ler parece quase o con­to de uma con­ver­são, man­i­fe­s­tando o adoça­men­to de uma garo­ta que o amor resti­tu­iu a nova vida:

 “Não serei mais uma garo­ta de armas, nem rivalizarei com os grandes Cav­aleiros, nem amarei ape­nas os can­tos que nar­ram mortes. Serei uma curado­ra, e amarei tudo aqui­lo que cresce e não é ári­do». E de novo olhou Faramir. «Não dese­jo mais ser uma rain­ha», disse.

Então Faramir ri, feliz. «Menos mal», exclam­ou, «porque eu não sou um rei. Somente desposarei a Bran­ca Dama de Rohan, se ela o quis­er. E se ela o quis­er, poder­e­mos atrav­es­sar o Rio em dias mais felizes e habitar no esplen­dor de Ith­ilien e cul­ti­var um jardim. Lá qual­quer coisa crescerá com ale­gria, se for cul­ti­va­da pela Bran­ca Dama».

«Devo então deixar o meu povo, homem de Gon­dor? », ela disse. «E quereis que a tua gente orgul­hosa diga de ti: “Eis um sen­hor que domou uma sel­vagem garo­ta do Norte! Então, não have­ria uma mul­her da raça dos Numeroneanos que ele pudesse escol­her? ”».

«O quero», disse Faramir. E a tomou entre os seus braços e a bei­jou sob o céu enso­lara­do, e não se impor­tou de estar em pé sobre os muros, visív­el a muitos. E muitos real­mente lhes viram, e viram a luz que bril­ha­va ao redor deles enquan­to desci­am dos muros e se con­duzi­am, de mãos dadas, a Casa de Cura.

E ao Cus­tode das Casas Faramir disse: «Eis Dama Éowyn de Rohan, ago­ra ela está cura­da» [7].

O jovem Super­in­ten­dente de Gon­dor, vin­do a saber que o herdeiro do trono havia chega­do na cidade de Minas Tirith, se res­igna ser­e­na­mente a ced­er o pas­so ao Rei que vem ocu­par o trono que a estirpe dos Super­in­ten­dentes tin­ha o dev­er de cus­to­di­ar. Nis­to Faramir e Éowyn estão aco­mu­na­dos: ambos per­dem qual­quer per­spec­ti­va de realeza e de glória para dedi­carem-se a uma vida humilde e sim­ples, escol­hem, isto é, o evangéli­co «últi­mo lugar» que encer­ra o seg­re­do da per­fei­ta ale­gria.

Parece apro­pri­a­do que depois da sua cura, Éowyn, na ale­gria de saber-se lib­er­a­da daque­le espíri­to malig­no de melan­co­l­ia, ten­ha can­ta­do na qui­etude de suas lon­gas vigílias notur­nas: “Sen­hor, não se orgul­ha o meu coração e não se ele­va com sober­ba o meu olhar; não vou em bus­ca de coisas grandes, supe­ri­ores as min­has forças” [8].

Quan­do o homem ces­sa de con­tender com Deus pelo cetro (ou o anel) do poder, recon­hecen­do nele a feli­ci­dade que ele deses­per­ada­mente bus­ca nes­ta Ter­ra Média, só então ele pode encon­trar aque­la paz e aque­la restau­ração do qual um out­ro Rei disse:”Eu estou tran­qui­lo e sereno como um bebê em seio mater­no, taman­ha é a div­ina rec­om­pen­sa na min­ha alma” [9]. E no fim das con­tas é pro­pri­a­mente este heroís­mo da devoção escon­di­da que Faramir e Éowyn abraçam con­jun­ta­mente e que faz deles fig­uras entre as mais extra­ordinárias do Sen­hor dos Anéis. Esta Prince­sa dos Rohirrim demon­stra a nobreza da sua lin­hagem não tan­to pela sua habil­i­dade no cam­po de batal­ha, mas pela piedade e pelo amor devo­to para com o seu rei, em vir­tude do qual somente chega a abater o Rei dos brux­os de Angmar. Todavia, a sua bon­dade e pureza de coração devi­am ser lib­er­adas do véu de obscu­ra tris­teza que havia agar­ra­do uma parte de seu coração, e que na exper­iên­cia catár­ti­ca que lhe lev­ou até o abis­mo da morte pode lhe faz­er reflo­rescer para lhe resti­tuir a liber­dade.

Em con­clusão, a “redenção” de Éowyn não pode­ria cumprir-se de maneira mais disc­re­ta e grad­ual: uma ver­dadeira e própria con­ver­são de coração. E é exata­mente a escol­ha de viv­er escon­di­da entre os afaz­eres da vida domés­ti­ca, na renún­cia a qual­quer hon­ra e glória mun­dana, no amor puro e sim­ples pelo seu esposo, na qui­etude do serviço silen­cioso e naque­le prodi­gioso seg­re­do que man­i­fes­ta a glória da humil­dade, que faz de Éowyn uma mul­her «como Deus orde­na».

Notas:

[1]1Cor 15,10.

[2] O Sen­hor dos Anéis, cit. pp. 627–628.

[3] M. WHITETolkien. A Biog­ra­phy, Lit­tle, Brown and Com­pa­ny 2001; ed. it. La vita di J.R.R. Tolkien, Bom­piani, Milano, 2002, pas­sim.

[4] O Sen­hor dos Anéis, p. 966.

[5] Ibi­dem.

[6]Ivi, 1040.