GUSTAVE THIBON: A AUTORIDADE E O AUTORITARISMO


Filosofia / terça-feira, maio 7th, 2019
Jesus entre os escribas e os fariseus. Tela de Achille Mazzotti, 1844.
Jesus entre os escribas e os fariseus. Tela de Achille Maz­zot­ti, 1844.
GUSTAVE THIBON
29 de março de 1974
Tradução: Ged­er­son Fal­cometa

Se dize­mos de um homem que ele « tem autori­dade », este juí­zo é um elo­gio. Mas se dize­mos: ele « é autoritário » exprim­i­mos uma críti­ca.

Onde está a difer­ença entre autori­dade e autori­taris­mo?

A autori­dade de um homem se mede pela sua capaci­dade de man­dar, isto é, pela con­fi­ança que inspi­ra ao seu próx­i­mo e que o incli­na a obe­de­cer sem dis­cu­tir. No céle­bre dra­ma « Rei Lear », Shake­speare nos mostra o vel­ho rei depos­to que vaga pela flo­res­ta. Um cav­al­heiro pas­san­do por lá, o encon­tra e lhe diz: «Não lhe con­heço, mas sin­to algu­ma coisa em você que me induz a lhe obe­de­cer. – E que coisa seria essa? Per­gun­ta o rei. – A autori­dade».

Autori­dade vem da palavra lati­na augere, que sig­nifi­ca: aumen­tar, faz­er crescer. Nis­to se encon­tra o sen­ti­do e o escopo da autori­dade. Sen­ti­mos, diante daque­le que a pos­suí, que obe­de­cen­do as suas ordens não ser­e­mos engana­dos, nem asse­di­a­dos ou frustra­dos, mas que nos realizare­mos, que a nos­sa per­son­al­i­dade se desen­volverá através da dis­ci­plina impos­ta. Em out­ros temos, sen­ti­mos que o chefe não man­da em seu próprio nome, mas obe­dece a uma lei supe­ri­or que é a do bem comum da qual ele é o rep­re­sen­tante e o inter­mediário. Assim, o bom pai de família exerci­ta a autori­dade no inter­esse dos fil­hos, o bom patrão naque­le de todos os mem­bros da empre­sa e o homem polití­co dig­no deste nome em nome da nação inteira. Neste sen­ti­do, o chefe é o servi­dor de todos. O homem autoritário, pelo con­trário, é aque­le que man­da sem ter em con­ta as exigên­cias do bem comum e pelo úni­co praz­er de exerci­tar o próprio poder.

As suas ordens são arbi­trárias, capri­chosas e, nes­ta medi­da, vex­atórias para aque­les que as recebem. Con­trari­a­mente a eti­molo­gia da palavra, a obe­diên­cia a sim­i­lares ordens degra­da o execu­tor em lugar de ele­va-lo. Isto gera, depen­den­do do caráter do sub­or­di­na­do, o servil­is­mo ou o rebelis­mo.

É impor­tante notar que este autori­taris­mo é quase sem­pre típi­co daque­les que tem a paixão pelo poder sem terem rece­bido o dom nat­ur­al da autori­dade. Não pos­suin­do as qual­i­dades inte­ri­ores do ver­dadeiro chefe, eles bus­cam preencher esta lacu­na mul­ti­pli­can­do e exageran­do as man­i­fes­tações exte­ri­ores da autori­dade. O ver­dadeiro chefe é respeita­do porque a sua autori­dade se impõe por sua própria vir­tude e ele é ama­do porque sabe­mos que a exerci­ta para o bem de todos. O chefe autoritário, ao con­trário, é temi­do porque as suas ordens, inspi­radas pelo egoís­mo e pela vaidade e não pela clara visão do escopo a con­seguir, são inco­er­entes e impre­visíveis, e, por­tan­to, quase impos­síveis de cumprir, fato que des­en­co­ra­ja a obe­diên­cia e cedo ou tarde leva ao despre­zo da autori­dade.

O mel­hor exem­p­lo de uma tal con­tradição inter­na nos é forneci­do por aque­la estran­ha fun­gi­bil­i­dade de dis­ci­plina rig­orosa e de neg­ligên­cia na exe­cução que muitas vezes encon­tramos na orga­ni­za­ção mil­i­tar. – « Não nos apresse­mos » me dizia um vel­ho sar­gen­to, em espera de uma con­tra­or­dem toda vez que rece­bia a ordem de um supe­ri­or. A sã autori­dade se exerci­ta a maneira de um diál­o­go entre duas liber­dades unidas em vista de um fim comum: aque­la do homem que man­da e aque­la do homem que obe­dece. Mas o autori­ta­trsmo, no detur­par esta relação humana, não pode cri­ar nada além de tira­nos que traem o poder de que abusam e dos escravos que são tra­pacea­d­os pelo poder que sofrem.

Arti­go orig­i­nal: L’autorité et l’autoritarisme,  «Itinéraires», n. 184, jun­ho de 1974