AUGUSTO DEL NOCE: AS ORIGENS DO CONCEITO DE IDEOLOGIA


Filosofia / sábado, dezembro 1st, 2018

Augusto Del Noce
Tradução: Gederson Falcometa
Capela Santa Maria das Vitórias

Quan­do come­cei a anal­is­ar as ori­gens e o sig­nifi­ca­do do ter­mo ide­olo­gia no fim do sécu­lo XVIII, primeiro acred­itei que havia bem pouco a diz­er para ter uma refên­cia àqui­lo que esse tem no pre­sente.

sen­ten­tia com­mu­nis é esta mes­mo: o ter­mo ide­olo­gia foi intro­duzi­do pelo menor filó­so­fo Destutt de Tra­cy, mas nele a respeito do prob­le­ma psi­co-gnose­ológi­co da origem das idéias; um prob­le­ma que parece aparente­mente muito dis­tante dos soci­ais e políti­cos. Este ter­mo chegou então a Marx, e então tomou o sen­ti­do que dura até os nos­sos dias. Porém, com difer­enças: porque, para Marx, ide­olo­gia tem o sig­nifi­ca­do de filosofia abstra­ta, de filosofia das puras idéias, de filosofia espec­u­la­ti­va que se insere na real­i­dade históri­ca como jus­ti­fi­cação de uma dada ordem históri­ca; dis­tin­ta por isso da ver­dade filosofia que é, sim, filosofia prat­i­ca, mas real­iza a uni­ver­sal­i­dade humana. Enquan­to para o soci­ol­o­gis­mo con­tem­porâ­neo ide­olo­gia tem o sig­nifi­ca­do de expressão históri­co-social de um grupo, como super­estru­tu­ra espir­i­tu­al de forças que não tem nada de espir­i­tu­al, como inter­ess­es de classe, moti­vações cole­ti­vas incon­scientes, condições conc­re­tas da existên­cia social. Pelo qual o pro­gres­so das ciên­cias humanas levaria a ciên­cia social, que final­mente, como ple­na exten­são da razão cien­tí­fi­ca ao mun­do humano, cumpriria a sub­sti­tu­ição com­ple­ta do dis­cur­so cien­tí­fi­co ao dis­cur­so filosó­fi­co, clare­an­do a origem mun­dana, social e históri­ca do pen­sa­men­to metafísi­co. O que na declar­ação, ao menos, de alguns rep­re­sen­tantes des­ta ati­tude men­tal não com­por­taria a afir­mação da impos­si­bil­i­dade de seres super humanos: ape­nas a palavra de Deus dev­e­ria ser desmi­ti­za­da, o que sig­nifi­caria o fim com­ple­to de toda for­ma de teolo­gia escolás­ti­ca.

Qual­quer um vê a conexão entre soci­ol­o­gis­mo, pen­sa­men­to reli­gioso desmi­ti­za­do, e psi­canálise enten­di­da no sen­ti­do de ciên­cia de lib­er­ação das más­caras. Bem enten­di­do, com isto não enten­di diz­er nada con­tra a soci­olo­gia: ao con­trário, o meu juí­zo é exata­mente aque­le da mestre incom­paráv­el da min­ha ger­ação, Simone Weil: ”as ten­ta­ti­vas con­tem­porâneas para fun­dar a ciên­cia social con­cluiri­am… ao preço de um pouco mais de pre­cisão. Seria pre­ciso colo­car a base da noção platôni­ca do grande ani­mal e descr­ev­er-lhe min­u­ciosa­mente, a anato­mia, a fisi­olo­gia, os reflex­os, nat­u­rais e condi­ciona­dos…”. De resto a impressão que se pro­va na leitu­ra dos sociól­o­gos grandís­si­mos, por exem­p­lo Pare­to, é pro­pri­a­mente aque­la de quem, mes­mo invol­un­tari­a­mente: seja platôni­co, no sen­ti­do que ten­ha descrito o grande ani­mal. O impor­tante é que o indi­vid­uo humano não ven­ha depois ele mes­mo enten­di­do como uma abstração que tem real­i­dade ape­nas no grande ani­mal: tal ao invés é a posição do soci­ol­o­gis­mo que esta para a soci­olo­gia como o cien­tifi­cis­mo esta para a ciên­cia.

Curiosa­mente, nos últi­mos dez anos o adver­sário do pen­sa­men­to reli­gioso mudou. Em cer­to sen­ti­do é sem­pre o pen­sa­men­to rev­olu­cionário, como fun­da­do sobre a ideia de um “segun­do nasci­men­to” que se sub­sti­tuí ao “segun­do nasci­men­to” evangéli­co, e como pode sub­sti­tuir-se, se não sub­sti­tuin­do a plen­i­tude do teís­mo com aque­la do ateís­mo?

Mas com o marx­is­mo se era na idéia de uma religião sec­u­lar, da tran­scrição laica de um módu­lo mes­siâni­co (uma frase cor­rente fala de Marx, como do últi­mo “pro­fe­ta hebreu”). Com o soci­ol­o­gis­mo, ao invés, a rev­olução é mais pro­fun­da, pro­pri­a­mente porque se tra­ta de uma rev­olução “silen­ciosa”.

Um belís­si­mo tre­cho de Hen­ri Gouthi­er, escrito quan­do estes tem­pos novos ain­da não se pre­vi­am, exprime na maneira mais per­fei­ta a sin­gu­lar­i­dade e maior rad­i­cal­i­dade atéia do soci­ol­o­gis­mo:

Fun­dan­do a filosofia pos­i­ti­va, o pai da soci­olo­gia merece a mis­são que os rev­olu­cionários tin­ham monop­o­liza­do. O cul­to da Razão supun­ha Deus e alma exclu­sos, do uni­ver­so; não era que uma ante­ci­pação, até que a nos­sa ignorân­cia da ordem humana teria per­mi­ti­do a alma e a Deus de se refu­gia­rem. Cri­ar a soci­olo­gia, é pre­cisa­mente desco­brir o homem sem traços de Deus; con­statar que a filosofia é pos­i­ti­va é ter o dire­ito de não faz­er mais con­tas com as idéias teológ­i­cas ou metafísi­cas. Uma primeira difer­ença cap­i­tal opõem a obra de Comte as ten­ta­ti­vas já inspi­radas pela mes­ma ambição: antes de inau­gu­rar o cul­to e de ordenar os padres, ocorre saber aqui­lo que se deve ensi­nar: a teo­ria vem antes da práti­ca, a filosofia antes da moral; a ver­dade antes da insti­tu­ição. Dis­to o inevitáv­el taman­ho da empre­sa e tam­bém a sua serenidade: o suces­so é garan­ti­do, toda ten­ta­ti­va de ressur­reição é impos­sív­el e todo esforço con­trário per­feita­mente vão. Os rev­olu­cionários eram obsti­na­dos demoli­dores; Comte não pen­sa nem mes­mo em esta­b­ele­cer que Deus não existe. Não se demon­stra a existên­cia ou a não existên­cia de um ser: se con­sta­ta a sua pre­sença ou ausên­cia: como Min­er­va e Apo­lo, Deus par­tiu sem deixar questões” (Hen­ri gouhi­er, La jeunesse d’Auguste Comte et la for­ma­tion du pos­i­tivisme, 1, Sous le signe de la lib­erté, Paris, Vrin, 1933, p. 23; sot­to­lin­ea­tu­ra mia).

Com o acrésci­mo, em nota, des­ta pre­ciosa citação do Dis­cours dur l’esprit posi­tif:

Ninguém, sem dúvi­da, jamais demon­strou logi­ca­mente a não existên­cia de Apo­lo, de Min­er­va, etc, nem das fadas ori­en­tais ou das diver­sas cri­ações poéti­cas; mas isto em nen­hum modo impediu ao espíri­to humano de aban­donar irrevo­gavel­mente os dog­mas anti­gos, quan­do ess­es ces­saram de con­vir ao con­jun­to da sua situ­ação”.

Talvez aqui­lo que pode­ria ser menos pre­vis­to, já são vinte anos, é a curiosa nova atu­al­i­dade de Comte; que se enquadra em um pen­sa­men­to, pouco toca­do, mas cer­ta­mente jamais ade­quada­mente, e muito menos, exau­ri­do pela repetição do nos­so sécu­lo das fig­uras do pen­sa­men­to do sécu­lo XIX. Todavia, é tam­bém ver­dadeiro que sobre esta atu­al­i­dade de Comte é pre­ciso traz­er algu­mas con­sid­er­ações. A primeira diz respeito a uma curiosa obser­vação fei­ta pela irmã do filó­so­fo. Alice Comte: “O cul­to da Humanidade com­pro­m­ete o futuro do pos­i­tivis­mo políti­co. As mas­sas são crentes: atacar a sua fé é perder tudo, enquan­to o teu sis­tema apoia­do sobre o catoli­cis­mo teria um maior número de par­tidários. Pressen­ti­men­to de um catoli­cis­mo pos­i­tivista ou de um pos­i­tivis­mo católi­co! A humilde dama não pre­via nem Brunetière nem Charles Mau­r­ras. Porém dava, já em 1849, uma fór­mu­la que o futuro teria reen­con­tra­do”  (Op. cit., pp. 49–50).

Dize­mos: o pos­i­tivis­mo com­tiano não podia, na sua for­ma, chegar a con­sciên­cia pop­u­lar; para que chegasse era pre­ciso a medi­ação de algu­ma out­ra coisa, de um pen­sa­men­to nas aparên­cias extrema­mente dis­tante do comtismo, e isto era exata­mente, naque­la sua extra­ordinária capaci­dade de atin­gir as mas­sas, o marx­is­mo. Mais ain­da: o pen­sa­men­to de Comte devia despo­jar-se dos aspec­tos pelos quais se apre­sen­ta­va, como da atu­al­i­dade pre­sente da for­ma men­tal dos ideól­o­gos. A bus­ca a qual ace­navam foi ape­nas ini­ci­a­da e me lim­itarei a dar-lhe, por assim diz­er, o esquele­to. Direi, por­tan­to, breve­mente de seitas históri­c­as da qual essa dev­e­ria tratar.

1. O erro fun­da­men­tal, cumpri­do a propósi­to da situ­ação históri­ca dos ideól­o­gos, foi aque­le de con­sid­erá-los em primeiro lugar como dis­cípu­los de Condil­lac. Ao invés dis­so, eles devem ser vis­tos antes de tudo como dis­cípu­los de Con­dorcet, mes­mo se uti­lizaram, para com­ple­tar as visões de Con­dorcet, a teo­ria do con­hec­i­men­to condi­laquiana. Esta fal­sa per­spec­ti­va fez com que eles fos­sem total­mente absorvi­dos no estu­do da for­mação filosó­fi­ca ou de Maine de Biran ou de Comte. 

As relações dos ideól­o­gos com Maine de Biran e com Comte foram magis­tral­mente estu­dadas nas insígnes obras de Hen­ri GOUHIERLa jeunesse d’Auguste Comte et la for­ma­tion du pos­i­tivisme, t. I, Sous le signe de la lib­ertè, Paris, Vrin, 1933; t. IISaint-Simon jusqu’à la Restau­ra­tion, id., 1936; t. IIIAuguste Comte et Saint-Simon, id., 1941; par­tic­u­lar­mente impor­tante, para o tema que aqui inter­es­sa, o primeiro vol­ume, onde se colo­ca em evidên­cia a pre­cedên­cia da influên­cia dos ideól­o­gos sobre aque­le de Saint-Simon e a influên­cia condi­cio­nante que teve sobre a for­mação do pen­sa­men­to com­tiano;  Les con­ver­sions de Maine de Biran, id. ‚1947. A importân­cia destes livros é tal que se pode diz­er serem o pon­to de par­ti­da abso­lu­ta­mente indis­pen­sáveis para o estu­do dos ideól­o­gos. Respeito a gênese do pos­i­tivis­mo, a sua importân­cia úni­ca depende do fato que se encon­tram clareadas as ori­gens reli­giosas do pos­i­tivis­mo, em razão do caráter reli­gioso da idéia de Rev­olução. Res­ta, porém que, ago­ra, a a atu­al­i­dade do soci­ol­o­gis­mo leva a endereçar em out­ro sen­ti­do a pesquisa sobre os ideól­o­gos, emb­o­ra sob a sua indis­pen­sáv­el guia.

Um pon­to estu­pen­da­mente ilustra­do por Gouhi­er e que deve ser sem­pre tido pre­sente, para a história da men­tal­i­dade soci­ológ­i­ca, como sub­s­tu­ição da filosofia pela soci­olo­gia, è aque­le pelo qual Comte rep­re­sen­ta, em cer­to sen­ti­do, a reafir­mação de Destutt de Tra­cy depois Biran; porque para se lib­er­ar ver­dadeira­mente do pon­to de vista da inte­ri­or­i­dade, era necessário ultra­pas­sar a ide­olo­gia surgi­da com Condi­lac, e o seu pon­to de vista indi­vid­u­al­ista (cfr. Les con­ver­sions de Maine de Biran, cit., p. 12 e pas­sim). Assim, era necessário alcançar o pon­to de vista pelo qual o indi­vid­uo não é que uma abstração desta­ca­da da existên­cia cole­ti­va. Porém, fica que o socil­o­gis­mo con­tem­porâ­neo, se segue nis­to o antibi­ranis­mo com­tiano e recusa o condil­laquis­mo, todavia, através da recusa do espíri­to de Restau­ração e da Filosofia da História, se aprox­i­ma mais da tam­bém impre­cisa visão de Tra­cy.

Ape­sar de sua fraque­za filosó­fi­ca, qual­quer util­i­dade pode ain­da ter o vel­ho livro de F. PICAVETLes idéo­logues, Alcan, Paris, 1891; nasci­do de uma repreen­são, na III Repúbli­ca, ao ide­al educa­ti­vo dos ideól­o­gos, con­tra aqui­lo que per­mane­cia do ide­al educa­ti­vo da Restau­ração; é muito rico de mate­ri­ais, que ain­da aguardam serem avali­a­dos filosofi­ca­mente.  [Ago­ra se acres­cen­ta um assaz notáv­el livro ital­iano: moravia S., Il tra­mon­to dell’illuminismo, Lat­erza, Bari, 1968].

Se lhe jul­g­amos na conexão com Con­dorcet, adquire carác­ter sim­bóli­co o fato que estes ten­ham começa­do as suas ativi­dades especi­fi­ca­mente filosó­fi­ca, com uma edição de Pas­cal pre­ce­di­da por um elo­gio que na real­i­dade é o pon­to de chega­da do anti-Pas­cal ilu­min­ista, de modo que Voltaire pode­ria escr­ev­er que se trata­va do anti-Pas­cal, de um homem de longe supe­ri­or a Pas­cal, e D’Alembert estar per­sua­di­do que o Pas­cal-Con­dorcet valia muito mais que o Pas­cal jansenista.

  1. 2.Existe uma com­para­ção per­fei­ta para um ver­so entre o fra­cas­so da rev­olução france­sa na sua for­ma jacobi­na, isto é na lin­ha de Robe­spierre a Babeuf, e o sur­gir do ide­ol­o­gis­mo e por out­ro entre o fra­cas­so da rev­olução marx­ista e a pro­gres­si­va difusão do soci­ol­o­gis­mo nos últi­mos quinze anos, par­tic­u­lar­mente pela deses­tal­in­iza­ção em diante, até a que, hoje, o pen­sar em ter­mos soci­ológi­cos se tornou a for­ma cor­rente e quase nat­ur­al do pen­sa­men­to.

Tal afir­mação ces­sará de pare­cer estran­ha se se con­sid­er­ar como o soci­ol­o­gis­mo de hoje se apre­sen­ta como sub­sti­tu­ição da rev­olução cien­tí­fi­ca à rev­olução políti­ca. Em Rousseau como em Marx existe a idéia da sub­sti­tu­ição da políti­ca a religião na lib­er­tação humana, onde a ele­vação em um e no out­ro da políti­ca a religião. O soci­ol­o­gis­mo quer ser a sub­sti­tu­ição da for­ma cien­tí­fi­ca a for­ma metafísi­ca de pen­sa­men­to, e se con­fia sem­pre mais nos instru­men­tos de difusão cul­tur­al e na ped­a­gogia que na rev­olução políti­ca. Por­tan­to, para enten­der o sig­nifi­ca­do cul­tur­al dos ideól­o­gos é pre­ciso olhar mais que as suas escrit­uras, as insti­tu­ições cul­tur­ais por eles pro­movi­das, o Insti­tu­to de França, pen­sa­do como a enci­clopé­dia vivente, e a École poly­tech­nique.

Já em 1798 o Destutt de Tra­cy tin­ha avança­do a ideia de uma esco­la politéc­ni­ca “para as ciên­cias morais e políti­cas” (cfr. gouhi­er, Comte, t. II, p. 42; Manie de Biran, p. 11). Que out­ra coisa isto que­ria diz­er senão a sub­sti­tu­ição das ciên­cias do mun­do humano, da soci­olo­gia a metafísi­ca, se mes­mo o ter­mo soci­olo­gia não era ain­da usa­do? E as ciên­cias do mun­do humano são inseri­das em uma esco­la na qual a pesquisa teóri­ca é estri­ta­mente uni­da a final­i­dade prat­i­ca, de modo que ao critério da rev­e­lação das ver­dades eter­nas se sub­sti­tuí por aque­le da util­i­dade políti­ca e socieal. Estas ori­gens de uma rev­olução fun­da­da sobre a ciên­cia se refle­ti­ram no aparec­i­men­to da história do pen­sa­men­to francês daque­le “cote des poly­tech­ni­ciens”, do qual Albert Thibaudet como se aprende na esco­la a faz­er uma ponte ou uma estra­da” (Gouhi­er, Comte, I, p. 146). Lin­ha de refor­madores soci­ais que con­tin­u­am até Sorel, e além.

3. Os ideól­o­gos rep­re­sen­tam a defe­sa intran­si­gente da essên­cia do Ilu­min­is­mo, depois da crise do pen­sa­men­to rev­olu­cionário; e tam­bém depois daque­la crise de pen­sa­men­to ilu­min­ista que é rep­re­sen­ta­da pelo rousseauian­is­mo, nos seus dois êxi­tos, o espíri­to jacobi­no e o roman­tismo católi­co. Dis­so­cian­do-se explici­ta­mente de qual­quer metafísi­ca, rep­re­sen­tam hoje o pon­to pre­ciso em que o neo-ilu­min­is­mo pode encon­trar-se com o ilu­min­is­mo anti­go.

4. Ape­sar da lin­guagem diver­sa é pre­ciso diz­er que sobre­tu­do em Tra­cy se encon­tra já pre­sente a ideia fun­da­men­tal do soci­ol­o­gis­mo de hoje, vale diz­er a sub­sti­tu­ição da metafísi­ca pela soci­olo­gia; com as ciên­cias do mun­do humano que dis­solvem nas suas ori­gens mun­danas e ter­restres as suas ori­gens metafísi­cas. Se esta diante de um novo tipo de mate­ri­al­is­mo: um mate­ri­al­is­mo que, para ser coer­ente, ces­sa de apre­sen­tar-se como mate­ri­al­is­mo metafísi­co. Que por isso pode per­manecer insen­sív­el a críti­ca que, mes­mo no inte­ri­or da reabil­i­tação ilu­min­ista da sua natureza humana, exe­cu­ta­va Rousseau da lin­ha do mate­ri­al­is­mo ilu­min­ista de Dider­tor a Hol­bach e, implici­ta­mente, a Sade.

Neste pon­to dev­e­ria ser con­sid­er­a­da a antítese entre o “espíri­to de Con­dorcet” e o “espíri­to de Rousseau”. Se aqui nos limi­ta­mos a antítese entre o ide­ol­o­gis­mo e a con­tin­u­ação de Rousseau no roman­ti­cis­mo católi­co, assume o seu jus­to rele­vo o Génie du Chris­tian­isme de Chateaubriand, obra que pode vir jus­ta­mente apre­ci­a­da ape­nas se se tem pre­sente que o seu adver­sário é o pen­sa­men­to dos ideól­o­gos; e que essa deve ser vista como a respos­ta as Ruines do ideól­o­go Vol­ney, fun­da­da sobre a idéia dos efeitos per­ni­ciosos da religião para a civ­i­liza­ção; e que nis­to, como na idéia de ester­il­i­dade do pen­sa­men­to dos ideól­o­gos para a arte, tem o seu primeiro sig­nifi­ca­do e o seu não indifer­ente val­or. A respeito do espíri­to anti-rousseauiano dos ideól­o­gos tem cap­i­tal importân­cia a afir­mação de Stend­hal que em um tre­cho do jour­nal, escreve, em 1804, que foi Tra­cy aque­le que per­mi­tiu de “dérousseau­nis­er son juge­ment”. Nota­mos que Stend­hal vê em Tra­cy o homem que mais admirou pelos seus escritos, o úni­co que nele tin­ha feito uma rev­olução; ele é para Stend­hal o maior de todos filó­so­fos france­ses, ou para mel­hor diz­er o úni­co filó­so­fo que os france­ses tem. A sua lóg­i­ca é uma obra sub­lime; existe nele mais pro­fun­di­dade que em Helvétius; ele real­mente dis­pen­sa todos os out­ros filó­so­fos. No mes­mo jour­nal em tre­cho de 1805, escreve que a ide­olo­gia é o estu­do que poderá dar-lhe o tal­en­to de Shake­speare. E com âni­mo comovi­do recor­da o encon­tro que teve com ele em 04 de out­ubro de 1817, entre uma e meia e as três menos vinte da tarde. 

Mas sobre esta sug­estão ou sobre esta ester­il­i­dade artís­ti­ca do pen­sa­men­to dos ideól­o­gos, dev­e­ria ser con­duzi­do um amp­lo dis­cur­so. Cer­ta­mente se pode falar de influên­cia dos ideól­o­gos sobre Leop­ar­di, sobre Man­zoni e sobre Stend­hal. E todavia Leop­ar­di aban­do­nou o otimis­mo dos ideól­o­gos pelo pes­simis­mo, Os noivos (no qual a influên­cia ros­mini­ana me parece escassís­si­ma) é o livro da con­ver­são do ideól­o­go Man­zoni, Stend­hal aban­dona o human­i­taris­mo dos ideól­o­gos para pro­ced­er para o egoís­mo e para Niet­zsche. Se pode ver nestes aban­donos uma recon­fir­mação do juí­zo de Cha­teubriand.

5. Pos­to isto, é opor­tuno dis­tin­guir de maneira mais rig­orosa, os ideól­o­gos não só dos pen­sadores teocráti­cos, De Maistre, De Bonald, Cortez, Etc, respeito aos quais se encon­tram em posição rig­orosa­mente opos­ta, dos teóri­cos do lib­er­al­is­mo, de Con­stant a Toc­queville, mas tam­bém dos próprios san­si­mo­ni­anos e com­tianos. E isto porque o comtismo aceitou, emb­o­ra arruinando‑a, a críti­ca maistre­ana e bonal­diana da rev­olução france­sa. Porque antes nas ori­gens da reflexão de Comte se encon­tram De Maistre e De Bonald (“A imor­tal esco­la retrógra­da – ele escreve no Sys­teme de poli­tique pos­i­tive, III, p. 605 -, sob a nobre presidên­cia de De Maistre, com­ple­ta­da por De Bonald, do qual eu me apro­priei des­de o começo de todos os princí­pios essen­ci­ais que não são hoje apre­ci­a­dos senão na esco­la pos­i­tivista”); e se é ver­dadeiro que, segun­do as suas indi­cações, é de Con­dorcet que deri­va a ideia de pro­gres­so e de dinâmi­ca social, é tam­bém ver­dadeiro que para ele é a ordem que dom­i­na o pro­gres­so e a con­tra-rev­olução que dom­i­na a rev­olução; pelo que se pode falar do seu pen­sa­men­to como de uma restau­ração do catoli­cis­mo sem o cris­tian­is­mo, e se sabe quan­to suces­so ten­ha tido esta posição tam­bém do pon­to de vista políti­co; é curioso que o pro­longa­men­to políti­co do comtismo que tin­ha tido maior eco ten­ha sido a Action française, enquan­to o rad­i­cal­is­mo anti­cler­i­cal do “par­tido dos Int­elec­tu­ais” france­ses se for­mou sobre idéias do seu adver­sário Renou­vi­er, que então ter­mi­nou em uma for­ma muito heréti­ca de “filosofia cristã”. Dis­to tam­bém o carác­ter reli­gioso que assume a sua soci­olo­gia como religião da humanidade e o mod­e­lo bus­ca­do na teoc­ra­cia medieval, do qual a socioc­ra­cia deve ser o anál­o­go mod­er­no. Esta pertença ao cli­ma de restau­ração faz sim que o comtismo seja sub­stan­cial­mente român­ti­co, enquan­to o ide­ol­o­gis­mo é o ilu­min­is­mo sep­a­ra­do de todos os aspec­tos que podem con­tin­uar no roman­ti­cis­mo. Con­se­quente­mente, Comte é aque­le que vê um perío­do de dis­solução na idade que vai do protes­tantismo a rev­olução france­sa, enquan­to a ausên­cia de qual­quer chama­do ao medie­vo especí­fi­ca o pen­sa­men­to se moven­do por isso no inte­ri­or da visão joaquimi­ta lai­ciza­da da filosofia da história; para os ideól­o­gos, ao invés, a pas­sagem a men­tal­i­dade cien­tí­fi­ca anu­la a for­ma de pen­sa­men­to super­sti­ciosa do pas­sa­do.

6. A con­sid­er­ação da situ­ação históri­ca dos ideól­o­gos, como ilu­min­is­mo lib­er­a­do de qual­quer aspec­to em que pos­sa con­tin­uar o roman­ti­cis­mo, é deci­si­va para definir a natureza da oposição entre con­tin­u­ação da filosofia clás­si­ca alemã e a filosofia ital­iana do Ressurg­i­men­to. A filosofia alemã encon­tra de fato, com o marx­is­mo, o mate­ri­al­is­mo do sécu­lo XVIII, mas é curioso obser­var como Marx não se da con­ta do fato, naque­le impor­tan­tís­si­mo ras­cun­ho da história do mate­ri­al­is­mo mod­er­no que é con­ti­do na Sagra­da Família, da especi­fi­ci­dade da posição dos ideól­o­gos. Escreve real­mente Marx que “o mate­ri­al­is­mo mecanicista francês se ligou a físi­ca de Descastes em oposição a sua metafísi­ca… esta esco­la começa com o médi­co Leroy (Regius), atinge o seu apogeu com o doutro Caba­n­is, e é o doutor Lamet­trie que lhe é o cen­tro… Ao fim do sécu­lo XVIII Caba­n­is lev­ou a últi­ma mão ao mate­ri­al­is­mo carte­siano na sua obra “Sobre a relação entre o físi­co e a moral do homem”.Onde é de se notar como Marx não se da con­ta de fato da novi­dade da posição de Caba­n­is; em que temos um mate­ri­al­is­mo não mais metafísi­co e as primeiras lin­has daque­le que se dirá pos­i­tivis­mo. Onde, tam­bém, a abso­lu­ta fal­ta de pre­visão do pos­i­tivis­mo por parte do marx­is­mo e o seu con­tín­uo ced­er a respeito do pos­i­tivis­mo.

O pen­sa­men­to ital­iano do Ressurg­i­men­to deve ser vis­to ao invés na sua total oposição ao pen­sa­men­to dos ideól­gos. Ago­ra, a fal­ta de colo­cação história des­ta for­ma de pen­sa­men­to con­tribuiu a faz­er crer que o pen­sa­men­to ital­iano do Ressurg­i­men­to rep­re­sente, tudo soma­do, um episó­dio provin­cial. Opinião que é des­ti­na­da a ces­sar quan­do se con­sid­era que o novo pos­i­tivis­mo, hoje, é lev­a­do a conec­tar-se com a men­tal­i­dade dos ideól­o­gos na medi­da em que repen­sa ilu­min­is­ti­ca­mente, isto é, liberando‑o dos aspec­tos pelos quais é uma roman­ti­za­ção da ciên­cia, o pos­i­tivis­mo do sécu­lo XIX. A con­sue­ta per­spec­ti­va históri­ca sobre  redução dos ideól­o­gos a meros con­tin­u­adores do sen­sis­mo, é rica de con­se­quên­cias porque leva ao con­sue­to juí­zo: Kant tin­ha em Hume “o gênio do empiris­mo”; Ros­mi­ni, ao invés, adver­sários de muito menor rele­vo como Condil­lac e os sen­sis­tas.  

Por isso a filosofia ital­iana da época do Ressurg­i­men­to tem um carác­ter de provin­cial­i­dade em relação a filosofia alemã. De onde se pas­sa ao suces­si­vo: aqui­lo que tem de váli­do no pen­sa­men­to de Ros­mi­ni é o que Kant disse de mel­hor, etc. E mes­mo quan­do nos quer­e­mos opor ao ima­nen­tismo da filosofia clás­si­ca alemã, o recur­so deve ser a Schelling, aos pro­longa­men­tos do schellinguis­mo, hoje a Hei­deg­ger, etc. Através de Schelling, através de Hei­deg­ger não através de Ros­mi­ni falar­ia ain­da a nós, con­tra a hybris do soci­ol­o­gis­mo, a voz da metafísi­ca. Pen­so que a exa­ta posição dos ideól­o­gos pode­ria servir para mod­i­ficar com­ple­ta­mente este juí­zo. Se o ter­mos da antítese filosó­fi­ca são hoje a con­cepção rev­el­a­ti­va e expres­si­va do pen­sa­men­to, a via para reafir­mar a primeira deve ser bus­ca­da no pen­sa­men­to ital­iano mais que no pen­sa­men­to alemão.

7 – Toda a tradição do pen­sa­men­to ital­iano é de resto dirigi­da con­tra a tradição do pen­sa­men­to ide­ológi­co; e vale a pena sub­lin­har as ori­gens do pen­sa­men­to de Gen­tile, e o extrema­mente sig­ni­fica­ti­vo e impor­tante primeiro capí­tu­lo do seu Ros­mi­ni e Giober­ti de 1898. Se apre­sen­ta aqui­lo o prob­le­ma de como nos últi­mos 20 anos o soci­ol­o­gis­mo pode pen­e­trar na Itáia, mais na Itália do que na França, ape­sar da com­ple­ta estran­heza a tradição do pen­sa­men­to ital­iano; e este prob­le­ma até hoje nun­ca foi trata­do com a mere­ci­da con­sid­er­ação.

Me lim­itarei, por ora, proce­den­do por acenos, a desen­har os primeiros traços de uma pesquisa des­ti­na­da a averiguar que o ter­mo ide­olo­gia nasce em um con­tex­to para o qual a ver­dadeira rev­olução é car­ac­ter­i­za­da pela sub­sti­tu­ição do con­hec­i­men­to cien­tifi­co ao con­hec­i­men­to metafisi­co; como con­hec­i­men­to, a primeira, que serve para unir os home­ns e per­mi­tir a paz e o pro­gres­so da feli­ci­dade humana, enquan­to o con­hec­i­men­to metafísi­co não é ape­nas estéril a respeito de tal enriquec­i­men­to, mas tam­bém, pelas con­tro­vér­sias insolúveis a qual de longe, divide os home­ns e leva aos gov­er­nos tirani­ci­das; nasce então já car­rega­do de todos aque­les sig­nifi­ca­dos que o soci­ol­o­gis­mo pos­te­ri­or colo­ca sob luz. Relação com a Rev­olução France­sa bem visív­el pelo fato que os ideól­o­gos querem ser seus teóri­cos, mes­mo se a sua influên­cia se é de fato restri­ta ao perío­do do Diretório e aos primeiros anos do Con­sula­do. Os dois nomes mais notáveis nes­ta cor­rente são o Caba­n­is e o Destutt de Tra­cy. Per­tence ao primeiro a história da med­i­c­i­na e a história da soci­olo­gia, col­hen­do o vín­cu­lo entre as duas dis­ci­plinas; é ver­dadeira­mente entre os ini­ciantes da med­i­c­i­na social e daque­les que hoje se dizem as pesquisas sobre ori­en­tação pro­fes­sion­al. O carác­ter anti-metafísi­co do seu pen­sa­men­to é muito visív­el na sua obra prin­ci­pal, os Rap­ports du physique et du moral de l’Homme, que de fato quer ser uma antropolo­gia da qual seja rig­orosa­mente colo­ca­da a parte, qual­quer conexão com a metafísi­ca. O pon­to em que se sep­a­ra de Condil­lac é pre­cisa­mente aque­le em que pre­cisa que quer tratar da alma como de uma “fac­ul­dade”  e não de um “ser”, aban­do­nan­do como ter­mos quase pri­va­dos de sen­ti­do aque­les de teís­mo, ateís­mo, espir­i­tu­al­is­mo e mate­ri­al­is­mo.

De fato, porém, esta psi­cofi­si­olo­gia ilus­tra o condi­ciona­men­to dos esta­dos men­tais por parte dos esta­dos cor­póre­os. Ora, é pro­pri­a­mente para san­cionar esta sep­a­ração da metafísi­ca, que Destutt de Tra­cy cun­ha o ter­mo ide­olo­gia. Condil­lac tin­ha fal­a­do de psi­colo­gia como ciên­cia da alma, mas com isto pare­cia ten­der a um con­hec­i­men­to deste ser como dis­tin­to do cor­po, fazen­do crer que a pesquisa fos­se tam­bém ori­en­ta­da para as causas primeiras, não para o con­hec­i­men­to dos tatos psíquicos, das suas conexões e das suas con­se­quên­cias prat­i­cas. A palavra “ide­olo­gia” tem ao invés para Tra­cy este méri­to: de não des­per­tar algu­ma ideia de causa, de não quer­er chegar em algum modo a uma metafísi­ca como con­sid­er­ação da natureza dos seres, das diver­sas ordens da real­i­dade e da sua causa primeira. Se nós olhamos aqui­lo que de fato são os ele­men­tos de ide­olo­gia, encon­tramos essas teses essen­ci­ais; que a metafísi­ca, isto é a dis­ci­plina que tem por obje­to deter­mi­nar o princí­pio e o fim de todas as coisas, regres­sa nas artes imag­i­na­ti­vas, que podem nos sat­is­faz­er mas não nos instru­ir. A sen­si­bil­i­dade e a memória são resul­ta­dos de uma orga­ni­za­ção que é impen­etráv­el para nós. Nós igno­ramos a natureza do movi­men­to oper­a­do nos ner­vos e segui­do de uma per­cepção. A úni­ca coisa útil é estu­dar aqui­lo que é, como se apre­sen­ta de fato, para con­hecê-lo e extrair deste con­hec­i­men­to as van­ta­gens prat­i­cas. Sob esta relação ele pode diz­er que a ide­olo­gia é para ele uma parte da zoolo­gia e que o seu estu­do con­siste inteira­mente em obser­vações e que não existe nada nis­so de mais mis­te­rioso ou de mais neb­u­loso que nas out­ras partes da história nat­ur­al. Se tra­ta de oper­ar tam­bém a propósi­to das ideias, aque­la pas­sagem da bus­ca das causas àquela das leis, que tem car­ac­ter­i­za­do a nova ciên­cia.

O resumo da sua visão com­plexa pode talvez ser expres­so nos ter­mos que encon­tramos em uma pági­na do Zibal­done de Leop­ar­di, que, como é notáv­el, foi forte­mente influ­en­ci­a­do pelo pen­sa­men­to dos ideól­o­gos: “Eu vejo cor­pos que pen­sam e que sen­tem. Digo cor­pos; isto é home­ns e ani­mais; que eu não vejo, não sin­to, não sei se lhes pos­so pen­sar e sen­tir — Sen­hor não; antes vós direis: a matéria não pode,  em nen­hum modo jamais, nem pen­sar, nem sen­tir. — Oh, porque — Porque nós não enten­demos como o faça. – Belís­si­ma: nós enten­demos como atrair os cor­pos, como a elet­ri­ci­dade faz os seus admiráveis efeitos, como o ar faz o som? Antes, enten­demos talvez apon­tar que coisa seja a força de atração, de gravi­dade, de elas­ti­ci­dade; que coisa seja a elet­ri­ci­dade; que coisa seja a força da matéria? E se não o enten­demos, nem podemos entende-lo jamais, neg­amos nós por isto que a matéria não seja capaz destas coisas, quan­do nós vemos que o é? – Pro­va-me que a matéria pos­sa pen­sar e sen­tir. — O que ten­ho eu a provar? O fato o pro­va. Nós vemos vemos cor­pos que pen­sam e sen­tem; e vós, que sois um cor­po, pen­sam e sen­tem”. Neste pon­to, nos encon­tramos diante de um sin­gu­larís­si­mo aba­ti­men­to do oca­sion­al­is­mo com­ple­ta­mente sep­a­ra­do do ontol­o­gis­mo: da inad­e­quação da causa ao efeito se pro­va que nós deve­mos nos deter pura­mente aos fatos sem bus­car o por que. Que a matéria pense ou sin­ta é cer­ta­mente um fato mis­te­rioso: mas não mais mis­te­rioso daque­le que a matéria atra­ia, que a matéria seja elás­ti­ca e que a matéria seja sede de fenom­enos elétri­cos. 

Sob esta relação podemos diz­er que nos ideól­o­gos encon­tramos o pos­i­tivis­mo em seu esta­do puro, antes do repen­sa­men­to dos ter­mos filosó­fi­cos da história que lhe fez Comte. Já Brun­schvicg e depois Gouhi­er colo­caram em rele­vo a função do oca­sion­al­is­mo na for­mação do pos­i­tivos, sob o aspec­to pelo qual esse é a sub­sti­tu­ição da ideia de lei pela ideia de causa (Cfr. L. Brun­schvicg, L’espèrience humaine et la causal­ité physique, I parte, libro I, cap I e § 114, Alcan , Paris; Gouhi­er, Comte, t. III, Intro­duzione e Maine de Biran, pp. 133–184). Percebe­mos facil­mente que a socio análise das ide­olo­gias não é out­ra coisa senão a répli­ca para a sociedade des­ta posição. Que coisa sig­nifi­ca de fato o ter­mo expressão na tese que a ide­olo­gia é a expressão da situ­ação históri­co-social de um grupo? Nada além de que o alarga­men­to deste mate­ri­al­is­mo na pas­sagem de uma con­cepção atom­isti­ca a uma con­cepção social pela qual o indi­ví­duo real é imer­so em uma situ­ação de vida asso­ci­a­da. Mas, ago­ra, busque­mos fixar mel­hor o caráter mate­ri­al­ista do pen­sa­men­to de Tra­cy. Pode pare­cer a primeira vista que o pro­gra­ma da ide­olo­gia ten­ha um caráter quase fenom­e­nológi­co: analis­es das ideias e decom­posição do pen­sa­men­to nos ele­men­tos primários, inde­pen­den­te­mente de qual­quer refer­ên­cia a real­i­dade. Porém, rap­i­da­mente se percebe que não é assim: para Tra­cy se tra­ta de ultra­pas­sar o con­scien­cial­is­mo condillchi­ano através da con­sid­er­ação da ideia de exte­ri­or­i­dade. Como refe­r­i­mos as sen­sações, dadas a nós, assim como as mod­i­fi­cações da con­sciên­cia, a real­i­dade exter­na, este é o prob­le­ma. Para Tra­cy, difer­ente­mente de Condil­lac, não é o puro tato, mas a fac­ul­dade de mover-se e a con­sciên­cia do movi­men­to, que nos mostra os cor­pos como causa das nos­sas sen­sações: e esta fac­ul­dade da mobil­i­dade é a úni­ca lig­ação entre o eu e o resto dos seres.

Sob este respeito tem par­tic­u­larís­si­ma importân­cia a sua dis­ser­tação sobre a noção de existên­cia e as hipóte­ses de Male­branche e de Berke­ley (1800). Tra­cy acei­ta de Berke­ley o nom­i­nal­is­mo e rejei­ta o ima­te­ri­al­is­mo. Não existe um ser que se pos­sa chamar matéria; falar de matéria como de uma real­i­dade úni­ca é hipostasiar uma abstração. Exis­tem ape­nas cor­pos indi­vid­u­ais. Mas rejei­ta ao con­trário o ima­te­ri­al­is­mo, porque sem a real­i­dade do meu cor­po não have­ria nem mes­mo a ideia da real­i­dade exter­na. Pos­so afir­mar a existên­cia de qual­quer coisa, só enquan­to esta coisa resiste aos meus movi­men­tos vol­un­tários. Pos­so recon­hecer que uma coisa é, ape­nas pelo fato que me resiste e deste fato prim­i­ti­vo pas­so a out­ras ideias. Um cor­po me resiste em uma maneira con­tínua, eis a gênese da ideia de exten­são; seguin­do uma cer­ta direção, eis a gênese das ideias de figu­ra e de movi­men­to. É ver­dadeiro que esta­mos com isso sobre a lin­ha do prob­le­ma de Biran, que era um estu­dante de Tra­cy. E todavia a tese de Biran é o com­ple­to aba­ti­men­to daque­la de Tra­cy, em uma for­ma que estes min­i­ma­mente não pre­vi­ram. O acen­to cai para ele sobre o ter­mo movi­men­to, em lugar da von­tade. Assim da tese que exi­s­tir é resi­s­tir, remon­ta a ideia que as nos­sas sen­sações são o resul­ta­do do choque dos séries cor­póre­os, con­tra os órgãos dos sen­ti­do que são da mes­ma for­ma seres cor­póre­os. Quer diz­er: o con­hec­i­men­to é ape­nas um caso par­tic­u­lar da relação exter­na entre dois obje­tos, da ação de uma coisa sobre a out­ra; e aqui­lo que o sujeito con­hece é a “mod­i­fi­cação” pro­duzi­da nele pelo obje­to, mod­i­fi­cação que é a rep­re­sen­tação do obje­to. E por isso que a ide­olo­gia como análise e decom­posição das ideias parece a ele, mes­mo se não se exprime exata­mente com estes ter­mos, como desmi­ti­za­ção das ideias ele­vadas, e nec­es­sari­a­mente conexa com a democ­ra­cia enten­di­da, tam­bém neste sen­ti­do; o que resul­ta sobre­tu­do do Com­men­taire sur Mon­tesquieu que teve grande influên­cia sobre Jefer­son, influên­cia que é um momen­to deci­si­vo da pen­e­tração na Améri­ca das ideias ilu­min­istas.

Se per­cor­rermos os frag­men­tos das pesquisas sobre a moral con­duzi­das por Tra­cy entre 1812 e 1817, já podemos ver como no cur­so des­ta sub­sti­tu­ição da metafísi­ca pela ide­olo­gia, se gera a noção de bem estar. Já se delin­ea­va então a críti­ca espir­i­tu­al­ista e se diri­gia aos ideól­o­gos a objeção que uma ciên­cia do homem reduzi­da ao estu­do do mecan­is­mo psi­co-fisi­ológi­co é moral­mente destru­ti­va porque na sua per­spec­ti­va a humanidade aparece como dom­i­na­da por uma neces­si­dade invencív­el, e por isso pri­va­da do méri­to e do deméri­to dos atos. Tra­cy responde a esta críti­ca dizen­do que a ciên­cia é per sé abso­lu­ta­mente estran­ha a qual­quer juí­zo avalia­ti­vo, e não pode então ser qual­i­fi­ca­da, nem como moral, nem como não moral. Neste sen­ti­do, difer­ente­mente da religião, deve ser jul­ga­da vir­tu­osa, enquan­to tende ao bem da humanidade. Mas este bem, uma vez que seja abol­i­da qual­quer definição metafísi­ca da moral­i­dade, não pode ser out­ro que o bem estar. O ide­ol­o­gis­mo se encon­tra assim com o util­i­taris­mo, e com o prob­le­ma da con­vivên­cia entre o bem estar indi­vid­ual e o bem estar ger­al, tem que o soci­ol­o­gis­mo jamais aban­do­nou.

Uma pos­te­ri­or pesquisa deve con­sid­er­ar a sua inter­pre­tação de Kant. Por mais filo­logi­ca­mente inad­e­qua­da que pos­sa pare­cer, con­tém, porém, uma indi­cação que não deve ser igno­ra­da. Essa de fato se insere no começo da lin­ha que através do aban­dono da Críti­ca da Razão Práti­ca e do Kant metafísi­co chega coer­ente­mente a uma inter­pre­tação mate­ri­al­ista do kan­tismo; lin­ha qe foi sus­ten­ta­da tam­bém recen­te­mente (Cfr. l’interessante e assai più impor­tante di quel che gen­eral­mente si pen­si, libro di G. ren­si, Il mate­ri­al­is­mo criti­co. Roma, 1934).

Pub­li­ca­do em “Ide­olo­gia e Filosofia”, Mor­cel­liana, Bres­cia, 1967, pp. 75–86