P. CURZIO NITOGLIA: A DEMOCRACIA CRISTÃ E O MODERNISMO


Política / sábado, dezembro 8th, 2018

Padre Curzio Nitoglia
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

Romolo Murri,  Luigi Sturzo e Alcide De Gasperi

A questão democristã

Dário Com­pos­ta escreve: “O mod­e­lo ide­al “DC” se pode definir […] como políti­ca pro­gres­sista e acon­fes­sion­al”[1]. Essa é um par­tido de cen­tro que olha à esquer­da, como dizia Alcide de Gasperi. Don Com­pos­ta dis­tingue três tipos de católi­cos:

«a) Os cristãos soci­ais, que rejeitam os princí­pios da Rev­olução France­sa, por aderirem a dout­ri­na social e políti­ca do Mag­istério Ecle­siás­ti­co;

b) Os cristãos lib­erais, que param na metade do cam­in­ho entre a idéia da rev­olução e o ensi­na­men­to da hier­ar­quia católi­ca.

c) Os democ­ratas cristãos, que, enquan­to acol­hen­do um cer­to sen­ti­do ou uma inspi­ração vaga­mente cristã, se man­tiver­am laicis­tas e se ori­en­taram pela teo­ria rela­ciona­da a rev­olução france­sa; eles tiver­am como decanos na França; Lamen­nais, Saugn­er e Mar­i­tain e na Itália Mur­ri-Stur­zo-De Gasperi. Os democ­ratas cristãos – con­tin­ua Com­pos­ta – “tin­ham se con­ven­ci­do de que o pen­sa­men­to social católi­co de algu­ma for­ma dev­e­ria se rec­on­cil­iar com a situ­ação de fato […] e aban­donar a intran­sigên­cia [2]. A “DC” pen­sa que a rev­olução france­sa foi um fenô­meno divi­no e pos­i­ti­vo, que toda for­ma de gov­er­no não democráti­ca cristã é ina­ceitáv­el e anti­cristã.  Romo­lo Mur­ri, fun­dador da “Liga democráti­ca nacional” [3], foi con­de­na­do jun­to com sua “Liga”, e exco­munga­do como mod­ernista em 28 de jul­ho de 1906. Stur­zo foi mais hábil, porque não quis se envolver de modo aber­to, com o mod­ernismo, mes­mo que pos­suísse idéias pro­gres­sis­tas e mod­ern­izantes, ele fun­dou o “PPI”, que foi sev­era­mente crit­i­ca­do pelo Padre Agosti­no Gemel­li,  Mon­sen­hor Francesco Olgiati e pelo Cardeal Pio Bog­giani, Arce­bis­po de Gêno­va, que em 5 de agos­to de 1920 pub­li­ca­va uma “Car­ta Pas­toral” onde colo­cou luz sobre os graves erros do “PPI”:

a) Eman­ci­pação da Hier­ar­quia ecle­siás­ti­ca;

b) Exal­tação da liber­dade como val­or abso­lu­to  em con­luio com os lib­erais;

c) Derivação  de sua teo­ria políti­ca a par­tir dos princí­pios da rev­olução france­sa.Tais erros encon­tram-se con­den­sa­dos na “DC”. Alcide De Gasperi – em um dis­cur­so feito em Brux­e­las, a 20 de novem­bro de 1954 (que irri­tou pro­fun­da­mente Pio XII), o qual daque­le momen­to em diante não quis mais rece­bê-lo – tin­ha afir­ma­do que a “DC” se fun­da sobre a tríade: liber­dade, frater­nidade e democ­ra­cia, que são her­anças da Rev­olução France­sa.  As razões prin­ci­pais que sus­ten­tam a políti­ca da “DC” são – segun­do Com­pos­ta – duas:

1ª) o pro­gres­sis­mo políti­co na lin­ha da ação;

2ª) a acon­fis­sion­al­i­dade na lin­ha dos princí­pios.

-A primeira razãoo pro­gres­sis­mo é uma teo­ria otimista sobre a natureza humana, que se man­i­fes­ta na políti­ca como um desen­volvi­men­to econômi­cocon­fi­ança ilim­i­ta­da civ­il moral irre­sistív­el.

- A segun­da razão é a acon­fes­sion­al­i­dade da “DC”.

Já Don Stur­zo em 19 de março de 1919 havia pro­nun­ci­a­do um dis­cur­so em Verona, onde afir­mou: “O PPI nasceu como par­tido não católi­co, acon­fes­sion­al, […] tem um forte con­teú­do democráti­co, que se inspi­ra no ide­al cristão, mas que não toma a religião como meio de difer­en­ci­ação políti­ca”.

Notas:

[1] DCom­pos­ta, Questão Católi­ca e questão democ­ra­ta cristã, Cedam, Pado­va, 1987, pp. 25–26. Cfr. N. Arbol, Os democ­ratas cristãos no mun­do, ed. Pauli­nas, Milão, 1990; E. Cor­ti, Breve história da “Democ­ra­cia cristã” com par­tic­u­lar respeito aos seus erros, em “A fumaça no tem­p­lo”, Ares, Milão, 1997, pg. 154–184; H. Delas­sus, La Democ­ra­tie Chre­ti­enne, Lille, Desclée, 1911.
[2] D. Com­pos­ta, op. cit., pag. 36.
 [3] Cfr. A. Del Noce, O Euro­co­mu­nis­mo e a Itália, Edi­to­ra Europa infor­mação, Roma, 1976; A. Del Noce, O sui­cidio da rev­olução, Rus­col­i­ni, Milão, 1978; A. Del Noce, O Cato-comu­nista, Rus­coni, Milão 1981; A. Caru­so., De Lênin a Berlinguer, Idéia cen­tro edi­to­r­i­al, Roma, 1976; L. Bil­lot., De Eccle­sia Christi. Tomo IIDe habi­tu­dine Eccle­si­ae ad civilem soci­etatem, 3ª ed., Roma, Gre­go­ri­ana, 1929, Q. XVIIDe errore lib­er­al­is­mi et vari­is eius formis.
Loren­zo Bedeschi e a “Democ­ra­cia cristã”

 Loren­zo Bedeschi apro­fun­da o que foi escrito por Com­pos­ta e expli­ca como o movi­men­to “democráti­co cristão” assim nasceu na Itália em 1919, com a fun­dação do “PPI” por parte de  Lui­gi Stur­zo, con­tin­uan­do depois com a “DC” de Alcide De Gasperi, todavia ele colo­ca bem em rele­vo a influên­cia que teve, na origem da “Democ­ra­cia Cristã”,  Romo­lo Mur­ri e o mod­ernismo [1] e, então, como a “DC” é mes­mo mais pro­gres­sista do que o catoli­cis­mo lib­er­al, do qual escrevia Com­pos­ta, e pode ser definido como “mod­ernismo social” em sen­ti­do estre­ito.

Don Romo­lo Mur­ri

Romo­lo já era um pon­to de refer­ên­cia da cor­rente democráti­co-cristã no inte­ri­or do Con­gres­so e dos Comitês Católi­cos durante o pon­tif­i­ca­do de Leão XIII. Com o pon­tif­i­ca­do de São Pio X, Romo­lo Mur­ri entrou em choque com Papa Sar­to, sobre­tu­do após a dis­solução do Con­gres­so dese­ja­da por São Pio X em 1903. Então, o sac­er­dote fun­dou a mar­cha da “Liga Democráti­ca Nacional”, que é aque­le movi­men­to politi­co autônomo da hier­ar­quia ecle­siás­ti­ca, vin­do a se sol­i­darizar pub­li­ca­mente com as ideias mod­ernistas, que estavam con­de­nadas pela Encícli­ca Pas­cen­di ini­ci Greg­is em 8 de setem­bro de 1907, e com a Car­ta Apos­tóli­ca aos arce­bis­pos e os Bis­pos france­ses Notre Charge Apos­tolique de 1910 [2]. Em 1907, ele foi sus­pen­so a divi­nis, e então foi exco­munga­do em 1909; se casou civil­mente em Campi­doglio em 1912 e, final­mente, retornou a comunhão com a Igre­ja Católi­ca pouco antes da morte, ocor­ri­da em 12 de março de 1944.

O mod­ernismo de Don Romo­lo Mur­ri, que se man­i­fes­taria pub­li­ca­mente ape­nas depois da exco­munhão, tin­ha origem na ten­ta­ti­va de unir o ensi­na­men­to católi­co, rece­bido sobre­tu­do do Cardeal Louis Bil­lot, com aque­le do estu­dioso marx­ista Antônio Labri­o­la; se trata­va assim, segun­do o pro­je­to de Romo­lo Mur­ri, de com­bi­nar a filosofia escolás­ti­ca com o mate­ri­al­is­mo históri­co [3]. Ele anda­va bem além do mod­ernismo clás­si­co que esposa­va catoli­cis­mo e kan­tismo, man­i­fe­s­tando uma ati­tude de pro­fun­da sim­páti­ca em direção ao con­ceito de democ­ra­cia empresta­do dos princí­pios lib­erais da rev­olução france­sa [4] e, final­mente, a impaciên­cia com as posições da hier­ar­quia, que o levari­am à rebe­lião.

Don Mur­ri e Don Lui­gi Stur­zo

Em 3 de setem­bro de 1900 Don Mur­ri fun­dou em Roma a “Democ­ra­cia Cristã Ital­iana”; entre os co-fun­dadores esta­va  Lui­gi Stur­zo.

Os sac­er­dotes se con­hece­r­am em Roma no fim do sécu­lo XIX e lhes nasceu uma relação de esti­ma e de amizade que durará até 1906. Lui­gi Stur­zo começou a colab­o­rar com as revis­tas pro­movi­das por Romo­lo Mur­ri e a faz­er con­hecer o movi­men­to democráti­co-cristão na sua ter­ra de origem: “[…] foi Mur­ri a impul­sion­ar-me defin­i­ti­va­mente em direção a democ­ra­cia cristãDes­de então ten­ho per­maneci­do fiel”, escrevia em 1946 em uma men­sagem envi­a­da a sessão da ‘DC’ de Gual­do di Mac­er­a­ta, em ocasião da inau­gu­ração de uma lápi­de sobre casa nati­va do anti­go leader democráti­co-cristão da parte da sessão local da ape­nas recon­sti­tuí­da ‘DC’ [5].

Romo­lo Mur­ri pub­li­cou seus primeiros tra­bal­hos, Con­ser­vadores católi­cos e Democ­ratas cristãos, em 1900, A Orga­ni­za­ção de classe e as Uniões profis­sion­ais, em 1901, e Sín­te­ses Soci­ais, em 1906, e foi con­vi­da­do a Cal­t­a­girone por Don lui­gi Stur­zo para dar uma série de con­fer­ên­cias.

 Loren­zo Bedeschi colo­ca bem em rele­vo a influên­cia exerci­ta­da por Romo­lo Mur­ri sobre Don Stur­zo [6]:

 Romo­lo Mur­ri  é o mestre e  Lui­gi Stur­zo lhe sofre pro­fun­da­mente a influên­cia. Romo­lo Mur­ri será colo­ca­do entre parên­te­ses e não esque­ci­do, porque ten­do sido exco­munga­do, pode­ria ape­nas dan­i­ficar a obra de Lui­gi Stur­zo, ao menos até a rec­on­cil­i­ação com a Igre­ja do sac­er­dote marchi­giano em 1944. Será o mes­mo Lui­gi Stur­zo a recordá-lo, ain­da em 1946: “Ago­ra revogue­mos jus­ta­mente a figu­ra de pio­neiro da “Democ­ra­cia Cristã”. Deus mis­eri­cor­dioso nos con­cedeu poder diz­er que Mur­ri é nos­so, ape­sar da sua tem­porária desvi­ação em zona ide­al e políti­ca não nos­sa” [7]. A “difer­ença” entre os dois per­son­agens é uma dis­tinção ape­nas táti­ca – Lui­gi Stur­zo “prag­máti­co” e Romo­lo Mur­ri “doutrinário” – mas que rev­ela um não quer­er se ocu­par aber­ta­mente de dout­ri­na por parte de Lui­gi Stur­zo para não ter prob­le­mas com a Autori­dade ecle­siás­ti­ca em matéria de mod­ernismo Lui­gi Stur­zo começou a man­i­fes­tar as primeiras dúvi­das quan­to a modal­i­dade de ação, e não quan­to as ideias, do fun­dador da ‘Democ­ra­cia Cristã’ já durante os últi­mos anos do pon­tif­i­ca­do de Leão XIII;em par­tic­u­lar man­i­festou as suas per­plex­i­dades em uma car­ta a Romo­lo Mur­ri em 18 de jul­ho de 1903, na qual, com palavras firmes, o acu­sou de prati­ca­mente dan­i­ficar o movi­men­to democráti­co-cristão com toma­da de posições mod­ernistas [8]. Começa a emer­gir uma ati­tude de grande cautela oper­a­ti­va que car­ac­teri­zará a ação do futuro fun­dador do ‘PPI, que sabe esper­ar os tem­pos favoráveis para bus­car alcançar os próprios obje­tivos, e, sobre­tu­do, não dese­ja ini­mizar-se com a autori­dade ecle­siás­ti­ca por motivos prag­máti­cos.Os ideais democráti­cos-cristãos per­manecem ain­da comuns e as palavras de Lui­gi Stur­zo o con­fir­mam. Ele esta­va na ver­dade pre­ocu­pa­do que, a final­i­dade do movi­men­to pudesse ser prej­u­di­ca­da pelos golpes da cabeça do ami­go. “Eu pen­so que o nos­so é o momen­to de desin­ter­es­sar-se de todo o movi­men­to inter­no enquan­to é pro ou con­tra o mod­ernismo; e de ati­rar dire­to no cam­po da cul­tura e no cam­po das obras práti­cas”, escreverá em uma das ulti­mas letras a Romo­lo Mur­ri, em maio de 1906, acres­cen­tan­do: “Não acred­ite que eu seja ou dese­je ser um opor­tunista ou um pru­den­tão […]. Eu ao invés sou e quero ser práti­co; isto é chegar ao escopo inteiro e sem transações; mas tam­bém estu­dan­do o ter­reno sobre o qual se cam­in­ha, para não cair em armadil­has, e para não escor­re­gar e perder aqui­lo que foi gan­ho” [9]. Em um cer­to sen­ti­do Stur­zo foi quan­to ao modo de agir, mais mod­ernista que Mur­ri, o qual saiu a descober­to, enquan­to uma das car­ac­terís­ti­cas do mod­ernismo é o seg­re­do, tan­to que São Pio X o definiu “clan­des­tinum foe­dus” (“motu pro­prio”Sacro­rum Anti­s­ti­tum, 1º de setem­bro de 1910).

O desta­ca­men­to táti­co

Quan­do Romo­lo Mur­ri, ago­ra rompi­do com São Pio X, se lança na aven­tu­ra da ‘Liga Democráti­ca Nacional’,  Lui­gi Stur­zo decide sep­a­rar-se tati­ca­mente e não doutri­nal­mente, as próprias respon­s­abil­i­dades daque­las do ami­go. O faz com uma últi­ma car­ta, escri­ta em 18 de jun­ho de 1906, na qual se des­pediu do movi­men­to e do ami­go, aconselhando‑o a dedicar-se a ativi­dade int­elec­tu­al em qual­quer uni­ver­si­dade, mas defin­i­ti­va­mente fora da políti­ca oper­a­ti­va.Don Romo­lo Mur­ri se tornou um ami­go incon­ve­niente: o ano seguinte virá sus­pen­so a divi­nis, três anos depois em  1909, exco­munga­do e em 1912, com o matrimônio civ­il em Campi­doglio, ces­sará toda relação com o mun­do católi­co.

Todavia uma cer­ta relação entre os dois con­tin­uará, emb­o­raindi­re­ta­mente e polemi­ca­mente, sobre­tu­do depois da fun­dação do ‘PPI’ em 1919. Ape­sar da ten­ta­ti­va de min­i­mizar as ori­gens mur­ri­anas do movi­men­to democráti­co-cristão, e então do ‘PPI’, não se pode­ria impedir o emer­gir da polêmi­ca com Don Mur­ri, que reivin­di­ca­va a pater­nidade do movi­men­to e do ‘PPI’, e quan­tos lhe negavam, com­preen­di­do Don Stur­zo. E a polêmi­ca na ver­dade explodiu, quan­do Don Romo­lo Mur­ri era ain­da vivo e sem­pre pron­to a reivin­dicar a pater­nidade da sua criatu­ra [10].

Mod­ernismo e ‘DC’ mur­ri­ana

Per­manece o escopo do mod­ernismo na primeira “Democ­ra­cia Cristã’ fun­da­da por Romo­lo Mur­ri.

Segun­do as indi­cações de Loren­zo Bedeschi, Don Lui­gi Stur­zo parece sep­a­rar-se de Romo­lo Mur­ri para não incor­rer nas sanções dis­ci­pli­nares que estavam para se abater sobre o sac­er­dote de Gual­do, e que eram larga­mente pre­ví­siveis já em 1906. O mes­mo Romo­lo Mur­ri, de resto, jul­ga­va Lui­gi Stur­zo insen­sív­el aprob­lemáti­ca doutri­nal mod­ernista, enquan­to era exclu­si­va­mente pro­te­gi­do pela ação admin­is­tra­ti­va e políti­ca, sus­ten­tan­do além dis­so, que a primeira ‘Democ­ra­cia Cristã’ não tin­ha nada a que faz­er com o mod­ernismo. Todavia, em uma entre­vista ao Gior­nale d’Italiadurante o segun­do Con­gres­so do ‘PPI’ cel­e­bra­do em Napoli em 1920, Romo­lo Mur­ri sus­ten­ta que a sua refor­ma anda­va bem além do aspec­to políti­co, enquan­to pre­via mes­mo a refor­ma da Igre­ja no sen­ti­do aus­pi­ci­a­do pelo mod­ernismo [11]. A con­de­nação de Romo­lo Mur­ri foi cul­mi­na­da não ape­nas por razões dis­ci­pli­nares iner­entes a sua can­di­datu­ra as eleições, mas impli­ca­va a sua pertença a uma per­spec­ti­va mod­ernista, ao menos ao mod­ernismo políti­co-social con­de­na­do pela Notre Charge Apos­tolique. Muitas destas posições mod­ernistas – em par­tic­u­lar que diz respeito ao con­ceito de democ­ra­cia enten­di­do como sobera­nia pop­u­lar – entra e faz parte de for­ma disc­re­ta e não divul­ga­da na bagagem ide­ológ­i­ca de Lui­gi Stur­zo, através de Romo­lo Mur­ri, e, então, da cul­tura políti­ca do ‘PPI’. Quan­to Lui­gi Stur­zo escreve que a primeira ‘Democ­ra­cia Cristã’ teve muito a sofr­er do encon­tro com o mod­ernismo [12], se ref­ere ape­nas ao aspec­to dis­ci­pli­nar, enquan­to risco de ser aniquila­da pela reação anti­mod­ernista durante o pon­tif­i­ca­do de São Pio X.

Alcide De Gasperi e Romo­lo Mur­ri

Quan­do ao fim da segun­da guer­ra mundi­al Alcide De Gasperire con­stru­iu o ‘par­tido democráti­co-cristão’, não teve nen­hu­ma demo­ra a retomar o nome que lhe havia atribuí­do Romo­lo Mur­ri em 1900. Tam­bém o seu ofí­cio colo­ca ade­quada­mente em rele­vo a con­tinuidade entre a ‘Democ­ra­cia Cristã’ de Romo­lo Mur­ri e o ‘PPI’ [13].

Isto ape­sar das revo­gações históri­c­as das ori­gens, tam­bém Alcide De Gasperi – segun­do Loren­zo Bedeschi [14] – calará a influên­cia explíci­ta e dire­ta de Romo­lo Mur­ri, sub­sti­tuin­do como pon­to de refer­i­men­to a figu­ra do sac­er­dote marchi­giano, por aque­la de Giuseppe Tornio­lo [15].

Mais jovem 11 anos que Romo­lo Mur­ri, Alcide De Gasperi o tin­ha con­heci­do em 1902 em Roma, quan­do a crise no inte­ri­or da Obra dos Con­gres­sos já esta­va em cur­so. Lhe escreverá algu­mas car­tas até 1904, man­i­fe­s­tando sua sim­pa­tia e a sua adesão as ideias democráti­co-cristãs, e fará con­hecer o movi­men­to ide­ológi­co e as obras de Romo­lo Mur­ri em Trenti­noTodavia ao lado da par­til­ha, das car­tas de Alcide De Gasperi emergem tam­bém a incom­preen­são pelas ânsias explicí­ta­mente reformis­tas de Romo­lo Mur­ri, sobre­tu­do em cam­po filosó­fi­co e, em gênero, reli­gioso [16] e, em 1911, Alcide De Gasperi chegará a polemizar dire­ta­mente com Romo­lo Mur­ri em ocasião de uma con­fer­ên­cia dada por este últi­mo “em Rovere­to por con­ta dos lib­erais” [17].

Tam­bém da leitu­ra das pou­cas car­tas de Alcide De Gasperi a Romo­lo Mur­ri, emerge como a sua relação foi muito breve e de escarsa inten­si­dade int­elec­tu­al e de amizade, difer­ente daque­la entre Romo­lo Mur­ri e Lui­gi Stur­zo. Des­ta relação emerge sobre­tu­do a von­tade de Alcide De Gasperi de ter sep­a­ra­do o âmbito políti­co – no qual con­tin­uará sem­pre a man­i­fes­tar a sua prefer­ên­cia pela per­spec­ti­va democráti­ca-cristã – daque­le estre­ita­mente reli­gioso, onde se man­terá exte­ri­or­mente fiel ao ensi­na­men­to católi­co-tomista rece­bido através do “mestre” Ernesto Com­mer.

A posição cul­tur­al de Don Lui­gi Stur­zo e Alcide De Gasperi pode ser exata­mente recon­duzi­da ao filão do sécu­lo XIX do catoli­cis­mo lib­er­al, que tin­ha rig­orosa­mente sep­a­ra­do o âmbito reli­gioso e aque­le políti­co, isto é lhes olha­va mais pela óti­ca da sep­a­ração que daque­la da dis­tinção, enquan­to aque­la de  Mur­ri era sub­stan­cial­mente mod­ernista ain­da se, quan­to ao modo de agir pouco sec­re­ta e escon­di­da.  Todavia a insen­si­bil­i­dade de Stur­zo e De Gasperi as temáti­cas doutri­nais mod­ernistas foi pro­duzi­da da con­de­nação con­tra o mod­ernismo por parte da Hier­ar­quia ecle­siás­ti­ca e não é o resul­ta­do de um seu real con­venci­men­to.

Con­clusão

  •      A ‘DC’ de Stur­zo e De Gasperi é sem dúvi­da aber­ta e explicí­ta­mente cato-lib­er­al, mas não pub­li­ca­mente mod­ernista, por motivos prag­máti­cos (evi­tar a con­de­nação do mod­ernismo por parte de São Pio X). Todavia essa é inc­on­cil­iáv­el com a dout­ri­na católi­ca da relação entre Esta­do e Igre­ja, com­pen­di­a­da no “Dire­ito Públi­co Ecle­siás­ti­co (coop­er­ação em sub­or­di­nação entre o poder tem­po­ral e espir­i­tu­al) e cai sobre as con­de­nações feitas por Gregório XVI até Pio XII da sep­a­rações entre Esta­do e Igre­ja. Essa todavia é ple­na­mente em con­formi­dade com a dout­ri­na políti­ca mod­ernista do Vat­i­cano II sobre a “Liber­dade reli­giosa” que se encon­tra na Declar­ação “Dig­ni­tatis Humanae”.
  •      A dout­ri­na de  Mur­ri, ao invés, é não só cato-lib­er­al, mas tam­bém explicí­ta­mente mod­ernista e pre­cur­so­ra do cato-comu­nis­mo e da teolo­gia da lib­er­ação, igno­ran­do o mod­ernismo clás­si­co con­de­na­do por São Pio X, que se fir­ma­va em Kant e Hegel, para chegar ao neo-mod­ernismo con­de­na­do em 1950 por Pio XII (Humani gener­is) e que chega mes­mo a desposar Marx e o social­is­mo.

Padre Curzio Nitoglia

24 de jun­ho de 2011

Notas:
[1] Cfr. Loren­zo Bedeschi, Mur­ri, Stur­zo, De Gasperi. Ricostruzione stor­i­ca ed epis­to­lario (1898–1906), San Pao­lo, Cinisel­lo Bal­samo, 1994.
[2] Cfr. san Pio X, Let­tera apos­toli­ca agli Arcivescovi e ai Vescovi france­si “Notre charge apos­tolique”, del 25–8‑1910.
[3] L. Bedeschi, Mur­ri, Stur­zo, De Gasperi. Ricostruzione stor­i­ca ed epis­to­lario (1898–1906), cit., p. 24.
[4] Ibid., pp. 42–44.
[5] Ibid., p. 48.
[6] Ibid., pp. 64–72.
[7] Ibid., pp. 48–49.
[8] Ibid., pp. 214–217.
[9] Ibid., p. 243.
[10] Ibid., pp. 106–113.
[11] Cfr. Gior­nale d’Italia, 10–4‑1920.
[12] Cfr. Lui­gi Stur­zo, L’Abbè Naudet, in El Matì, 13–4‑1935, in Id.,Scrit­ti stori­co-politi­ci (1926–1949), Cinque Lune, Roma 1984, p. 259.
[13] L. Bedeschi, Mur­ri, Stur­zo, De Gasperi. Ricostruzione stor­i­ca ed epis­to­lario (1898–1906), cit., p. 111.
[14] Ibid., p. 145.
[15] Cfr. Id., Il gio­vane De Gasperi e l’incontro con Romo­lo Mur­ri,Bom­piani, Milano, 1974, p. 72.
[16] L. Bedeschi, Il gio­vane De Gasperi e l’incontro con Romo­lo Mur­ri, cit., p. 64.
[17] Ibid., p. 69.