P. ALBERTO SECCI: A HERMENÊUTICA IMPEDE O JUÍZO


Atualidades / terça-feira, dezembro 18th, 2018

 

Edi­to­r­i­al de Rad­i­cati nel­la fede
Padre Alber­to Sec­ci
Tradução: Ged­er­son Fal­cometa
Vive­mos há muitas e muitas décadas em um tem­po de refor­ma perene da Igre­ja. 
Não sabe­mos mais nem mes­mo como definir a Igre­ja, se não den­tro de uma con­tínua e exten­u­ante mudança: “quem pára se perdeu” parece ter se tor­na­do ironi­ca­mente o novo e oni­com­preen­si­vo man­da­men­to.

Uma refor­ma a todos os níveis e sob todos os aspec­tos foi invo­ca­da e atu­a­da para que, diziam, a Igre­ja pudesse entrar em con­ta­to com a sociedade dos home­ns em perene mudança; para que pudesse entrar em con­ta­to com essa de modo mais livre e puro.

A refor­ma foi requeri­da e depois propa­ga­da por motivos pas­torais, para que a Igre­ja não con­tin­u­asse a mar­ginar-se em uma recusa da mod­ernidade.

É den­tro des­ta urgên­cia práti­co-pas­toral que a maio­r­ia se con­venceu da neces­si­dade de aceitar toda uma série de refor­mas-rev­oluções que, a par­tir da Mis­sa, dev­e­ri­am mudar com­ple­ta­mente o ros­to da Igre­ja de dois milênios.

Não é ver­dadeiro que as refor­mas, estas refor­mas, fos­sem esper­adas. O mun­do católi­co sem­pre teve uma “san­ta preguiça” em não mudar muito e por sécu­los a imutabil­i­dade foi ensi­na­da como uma das mais impor­tantes car­ac­terís­ti­cas da ver­dadeira Igre­ja.

Mas era necessário não perder o mun­do que esta­va se tor­nan­do lib­er­al, agnós­ti­co e depois social­ista; era necessário além dis­so não perder os “irmãos sep­a­ra­dos” que, no momen­to, sep­a­ra­dos por sécu­los de Roma muito con­ser­vado­ra, tin­ham pro­duzi­do com toda liber­dade uma série de refor­mas que talvez, ao menos em parte, podem ser rece­bidas e val­orizadas.

Ocor­ria mudar, mudar… era o mantra obses­si­va­mente repeti­do em muitos lugares tan­to que tam­bém os “devo­tos” não encon­traram mais as razões e a força para diz­er não àqui­lo que subita­mente apare­ceu como a destru­ição ger­al da vida católi­ca.

O mun­do laico ficou espan­ta­do e mar­avil­ha­do, aclam­ou a nova igre­ja que final­mente entra­va a faz­er parte do mun­do das rev­oluções.

Assim os Padres, alguns choran­do, fadi­gan­do e con­fundin­do muitos, pouco felizes, mudaram a Mis­sa de sua orde­nação, a Mis­sa dos padres de toda a cri­stan­dade, e der­am iní­cio a nova e jamais vista aven­tu­ra da fun­dação de um novo tido de cris­tian­is­mo. Tudo isto foi feito em nome do diál­o­go com o mun­do, que devia final­mente encon­trar uma igre­ja de face humana. Talvez porque a Igre­ja de um tem­po atrás não tin­ha tido esta face humana? Os san­tos dos sécu­los não tin­ham tido um ros­to humano? As nos­sas sim­ples comu­nidades paro­quiais , aque­las das grandes cidades e aque­las dos aldeias agrí­co­las ou de mon­tan­ha, talvez, não tin­ham sido famílias humanas? Cer­to que eram humanas, de fato muito humanas… e ago­ra muitos começam a se arrepen­der des­ta humanidade! Mas tudo isto não bas­ta­va aos cos­tumeiros irre­qui­etos pela evolução social.

Era pre­ciso aceitar mudar para aju­dar o mun­do a encon­trar Cristo, assim diziam os devo­tos pro­mo­tores da refor­ma… assim foi dito, só que em nome do encon­tro com o mun­do a Igre­ja acabou por se enver­gonhar de Cristo.

O human­is­mo laico e pro­fano apare­ceu, final­mente, em toda a sua ter­rív­el estatu­ra, e por assim diz­er desafiou o Con­cílio para a luta. A religião, que é o cul­to de Deus que quis ser homem, e a religião — porque o é — que é o cul­to do homem que quer ser Deus, encon­traram-se. Que acon­te­ceu? Com­bate, luta, anátema? Tudo isto pode­ria ter-se dado, mas de fac­to não se deu. Aque­la anti­ga história do bom samar­i­tano foi exem­p­lo e nor­ma segun­do os quais se ori­en­tou o nos­so Con­cílio. Com efeito, um imen­so amor para com os home­ns pen­etrou total­mente o Con­cílio. A descober­ta e a con­sid­er­ação ren­o­va­da das neces­si­dades humanas — que são tan­to mais molestas quan­to mais se lev­an­ta o fil­ho des­ta ter­ra — absorver­am toda a atenção deste Con­cílio. Vós, human­istas do nos­so tem­po, que negais as ver­dades tran­scen­dentes, dai ao Con­cílio ao menos este lou­vor e recon­hecei este nos­so human­is­mo novo: tam­bém nós —  e nós mais do que ninguém somos cul­tores do homem. Paulo VI, 7.12.1965

este foi o pro­gra­ma, mais int­elec­tu­al que real… mas ago­ra, a cinquen­ta anos de dis­tân­cia, temos o dev­er de avaliar os êxi­tos desas­trosos!

Podemos pedir aos pas­tores da Igre­ja que con­sid­erem o cli­ma de morte reinante no mun­do católi­co? Here­sia, banal­i­dade heréti­ca, imoral­i­dade sis­temáti­ca, extinção de todo entu­si­as­mo, clero católi­co em via de extinção, lai­ciza­ção agnós­ti­ca do laica­to católi­co, abor­to nor­mal­iza­do, eutá­na­sia prat­i­ca­da de fato, união con­tra a natureza de fato abençoadas por uma Igre­ja que cala, desa­parec­i­men­to do matrimônio cristão, que­da de natal­i­dade assus­ta­do­ra, todo gênero de vício admi­ti­do e com­preen­di­do em nome de um human­is­mo reen­con­tra­do: eram estes os êxi­tos esper­a­dos pelos “cul­tores do homem”?

Podemos pedir aos legí­ti­mos pas­tores para olharem a real­i­dade e darem uma palavra que não seja o cuida­do por uma igre­ja enten­di­da como uma empre­sa a ser geri­da?

Parece que ouvi­mos as respostas de alguns deles, os mais “empen­hados”: “é muito cedo para jul­gar um fenô­meno tão com­plexo e recente”.

Sim, é a nova saí­da para sub­trair-se a uma ver­i­fi­cação, que no caso da nova igre­ja acabaria por ser sem dúvi­da impiedosa.

Fazem assim os pas­tores mod­er­nos, sim­i­lares aos agentes de cam­bio nos seus ofí­cios, mais políti­cos que crentes, dizem que não se pode ain­da dar um juí­zo, porque devem pas­sar sécu­los para uma ver­i­fi­cação séria! No entan­to, os cristãos mor­rem.

Os cristãos mor­rem, enquan­to os pas­tores estão pre­ocu­pa­dos pela unidade da dio­cese, isto quer diz­er que todos digam sim.… mas sim a que coisa, se não ao nada, vis­to que Cristo naqui­lo que pedem ou não se encon­tra ou se perdeu em mil med­i­tações?

Se obsti­naram os ino­vadores, que não amavam mais a Igre­ja como era porque não enten­di­am mais Cristo e a sua Graça — não enten­di­am e se ente­di­avam da vida católi­ca — se obsti­naram a pre­tender a mudança e con­vence­r­am os tími­dos “devo­tos”.

Ago­ra eles mes­mos inven­taram a her­menêu­ti­ca ecle­sial­mente enten­di­da, para sub­straírem-se ao juí­zo, àquele juí­zo que é a car­ac­terís­ti­ca do cristão: “O homem espir­i­tu­al jul­ga todas as coisas e não é jul­ga­do por ninguém” (I Cor 2,15)

Cav­al­gar­am a her­menêu­ti­ca e lhe der­am ares ecle­si­ais: “é a dis­tân­cia que cria sig­nifi­ca­do…” …para inter­pre­tar a refor­ma da Igre­ja é pre­ciso esper­ar sécu­los, só ago­ra começamos a enten­der Lutero, dizem com descara­men­to!

Ao invés dis­so nós ped­i­mos um juí­zo súbito, que par­ta da real­i­dade, que par­ta de Cristo. Deve­mos pre­tender a ver­i­fi­cação, sem esper­ar sécu­los porque, se somos cul­tores do homem, sabe­mos que o homem vive ape­nas de Cristo.

Deve­mos pre­tendê-la tudo isto para que as almas vivam da Graça e a Igre­ja torne a sua face div­ina, isto é humano.