O PRINCÍPIO DAS DORES: A HERMENÊUTICA DA DIVINO AFFLANTE SPIRITU


Apologética / quinta-feira, abril 11th, 2019

Mons. Francesco Spadafo­ra
EXTRATO
O TRIUNFO DO MODERNISMO
NA
EXEGESE CATÓLICA
Ed. Per­manên­cia
O Man­i­festo do Insti­tu­to Bíbli­co Pon­tif­i­cal

Fican­do assim resta­b­ele­ci­do o equi­líbrio entre os per­son­agens, passe­mos aos fatos.

Por vol­ta de 1950, os alunos do Insti­tu­to Bíbli­co começaram a traz­er para Mons. Romeo as «novi­dades» que lhes eram ensi­nadas por alguns jesuí­tas do antes glo­rioso Insti­tu­to, sobre a natureza da inspi­ração div­ina dos Livros Sagra­dos, não mais pes­soal mas cole­ti­va (?), com a inerrân­cia lim­i­ta­da às úni­cas pas­sagens con­cer­nentes ao dog­ma. Novi­dades estre­ita­mente lig­adas à aceitação dos últi­mos sis­temas racional­is­tas (Bult­mann-Dibelius) da For­mengeschichte e da Redak­tiongeschichte, fun­dadas sobre a negação da aut­en­ti­ci­dade e da his­to­ri­ci­dade dos Evan­gel­hos.

Alguns nomes: Leone Algisi (1948–1950) e Lui­gi Moral­di (1945–1948), que em segui­da aban­donaram a bati­na e o sac­erdó­cio, gabavam-se destas novi­dades, que — diziam eles — eram incul­cadas pelo próprio Pio XII na encícli­ca Divi­no Afflante Spir­i­tu (1943). Exata­mente o que dizem atual­mente Romano Pen­na e Gian­fran­co Ravasi, além de out­ros anti­gos alunos do Insti­tu­to Bíbli­co Pon­tif­i­cal. Ness­es anos, Mons. Romeo era reda­tor de Sagra­da Escrit­u­ra para a Enci­clo­pe­dia Cat­toli­ca. Con­fian­do a Mons. Spadafo­ra, pro­fes­sor em Latrão, o ver­bete Peca­do Orig­i­nal, ele lhe diz: «Os alunos do Insti­tu­to Bíbli­co me dizem que o padre Lyon­net tem sua exegese orig­i­nal para Romanos, V,12. Vá então ver­i­ficar um pouco». Spadafo­ra foi ao padre Lyon­net, seu com­pan­heiro de cur­so (1936–39), que lhe deu para ler seu tex­to sobre Rm V, 12, o tex­to fun­da­men­tal de São Paulo sobre a dout­ri­na do peca­do orig­i­nal.

Os anos pas­saram e a 3 de setem­bro de 1960, Alon­so Schökel S.J., em La Civil­ta Cat­toli­ca (págs. 449–460), em onze pági­nas de afir­mações gra­tu­itas, pre­tende jus­ti­ficar as «novi­dades» já ensi­nadas há muitos anos no Insti­tu­to Bíbli­co Pon­tif­i­cal, dan­do Pio XII como seu autor, na encícli­ca Divi­no Afflante Spir­i­tu, pos­ta em oposição a Prov­i­den­tis­simus Deus, de Leão XIII.

O Insti­tu­to Bíbli­co rev­ela­va assim seu «pro­gra­ma». Uma mudança rad­i­cal con­tra todas as dire­ti­vas dadas pelo Mag­istério sobre a exegese católi­ca (Leão XIII, São Pio X, Ben­to XV) e con­fir­madas por Pio XII na Divi­no Afflante Spir­i­tu e em segui­da com Humani Gener­is, em 1950. Os jesuí­tas do antes glo­rioso Insti­tu­to abraçavam os dois últi­mos méto­dos racional­is­tas em voga e pre­tendi­am atribuir esta mudança a Pio XII, inter­pre­tan­do a seu modo a Divi­no Afflante Spir­i­tu e igno­ran­do com­ple­ta­mente Humani Gener­is. A ciên­cia bíbli­ca tor­na­va-se pura­mente filológ­i­ca e históri­ca; pon­do-se de lado todo princí­pio dog­máti­co, o muro que sep­a­r­a­va os católi­cos dos protes­tantes racional­is­tas foi der­ruba­do, e toda difer­ença elim­i­na­da.

A Reação Católi­ca

A reação dos exege­tas romanos se con­cretizou no estu­do criti­co e eru­di­to de Mons. Romeo, L’En­ci­cli­ca Divi­no Aft­lante Spir­i­tu et les Opin­iones Novae, em Divini­tas 4 (1966) págs.378– 456. «Hoje — escrevia Mons. Romeo — a dezes­sete anos de dis­tân­cia [da encícli­ca Divi­no Afflante Spir­i­tu], depois da morte do grande Pio XII, o padre Alon­so nos dá a notí­cia de uma mudança. de uma trans­for­mação, de uma novi­dade intro­duzi­da pela Divi­no Afflante Spir­i­tu, “capaz de abrir um largo cam­in­ho novo” … Não se acha nada — per­gun­ta­va Mons.Romeo — nos suces­sivos doc­u­men­tos de Pio XII e de João XXIII.… nada que evoque, nem de longe, uma mudança, uma novi­dade. uma aber­tu­ra de por­tas, novas liber­dades con­ce­di­das pelo Mag­istério supre­mo em 1943?»

Este era o tema cen­tral, dire­to, do arti­go de Mons. Romeo: a demon­stração da con­tinuidade har­môni­ca do Mag­istério Supre­mo sobre a questão, através do exame dos doc­u­men­tos, a começar por Humani Gener­is (1950) do próprio Pio XII. E ele pro­duz­iu então o teste­munho autor­iza­do, de primeira mão, que se pode­ria qual­i­ficar de «ofi­cial»: o pre­ciso comen­tário do cardeal Agosti­no Bea, que era então Reitor do Insti­tu­to Bíbli­co Pon­tif­i­cal, à encícli­ca Divi­no Afflante Spir­i­tu, que apare­ceu na La Civil­ta Cat­toli­ca 94 (1943-IV) 212–224. Comen­tário com­ple­ta­mente igno­ra­do pelo padre Alon­so.

Em con­clusão Mons.Romeo escrevia: «Não há então nada, nem mes­mo um indí­cio no Encícli­ca … nem mes­mo no comen­tário autor­iza­do [ao que tudo indi­ca real­mente «autor­iza­do»: o padre Bea era con­sul­tor do San­to Ofi­cio e con­fes­sor de Pio XII] do Cardeal Bea, que pos­sa jus­ti­ficar a opinião, ati­va­mente pos­ta em cir­cu­lação … de que a admiráv­el Encícli­ca rompia com as dire­ti­vas prece­dentes do Mag­istério Supre­mo, para imprim­ir uma nova ori­en­tação à exegese católi­ca.

De qual­quer modo, é cer­to para quem lê a encícli­ca Divi­no Afflante Spir­i­tu, e se toma ain­da mais claro para quem acres­cen­ta o estu­do da encícli­ca Humani Gener­is, que a encícli­ca bíbli­ca do grande Pio XII se adap­ta per­feita­mente à Prov­i­den­tis­simus, que ele con­fir­ma, alarga e expli­ca em diver­sos pon­tos; e através da Prov­i­den­tis­simus esta­b­ele­ce­mos um elo com os princí­pios e as nor­mas da tradição con­stante sobre o cul­to da palavra de Deus através do tra­bal­ho exegéti­co árduo e aus­tero».

Até aqui Spadafo­ra não inter­viera. O próprio Insti­tu­to Bíbli­co Pon­tif­i­cal o jogou na polêmi­ca pela reação des­or­de­na­da ao arti­go doc­u­men­ta­do de Mons. Romeo. O moti­vo? Neste mes­mo ano, no segun­do número de Divini­tas (1960) págs. 289–298, Spadafo­ra havia pub­li­ca­do o arti­go Rm. V, 12: Exegese e reflexões dog­máti­cas. O arti­go havia sido pedi­do por sua Excelên­cia Mons.Parente, asses­sor do San­to Ofi­cio, como respos­ta ao arti­go do Pe. Stanis­las Lyon­net S.J.: Le péché orig­inel et l’exégèse de Rm. V, 12, em Recherch­es de Sci­ence Religieuse 44 (1956) págs. 63–84. Como já foi dito, Spadafo­ra havia exam­i­na­do este tex­to alguns anos antes e, devolvendo‑o ao padre Lyon­net, havia feito notar que a exegese pro­pos­ta não era sus­ten­táv­el por ser inc­on­cil­iáv­el com a dout­ri­na católi­ca. Ten­do rece­bido como respos­ta um sim­ples sinal de cabeça, como um «está bem», ele pen­sou que seu cole­ga não o pub­li­caria mais. Isso se deu em 1951; entre­tan­to, o arti­go foi pub­li­ca­do em 1956.

Em respos­ta ao pedi­do do cardeal Par­ente, mon­sen­hor Spadafo­ra refutou pon­to por pon­to os argu­men­tos do jesuí­ta Lyon­net, para sus­ten­tar que Rm. V, 12: «A morte pas­sou para todos os home­ns, porque todos pecaram», não deve ser enten­di­do como uma sus­ten­tação do peca­do orig­i­nal, mas que «todos pecaram» imi­tan­do o «peca­do de Adão»; tra­ta-se por­tan­to de peca­dos pes­soais, ai onde o con­tex­to (V,12–20) ates­ta clara­mente: «pelo erro de somente um … todos foram feitos pecadores»… Mas havia algu­ma coisa de ain­da mais grave nas novi­dades de Lyon­net: o sig­nifi­ca­do da Rm. V, 12 foi definido solen­e­mente pelo con­cílio de Tren­to, em dois cânones sobre o peca­do orig­i­nal.

Por causa des­ta refu­tação, porque Spadafo­ra havia defen­di­do a dout­ri­na católi­ca, o reitor do Insti­tu­to Bíbli­co Pon­tif­i­cal asso­ciou Romeo e Spadafo­ra na sua con­de­nação, e mostra­va o dedo a eles como inimi­gos do estu­do cien­tí­fi­co e calu­ni­adores do Insti­tu­to Bíbli­co. Mas tan­to Mons.Romeo como Mons. Spadafo­ra eram con­heci­dos na Itália e no estrangeiro por seus estu­dos cien­tí­fi­cos. Não é difí­cil com­preen­der, assim, que a reação dos jesuí­tas do Insti­tu­to Bíbli­co ultra­pas­sasse os lim­ites.

O San­to Ofi­cio inter­veio e impôs silên­cio às partes, que foram con­vi­dadas a apre­sen­tar seus argu­men­tos, para que pudesse dar seu jul­ga­men­to sobre a questão. Depois de obter as infor­mações necessárias, escu­tar as partes, em par­tic­u­lar os próprios jesuí­tas Lyon­net e Zer­wick acer­ca das novi­dades que ensi­navam a seus alunos, sobre a inspi­ração, a inerrân­cia, a aut­en­ti­ci­dade e a his­to­ri­ci­dade dos Evan­gel­hos, o San­to Ofi­cio sus­pendeu suas aulas e os afas­tou de Roma.

Depois, em 20 de jun­ho de 1961, a Con­gre­gação Supre­ma do San­to Ofi­cio pub­li­cou para a defe­sa par­tic­u­lar da his­to­ri­ci­dade dos Evan­gel­hos canôni­cos, o Moni­tum seguinte:

«Uma vez que o estu­do das dis­ci­plinas bíbli­cas se desen­volve ati­va­mente, jul­ga­men­tos e opiniões cir­cu­lam em diver­sas regiões e põem em peri­go a ver­dade históri­ca e obje­ti­va da Sagra­da Escrit­u­ra, não somente do Anti­go Tes­ta­men­to (como o Sober­a­no Pon­tí­fice Pio XII já deplor­ou na encícli­ca Humani Gener­is, conf A.A.S.) mas ain­da no Novo Tes­ta­men­to e até no que con­cerne às palavras e aos atos de Cristo Jesus. Como tais jul­ga­men­tos e opiniões pre­ocu­pam viva­mente (anx­ios faciant) tan­to aos pas­tores como aos fiéis, os emi­nen­tís­si­mos Padres nomea­d­os para a defe­sa da doutri­no da fé e da moral sen­ti­ram dev­er adver­tir a todos aque­les que tratam da Sagra­da Escrit­u­ra. tan­to por escrito como oral­mente. que tratem uma questão tão grave com o respeito que lhe é dev­i­do e que ten­ham sem­pre pre­sente diante dos olhos a dout­ri­na dos Padres, o sen­ti­men­to da Igre­ja, assim como o do Mag­istério, afim de que a con­sciên­cia dos fiéis não seja per­tur­ba­da e que as ver­dades da fé não sejam ofen­di­das.

N .B.: Esta advertên­cia é pub­li­ca­da com a aprovação dos emi­nen­tís­si­mos Padres da Comis­são Bíbli­ca Pon­tif­i­cal.

Triste, mas Ver­dadeiro

A medi­da con­tra os jesuí­tas Lyon­net e Zer­wick e a «Advertên­cia» do San­to Ofi­cio dev­e­ri­am ter var­ri­do toda inter­pre­tação mod­ernista da encícli­ca Divi­no Afflante Spir­i­tu e dado um golpe mor­tal nas aber­turas em cur­so para a vol­ta das protes­tantes «história das for­mas» e «história da redação», que partem jus­ta­mente da negação da «ver­dade históri­ca e obje­ti­va» das palavras e dos atos de Jesus Cristo. Mas, pelo con­trário, o con­cílio, o pon­tif­i­ca­do de Paulo VI e o pós-con­cílio, imprim­i­ram uma mudança total de rumo dan­do-lhe um sen­ti­do mod­ernista. As «opin­iones novae» com­bat­i­das por Mons. Romeo e Mons. Spadafo­ra hoje ocu­pam o ter­reno, como o demon­stra o arti­go de Ravasi. É triste, mas ver­dadeiro: a exegese católi­ca foi enter­ra­da por este mes­mo Insti­tu­to Bíbli­co Pon­tif­i­cal, que os Pon­tí­fices romanos havi­am orga­ni­za­do para com­bat­er o mod­ernismo no domínio bíbli­co.

É o tri­un­fo da traição e do erro, ten­do como con­se­qüên­cia uma grande per­tur­bação para as con­sciên­cias e uma grande ofen­sa às ver­dades da fé, como havia adver­tido o San­to Ofi­cio, de pleno acor­do com a Comis­são Pon­tif­i­cal Bíbli­ca. A Igre­ja é div­ina e «as por­tas do infer­no não prevale­cerão». A cada um dos fil­hos da Igre­ja cabe, pelo menos, o dev­er de denun­ciar infati­gavel­mente a traição e dar teste­munho da Ver­dade. É o que nos propo­mos faz­er, na medi­da do pos­sív­el, numa série de arti­gos sobre este assun­to.

Paulus

(Revista Sim Sim Não Não n°23, dezem­bro de 1994)