FRANCESCO LAMENDOLA: ROGER SCRUTON E A INVENÇÃO DA OICOFOBIA (MEDO DE CASA)


Atualidades / quarta-feira, maio 1st, 2019
Roger Scru­ton:
O filó­so­fo que inven­tou a oico­fo­bia
Francesco Lamen­dola
Accad­e­mia Nuo­va Italia
Tradução: Ged­er­son Fal­cometa

Mas o que é a oico­fo­bia? Em psiquiá­tria a oico­fo­bia é uma aver­são para com o ambi­ente domés­ti­co. Pode tam­bém ser usa­do mais geral­mente para indicar um medo anor­mal (uma fobia) da casa ou do seu con­teú­do, o ter­mo deri­va da palavra gre­ga oikos, que sig­nifi­ca família, casa ou lar, e fobia, que sig­nifi­ca “medo”. Em 1808 o poeta e ensaista Robert Southey usou a palara para descr­ev­er um dese­jo (em par­tic­u­lar dos ingle­ses) de deixar a casa e via­jar. O uso de Southey como sinôn­i­mo de won­der­lust foi recol­hi­do por out­ros escritores do sécu­lo dezen­ove. O ter­mo foi usa­do tam­bém em con­tex­tos políti­cos para referir-se criti­ca­mente a ide­olo­gias políti­cas que repu­di­am a própria cul­tura e lou­vam os out­ros. A primeira uti­liza­ção deste tipo foi escri­ta por Roger Scru­ton em um livro de 2004.

 Uso psquiátri­co

No uso psiquiátri­co, a oiko­fo­bia se ref­ere tipi­ca­mente ao medo do espaço físi­co do inte­ri­or domés­ti­co e é par­tic­u­lar­mente lig­a­do ao medo de eletrodomés­ti­cos, ban­heiros, apar­el­hos elétri­cos e out­ros aspec­tos da casa perce­bidos como poten­cial­mente perigosos. O ter­mo é cor­re­ta­mente apli­ca­do só ao medo de obe­tos do inte­ri­or da casa. O medo da própria casa é definido domato­fo­bia. Na era pós Segun­da Guer­ra Mundi­al alguns comen­ta­dores usaram o ter­mo para referir-se a um pre­sum­i­do “medo e aver­são pelos afaz­eres domés­ti­cos” vivi­dos por mul­heres que tra­bal­ham fora de casa e que eram atraí­das por esti­lo de vida con­sum­ista.

 Uso de Southey

Southey usou o ter­mo em Car­tas da Inglater­ra (1808), afir­man­do que se trata­va de um pro­du­to de “um cer­to esta­do de civ­i­liza­ção ou luxo’, referindo-se ao hábito das pes­soas abas­tadas de vis­i­tar as cidades ter­mais e as local­i­dades bal­neárias nos meses estivos. Ele men­ciona tam­bém a moda por via­gens pitorescas para pais­agens sel­vagens, como as mon­tan­has escoce­sas. A lig­ação que Southey faz da oiko­fo­bia com a riqueza e a bus­ca por novas exper­iên­cias foi toma­da por out­ros escritores e cita­da em dicionários. Um escritor de 1829 pub­li­cou um ensaio sobre sua exper­iên­cia teste­munhan­do as con­se­quên­cias da Batal­ha de Water­loo, dizen­do “o amor pela loco­moção é tão nat­ur­al para um inglês que nada pode prendê-lo em casa, mas a abso­lu­ta impos­si­bil­i­dade de viv­er no exte­ri­or. Nen­hu­ma neces­si­dade tão impe­riosa que age sobre mim, cedi a min­ha oiko-fobia e no verão de 1815 me encon­trei eu em Brux­e­las”. Em 1959 o autor-egipcío Both­aina Abd el-Hamid Mohamed usou o con­ceito de Southey no seu livro Oiko­pho­bia: ou, Uma mania literária para a edu­cação através das via­gens.

Uso políti­co: Roger Scru­ton

No seu livro de 2004 A Inglater­ra e a neces­si­dade das nações, o filó­so­fo con­ser­vador britâni­co Roger Scru­ton adap­tou o ter­mo “o repú­dio da her­ança e da casa”. Sus­ten­tou que é “um esta­do através do qual a mente do ado­les­cente nor­mal­mente pas­sa”, mas que é tam­bém uma car­ac­terís­ti­ca de ape­nas alguns e tipi­ca­mente de esquer­da. E são impul­sos políti­cos e ide­ológi­cos que se esposam com a xenofil­ia, isto é, a prefer­ên­cia pelas out­ras cul­turas alien­as a sua. Dis­to Scru­ton usa o ter­mo como antítese da xeno­fo­bia.

No seu livro, Roger Scru­ton: Philoso­pher su Dover Beach, Mark Doo­ley descreve a oiko­fo­bia como cen­tra­da no inte­ri­or do estab­lish­ment acadêmi­co oci­den­tal sobre “seja a cul­tura comum do Oci­dente, seja no vel­ho cur­ricu­lum educa­ti­vo que bus­ca­va trans­mi­tir os seus val­ores humanos”. Esta dis­posição cresceu, por exem­p­lo, nos escritos de Jacques Der­ri­da e no assalto de Michel Fou­cault a sociedade bur­gue­sa resul­tan­do em uma “anti-cul­tura” que tomou como alvo o sagra­do, con­de­nan­do, repu­dian­do e con­sideran­do-lhes opres­sivos e plenos de poder.

Der­ri­da é um oiko­fobo clás­si­co na medi­da em que repú­dia a bra­ma de casas que as tradições teológ­i­cas, legais e literárias oci­den­tais sat­is­fazem. A decon­strução de Der­ri­da bus­ca blo­quear o per­cursso para esta “exper­iên­cia fun­da­men­tal” de per­tenci­men­to, preferindo ao invés uma existên­cia sem raízes fun­da­da “sobre o nada”.

Uma extrema aver­são pelo sagra­do e o con­trastar a conexão do sagra­do com a cul­tura do oci­dente que é descrito como o moti­vo de fun­do da oiko­fo­bia; e não a sub­sti­tu­ição do cris­tian­is­mo com um out­ro coer­ente sis­tema de crenças. O para­doxo da oiko­fo­bia parece ser que qual­quer oposição dirigi­da a tradição teológ­i­ca e cul­tur­al do Oci­dente deve ser enco­ra­ja­da tam­bém se é “sig­nifi­ca­mente mais paro­quial, exclu­sivista, patri­ar­cal e etnocên­tri­ca”. Scru­ton descreveuuma for­ma crôni­ca de oiko­fo­bia [que] se difundiu através da uni­ver­si­dade amer­i­cana, nas vestes do polit­i­cal­ly cor­rect”.

 O uso de Scru­ton foi retoma­do por alguns comen­ta­dores políti­cos amer­i­canos para referir-se àqui­lo que vêem como uma rejeição da tradição cul­tur­al amer­i­cana por parte da élite lib­er­al. Em agos­to de 2010, James Taran­to escreveu uma rúbri­ca no Wall Street Jour­nal inti­t­u­la­da “Oiko­fo­bia: porque a élite lib­er­al con­sid­era revoltantes os amer­i­canos”, em que crit­i­ca­va os sus­ten­ta­dores do pro­pos­to cen­tro islâmi­co em New York como oiko­fobes que defendia os muçul­manos que miravam, em suas palavras, a “explo­ração das atro­ci­dades de 11 de setem­bro”. Nos País­es Baixos, o ter­mo oiko­fo­bia foi ado­ta­do pelo políti­co e escritor Thier­ry Baudet, que descreve no seu livro, Oiko­fo­bia: O medo de casa.
Accad­e­mia Nuo­va Italia