LA CIVILTÀ CATTOLICA: O MODERNISMO CRÍTICOCOMENTÁRIO A PASCENDI DOMINICI GREGIS


Teologia / segunda-feira, agosto 26th, 2019
La Civiltà Cat­toli­ca
Roma 1908
Tradução: Ged­er­son Fal­cometa

A críti­ca está na boca de todos: é o méri­to da idade mod­er­na. E se fos­se méri­to sin­cero, have­ria razão para apre­cia-la: a críti­ca ver­dadeira é o exame glo­rioso da ver­dade, seja cien­tí­fi­ca ou reli­giosa. Mas muitas vezes é méri­to fal­so: e a críti­ca fal­sa, ou mel­hor, o vão nome de críti­ca, é então pálio de todos os erros, escu­do e sal­vo-con­du­to de todas as insip­iên­cias das mentes trans­vi­adas.

Isto se ver­i­fi­ca com a mais triste evidên­cia no mod­ernismo. Esse da críti­ca não só tra­ma o orgul­ho, mas se arro­ga por pouco o seu monopólio; fal­sa­mente, como em todo o restante, como no van­glo­ri­ar que se dá de filosó­fi­co, de teológi­co, de mís­ti­co ou de apologéti­co, segun­do demon­stramos nos prece­dentes arti­gos [1]. Para que da críti­ca em qual­quer sig­nifi­ca­do que se enten­da, em qual­quer parte do con­hecív­el que se con­sidere, o mod­ernismo não tem out­ra coisa que ilusão e impos­tu­ra.  E isto pre­cisa­mente se quer aqui provar sucin­ta­mente, para dar, em poucos tratos ao menos, a sín­tese con­jun­ta e a críti­ca do mod­ernismo críti­co.

I.

«A palavra críti­ca sig­nifi­ca juí­zo, dis­cern­i­men­to, exame, arte de jul­gar. No tem­po pre­sente se entende por «críti­ca» o exame racional das obras da mente humana. A críti­ca é uma arte mais que uma ciên­cia. Essa supõe não somente um con­hec­i­men­to sufi­ciente do sujeito a que se apli­ca, mas a exper­iên­cia das coisas que tra­ta de jul­gar, e se assim pode se diz­er, o mane­jo dos obje­tos que se tra­ta de apre­ciar em si mes­mos e de se com­parar entre eles… Um críti­co não tem neces­si­dade de gênio; mas tem neces­si­dade de ter olhos, juí­zo, tato, isto é, sagaci­dade, e de aper­feiçoar com o uso ess­es dons nat­u­rais.»

Tais palavras não são nos­sas, são de Alfre­do Loisy; que assim fala­va até 1889 na sua lição de aber­tu­ra do cur­so de Escrit­u­ra Sacra na fac­ul­dade de teolo­gia de Paris [2]. Mas ele falan­do assim pro­nun­ci­a­va, sem quer­er, a sua con­de­nação e de seus fau­tores, a con­de­nação dos erros e dos méto­dos que depois teve o nome com­plexo e genéri­co de mod­ernismo. E já quan­to a críti­ca dos Evan­gel­hos se demon­strou sufi­cien­te­mente nos dois prece­dentes arti­gos [3], como antes em uma espe­cial trata­ti­va sobre o cris­tian­is­mo de A. Loisy [4]. Aqui con­sid­er­amos a críti­ca mod­ernista mais geral­mente, seja do pon­to práti­co, seja do lado mais pro­pri­a­mente espec­u­la­ti­vo ou doutri­nal.

E começan­do da práti­ca – a saber de fatos que caem sob a exper­iên­cia de cada um e que nen­hum dos mod­ernistas podem negar – quem lhes con­sidere não tão par­tida­mente, mas no seu com­plexo, dev­erá per­suadir-se como na nova esco­la, e por méri­to dessa tam­bém em parte entre os jovens filo católi­cos, não se bus­ca­va mais o uso de críti­ca nen­hu­ma das partes aci­ma men­cionadas, e menos que todas, colo­car o raciocínio, o con­hec­i­men­to do sujeito, a exper­iên­cia e o lon­go uso da matéria, não só o fim intuí­do e a com­preen­são nat­ur­al aper­feiçoa­da pelo estu­do. Se bus­ca­va ao con­trário liber­dade, ousa­dia e novi­dade; onde era necessário a seguir-lhe a fácil e per­ni­ciosa, bem que de vez em quan­do genial, super­fi­cial­i­dade, cober­ta em vão pela com­plexa e inde­ter­mi­na­da exten­são do obje­to; já que, afir­ma­va o Loisy, «o obje­to da críti­ca é tão exten­so quan­to a ativi­dade humana» [5].

Antes ele tam­bém devia enten­der da mente div­ina. Cer­to, as coisas div­inas que igual­mente às humanas se trans­fe­ria esta nova críti­ca, tan­to mais audaz quan­to menos fun­da­da: se esten­dia aos livros divi­nos, sem reser­va, a div­ina rev­e­lação, ao dog­ma, a fé, não menos que a sis­temas filosó­fi­cos e teológi­cos em que se mostre ativi­dade de mente humana; se bem que mais par­tic­u­lar­mente se voltasse aos fatos que são de domínio próprio da história.

A exten­são do obje­to aparece em segui­da imen­sa, infini­ta: dito a muitos as arestas como se novos hor­i­zontes se abris­sem por toda parte ao pen­sa­men­to humano; enquan­to para muitos aqui­lo era uma vã miragem, que quan­to mostra­va de faz­er gan­har em exten­são e var­iedade de ciên­cia, tan­to fazia perder em com­preen­são e pro­fun­di­dade.

Do que não poderá haver dúvi­da, lhe somos cer­tos, qual­quer um com seriedade de entendi­men­to e com qual­quer preparação cien­tí­fi­ca, ten­ha dev­i­do per­cor­rer as revis­tas mais ou menos católi­cas, mais ou menos ecle­siás­ti­cas, feitas, nestes últi­mos anos, na Itália e em out­ros lugares propa­gadores da nova cul­tura, mes­mo quan­do trazi­am o títu­lo de críti­cas e históri­c­as. Todo, ou quase todo, tra­bal­ho da sua críti­ca está no se assim­i­lar, tumul­tuada­mente e em des­or­dem, e depois desse modo expos­to em for­mas per­sua­si­vas e cober­tas, as con­clusões alheias mais audazes, par­tic­u­lar­mente aque­las dos protes­tantes lib­erais ou racional­is­tas [6], sem nen­hu­ma ver­i­fi­cação ou «exame racional», no qual tam­bém dev­e­ria estar a críti­ca, segun­do o próprio Alfred Loisy.

Daqui vem sem­pre mais expos­ta a luz a dupla causa, assi­nal­a­da pela encícli­ca, da voga que vem obten­do uma críti­ca de tal gênero entre católi­cos: «primeiro é a aliança ínti­ma que há entre os his­to­ri­adores e críti­cos desse gênero, não obstante qual­quer diver­si­dade de nacional­i­dade ou de crenças; o out­ro é a incrív­el audá­cia com que, qual­quer par­voíce que algum deles diga, é pelos out­ros sub­li­ma­da e decanta­da como pro­gres­so da ciên­cia; se alguém o negar leva a pecha de igno­rante; se, porém, o aceitar e defend­er, será cober­to de lou­vores. Dis­to se segue que não poucos ficam engana­dos; entre­tan­to, se mel­hor con­sid­erassem as coisas, ficari­am, ao con­trário, hor­ror­iza­dos».

Até aqui a encícli­ca, desnudan­do a con­tradição do mod­ernismo críti­co, o qual, enquan­to se gaba a cada pas­so de obje­tivi­dade e de serenidade, se mostra a ensi­nar sem­pre a paixão pela novi­dade e sin­gu­lar­i­dade, desvi­a­do nos seus juí­zos daque­la aliança, não expres­sa cer­ta­mente, mas implíci­ta, que é fru­to de sim­pa­tia int­elec­tu­al. Se faz ver­dadeiro em suma na nova críti­ca em gênero, aqui­lo que da críti­ca bíbli­ca em espé­cie deplo­ra­va tão acu­rada­mente S. Jerôn­i­mo, escreven­do a Pauli­no para adver­ti-lo de não se aven­tu­rar dessa maneira soz­in­ho e rap­i­da­mente no grande péla­go dos estu­dos escrit­u­rais: «Só a arte das Escrit­uras é aque­la que todos indis­tin­ta­mente se arrogam… Des­ta… se van­glo­ri­am todos, estragam e a ensi­nam antes de tê-la apren­di­do. Out­ros com alti­vas sobrancel­has, moem grandiosas palavras, filoso­fam sobre Escrit­uras sacras entre as mul­herz­in­has. Out­ros ain­da, oh ver­gonha!, das mul­herz­in­has apren­dem aqui­lo que depois ensi­nam aos home­ns; e como se isto fos­se pouco, com grande facil­i­dade de palavras, antes com audá­cia, expli­cam aos out­ros aqui­lo que eles mes­mos não enten­dem» [7]. E assim neste tre­cho con­tin­ua o san­to Doutor, com uma bem copiosa ampli­fi­cação a qual grá­fi­ca evidên­cia é tão viva e escal­dante para os nos­sos dias, que renun­ci­am a lhes mostrar as práti­cas e pes­soais apli­cações. Estes extin­guiram muito em alguns escritores – que da autori­dade de S. Jerôn­i­mo e de S. Agostin­ho amam faz­er escu­do – «a ale­gria e admi­ração pela sua per­pé­tua mod­ernidade» [8]; já que muitos vivaz­mente con­fir­maram aque­las out­ras palavras amar­gas da encícli­ca: «Infe­liz­mente os nos­sos Doutores não ansiaram pelo estu­do das Escrit­uras com aque­les meios, onde são for­ma­dos os mod­ernistas! »…

Mas já é claro per sè e patente que do fal­so con­ceito e do con­se­quente abu­so da críti­ca, isto é, diz­er com a encícli­ca «deste pre­po­tente impor-se dos desvi­a­dos, deste incau­to assen­ti­men­to de âni­mos levianos nasce em segui­da quase um cor­rompi­men­to da atmos­fera que tudo pen­e­tra, e difunde para todos o con­tá­gio».

Con­tin­ua…

Notas:

[1] Ver La Civ. Catt1907. 4. 257; 538. 1908. 1. 19. 146; 2. 170. 385. 547.

[2] Études Bibliques, Paris, Picard, 1903, p. 98 s.

[3] Ver cad. 1391, 1392: Alfre­do Loisy e la crit­i­ca degli Evan­geli.

[4] Edi­ta­da em parte, com nome do autor, o lamen­to do P. Eug. Poli­dori: La nuo­va apolo­gia del cris­tianes­i­mo, 2ª ediz. Roma, 1905.

[5] Études Bibliques, p. 99.

[6] Dis­to nós temos ouvi­do, ou não é muito, que fazi­am mar­avil­has tam­bém os pro­fes­sores lei­gos de uni­ver­si­dades ital­ianas, a propósi­to da extrema desen­voltura onde Padres católi­cos con­tin­u­am essa obra de vul­gar­iza­ção, como, por exem­p­lo, o Mari fez por respeito a obra de Har­nack, como o Ermoni e antes dele o pseudôn­i­mo Gutope a respeito de out­ros estu­dos racional­is­tas nos­sos e estrangeiros.

[7] Hieron., Ep. LIII (al. CIII), ap. Migne, Patr. lat. XXII, 544: «Sola Scrip­turarum ars est quam sibi omnes vin­di­cant… Hanc gar­ru­la anus, hanc delirus senex, hanc sophista ver­bo­sus, hanc uni­ver­si prae­sumunt, lac­er­ant, docent, ante­quam dis­cant. Alii adduc­to super­cilio, grandia ver­ba truti­nantes, inter mulier­cu­las de sac­ris lit­teris philoso­phan­tur. Alii dis­cunt, proh pudor, a fem­in­is quod viros doceant,….. et ne parum hoc sit, quadam facil­i­tate ver­bo­rum, imo auda­cia edis­serunt ali­is quod ipsi non intel­li­gunt

[8] Cf. Civ. Catt. 1906, vol. III, p. 271 (La nuo­va cul­tura del clero).