CARDEAL GIUSEPPE SIRI: A RELAÇÃO ENTRE O NATURAL E O SOBRENATURAL EM JACQUES MARITAIN


Teologia / segunda-feira, agosto 26th, 2019

Extraí­do do livro:
Get­se­mani
Reflexões sobre o Movi­men­to
Teológi­co Con­tem­porâ­neo
Cardeal Giuseppe Siri
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

Um filó­so­fo que no mes­mo perío­do, isto é, des­de os anos 30, influ­en­ciou muito a for­mação das tendên­cias con­tem­porâneas, seja filosó­fi­ca ou teo­logi­ca­mente, foi Jacques Mar­i­tain [1]. Em todo o seu pen­sa­men­to, não só bus­cou assim­i­lar a ordem nat­ur­al na sobre­nat­ur­al, mas ao con­trário, lhes sep­a­rou de tal modo que recon­hece na cri­ação e na história humana duas vocações dis­tin­tas, lig­adas cer­ta­mente por um princí­pio de sub­or­di­nação, mas essen­cial­mente autôno­mas, com fins e meios próprios: a vocação e a mis­são ter­restre, e a vocação sobre­nat­ur­al.

Se alguém quisesse tomar con­sciên­cia e col­her ime­di­ata­mente – se pode diz­er – a car­ac­terís­ti­ca do pen­sa­men­to de Mar­i­tains acer­ca da autono­mia das duas vocações dis­tin­tas, bas­taria que lesse a últi­ma frase do seu livro «Human­isme Inté­gral», pub­li­ca­do em 1936, e que con­sti­tuí a refer­ên­cia fun­da­men­tal de algu­mas tendên­cias teológ­i­cas e tam­bém da ação tem­po­ral e políti­ca em muitos ambi­entes cristãos:

«Os mun­dos que sur­gi­ram no heroís­mo, se põe na fadi­ga, afim de que ven­ha por sua vez novos heroís­mos e novos sofri­men­tos que farão sur­gir out­ros mun­dos. A história humana cresce assim, porque não se tem nis­to um proces­so de repetição, mas de expan­são e de pro­gres­so; cresce, como uma esfera de expan­são, aprox­i­man­do-se jun­to a sua dupla con­sumação: no abso­lu­to aqui embaixo, onde o homem é deus sem Deus, e no abso­lu­to do alto, onde é deus em Deus» [2].

Estes dois abso­lu­tos con­stituem uma espé­cie de ínti­mo seg­re­do de todo o pen­sa­men­to de Mar­i­tain e, se pode­ria diz­er, tam­bém de toda a sua sen­si­bil­i­dade. Eles estão na base de todos os seus escritos, são o leit­mov e o pris­ma fun­da­men­tal através do qual se vê todas as coisas, das menores as maiores.

Jáem 1927, no seu livro «Pri­mauté du Spir­ituel», afir­ma em muitos mod­os que:

«Cada um de nós per­tence a duas cidades, uma cidade ter­restre que tem como fim o bem comum tem­po­ral e a cidade uni­ver­sal da Igre­ja que tem como fim a vida eter­na».

E, referindo-se a uma frase de Eti­enne de Tour­nai, especí­fi­ca:

«No mes­mo cír­cu­lo e na mes­ma mul­ti­dão humana exis­tem dois povos, e estes dois povos sus­ci­tam duas vias dis­tin­tas, dois prin­ci­pa­dos, uma duplíce ordem jurídi­ca» [3]

No «Human­is­mo inte­gral», Mar­i­tain exprime mais difusa­mente a sua visão da Cri­ação e da real­i­dade do mun­do espir­i­tu­al. Nesse a dout­ri­na da dis­tinção e do caráter autônomo da ordem tem­po­ral e da ordem espir­i­tu­al foi expos­ta com uma vas­ta per­spec­ti­va de apli­cação na ação em vista de «um ide­al históri­co con­cre­to de uma nova cri­stan­dade», isto é «uma imagem em per­spec­ti­va sig­nif­i­can­do o tipo par­tic­u­lar, o tipo especí­fi­co de uma civ­i­liza­ção a qual tende uma dada idade históri­ca» [4]. E sem­pre através deste princí­pio de autôno­mia das ordens, ini­cial ou adquiri­da, entreve o cam­in­ho do mun­do:

«Em vir­tude de um proces­so de difer­en­ci­ação nor­mal em si mes­mo (bem que vici­a­do pelas mais fal­sas ide­olo­gias) a ordem pro­fana ou tem­po­ral, no cur­so dos tem­pos mod­er­nos, se con­sti­tu­iu nos con­fron­tos da ordem espir­i­tu­al ou sacra em uma relação de tal autono­mia a excluir de fato a instru­men­tal­i­dade. Em out­ros ter­mos chegou a sua maior idade. E isto é mais uma vez um gan­ho históri­co que uma nova cri­stan­dade deve con­ser­var» [5]

No declínio da sua vida, com os seus dois livros: «Le Paysan de la Garonne» (1966) e «De l’Eglise du Christ» (1970), Mar­i­tain quis apre­sen­tar a grande crise doutri­nal e moral do mun­do e da Igre­ja. Quis tam­bém denun­ciar os «abu­sos» de cer­tos con­ceitos, de cer­tas fór­mu­las como por exem­p­lo a expressão «per­son­al­ista e comu­nitário» uti­liza­da por Emmanuel Mounier, o fun­dador da revista «Esprit»:

«Graças sobre­tu­do a Emmanuel Mounier – escreve – a expressão ‘per­son­al­ista e comu­nitário’ se tornou um refrão para o pen­sa­men­to católi­co. Eu mes­mo dis­to não estou isen­to de algu­ma respon­s­abil­i­dade…. Pen­so que Mounier a ten­ha toma­do de mim. Ela é jus­ta, mas ven­do o uso que se lhe faz ago­ra, não lhe estou muito orgul­hoso». [6]

Emb­o­ra dese­jan­do fun­da­men­tal­mente uma unidade mais pro­fun­da, Mar­i­tain per­manece sem­pre, ape­sar de tudo, impreg­na­do des­ta visão ger­al de dis­tinção e autono­mia. Bas­ta para isto ver no pre­fá­cio do seu últi­mo livro «De l’Eglise du Christ», com qual pre­ocu­pação e qual per­se­ver­ança ele apli­ca em defend­er a autono­mia da filosofia em relação a teolo­gia, man­i­fe­s­tando a mes­ma pre­ocu­pação que tin­ha vinte anos antes quan­do escrevia:

«O filó­so­fo terá con­ta das con­tribuições da ciên­cia teológ­i­ca, sem ces­sar por isso de ser filó­so­fo (se ver­dadeira­mente filó­so­fo, então o será mais que nun­ca) requeren­do, porém, as fontes de infor­mações dig­nas de fé o suple­men­to da infor­mação de que tem neces­si­dade». [7]

Não é este o lugar para falar mais pro­fun­da­mente e mais detal­hada­mente da impli­cação de toda a obra de Mar­i­tain, e de toda a influên­cia que teve na teolo­gia e na ação dos cristãos deste sécu­lo. Isto será feito em segui­da, como para os out­ros autores de que ape­nas falam­os. Porém, foi necessário recor­dar antes de tudo, a propósi­to da relação entre a ordem nat­ur­al e a ordem sobre­nat­ur­al, o princí­pio de dis­tinção das ordens no sig­nifi­ca­do par­tic­u­lar que teve para Mar­i­tain; as reper­cussões de fato, foram grandes em todas as direções, e muitas vezes con­trárias ao sen­ti­do do seu pen­sa­men­to e de suas ínti­mas aspi­rações.

A títu­lo de exem­p­lo e antes de falar em out­ro lugar da «teolo­gia da lib­er­tação», se pode repor­tar o juí­zo de Gus­ta­vo Gutier­rez [8] sobre Mar­i­tain, no seu livro «Teolo­gia da lib­er­tação». Se com­preende então a importân­cia deste tema da dis­tinção das ordens que pode pare­cer para alguns muito abstra­to, anódi­no ou anti­qua­do; e se com­preen­dem tam­bém as pre­ocu­pações e as tris­tezas que nobre pes­soa de Jacques Mar­i­tain provou no últi­mo perío­do da sua vida.

Eis por ora eis as palavras de Gus­ta­vo Gutier­rez: «Os graves prob­le­mas que a nova situ­ação históri­ca põe a Igre­ja a par­tir do sécu­lo XVI e que se aguçaram com a rev­olução france­sa, dan­do origem a uma out­ra per­spec­ti­va pas­toral e a uma out­ra men­tal­i­dade teológ­i­ca, que, graças a Mar­i­tain, rece­ber­am o nome de «nova cri­stan­dade». A encon­tramos expos­ta, com toda a clareza queri­da, na sua con­heci­da obra ‘Human­isme Inté­gral’. Ela bus­cará de faz­er tesouro das lições vin­das da rup­tura entre a fé e a vida social, inti­ma­mente lig­adas em uma época de cri­stan­dade, mas com cat­e­go­rias que não chegaram a lib­er­arem-se com­ple­ta­mente, e o nota­mos mel­hor ago­ra, pela men­tal­i­dade tradi­cional… S. Tomás de Aquino, sus­ten­tan­do que a graça não suprime a natureza nem a sub­sti­tui, mas a aper­feiçoa, abre a estra­da para uma ação políti­ca mais autôno­ma e desin­ter­es­sa­da. Sobre esta base, Mar­i­tain elab­o­ra uma filosofia políti­ca que bus­ca tam­bém faz­er próprios alguns ele­men­tos mod­er­nos. O pen­sa­men­to de Mar­i­tain teve mui­ta influên­cia sobre cer­tos setores cristãos da Améri­ca Lati­na». [9]

Eis um dis­cur­so muito sig­ni­fica­ti­vo. Gutier­rez, com o seu juí­zo, nos per­mite dis­tin­guir clara­mente a natureza par­tic­u­lar exer­ci­da pelo pen­sa­men­to de Mar­i­tain. Ao mes­mo tem­po, Gutier­rez críti­ca Mar­i­tain porque não se liber­ou sufi­cien­te­mente do cor­po da Igre­ja. Ironiza tam­bém o seu apego a tradição ecle­sial. Tudo isto, porém, con­corre para mostrar ain­da mais a impli­cação dout­ri­na do princí­pio fun­da­men­tal de Mar­i­tain sobre a dis­tinção das ordens e autono­mia do tem­po­ral.

No fun­do, a filosofia de Mar­i­tain é uma «filosofia-teolo­gia» da história, que teve pro­fun­das reper­cussões na vida teóri­ca e social da Igre­ja.

Notas:

[1] JACQUES MARITAIN (1882–1973), con­ver­tido ao catoli­cis­mo em 1906, pro­fes­sor de filosofia em Paris, em Toron­to (Cana­da) e Prince­ton (Esta­dos Unidos).

[2] J. MARITAINUmanes­i­mo Inte­grale, Bor­la Ed., Bologna 1962, 5a ed. 1973, p. 303.

[3] J. MARITAINPri­mauté du Spir­ituel, Plan, Paris 1927, p. 17.

[4]Umanes­i­mo Inte­grale, p. 167.

[5]Umanes­i­mo Inte­grale, p. 208.

[6] J. MARITAINLe Paysan de la Garonne, Desclée de Brouw­er ed., Paris 1965, pp. 81–82.

[7] J. MARITAINNeuf Leçons sur les notions pre­mières de la philoso­phie morale, Téqui, Paris 1964, 1a ed. 1951, p. 103.

[8] GUSTAVO GUTIERREZ, sac­er­dote, nasci­do em 1928, pro­fes­sor de teolo­gia na Uni­ver­si­dade de Lima (Peru) e no Insti­tu­to de Pas­toral de Medellin (Côlom­bia).

[9] G. GUTIERREZTeolo­gia del­la lib­er­azione, Querini­ana, Bres­cia 1972, 2a ed. 1973, p. 61, e nota.