P. CURZIO NITOGLIA: VERDADEIRA E FALSA CARIDADE


Espiritualidade / sexta-feira, fevereiro 26th, 2016

 

In memo­ria di Shah­baz Bhat­ti

 

Padre Curzio Nitoglia

[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

23 mar­zo 2011

Pról­o­go

Hoje se fala muito, talvez até mes­mo demais, de “cari­dade” (“muito dela se  fala e menos dela se tem”, diz o provér­bio). Mas que coisa é a ver­dadeira Cari­dade? No pre­sente arti­go bus­co expor a dout­ri­na católi­ca, que se fun­da sobre a Tradição e a S. Escrit­u­ra, lidas a luz do pen­sa­men­to de San­to Tomás, o Doutor Ofi­cial ou Comum da Igre­ja. Se verá, então, como a ver­dadeira Cari­dade é total­mente difer­ente do vago sen­ti­men­tal­is­mo da exper­iên­cia reli­giosa, como apre­sen­ta­do pelo neo­mod­ernismo ascéti­co, o qual é o desnat­u­ra­men­to da ver­dadeira Cari­dade, assim como é tam­bém dis­tin­ta e antes emi­nen­te­mente supe­ri­or ao amor nat­ur­al, o qual é bom em si, mas imper­feito, porque não pode ultra­pas­sar por si mes­mo os lim­ites da sua natureza, muito feri­da  pelo peca­do orig­i­nal.

 

·        Um exem­p­lo de ver­dadeira Cari­dade sobre­nat­ur­al nos foi deix­a­do nestes dias pelo Min­istro para as mino­rias do Paquistão Sha­jbaz Bhat­ti, mor­to por ódio a Fé católi­ca nos primeiros dias de março de 2011. Quero citar uma parte do seu “Tes­ta­men­to espir­i­tu­al”:

 

«Des­de de cri­ança, eu cos­tu­ma­va ir a Igre­ja e encon­trar pro­fun­da inspi­ração nos ensi­na­men­tos, no Sac­ri­fí­cio e na Cru­ci­fi­cação de Jesus. Foi o Amor de Jesus que me con­duz­iu a ofer­e­cer os meus serviços a Igre­ja. As assus­ta­do­ras condições nas quais ver­ti­am os Cristãos no Paquistão me chocaram. Quan­do havia ape­nas 13 anos escutei um ser­mão sobre o Sac­ri­fí­cio de Jesus para a nos­sa Redenção e a Sal­vação do mun­do inteiro e pen­sei em cor­re­spon­der ao seu Amor doan­do amor aos nos­sos irmãos, colo­can­do me ao serviço dos Cristãos. Não quero pop­u­lar­i­dade, não quero poder. Quero ape­nas um lugar aos pés de Jesus. Quero que a min­ha vida, as min­has ações falem por mim e digam que estou seguin­do Jesus Cristo. Tal dese­jo é assim forte em mim que me con­sid­er­arei um priv­i­le­gia­do quan­do Jesus quis­er aceitar o sac­ri­fí­cio da min­ha vida. Quero viv­er por Jesus e por Ele quero mor­rer. Quan­to refli­to sobre o fato de que Jesus Cristo sac­ri­fi­cou tudo, que Deus man­dou o Seu próprio Fil­ho para a nos­sa Redenção, me per­gun­to como não pos­so eu seguir o cam­in­ho do Calvário». 

 

O Sen­hor ouviu Shah­baz Bhat­ti e ago­ra ele goza da Visão beat­i­fi­ca da face de Deus.

Natureza

 

No Cris­tian­is­mo a Cari­dade é a mais alta das três Vir­tudes teolo­gais, como foi rev­e­la­do admi­rav­el­mente a São Paulo: «Ago­ra per­manecem a Fé, a Esper­ança e a Cari­dade: mas destas três a maior é a Cari­dade» (1 Cor., XIII, 13).

 

Estas três Vir­tudes tem como obje­to dire­to e como moti­vo, o próprio Deus:

Amo” Deus porque Ele é infini­ta­mente Bom e amáv­el;

Espero” em Deus porque Ele é Providên­cia onipo­tente e mis­er­icór­dia;

Creio” em Deus porque Ele é a Ver­dade própria e não pode engana-se nem enga­nar-se.

 

 

Do Amor a Deus nasce o Amor sobre­nat­ur­al ao próx­i­mo. É pre­ciso ter mui­ta atenção, sobre­tu­do hoje, no dis­tin­guir bem a Cari­dade, Vir­tude infusa e sobre­nat­ur­al, do amor nat­ur­al seja por Deus ou pelo do próx­i­mo e com maior razão do “sen­ti­men­tal­is­mo”, o qual é uma defor­mação do ver­dadeiro amor seja nat­ur­al ou sobre­nat­ur­al.

A Cari­dade é a capaci­dade de amar Deus sobre­nat­u­ral­mente mais que a nós mes­mos e o próx­i­mo como a nós mes­mos por amor de Deus e não para faz­er filantropia. Essa vem infusa por Deus na nos­sa alma no momen­to da nos­sa juris­dição ou san­tifi­cação, jamais sep­a­ra­da da Graça habit­u­al san­tif­i­cante, a qual nos tor­na real­mente “fil­hos ado­tivos de Deus” (S. Paulo,Rom., VIII, 15) e “par­tic­i­pantes da Natureza de Deus” ou “con­sortes Div­inae Nat­u­rae” (II Epís­to­la de S. Pedro, I, 14) de for­ma fini­ta e lim­i­ta­da.

Por­tan­to, A Cari­dade e a ela sem­pre uni­da a Graça san­tif­i­cante nos comu­ni­cam real­mente, de for­ma par­tic­i­pa­da e fini­ta, a Natureza div­ina. É necessário ter mui­ta atenção e excluir o exces­so da “comu­ni­cação sub­stan­cial e ilim­i­ta­da” da Natureza Div­ina a alma humana (pan­teís­mo), como tam­bém o defeito da ‘sim­ples semel­hança moral ou ten­den­cial’, a qual con­si­s­tiria no pen­sar em Deus como nos­sa Causa final e, então, tê-lo pre­sente ape­nas no nos­so int­elec­to ou pen­sa­men­to.

Ao invés, Deus Tri­no é for­mal­mente, real­mente e fisi­ca­mente pre­sente na sub­stân­cia da alma do jus­to, que rece­beu a Graça habit­u­al jus­ti­f­i­cante e a Cari­dade infusa, as quais infor­mam a nos­sa alma. Na ver­dade, o homem para poder agir sobre­nat­u­ral­mente e col­her o próprio obje­to da ativi­dade de Deus, que é a própria Essên­cia Div­ina con­tem­pla­da e ama­da (Visão Beat­í­fi­ca), primeiro deve ser real­mente ele­va­do a um nív­el sub­stan­cial­mente sobre­nat­ur­al ou divi­no “por par­tic­i­pação”.

Agere sequitur esse”: não se pode real­mente agir sobre­nat­u­ral­mente, sem antes ser “sobre­nat­u­ral­iza­do” (ou “ele­va­do a ordem sobre­nat­ur­al”) fisi­ca­mente, em si e real­mente na própria alma (e não ape­nas moral­mente, enquan­to se dese­ja Deus como próprio Fim e Ele é, assim, pre­sente no nos­so pen­sa­men­to), mas sem­pre por par­tic­i­pação e fini­ta­mente, não pela essên­cia, caso con­trário se caí no pan­teís­mo (ver San­to Tomás de Aquino, Comen­tário ao II livro das Sen­tenças de Pedro Lom­bar­do, dis­tinção 26).

Sem a Cari­dade, que é insep­a­ráv­el da Graça san­tif­i­cante, se está em esta­do de peca­do mor­tal. Onde o homem, ao invés de amar Deus sobre todas as coisas, ama a si mes­mo ou as criat­uras, que sat­is­fazem os seus capri­chos, como se fos­sem o seu fim ulti­mo.

A Cari­dade dura em eter­no, mes­mo no Paraí­so, enquan­to a Fé deixa o pas­so a “Visão Beat­i­fi­ca” de Deus vis­to face a face pelo Beato graças ao “Lumen glo­ri­ae” e a Esper­ança cede o lugar a posse eter­na e inad­mis­sív­el de Deus [1].

 

Dis­tinção entre Cari­dade e amor nat­ur­al

 

San­to Tomás de Aquino na Suma Teológ­i­ca (1ª seção da 2ª parte, questão 26, arti­gos 1–4) [2], expli­ca que o amor é a tendên­cia do apetite humano para o bem que o atrai. O amor de benevolên­cia, desin­ter­es­sa­do ou “de bono alieno” (que diz respeito ao bem do out­ro) nos faz ten­der para o bem do próx­i­mo, ou seja, dese­jar o bem do out­ro  (“amare est velle alicui bon­um”, amar sig­nifi­ca quer­er bem o out­ro e o bem do out­ro), não é egoís­ta ou amor de con­cu­pis­cên­cia, inter­es­sa­do (“de bono pro­prio”), que olha o bem próprio e bas­ta e, quan­do é recípro­co da out­ra parte, é amor de amizade, que com­por­ta comunhão de pen­sa­men­to, von­tade e ação (“idem velle idem nolle haec est vera amici­tia”, quer­er a mes­ma coisa e não quer­er a própria coisa, esta é a ver­dadeira amizade).

Ora a Cari­dade infusa é o Amor de amizade sobre­nat­ur­al entre Deus e o homem jus­to e então dos jus­tos (ou “fil­hos de Deus”, S. Paulo, Rom., VIII, 15) entre eles por amor de Deus.

Não é ego­is­mo, e nem sequer é altruís­mo ou amizade pura­mente nat­ur­al, que nos tor­na com­pan­heiros dos out­ros home­ns, sobre­tu­do, não é sen­ti­men­tal­is­mo, que abaixa o homem racional e livre ao nív­el do ani­mal bru­to, provi­do ape­nas de sen­si­bil­i­dade sem int­elec­to e von­tade, mas é Amor sobre­nat­ur­al, que supera as forças da natureza cri­a­da e nos tor­na ami­gos de Deus, infini­ta­mente Bom e dig­no de ser ama­do mais que a nos­sa própria vida, e então, tam­bém pelo nos­so próx­i­mo, não por si mes­mo, mas porque é uma criatu­ra de Deus, ama­da em relação a Deus, não mais que nós mes­mos, mas em maneira sim­i­lar ao amor que nós mes­mos por­ta­mos por nós mes­mos.  

Na Suma Teológ­i­ca (2° seção da 2° parte, questão 23, arti­go 1) San­to Tomás demon­stra que a Cari­dade con­tém as três condições da ver­dadeira amizade:

 

1º) amor de benevolên­cia: se quer bem ao out­ro e se quer o seu bem como se fos­se o nos­so;

2º) amor recípro­co: Deus ama o homem jus­to e o jus­to ama Deus;

3º) comunhão de vida: é uma vida a dois entre Deus e o homem jus­to, que pres­supõe – espir­i­tual­mente – o con­hec­i­men­to recípro­co, através da Fé da parte do homem, e a tro­ca dos pen­sa­men­tos e dos sen­ti­men­tos inte­ri­ores entre o homem con­heci­do e ama­do por Deus e o Deus cri­do e ama­do pelo homem.

 

Estas são as três car­ac­terís­ti­cas da Cari­dade sobre­nat­ur­al, que nos une a Deus e com as out­ras almas em Deus [3].

 

Neces­si­dade da Graça para chegar a Cari­dade

 

A incli­nação nat­ur­al, que sub­siste no fun­do da nos­sa alma espir­i­tu­al e especi­fi­ca­mente na von­tade, nos levaria a amar a Deus autor da natureza, con­heci­do pela razão como Causa primeira das criat­uras (e não pela Fé, que nos faz con­hecer os Mis­térios sobre­nat­u­rais da Natureza div­ina enquan­to div­ina) mais por nós mes­mos (Sum­ma Teológ­i­ca 1° Parte, questão 60, arti­go 5).

Na ver­dade – expli­ca San­to Tomás – a incli­nação nat­ur­al é maior par­ra aqui­lo que é prin­ci­pal e menor para aqui­lo que é sub­or­di­na­do. Assim, instin­ti­va­mente a mão se estende e se expõe a desviar de um golpe para pro­te­ger a cabeça ou o cor­po.

Mas Deus é o Bem uni­ver­sal. Então, o amor nat­ur­al tende a amar Deus mais que a nós mes­mos. Porém, esta tendên­cia é inefi­caz. Na ver­dade, depois do peca­do orig­i­nal, tal incli­nação é aten­u­a­da ou enfraque­ci­da e não nos dá a capaci­dade real de amar Deus, pelo que pre­cisamos da Graça sobre­nat­ur­al jus­ti­f­i­cante e “restau­rado­ra” para chegar a um amor efi­caz, efe­ti­vo e real de Deus aci­ma de todas coisas (Suma Teológ­i­ca, 1° seção da 2° parte, questão 109, arti­go 3).

A Graça habit­u­al san­tif­i­cante, infun­di­da em nós no Batismo, está infini­ta­mente aci­ma da incli­nação nat­ur­al que alber­ga na nos­sa von­tade, muito feri­da pelo peca­do de Adão. Jun­to a Graça jus­ti­f­i­cante recebe­mos tam­bém as três Vir­tudes teolo­gais. Ora, a Cari­dade é exata­mente este Amor de Benevolên­cia mútuo, pelo qual um quer bem o out­ro e o bem do out­ro, não bus­can­do ego­is­ti­ca­mente ape­nas e sobre­tu­do a si mes­mo.

No caso especí­fi­co o jus­to quer a Deus, Autor da Graça ou con­heci­do pela Fé na sua Natureza div­ina e nos seus Mis­tério sobre­nat­u­rais, o bem que ele espera: o seu Reino nas almas de todo o mun­do e, enquan­to Deus, Ele quer o nos­so bem, sobre­tu­do, fun­da­do sobre a comunhão de vida, dado que a Graça, uni­da sem­pre a Cari­dade da qual é a raiz, nos tor­na “par­tic­i­pantes da Natureza div­ina” (II Petr., 1,14) e semel­hante a Deus como o fil­ho ao pai, onde não ape­nas somos chama­dos Fil­hos de Deus, mas o somos real­mente (1° epist. Jo., II, 1).

Esta vida a dois com­por­ta uma união per­ma­nente, que se perde ape­nas com o peca­do mor­tal e se recon­quista com a con­trição per­fei­ta e/ou a absolvição sacra­men­tal. Esta união per­ma­nente, como aque­la do esposo com a esposa, quer seja atu­al quan­do faze­mos um ato de Amor a Deus, quer habit­u­al, como quan­do esta­mos ocu­pa­dos em out­ros afaz­eres ou dormi­mos. Então a Cari­dade é real­mente uma vida a dois (“cum-vivere”, viv­er com um out­ro: Deus) que é uma ver­dadeira amizade com Deus, que ini­cia já sobre esta ter­ra, na qual há um encon­tro de Amor do Pai com o fil­ho ado­ti­vo, medi­ante a Graça habit­u­al, que é germe de Glória eter­na, a qual deve cor­re­spon­der o Amor do fil­ho ado­ta­do para o Pai eter­no, que é a Cari­dade que viv­i­fi­ca a Fé e a Esper­ança, as quais sem Essa estão mor­tas.

Esta amizade ou con­vivên­cia espir­i­tu­al “em vida” é prelú­dio daque­la da Eternidade ou “na Pátria” [4]

 

Cari­dade e sen­ti­men­to

 

O Amor a Deus reside na von­tade aju­da­da pela Graça. Esse não se pode con­fundir com o sen­ti­men­to, ou seja, o Amor a Deus não deve ser “sen­ti­do”, mas queri­do racional­mente mes­mo em meio as maiores “aridezes” da sen­si­bil­i­dade (“noite dos sen­ti­dos”) e “des­o­lações” do espíri­to (“noite do espíri­to”).

Deus não se vê, não se toca e não se sen­ti, Ele é purís­si­mo Espíri­to, não é “sen­sív­el” e então não pode cair sob os sen­ti­dos do homem. Por­tan­to, exce­to nos esta­dos da vida mís­ti­ca nos quais pre­dom­i­na de for­ma habit­u­al o 7º Dom do Espíri­to San­to, a Sabedo­ria, que nos dá a exper­iên­cia mís­ti­ca, amorosa e saborosa de Deus Purís­si­mo Espíri­to pre­sente sobre­nat­u­ral­mente na nos­sa alma pela Graça san­tif­i­cante, não existe o “sen­tir Deus”, porque Ele não caí sob os sen­ti­dos, mas a sua existên­cia pode ser demon­stra­da pela razão a par­tir dos efeitos chegan­do a Causa primeira incau­sa­da.

Além dis­so, Deus pode ser cri­do, medi­ante a Fé infusa, nos seus Mis­térios ou Vida ínti­ma sub ratione Dei­tatis, que ultra­pas­sa infini­ta­mente a capaci­dade da nos­sa razão. Enfim pode ser “sobre­nat­u­ral­mente exper­i­men­ta­do” na ter­ceira via, aque­la dos “per­feitos” (a via mís­ti­ca ou uni­ti­va), através da atu­ação mais ou menos habit­u­al do Dom da Sabedo­ria, que é essen­cial­mente sobre­nat­ur­al e não tem nada haver com o sen­ti­men­to ou pior com o sen­ti­men­tal­is­mo, antes é exata­mente o opos­to do sen­ti­men­tal­is­mo ou da exper­iên­cia reli­giosa, própria do mod­ernismo, a qual é “afe­tação” de um Amor sobre­nat­ur­al, de uma moral­i­dade, de uma san­ti­dade ou piedade, que em real­i­dade não se pos­suí, vale diz­er um mostrar exte­ri­or­mente e fari­saica­mente, um ver­dadeiro “sepul­cro caia­do”, uma Cari­dade sobre­nat­ur­al quan­do inte­ri­or­mente essa é (quase) ausente, não é nem mes­mo a sua defor­mação, porque não se pode “sen­tir” Deus nat­u­ral­mente, mas ape­nas sobre­nat­u­ral­mente e no esta­do mais alto da vida mís­ti­ca, medi­ante o Dom da Sabedo­ria.

Por­tan­to, o Cris­tian­is­mo é ini­cial­mente a vida da graça, no esforço ascéti­co para elim­i­nar o peca­do mor­tal aju­dan­do-se com a med­i­tação dis­cur­si­va (‘primeira via ascéti­ca purga­ti­va’ daque­les que começam ou “prin­cipi­antes”) e então é a imi­tação das Vir­tudes de Jesus Cristo, aju­dan­do-se com a oração men­tal afe­ti­va e bus­can­do elim­i­nar tam­bém o peca­do venial de propósi­to delib­er­a­do (‘segun­da via ascéti­ca ilu­mi­na­ti­va’ daque­les que pro­gri­dem ou “pro­fi­cientes”) e só então, se fiel ao esforço ascéti­co con­stante e habit­u­al, Deus nos intro­duz  na “ter­ceira via mís­ti­ca uni­ti­va” – sobre­nat­u­ral­mente e não sen­sivel­mente – de modo assaz ele­va­do a Deus, prelú­dio da vida eter­na­mente bea­ta, e recebem a graça da oração infusa ou pas­si­va.

Só então, advém “o encon­tro com Deus ou Jesus sen­ti­do den­tro de si”, o qual não é o iní­cio da vida cristã (como que­ri­am Dom Lui­gi Gius­sani e “Comunhão e Lib­er­tação”), mas lhe é o ter­mo e o coroa­men­to.

 

Além dis­so, a ter­ceira via mís­ti­ca se sub­di­vide em duas partes:

 

a)    aque­la car­ac­ter­i­za­da pelos primeiros qua­tro Don práti­cos do Espíri­to San­to (Temor de Deus, Piedade, Con­sel­ho e For­t­aleza);

b)   aque­la car­ac­ter­i­za­da pelo pre­domínio habit­u­al dos últi­mos três Dons espec­u­la­tivos (Int­elec­to, Ciên­cia e Sabedo­ria).

 

A ‘segun­da parte’ da “ter­ceira via” (e espe­cial­mente o seu vér­tice que se atinge no mais nobre dos sete Dons do Espíri­to San­to Pará­cli­to, aque­le da Sabedo­ria, que nos dá a exper­iên­cia sobre­nat­ur­al da Pre­sença de Deus no fun­do da essên­cia da alma) não é essen­cial para chegar a San­ti­dade ou Per­feição da Cari­dade.

Deus a pode con­ced­er ou não, de acor­do com seus planos sobre uma deter­mi­na­da alma (por exem­p­lo, ele a con­cedeu a S. Iná­cio de Loy­ola, S. Tere­sa d’Ávila e S. João da Cruz).

 

Ao invés, a ‘primeira parte’ da “ter­ceira via” é necessária para chegar a Per­feição. Na ver­dade sem essa não se entra na mís­ti­ca ou ‘ter­ceira via’ dos “per­feitos”, que é o desen­volvi­men­to nor­mal ou ordinário da vida da Graça. Além dis­so, durante essa se enfrentam as “noites do espíri­to” ou “des­o­lações espir­i­tu­ais” e a alma não ape­nas não goza da exper­iên­cia mís­ti­ca da Pre­sença de Deus na sua essên­cia ou não “encon­tra e sente Cristo den­tro de si” como diria don Gius­sani, mas mes­mo que lhe aparente estar aban­don­a­da por Deus e se sin­ta reprova­da por Ele (por exem­p­lo S. Teresin­ha do Meni­no Jesus no “túnel”, sobre o qual escreveu na sua auto­bi­ografia inti­t­u­la­da Vida de uma alma), a qual não ape­nas não sen­tia Deus, mas lhe sen­tia sep­a­ra­da, como se si encon­trasse “em um lon­go e obscuro túnel”, sem poder nem ao menos ver a saí­da e um raio de luz. Porém, era San­ta de for­ma hero­ica e real­mente encon­trou Deus purís­si­mo Espíri­to, mes­mo sem o sen­tir e sem lhe ter feito a exper­iên­cia [5].  

Ain­da de acor­do com a “espir­i­tu­al­i­dade” melosa e sen­ti­men­tal­ista da exper­iên­cia reli­giosa neo­mod­ernista, essa não seria uma ver­dadeira cristã, porque não “sen­tia” Deus ou Cristo den­tro de si. (Ver Suma Teológ­i­ca, 2a seção da 2° parte, questão 24, arti­go 9).

Colo­car o encon­tro “sen­ti­do” com Jesus no começo da vida espir­i­tu­al é uma ver­dadeira lou­cu­ra, seria como con­stru­ir uma casa colo­can­do o teto como seu fun­da­men­to!

Então, a ver­dadeira Cari­dade é a amizade sobre­nat­ur­al com Deus, como tam­bém com todos os “fil­hos de Deus”, jus­tos e tam­bém pecadores, não enquan­to pecadores, mas como home­ns suscetíveis de con­ver­são. Na ver­dade, se amásse­mos o pecador enquan­to tal amaríamos o peca­do, o que é o con­trário da Cari­dade, que ama o bem ou a Lei div­ina e detes­ta o mal ou a sua vio­lação, que é o peca­do.

Além dis­so, a dis­tinção entre peca­do a abor­recer e pecador a amar é ilóg­i­ca, porque sem pecador não existe peca­do, que é o ato do pecador enquan­to tal. Por­tan­to, se deve amar o homem enquan­to suscetív­el de con­ver­são, ain­da que viva em esta­do de peca­do, mas se deve com­batê-lo enquan­to pecador, que ofende a Deus.

É céle­bre o exem­p­lo deix­a­do por San­ta Rita de Cás­sia, a qual rezou a Deus para tirar a vida dos seus dois fil­hos ain­da cri­anças, que que­ri­am – como adul­tos – vin­gar o pai mor­to traiçoeira­mente, para que não se mac­u­lassem com este gravís­si­mo peca­do. O Sen­hor a ouviu e ess­es mor­reram sem ter peca­do, ain­da em jovem idade.

Então, se pode pedir o cas­ti­go físi­co do mal­va­do afim de não ofend­er a Deus e de que se con­ver­ta, mas não se pode jamais dese­jar a ruí­na espir­i­tu­al ou a sep­a­ração de Deus.

 

Todavia, isto não nos impede de nos defen­d­er­mos dos inimi­gos, emb­o­ra dese­jan­do que se con­ver­tam e vivam na Graça de Deus e então, na sua Glória eter­na.

Na ver­dade, a filosofia e a teolo­gia moral ensi­nam a licei­dade e em cer­tos casos o dev­er, nat­ur­al e sobre­nat­ur­al, da legí­ti­ma defe­sa con­tra o injus­to agres­sor: “vim vi repellere licet”, é líc­i­to rechaçar a força com a força.

Se um delin­quente ata­casse uma mul­her de idade ou uma cri­ança inde­fe­sa e nós não reagísse­mos, mes­mo com o uso da força quan­do necessário, pecaríamos con­tra a Cari­dade para com o inocente agre­di­do injus­ta­mente. Mes­mo naqui­lo que diz respeito a nós mes­mos podemos legit­i­ma­mente nos defend­er dos agres­sores.

Ape­nas em alguns casos excep­cionais se pode tol­er­ar (sem ser obri­ga­do) uma agressão por Amor de Deus, impeli­do pela Sua Graça, afim de que o agres­sor se con­ver­ta, como fez S. Estevão Pro­to-már­tir. Mas isto é um Con­sel­ho ou até mes­mo uma inspi­ração do Espíri­to San­to e não um Pre­ceito.

É bem con­heci­do o caso do mari­do de S. Rita de Cás­sia, do qual já falam­os, que quan­do jovem foi muito vio­len­to e briguen­to. Quan­do se con­verte depõe a espa­da, com a qual tin­ha der­ra­ma­do tan­to sangue inocente. Foi então que os seus inimi­gos aproveitaram para ata­ca-lo, mas ele, inci­ta­do pelo Pará­cli­to, preferi (emb­o­ra não sendo obri­ga­do por um Man­da­men­to) ser mor­to do que der­ra­mar mais sangue e per­doa hero­ica­mente os seus assas­si­nos. Estas são as exceções que con­fir­mam a regra da legí­ti­ma defe­sa.

Para enten­der ain­da mel­hor o espíri­to que deve ani­mar a nos­sa ati­tude para os inimi­gos é bom ler a Oração do ‘Missal Romano’ pro inimi­cis: «Sen­hor, con­ce­da a todos os nos­sos inimi­gos a paz, ver­dadeira Cari­dade e o perdão dos seus peca­dos. E com a tua potên­cia lib­era nos da suas ínsidias».

Como se vê se dese­ja a con­ver­são dos inimi­gos (“tribue eis remis­sionem cunc­to­rum pec­ca­to­rum”), mas ao mes­mo tem­po se pede para ser preser­va­do das suas mal­vadezas (“et nos ab eorum insidi­is poten­ter eripe”).

O Cris­tian­is­mo não é “cre­tinis­mo”! Não há nada nele de con­trário a reta razão e a reta  natureza, mas há algo Rev­e­la­do ou Man­da­do, que ultra­pas­sa a razão e as forças nat­u­rais, e que pode ser cri­do e prat­i­ca­do ape­nas medi­ante a aju­da da Graça san­tif­i­cante sobre­nat­u­ral­mente infun­di­da por Deus nas nos­sas almas.

Em suma, como os pecadores não tem em si a Cari­dade e a Graça san­tif­i­cante ou jus­ti­f­i­cante, é pre­ciso querê-la para eles, ama-los com Amor sobre­nat­ur­al e dese­jar o seu bem sobre­nat­ur­al (“amar é quer­er o bem do out­ro”), ou seja, que se con­ver­tam, deix­em o peca­do e reen­con­trem a amizade com Deus, a Graça habit­u­al ou san­tif­i­cante e a Cari­dade. Todavia, sem dano a Cari­dade que deve­mos a nós mes­mos, cri­a­dos a imagem e semel­hança de Deus, e pedir que sejamos livres de todo peri­go que vem dos inimi­gos. “Pri­ma Car­i­tas sibi”, a ordem com a qual se deve aplicar a Cari­dade para si e o próx­i­mo é a seguinte: primeiro é pre­ciso amar a própria alma, depois a alma do próx­i­mo depois o nos­so cor­po ou os nos­sos bens mate­ri­ais e enfim o cor­po ou os bens tem­po­rais do próx­i­mo.

Jesus nos rev­el­ou: «Quem obser­va os meus Man­da­men­to, este me ama. E quem Me ama, será ama­do por Meu Pai e tam­bém Eu o amarei» (Jo., XIV, 21).

Não é necessário grande ciên­cia para este Amor sobre­nat­ur­al por Deus, bas­ta a Fé e o con­hec­i­men­to das prin­ci­pais ver­dades da dout­ri­na cristã, pro­por­cional ao grau de instrução de cada um [6].

 

O obje­to da Cari­dade

 

O Amor de Deus é o obje­to primeiro e prin­ci­pal da Cari­dade, aque­le do próx­i­mo é o obje­to secundário. Mas é pre­ciso ter bem em mente que o Amor de Deus e do próx­i­mo derivam ambos da mes­ma vir­tude da Cari­dade infusa, a qual é uma só, mas tem dois obje­tos, do qual o secundário é o próx­i­mo ama­do porque criatu­ra de Deus, con­heci­da e ama­da por Deus ao menos em potên­cia se não vive ain­da em esta­do de Graça san­tif­i­cante.

Então, é por Cari­dade que deve­mos dese­jar que o próx­i­mo, ain­da que nos ten­ha ofen­di­do, pertença a Deus em ato pela Graça habit­u­al jus­ti­f­i­cante pre­sente na sua alma. Na ver­dade, se dese­jamos que o próx­i­mo viva em peca­do e sep­a­ra­do de Deus, não amaríamos nem sequer a Deus, que quer amar todos e ser  re-ama­do sobre­nat­u­ral­mente por todos e então, não quer­e­mos aqui­lo que Ele quer e não ser­e­mos seus ami­gos, porque a nos­sa von­tade se sep­a­raria da Sua.

Atenção! São Tomás de Aquino na Suma Teológ­i­ca (2ª seção da 2ª parte, questão 25, arti­go 1, 4, 5, 8) ensi­na que não é Cari­dade sobre­nat­ur­al amar o próx­i­mo pelas suas qual­i­dades nat­u­rais (sim­pa­tia, inteligên­cia, ale­gria…). Na ver­dade, por meio da Cari­dade fra­ter­na amamos o próx­i­mo com Amor sobre­nat­ur­al e teolo­gal, a qual tem Deus como obje­to, para que o amem­os ver­dadeira­mente como fil­hos de Deus e não ape­nas como homem sim­páti­co, inteligente, bril­hante…  Aqui que, se nós amamos ver­dadeira­mente Deus, a nos­sa Cari­dade se estende tam­bém para o próx­i­mo, não é nat­u­ral­mente sim­páti­co, mas porque cri­a­do e ama­do por Deus [7].

 

Per­feição: Man­da­men­tos ou Con­sel­hos?

 

 San­to Tomás (Suma Teológ­i­ca, 2° seção da 2° Parte, questão 184, arti­go 3) e Pio XI (encícli­ca Stu­dio­rum ducem, 1923 e Rerum omni­um, 1923) ensi­nam que todos são obri­ga­dos a ten­der a per­feição da Cari­dade, o que não quer diz­er ser “per­feitos em ato”, ou seja, com­ple­tos, não fal­tan­do nada (“per­fec­tum est per omnia fac­tum, et id cui nihil deest”). Todavia, seria erra­do pen­sar que o Amor de Deus e do próx­i­mo propter Deum, seja até um cer­to pon­to o obje­to de um Pre­ceito e que, ultra­pas­sa­do aque­le deter­mi­na­do pon­to, torne obje­to de um sim­ples Con­sel­ho.

Não! O Máx­i­mo Man­da­men­to fala claro: “Amarás o Sen­hor Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças e o próx­i­mo como a ti mesmo”.Não existe lim­ite ao Amor de Deus. Na ver­dade, a Cari­dade é o escopo e o fim de todos os Man­da­men­tos que estão inclu­sos no máx­i­mo Pre­ceito (Amor de Deus: do 1º ao 3° e do próx­i­mo: do 4º ao 10º).  

Unumquodque fit per­fec­tum inquan­tum attin­git Finem suum”, se tor­na per­feito quan­do se chega a col­her e atin­gir o próprio Fim, que é Deus, e é ape­nas a Cari­dade que nos une a Ele:”a Fé sem a Cari­dade é mor­ta” (S. Tia­go).

Então a per­feição da vida humana, a qual é espir­i­tu­al além de racional, con­siste na Cari­dade mais que na ciên­cia (Suma Teológ­i­ca, 2a seção da 2° Parte, questão 184, arti­go 1). Ora, o escopo não pode ser queri­do par­cial­mente, lim­i­tada­mente ou pela metade e até a um cer­to pon­to. Esta é a difer­ença entre fim (“id cujus gra­tia aliq­uid fit”) e meio (“ea quae sunt ad finem”), que são dese­ja­dos e uti­liza­dos o “tan­to quan­to” me aju­dam a col­her o fim “nem mais, nem menos”.

Por exem­p­lo, o médi­co não dese­ja a cura do enfer­mo só pela metade, mas toma medi­das e dosa os medica­men­tos ape­nas para obter a ple­na cura; não mede e não dosa jamais a saúde, que é dese­ja­da toda e sem meias medi­das pelo médi­co. A per­feição ou fim do homem con­siste essen­cial­mente nos Pre­ceitos, que, se obser­va­dos, nos unem a Deus, nos­so Fim últi­mo. Todos devem ten­der e quer­er o fim, Deus ou a sua per­feição. O homem é como um via­jante “via­tor” que cam­in­ha para Deus “gress­ibus amor­is”, com “os pas­sos de amor e crescen­do no amor” (São Gregório Mag­no).

Os três Con­sel­hos evangéli­cos (casti­dade, pobreza e obe­diên­cia) são ape­nas meios para chegar mais facil­mente e mais rap­i­da­mente ao fim, que é a per­feição ou união com Deus através da Cari­dade, a qual inclui os 10 Man­da­men­tos. Então, os Con­sel­hos são orde­na­dos e sub­or­di­na­dos aos Man­da­men­tos (e ao Pre­ceito supre­mo: o Amor de Deus e do próx­i­mo) e não são supe­ri­ores a ess­es. Por­tan­to, a per­feição da Cari­dade con­siste em amar a Deus sem medi­da e ao máx­i­mo [8] e é con­tro­la­da pelo supre­mo Pre­ceito não como qual­quer coisa para realizar-se ime­di­ata­mente, mas como escopo ao qual todos devem ten­der grad­ual­mente (“natu­ra non fac­it saltus”), cada um segun­do o próprio esta­do.

Dis­to derivam duas con­se­quên­cias:

1ª) Quem não quer avançar na vida espir­i­tu­al regride, pois todos nós temos o dev­er de avançar pouco a pouco para o fim;

2ª) Deus dá a todos as Graças atu­ais sufi­cientes para chegar ao fim, pois não man­da o impos­sív­el. Ele nos ama “até a lou­cu­ra [da Cruz]” e nós deve­mos re-amá-lo ao máx­i­mo da nos­sa capaci­dade.

A Cari­dade é supe­ri­or ao ide­al de força dos heróis pagãos e a sabedo­ria dos filó­so­fos gre­gos, os quais não pen­saram em reti­ficar a fun­do sua von­tade medi­ante o Amor de Deus e do próx­i­mo: “A Cari­dade edi­fi­ca, a ciên­cia incha” (S. Paulo). Onde uma vel­hin­ha débil e igno­rante é mais nobre e per­fei­ta que Machiste e Aristóte­les, porque tem a boa von­tade enrique­ci­da pela Cari­dade que lhe faz amar Deus e os fil­hos de Deus e assim lhe une a Deus seu Fim últi­mo e o aper­feiçoa.  Na ver­dade, sem a Cari­dade a von­tade do homem é má enquan­to se dis­tan­cia de Deus, que é o sumo Bem, pelo qual se encon­tra em esta­do de peca­do mor­tal; se morre neste esta­do, se dana pela eternidade, mes­mo se tivesse a ciên­cia dos Anjos ou de San­to Tomás de Aquino. Ao invés, a Cari­dade, que pres­supõe a Fé e a Esper­ança lhes viv­i­fi­ca, nos une a Deus e é acom­pan­ha­da pelo “corte­jo da Graça”, ou seja, de todas as Vir­tudes morais infusas e pelos sete Dons do Espíri­to San­to. As Vir­tudes morais nos aper­feiçoam quan­to aos meios que deve­mos tomar para col­her o Fim e a Cari­dade nos aper­feiçoa quan­to ao Fim, nos unin­do com Deus. Pelo qual San­to Tomás con­cluí que «prin­ci­pal­mente e sub­stan­cial­mente a per­feição reside na Cari­dade e nos Man­da­men­tos; aci­den­tal­mente e secun­dari­a­mente nos três Con­sel­hos, enquan­to são meios que nos aju­da a mel­hor obser­var os Man­da­men­tos» que nos unem ao Fim (Suma Teológ­i­ca, 2a seção da 2a Parte, questão 184, arti­go 2) [9].

 

Con­hec­i­men­to e Amor de Deus nes­ta ter­ra

 

Sobre a ter­ra o Amor de Deus é mais per­feito que o seu con­hec­i­men­to, porque por amor a nos­sa von­tade sai de si e tende para o obje­to ama­do como é em si, enquan­to aqui embaixo o con­hec­i­men­to de Deus advém através dos nos­sos con­ceitos lim­i­ta­dos e fini­tos.

Assim, o amor de Deus nos faz sair fora de nós mes­mos e nos atraí e une a Ele, enquan­to o con­hec­i­men­to atraí Deus para nós e lhe impõe o lim­ite dos nos­sos con­ceitos fini­tos (Suma Teológ­i­ca, 1° Parte, questão 82, arti­go 3) [10]. São João da Cruz dizia: “sou nada, con­heço bem pouco, mas quero Tudo, ou seja, Deus”.

 

O aumen­to da Cari­dade

 

A Cari­dade aumen­ta em nós inten­si­va­mente, como uma qual­i­dade (por ex. a luz ou o calor). Essa colo­ca em nós as suas raízes sem­pre mais inten­sa­mente e pro­fun­da­mente e ao mes­mo tem­po reduz na nos­sa von­tade o egoís­mo ou amor próprio, que excluí o Amor de Deus, incli­nan­do sem­pre mais forte­mente a nos­sa von­tade a ten­der para Deus e a fugir do peca­do, com atos de amor mais inten­sos e gen­erosos, com a oração e os Sacra­men­tos. Não é então ver­dadeiro que a Cari­dade aumen­ta na nos­sa von­tade por adição, ou quan­ti­ta­ti­va­mente como que­ria Suárez (por ex. como um monte de pedras). Ver Suma Teológ­i­ca 2° seção da 2° Parte, questão 24.

Atenção! Não são os nos­sos atos mer­itórios para aumen­tar a Cari­dade, uma vez que ess­es pro­ce­dem des­ta, que é uma Vir­tude infusa por Deus e não adquiri­da pelo homem. Todavia, os atos mer­itórios pre­dis­põem e dão dire­ito ao aumen­to da Cari­dade, que é con­ce­di­do por Deus. A oração pode obter este aumen­to de Cari­dade e os Sacra­men­tos o pro­duzem ex opere oper­a­to (ou seja, por si mes­mos), apli­can­do – se dev­i­da­mente rece­bidos – os fru­tos da Paixão de Jesus, o qual aumen­to, porém, é rece­bido segun­do a inten­si­dade das nos­sas dis­posições. Enfim, na ter­ceira via uni­ti­va dos “per­feitos” ou vida mís­ti­ca, as Purifi­cações pas­si­vas (noite dos sen­ti­dos e do espíri­to) purifi­cam as Vir­tudes infusas de toda incrus­tação humana e colo­cam em primeiro plano, forte­mente e sobre­tu­do, o obje­to próprio e o moti­vo for­mal das Vir­tudes teolo­gais aci­ma de todo moti­vo secundário.

Assim, ele remove da Cari­dade todo resí­duo de amor próprio, de ran­cor ou de ressen­ti­men­to do nos­so coração que impede a plen­i­tude do Amor de Deus e do próx­i­mo, mes­mo de quem nos ofend­eu, e, pelas out­ras duas Vir­tudes teolo­gais, as Purifi­cações pas­si­vas colo­cam em proem­inên­cia sobre­tu­do, o seu obje­to e o moti­vo primário: Deus mes­mo, cri­do e esper­a­do, porque a Ver­dade que não pode enga­nar-se nem enga­nar nos (Fé) e mis­eri­cor­diosa­mente Onipo­tente (Esper­ança), aci­ma de todo moti­vo secundário: as con­so­lações espir­i­tu­ais ou a tran­quil­i­dade da alma.

Só então a alma, que parece ter sido aban­don­a­da por Deus como Jesus sobre a Cruz (o qual não teria sido, por­tan­to, um bom “cielli­no” [Ndt.: Cielli­no, inte­grante do movi­men­to Comunhão e Lib­er­ação de Don Lui­gi Gius­sani]), O ama uni­ca­mente porque infini­ta­mente Bom e amáv­el, O crê porque é a própria Ver­dade sub­sis­tente e espera Nele, porque é Onipo­tente e Mis­eri­cor­dioso.

Ao tér­mi­no destas “noites” a alma e as Vir­tudes infusas, espe­cial­mente a mais alta que é a Cari­dade, vem purifi­cadas de todo apego humano.

O Amor de Deus então é puro, desin­ter­es­sa­do, forte, pleno e aumen­ta­do até a per­feição. Somente isso expli­ca a for­t­aleza dos Már­tires e as obras dos grandes San­tos [11].

 

Con­clusão

 

·        A ver­dadeira Cari­dade, então, con­siste no Amar sobre­nat­u­ral­mente, com a von­tade racional aju­da­da pela Graça san­tif­i­cante e atu­al, Deus mais que nós mes­mos, porque ape­nas Ele é Bem infini­to e nos­so Fim últi­mo, enquan­to nós somos lim­i­ta­dos e criat­uras que ten­dem ao Fim e por­tan­to, não podemos nos amar como se fos­se­mos “infini­ta­mente Bons” ou como se fos­se­mos um Fim. O próx­i­mo é ama­do em Deus, ou seja, afim de que ele inabite a SS. Trindade por meio da Graça e da Cari­dade. Onde não se pode jamais dese­jar ao próx­i­mo a ruí­na eter­na.

 

·        A ver­dadeira Cari­dade mais que afe­ti­va deve ser efe­ti­va (“fatos e não palavras”) e deve com­por­tar “uma tro­ca de dons, no qual o amante dá ao ama­do aqui­lo que tem e vice-ver­sa” (S. Iná­cio de Loio­la, Exer­cí­cios espir­i­tu­ais). “Nem todo o que diz Sen­hor, Sen­hor, entrará no Reino dos Céus, mas quem faz a Von­tade do meu Pai”, nos rev­el­ou o Evan­gel­ho. Os fatos nos mostraram, que a um mês atrás Shah­baz Bhat­ti, deu a própria vida por Deus e pelo próx­i­mo, que é o ato maior de amor. Por­tan­to, quem obser­va e colo­ca em práti­ca os 10 Man­da­men­tos faz a Von­tade de Deus e esta unido a Ele com a Graça san­tif­i­cante. A Cari­dade, então, con­siste no obser­var os Man­da­men­tos, que são resum­i­dos no “máx­i­mo Pre­ceito”: amar Deus com todos os nos­sos semel­hantes e mais que a nós (1º Man­da­men­to: “Eu sou o Sen­hor teu Deus”; 2º “Não dirás o seu San­to nome em vão”; 3º: “Recorde de san­tificar as fes­tas de Deus”. Quem obser­va estes três Man­da­men­tos ama a Deus em si) e o nos­so próx­i­mo em Deus (4º Man­da­men­to: “Hon­rar o pai e a mãe”; 5º: “Não matar”; 6º: “Não for­nicar”; 7º: “Não roubar”; 8º: Não lev­an­tar fal­so teste­munho”; 9º: “Não dese­jar a mul­her dos out­ros; 10º: “Não dese­jar os bens dos out­ros”. Quem obser­va estes sete man­da­men­tos ama o próx­i­mo como a si mes­mo, quem o vio­la não ama real­mente o próx­i­mo mas só por palavras, porque na práti­ca o des­on­ra, mal­tra­ta, der­ru­ba e den­i­gre).

 

·        Enfim a ver­dadeira Cari­dade com­por­ta a plen­i­tude da vida racional, voli­ti­va-afe­ti­va, moral e espir­i­tu­al, pois ela com­por­ta três ele­men­tos essen­ci­ais:

 

1º) amar Qual­quer um por si e não ego­is­ti­ca­mente por nós;

2º) amor recípro­co: tam­bém o Out­ro, que é Deus, nos con­hece e nos ama;

3º) con­vivên­cia: viv­er jun­to a este Out­ro em uma tro­ca mútua de dons e de amor.

 

Como se vê só a ver­dadeira Cari­dade pode preencher a nos­sa vida, a qual com Essa chega ao seu vér­tice int­elec­tu­al, voli­ti­va-afe­ti­va e espir­i­tu­al.

O homem é um ani­mal social por natureza, não é uma ilha e deve sair fora de si para con­hecer a real­i­dade obje­ti­va e amá-la.

Ora a Suma real­i­dade é o Ser próprio Sub­sis­tente que é Deus. Então, ape­nas aman­do Deus mais que a nós e o próx­i­mo em Deus, ser­e­mos cer­ta­mente re-ama­dos por Deus e pos­sivel­mente tam­bém pelo próx­i­mo e enfim viver­e­mos em comunhão de con­hec­i­men­to e de amor com Deus e o próx­i­mo, ana­logi­ca­mente ao con­hec­i­men­to amoroso que inter­corre ad intra entre o Pai, o Fil­ho e o Espíri­to San­to.

Sem a Cari­dade a vida humana é trun­ca­da, anã, defor­ma­da e mon­stru­osa como um anão.

Essa é triste porque o homem nat­u­ral­mente tende a con­hecer e amar, e nat­u­ral­mente bus­ca ser con­heci­do e re-ama­do. Essa é a solic­i­tude espec­tral para que não se viva em comunhão com ninguém.

O egoís­mo (como o heroís­mo freudi­ano, que des­de 1968 tornou-se um fenô­meno de mas­sa e tem sub­sti­tuí­do o ver­dadeiro amor nat­ur­al e, em cer­tos casos lim­i­ta­dos, até o sobre­nat­ur­al) é uma paró­dia da Cari­dade, é “amar” a si mes­mo e servir-se do próx­i­mo desfrutando‑o e não amando‑o.

O ver­dadeiro amor humano é bom mas incom­ple­to e deve ser aper­feiçoa­do por aque­le sobre­nat­ur­al: o esposo que ama a esposa e os fil­hos, deve aper­feiçoar este amor nat­ur­al com aque­le sobre­nat­ur­al da Cari­dade, de out­ro modo se para na criatu­ra e deixa-se de lado o Cri­ador.

O reli­gioso que faz voto de casti­dade deve preencher a sua de Amor para Deus e o próx­i­mo, Amor altruís­ta, recípro­co e em comunhão, caso con­trário cairá inevi­tavel­mente na fal­ta de respeito a Von­tade div­ina, expres­sa nos Man­da­men­tos e nos seus Votos ou empen­hos reli­giosos.

A alma de todo apos­to­la­do, como ensi­na don Gio­van­ni Bat­tista Chau­tard, é a oração men­tal, ou seja, o con­hec­i­men­to amoroso de Deus e a con­tem­plação ou olhar reple­to de amor sobre­nat­ur­al dos Mis­térios div­ina­mente rev­e­la­dos.

Sem esta vida inte­ri­or fei­ta de con­hec­i­men­to e amor recípro­co entre a alma e Deus, a vida reli­giosa se tor­na insus­ten­táv­el. A sua fal­ta é a causa prin­ci­pal de tan­tas defecções.

O homem é feito para con­hecer e amar, se não con­hece e ama Deus, acabará substituindo‑o pelas criat­uras, mas esta é a definição tomista do peca­do: “aver­sio a Deo et con­ver­sio ad crea­t­uras”.

Aristóte­les (Políti­ca), aper­feiçoa­do depois por San­to Tomás, tin­ha ensi­na­do que ape­nas o louco, enquan­to alien­ado e autis­ti­ca­mente volta­do sobre si mes­mo, ou, o eremita-“mistico”[12], enquan­to con­vivente com Deus e sobre­nat­u­ral­mente aber­to ao próx­i­mo, mes­mo se fisi­ca­mente dis­tante deste, vivem “soz­in­hos”, um pato­logi­ca­mente-psiquiatri­ca­mente mal e o out­ro hero­ica­mente-espir­i­tual­mente bem, porque vive espir­i­tual­mente unido a Deus e ao próx­i­mo em Deus.

Fora ess­es dois casos, o homem nor­mal (nem enfer­mo e nem mes­mo san­to) deve viv­er em sociedade, real e físi­ca e não ape­nas moral e espir­i­tu­al, tam­bém com os out­ros home­ns. Esta é a ver­dadeira moral, sem a qual não nos sal­va­mos eter­na­mente, essa não tem nada haver com o fal­so “moral­is­mo” hipócri­ta e osten­ta­do.

Sem obras boas, a fé é mor­ta” (São Tia­go). “Ora sobre esta ter­ra exis­tem a Fé, a Esper­ança e a Cari­dade, a maior dessas é a Cari­dade” (São Paulo).

Que Deus nos con­ce­da o poder viv­er a nos­sa vida con­forme a sua natureza racional e livre da fal­ta de con­hec­i­men­to e de amor, e de pode-la ele­var, com sua graça que não é nega­da a nen­hum, a ordem sobre­nat­ur­al, que é o iní­cio da vida eter­na: Gra­tia est semen Glo­ri­ae et inco­ha­tio vitae eter­nae”.

 

·        Deus, da cordibus nos­tris invi­o­la­bilem tuae car­i­tatis affec­tum, ut deside­ria, de tua inspi­ra­tione con­cep­ta, nul­la possint ten­ta­tione mutari” (Missal Romano, Ora­tio ad obti­nen­dam Car­i­tatem). Esforce­mo nos para nos torn­ar­mos em ato, aqui­lo que somos em potên­cia!

 

d. Curzio Nitoglia

 

23 mar­zo 2011

http://www.doncurzionitoglia.com/vera_e_falsa_caritas.htm

 

 

 

 

NOTAS

 

[1] Cfr. R. Gar­rigou-Lagrange, L’amour de Dieu et la croix de Jésu, Pari­gi, 1929, I vol., pp. 163–206, Id., La prédes­ti­na­tions des Saints et la grâce, Pari­gi, 1935; Id., L’éternelle vie et la pro­fondeur de l’âme, Pari­gi, 1950; D. Noble, La char­ité frater­nelle d’après S. Thomas,1932; M. I. Scheeben, Le mer­av­iglie del­la grazia div­ina, Tori­no, 1933; P. Par­ente, voce “Con­sorzio divi­no”, in “Enci­clo­pe­dia Cat­toli­ca”, Cit­tà del Vat­i­cano, III vol., 1949; Id., Il pri­ma­to dell’amore e S. Tom­ma­so d’Aquino, in “Acta Pont. Acad. Rom. S. Thomae”, 1945, X, pp. 197 ss.; M. Cor­dovani, Il San­tifi­ca­tore, Roma, Studi­um, 1939.

[2] A Sum­ma Teológ­i­ca se com­põe de três Partes, a Segun­da se sud­di­vide em duas seções: a “primeira sessão da segun­da Parte” e a “segun­da sessão da segun­da Parte”. Essa se cita abre­vi­ada­mente resum­i­da assimì: ‘S.’ [umma]. ‘Th. [eolo­giae], ‘I(Parte), ‘q’. [uestão] 1, ‘a. [rti­go] 1. A segun­da se cita ‘I‑II’ (primeira sessão da segun­da Parte) o ‘II-II’ (segun­n­da sessão da segun­da Parte). No cur­so do pre­sente arti­go a cito por exten­so, para tornar mais facil­mente com­preen­sív­el a exposição da dout­ri­na de San­to Tomás.

[3] Cfr. S. Agosti­no, De doc­t­ri­na chris­tiana, I, cap. 22; III, cap. 10; S. Bernar­do, Liber de dili­gen­do Deo, cap. I ss.; L. Bil­lot, De vir­tutibus infu­sis, Roma, Gre­go­ri­ana, 1906, pp. 375 ss.

[4] Cfr. S. Gio­van­ni Del­la Croce, Notte oscu­ra e Fiamma viva; S. Tere­sa D’Avila, Castel­lo dell’anima; S. Francesco Di Sales, Teo­ti­mo o Trat­ta­to dell’Amor di Dio; N. Del Pra­do, De gra­tia et libero arbi­trio, Fribur­go, 1906; P. Par­ente, Anthro­polo­gia super­nat­u­ralis, Roma, 1949; L. Bil­lot, De gra­tia Christi, Roma, 1923; R. Gar­rigou-Lagrange, De Deo uno, Tori­no, Mari­et­ti, 1940.

[5] Cfr. R. Gar­rigou-Lagrange, Le tre età del­la vita inte­ri­ore pre­lu­dio di quel­la del cielo. Trat­ta­to di Teolo­gia asceti­ca e mist­i­ca, 4° vol., Roma-Monop­o­li, Edi­zioni “Vivere in”, 1998.

[6] Cfr. A. Royo Marìn, Teolo­gia del­la Per­fezione cris­tiana, Roma, Pao­line, 1960; Id.,Teolo­gia del­la Car­ità, Roma, Pao­line, 1965, A. Gardeil, La struc­ture de l’âme et l’expérience mys­tique, Pari­gi, 1927.

[7] Cfr. S. Tom­ma­so D’Aquino, Quaest. dis­put. de car­i­tate; Id., Opusc. De duobus prae­cep­tis car­i­tatis.

[8] “A úni­ca medi­da para amar a Dio é a de amá-lo sem medi­da” (S. Fran­cis­co de Sales, Teo­ti­mo)

[9] Cfr. os grandes comen­ta­tores de S. Tom­ma­so: Gae­tano, Fer­rarense, Bañez, João de San­to Tomás, Sala­man­ti­cens­es, Bil­lu­art.

[10] Cfr. R. Gar­rigou-Lagrange, De vir­tutibus the­o­logi­cis, Tori­no, Mari­et­ti, 1949, pp. 270–340.

[11] S. Afon­so Maria De Ligório, The­olo­gia Moralis, II, De car­i­tate.

[12] Por exem­p­lo S. Ben­to de Núr­sia na Sagra­da Cav­er­na de Subi­a­co por três anos “secum vive­bat” (vivia ape­nas con­si­go mes­mo e em comunhão com Deus) escreve S. Gre­go­rio Mag­no.