P. CURZIO NITOGLIA: MUNDIALISMO, BENSON, ORWELL E O CARDEAL NEWMAN — 1a parte


Escatologia / quarta-feira, março 9th, 2016

 

Padre Curzio Nitoglia

Tradução: Ged­er­son Fal­cometa

 

 

Em muitos pon­tos, os hereges estão comi­go, em  out­ros pon­tos não; mas por causa destes poucos pon­tos nos quais se sep­a­ram de mim, a eles não serve de  nada  estar comi­go em todo o resto”

(S. Aug., In Psal. 54, n. 19; PL 36, 641).

 

Pról­o­go


clip_image001[6]No arti­go prece­dente tratei da Europa de Maas­tricht como ten­ta­ti­va de con­stru­ir o “mundi­al­is­mo”, a “glob­al­iza­ção” e de instau­rar a “Nova Ordem Mundi­al”, comen­tan­do o livro de Ida Magli, A ditadu­ra européia (Milão, Riz­zoli, 2010). Ago­ra vou resumir o que foi escrito por dois lit­er­atos ingle­ses em 1907 (Ben­son) e em 1948 (Orwell), e retomar um dis­cur­so pub­li­ca­do pelo L’Osservatore Romano em 14 de maio de 1879 sobre o lib­er­al­is­mo como prin­ci­pal inimi­go do catoli­cis­mo, que foi feito em 13 de maio do mes­mo ano pelo Card. John Hen­ry New­man. Sur­preen­dentes as suas intu­ições sobre aqui­lo que seria a sociedade lib­er­al e glob­al­iza­da, na qual tudo é líc­i­to, exce­to a ver­dade e o bem, na qual nos encon­tramos viven­do hoje, como demon­stra­do pelo livro de Ida Magli e pelos acon­tec­i­men­tos que se desen­volver­am sob os nos­sos olhos.

(1a parte)

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BENSON E “O SENHOR DO MUNDO

 

 Robert Hugh Ben­son nasceu na Inglater­ra em 1871 e mor­reu em 1914. Era o quar­to fil­ho do Arce­bis­po angli­cano de Can­ter­bury e se con­verte ao Catoli­cis­mo em 1903 aos 32 anos; no ano suces­si­vo foi orde­na­do sac­er­dote. Escreveu numerosos livros sobre a vida dos san­tos em caráter históri­co-ascéti­co para enquadrar e resolver a dico­to­mia entre protes­tantismo, mes­mo o mais con­ser­vador como aque­le angli­cano, e o catoli­cis­mo romano. Os seus livros tem então, uma forte car­ga apologéti­ca e uma enér­gi­ca vis polem­i­ca (luta para esta­b­ele­cer a ver­dade e refu­tar o erro) evi­tan­do toda con­fusão irêni­ca (ces­sação de toda dis­pu­ta volta­da a bus­ca da ver­dade sob a acusação de paci­fis­mo). O livro do qual me ocupo no pre­sente arti­go (“O sen­hor do mun­do”) foi escrito em 1907, o ano da con­de­nação do mod­ernismo com a Pas­cen­di de São Pio X, e foi traduzi­do e pub­li­ca­do em ital­iano pela primeira vez em 1921 em Flo­rença. Em 1987 graças ao inter­esse do Card. Gia­co­mo Bif­fi foi reed­i­ta­do pela Jaca Book de Milão com três edições (1997 e 2008) e dezes­seis reim­pressões. Ben­son, com um esti­lo ver­dadeira­mente admiráv­el, retoma o tema desen­volvi­do por São Pio X na sua primeira encícli­ca E supre­mi apos­to­la­tus cathe­dra de 1904, na qual o Papa Sar­to obser­va­va que os males que cir­cun­dam o mun­do e a Igre­ja são de tal for­ma graves, que fazem pen­sar que o Anti­cristo este­ja já pre­sente nele.

Os erros do mundi­al­is­mo porvir e já vin­do

 

Ben­son pre­vê que em torno dos anos Vinte-Trin­ta, a maçonar­ia adquirirá um poder sem­pre mais vas­to na Europa como na Améri­ca e no Ori­ente, assim poderá unificar todo o mun­do em torno de 1989 (ano em que “caiu” o mun­do de Berlim) e apla­nar a vin­da final do Anti­cristo. Os males que lev­am a tal desas­tre são elen­ca­dos por Ben­son com pre­cisão e lucidez: críti­ca históri­ca e uni­ca­mente filológ­i­ca da Bíblia não mais con­sid­er­a­da um Tex­to sagra­do, div­ina­mente inspi­ra­do e clip_image002[6]por­tan­to, provi­do de inerrân­cia; sen­ti­men­tal­is­mo reli­gioso e lib­er­al­is­mo, que sob aparên­cia de “pen­sa­men­to inde­pen­dente” tor­na os home­ns pelo con­trário, real­mente escravos da men­tal­i­dade comum e das paixões; o nasci­men­to do mod­ernismo (p. 7). No mun­do dos anos Trin­ta teria per­maneci­do ape­nas três tipos de religião: o catoli­cis­mo, o human­i­taris­mo filantrópi­co lib­er­al-maçôni­co e as religiões esotéri­c­as extremo ori­en­tais. As últi­mas duas for­mas são unidas pela tendên­cia ao pan­teís­mo antropocên­tri­co e se encon­tram em total oposição com o catoli­cis­mo que é teocên­tri­co e acred­i­ta em um Deus pes­soal e tran­scen­dente ao mun­do (p.10). O catoli­cis­mo decaí sem­pre mais, o mun­do não quer mais escu­tar, enten­der e aceitar, e o aban­dona, ine­bri­a­do pelo delírio de onipotên­cia dado-lhe pelo pan­teís­mo antropotrolátri­co e pelo “cul­to do Homem” (p.11). A reli­giosi­dade vito­riosa do Vinte até ao 1989 é uma espé­cie de human­i­taris­mo filantrópi­co: pri­va­do do sobre­nat­ur­al, «sofre a influên­cia da maçonar­ia: o homem é Deus» (p. 11). A psi­colo­gia tomou o lugar do puro e sim­ples mate­ri­al­is­mo marx­ista e bus­ca sub­sti­tuir a espir­i­tu­al­i­dade do catoli­cis­mo com um sub­sti­tu­to psi­canalíti­co ima­nen­tista (p. 12).

O Autor exclama:«estamos quase per­di­dos e esta­mos nos dirigin­do a uma catástrofe para a qual deve­mos estar prepara­dos […] até que não retorne o Sen­hor» (p. 12). Mas infe­liz­mente hoje os pro­fe­tas do otimis­mo irre­al­ista e exager­a­do, que con­denaram “os pro­fe­tas de desven­tu­ra”, não querem sen­tir a voz de Ben­son que, qual novo Lao­coonte, colo­ca­va em guar­da os católi­cos con­tra o mod­ernismo qual “cav­a­lo de Tróia” intro­duzi­do pelo inim­i­cus homo na Cidade de Deus. Ele admite real­is­ti­ca­mente que no mun­do católi­co existe o mal, mas tam­bém o bem, exis­tem con­ven­tos dis­so­lu­tos, mas tam­bém obser­vantes e viz­in­hos ao Sen­hor (p.12). Não é um daque­les fariseus maniqueus que vêem tudo e ape­nas bem por uma parte e tudo e ape­nas mal da out­ra. Se o Cris­tian­is­mo é a ver­dadeira religião div­ina­mente rev­e­la­da, nem todos os cristãos lhe são fiéis, pelo con­trário. Mas mes­mo o human­i­taris­mo, que prom­ete hip­ocrita­mente paz e ces­sação de “guer­ras de religião”, tem os seus exces­sos, os quais supera até mes­mo aque­les dos piores cristãos. Na pági­na 13, Ben­son pre­vê já em 1907 o “Par­la­men­to Europeu”, o qual assi­nala o fim do são patri­o­tismo e através da democ­ra­cia-social fun­da a anti-igre­ja-católi­ca. Ele tam­bém nos colo­ca em guar­da, con­tra o aparente desen­volvi­men­to téc­ni­co, que, se des­or­de­na­do e desvi­a­do do Fim ulti­mo, esconde muitas armadil­has que insidiaram a fé dos cristãos (p.16). 

 

O cul­to do homem

 

Não pode escapar ao leitor o juí­zo diver­so real­iza­do por São Pio X e por Ben­son sobre o cul­to do Homem como con­sti­tu­ti­vo da con­tra-Igre­ja e do reino do Anti­cristo, e aque­le real­iza­do por Paulo VI e João Paulo II, que pelo con­trário viram no antropocen­tris­mo e no cul­to do homem o coração do Con­cílio Vat­i­cano e ten­taram con­cil­iar o inc­on­cil­iáv­el (tran­scendên­cia e ima­nen­tismo, teo­cen­tris­mo e antropocen­tismo, teís­mo e pan­teís­mo) [1]. O Anti­cristo de Ben­son se apre­sen­ta sob as aparên­cias de sol­i­daris­mo, de paci­fis­mo aguer­ri­do con­tra a religião cristã, que seria “por­ta­do­ra da espa­da e não da paz”, de human­i­taris­mo nat­u­ral­ista, que abole a pena de morte e insti­tui o “Min­istério da eutanásia”, sendo a morte não mais o iní­cio da vida eter­na, mas o retorno do indi­ví­duo ao “Todo” (p.36), que sub­sti­tuí a espir­i­tu­al­i­dade com a psi­colo­gia. O todo no quadro do mundi­al­is­mo mais radical:«a unidade impes­soal, o anu­la­men­to do indi­ví­duo, da família, da nação no mun­do» (p. 25). O homem é tudo, é “Deus”; não existe um Deus tran­scen­dente, mas ele é ima­nente ao mun­do e ape­nas a coop­er­ação solidária de todos os home­ns pode evoluir con­tin­u­a­mente para mel­hor (p. 26).

 

A perseguição físi­ca

 

Esta con­tra-igre­ja nat­u­ral­ista e paci­fista des­en­cadeia bem rápi­do uma cru­en­ta perseguição con­tra o cris­tian­is­mo, que já perdeu muitos con­sen­sos a favor do human­i­taris­mo. Ben­son nos descreve então, o “Cor­po mís­ti­co na ago­nia”, pro­pri­a­mente como Jesus Cristo, e o Homem que gri­ta para a Igreja:”salvou os out­ros, não pode sal­var a si mes­ma?” (p.48). Nem mes­mo do Céu desce, naque­les momen­tos trági­cos, uma palavra para ani­mar os fiéis persegui­dos e mar­t­i­riza­dos. A maçonar­ia e o democ­ra­tismo, mais que o comu­nis­mo ago­ra ultra­pas­sa­do pelo liberis­mo, são a força ocul­ta que manobra a religião do Homem e a perseguição da Igre­ja de Deus (p. 51). O esta­do da humanidade na “Nova Ordem Mundi­al” vem descrito por Ben­son como uma “cópia muito sim­i­lar aos cír­cu­los supe­ri­ores do Infer­no” (p.123). Entre­tan­to, Roma (p. 211) é destruí­da por um bom­bardeio coman­da­do pelo Anti­cristo, o Papa e quase todos os cardeais mor­rem e o novo Papa se refu­gia em Nazareth, onde con­tin­ua com ape­nas 12 cardeais a sua mis­são de gov­ernar a Igre­ja com Bis­pos, sac­er­dotes e fiéis espal­ha­dos em todo o mun­do e pron­tos para o martírio, que podem pre­gar e cel­e­brar os sacra­men­tos ape­nas em pri­va­do, sob pena de morte. Na pági­na 170, Ben­son nos descreve o “novo cul­to” impos­to pela maçonar­ia e pelo Anti­cristo a nova Humanidade, que ama os praz­eres, as riquezas e as hon­ras, ao con­trário do cris­tian­is­mo que ensi­na a amar a cruz, a pobreza e a humil­dade.

Tal “novo cul­to” é uma paró­dia ou um sub­sti­tu­to da Mis­sa Católi­ca, é o cul­to do Homem, que tem neces­si­dade de cer­to cer­i­mo­ni­al para pro­fes­sar a “Religião do Futuro”, o ‘espíri­to do mun­do’, espo­li­a­do de toda ideia sobre­nat­ur­al e da graça san­tif­i­cante. Como não pen­sar no Novus Ordo Mis­sae, o novo cul­to da religião antropocên­tri­ca do Vat­i­cano II? É impres­sio­n­ante ver como 100 anos antes daqui­lo que esta­mos viven­do, seja a nív­el políti­co ou reli­gioso, Ben­son tivesse já intuí­do quase tudo e quase nos mín­i­mos detal­h­es. Um dos per­son­agens do romance de Ben­son (a sen­ho­ra Mabel) se da con­ta que a nova fé paci­fista e human­i­tarista não é mel­hor que a intran­sigên­cia cristã, antes talvez seja car­rega­da de maior ódio e cru­el­dade do que aque­las man­i­fes­tadas por alguns ou muitos cristãos no cur­so dos sécu­los (p. 220). Como acred­i­tar que «aque­la besta sel­vagem, com sangue [dos cristãos mar­t­i­riza­dos] que saia das suas unhas seden­tas de vio­lên­cia, fos­se a Humanidade nova? Isto é, aqui­lo que ela chama­va o seu Deus? ”?» (p. 231). Ben­son dis­tingue bem o Cris­tian­is­mo dos cristãos, que nem todos sem­pre viver­am o cris­tian­is­mo segun­do o espíri­to de Cristo e ofer­e­ce­r­am ao Human­i­taris­mo a des­cul­pa para sub­sti­tuir o Cris­tian­is­mo identificado‑o com os maus e fal­sos cristãos (clero e laica­to).

 

Ulti­mo ato

 

A ulti­ma parte do livro é inti­t­u­la­da “A vitória” (p. 242). Essa se con­suma em Nazaré, quan­do o Anti­cristo iden­ti­fi­cou o lugar onse se refu­giou o ulti­mo Papa e o Colé­gio dos cardeais e decide bom­bardeá-lo como havia feito com Roma. Mas pro­pri­a­mente quan­do as aeron­aves se aprox­i­mam de Nazaré e destroem cada coisa, o retorno de Cristo aniquila tam­bém o Anti­cristo e as suas armadas. A vitória do Cris­tian­is­mo como aque­la de Cristo se ele­va e se ren­o­va na cruz e na aparente der­ro­ta.

 

Con­clusão

 

O quadro descrito em 1907 por Ben­son parece a pre­fig­u­ração poéti­ca, daqui­lo que escreveu Ida Magli em 2010 sobre os peri­gos para o catoli­cis­mo romano por parte de uma Europa que  englo­ba as nações em uma óti­ca mundi­al­ista. Os erros descritos pelo Autor partem daque­les que já exis­ti­am na sua época e são lev­a­dos as suas lóg­i­cas con­clusões. Ele enu­mera o lib­er­al­is­mo, a maçonar­ia e o mod­ernismo, que já tin­ham sido con­de­na­dos por Gregório XVI, Pio IX, Leão XIII e São Pio X. Destes três erros prin­ci­pais derivam, como da sua fonte, out­ros mais especí­fi­cos: a críti­ca pura­mente históri­co-filológ­i­ca apli­ca­da a Bíblia, a exper­iên­cia ou o sen­ti­men­to reli­gioso, o pan­teís­mo, o democ­ra­tismo rosseau­ni­ano como úni­ca for­ma de gov­er­no, já con­de­na­dos pelos mes­mos Pon­tí­fices. Então, Ben­son pre­vê quais seri­am as con­se­quên­cias que o mun­do teria tira­do de tais pre­mis­sas: o Cul­to do Homem como religião pan-ecumêni­ca e mundi­al­ista, car­ac­ter­i­za­da por um human­i­taris­mo pura­mente filantrópi­co e nat­u­ral­ista, o sol­i­daris­mo, a psi­canálise no lugar da ascéti­ca e da mís­ti­ca, o eso­ter­is­mo ori­en­tal­izante, um aparente paci­fis­mo otimista, mas real­mente e hip­ocrita­mente aguer­ri­do ape­nas con­tra o Ver­dadeiro e o Bem, um novo cul­to para-maçôni­co para mundi­alizar e glob­alizar defin­i­ti­va­mente as pes­soas reduzi­das a mas­sa. Daqui a “Nova Ordem Mundi­al” e o Reino do Anti­cristo, que ao iní­cio se apre­sen­ta sob aparên­cia de cordeiro, mas depois tira a más­cara e mostra a natureza san­guinária do lobo. Quan­do tudo aparece per­di­do (o Papa mor­to jun­to aos Cardeais e os cristãos mar­t­i­riza­dos crudelis­si­ma­mente em toda parte do globo), aqui a segun­da vin­da de Jesus ou Paru­sia. Em um momen­to a situ­ação se trans­for­ma: o Anti­cristo é mor­to jun­to aos seus supos­tos para ser lança­do no infer­no, enquan­to os persegui­dos por este mun­do e pelo seu “Sen­hor” encon­tran­do a “morte primeiro” entram no Reino dos céus. Nestes anos de des­o­lação e des­ori­en­tação para nós católi­cos, estas pági­nas são um bál­samo arom­a­ti­zante que nos con­vi­dam a lev­an­tar a cabeça e aten­der com con­fi­ança a sal­vação que vem do Altís­si­mo.

d. CURZIO NITOGLIA

 

27 de dezem­bro de 2010

http://www.doncurzionitoglia.com/mondialismo_benson.htm


 

 

Notas:

[1] Em Gaudi­um et Spes n° 24 se lê que «O Homem sobre esta ter­ra é a úni­ca criatu­ra que Deus quis por si mes­ma (propter seip­sam) Papa Mon­ti­ni chega a procla­mar: «a religião do Deus que se fez homem se encon­trou com a religião (porque tal é) do homem que se fez Deus.O que acon­te­ceu? Um com­bate, uma luta, um anátema? Tal pode­ria ser; mas não acon­te­ceu. […]. Uma sim­pa­tia imen­sa para todo homem inva­diu todo o Con­cílio. Dá nos méri­to ao menos nis­to, vós human­istas mod­er­nos, que recusam as ver­dades, as quais tran­scen­dem a natureza das coisas ter­restres, e recon­heces­te o nos­so novo human­is­mo: tam­bém nós, mas que todos, temos o cul­to do homem».(Cfr. Enchirid­ion Vat­i­canum. Doc­u­men­to del Con­cilio Vat­i­cano II. Tex­to ofi­cial e tradução ital­iana, Bolon­ha, Edições Deho­ni­ane Bolon­ha, 9a ed., 1971, Dis­cur­si e mes­sag­gi, pp. [282–283]).

 

Karol Wojty­la em 1976 quan­do ain­da Cardeal, pre­gan­do um retiro espir­i­tu­al a Paulo VI e aos seus colab­o­radores, pub­li­cou em ital­iano com o títu­lo de Sinal de con­tradição. Med­i­tações, (Milão, Vida e pen­sa­men­tos, 1977), ini­cia a med­i­tação “Cristo rev­ela ple­na­mente o homem ao homem” (cap. XII, pp. 114–122) com Gaudi­um et Spes n. 22 e assev­era: “O tex­to con­cil­iar, apli­can­do à sua vol­ta a cat­e­go­ria do mis­tério ao homem, expli­ca o caráter antropológi­co ou até antropocên­tri­co da Rev­e­lação ofer­e­ci­da aos home­ns em Cristo. Esta Rev­e­lação se con­cen­tra sobre o homem […]. O Fil­ho de Deus, através da sua Encar­nação, se uniu a todos os home­ns, e tornou-se – como homem – um de nós. […] Aqui estão os pon­tos cen­trais a que se pode­ria reduzir o ensi­na­men­to con­cil­iar sobre o homem e sobre seu mis­tério” (pp. 115–116). Em suma, este é o con­cen­tra­do dos tex­tos do Vat­i­cano: cul­to do homem pan­teís­mo e antropocen­tris­mo idol­átri­co. Não o digo eu, mas Karol Wojty­la, a luz de Paulo VI e do Con­cílio Pas­toral por ele ter­mi­na­do, ou seja, os intér­pretes ‘autên­ti­cos’ do Vat­i­cano II.

 

Papa João Paulo II afir­ma na sua segun­da encícli­ca (de 1980), “Dives in mis­eri­cor­dia”, n. 1: “Enquan­to as várias cor­rentes do pen­sa­men­to humano no pas­sa­do e no pre­sente eram e con­tin­u­am a ser propen­sas a dividir e a até con­tra­por o teo­cen­tris­mo e o antropocen­tris­mo, a Igre­ja [con­cil­iar, NDR.] […] bus­ca conec­tá-los […] de for­ma orgâni­ca e pro­fun­da. E este é um dos pon­tos fun­da­men­tais, e talvez o mais impor­tante, do mag­istério do últi­mo Con­cílio”. Mais uma vez, não é a inter­pre­tação rad­i­cal do Con­cílio, mas é o próprio ensi­na­men­to con­cil­iar a ser grave­mente errô­neo.

 

·        Naqui­lo que diz respeito a her­menêu­ti­ca da con­tinuidade entre Vat­i­cano II e Tradição apos­tóli­ca, essa não é uma invenção restau­rado­ra de Ben­to XVI como alguns tra­di-ecu­menistas querem faz­er crer, pois dela Paulo VI já havia fal­a­do na ‘Declar­ação con­cil­iar’ de 6 de março de 1964, repeti­da em 16 de novem­bro de 1964: «dado o caráter pas­toral do Con­cílio esse evi­tou pro­nun­ciar de modo extra­ordinário dog­mas dota­dos da nota de infal­i­bil­i­dade; mas esse todavia muniu os seus ensi­na­men­tos com a autori­dade do supre­mo mag­istério ordinário, o qual mag­istério ordinário e assim clara­mente autên­ti­co deve ser acol­hi­do docil­mente e sin­ce­ra­mente por todos os fiéis, segun­do a mente do Con­cílio acer­ca da natureza e dos esco­pos dos sin­gu­lares doc­u­men­tos» (cfr. “Audiên­cia ger­al de quar­ta-feira; 12.01.1966). Além dis­so, na ‘Audiên­cia ao Sacro Colé­gio Car­di­nalí­cio , de 23 de jun­ho de 1972, Paulo VI denun­ciou uma fal­sa e abu­si­va inter­pre­tação do Con­cílio, que seria uma rup­tura com a Tradição, tam­bém doutri­nal, chegan­do ao repú­dio da Igre­ja pré-con­cil­iar, e a licença de con­ce­ber uma “nova” Igre­ja, quase rein­ven­ta­da do seu inte­ri­or, na con­sti­tu­ição, no dog­ma, no cos­tume e no dire­ito».

 

Para Ben­to XVI  o Con­cílio deve ser inter­pre­ta­do sem descon­tinuidade, mas acol­hen­do leal­mente os ele­men­tos de refor­ma e de ren­o­vação. Quan­do insiste – No ‘Dis­cur­so a Cúria romana’, de 22 de dezem­bro de 2005 – sobre o fato que a «descon­tinuidade», ou quan­do afir­ma que não existe descon­tinuidade entre tal prece­dente Mag­istério e a Dei Ver­bum na exor­tação apos­tóli­ca Ver­bum Domi­ni, quan­do ensi­na que da mod­ernidade são recu­sa­dos os erros, mas acol­hi­das as instân­cias, quan­do, sobre­tu­do, recor­da que para exerci­tar um min­istério na Igre­ja «de for­ma legí­ti­ma» e em ple­na comunhão com o Romano Pon­tí­fice, é necessário «a aceitação do Con­cílio Vat­i­cano II e do mag­istério pós-con­cil­iar dos Papas» (‘Car­ta aos Bis­pos da Igre­ja Católi­ca a respeito da remis­são da exco­munhão dos 4 bis­pos con­sagra­dos pelo Arce­bis­po Lefeb­vre’, de 10.03.2009), con­tin­uar a pedir ao papa atu­al «um apro­fun­da­do exame do Con­cílio Vat­i­cano», acred­i­tan­do que o queira faz­er de maneira con­forme a Tradição, sig­nifi­ca não levar a sério Ben­to XVI, si mes­mo e os fiéis. Papa Ratzinger não tem nen­hu­ma intenção de rev­er e cor­ri­gir o antropocen­tris­mo rad­i­cal e fun­da­men­tal do Vat­i­cano II, o disse e escreveu explici­ta­mente  ago­ra são ape­nas os tra­di-ecu­menistas que fin­gem não entendê-lo. 

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