P. CURZIO NITOGLIA: ENTREGO AOS MILITANTES


Filosofia, Política, Teologia / sexta-feira, fevereiro 26th, 2016

 

“É todo um mun­do que deve ser refeito, a par­tir do fun­da­men­to, trans­for­man­do-lhe de selváti­co em humano e de humano em divi­no, isto é, segun­do o Coração de Deus” (Pio XII, 10 de fevereiro de 1952).

Se Deus não existe, tudo é per­mi­ti­do. Nada é mais proibido, não existe mais lim­ite, não existe nada que não se pos­sa ten­tar, que não se deva ten­tar, porque se tudo isto foi ver­dadeiro durante um tem­po foi partin­do da hipótese que Deus exis­tia, ago­ra que Deus não existe, nada daqui­lo que era ver­dadeiro ago­ra é ver­dadeiro, nada daqui­lo que era bem, é bem; deve­mos recri­ar tudo. Mas, antes de recri­ar, é pre­ciso começar a destru­ir […], o mel­hor voto que podemos faz­er ao homem mod­er­no é o de reen­trar na ordem nat­ur­al que é aque­la da cri­ação div­ina” (E. Gilson).

ENTREGO AOS MILITANTES
Padre Curzio Nitoglia
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

 

O homem é um “ani­mal politi­co”

A lei para ser ver­dadeira e boa, não só deve ser pro­mul­ga­da pela autori­dade (“Auc­tori­tas fac­it leg­em”), mas deve ser con­forme a razão e ao bem (“Ver­i­tas fac­it leg­em”)” (R. Piz­zorni).

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Intro­dução

 

·        O livre­to “Sub­ver­são & Restau­ração” (Milão, Edições Cen­tro de Estu­do Joana D’arc, 2012) é um man­u­al de base para a for­mação dos mil­i­tantes, que hoje se encon­tram no dev­er de com­bat­er con­tra a Sub­ver­são e pela Restau­ração.

 

·        A ‘Sub­ver­são’ é o naufrá­gio, a der­ruba­da e a per­tur­bação da ordem indi­vid­ual e social. A “Restau­ração” é tornar a con­seguir a ordem per­di­da e então con­siste em restau­rar a ordem indi­vid­ual, famil­iar e social. Para poder restau­rar a ordem na Sociedade civ­il é pre­ciso antes de tê-la em si (“ninguém da aqui­lo que não tem”), depois na família e enfim se pode leva-la ao Esta­do, que é um con­jun­to de famílias unidas, com a final­i­dade de con­seguir o bem comum tem­po­ral sub­or­di­na­do ao espir­i­tu­al. A ordem é a sub­mis­são da alma a Deus e o sen­ho­rio da alma sobre o cor­po e seus instin­tos. A “Sub­ver­são” é o rompi­men­to des­ta ordem. A vida espir­i­tu­al con­siste no resta­b­elec­i­men­to des­ta ordem na alma do homem indi­vid­ual; a vida políti­ca con­siste em leva-la para a Sociedade civ­il. Pela qual o homem não deve e não pode parar ape­nas na vida espir­i­tu­al indi­vid­ual, mas não pode não faz­er políti­ca, sendo, por natureza, e, então, por von­tade de Deus um ani­mal social e politi­co. O lib­er­al­is­mo e o catoli­cis­mo lib­er­al quis­er­am tran­car a religião na sac­ris­tia e faz­er-lhe uma questão pura­mente indi­vid­ual e assim tam­bém, alguns sac­er­dotes fal­sos mís­ti­cos ou pseu­do-espir­i­tu­al­is­tas, des­en­car­na­dos e mod­ern­izantes. A dout­ri­na católi­ca, ao invés, fala do Reino social de Jesus Cristo e não ape­nas de Reino indi­vid­ual.

 

·        A “Sub­ver­são” nasceu com o peca­do de Adão, mas, a par­tir da Cri­stan­dade, que é a época em que o espíri­to do Evan­gel­ho infor­ma­va as leis da Sociedade, ela con­heceu várias eta­pas: o Human­is­mo e o Renasci­men­to (1400–1500), que bus­caram sub­sti­tuir o Evan­gel­ho com a Cabala ou o eso­ter­is­mo hebraico no nív­el das elites int­elec­tu­ais ou Acadêmi­cas e cul­tur­ais; depois veio o Protes­tantismo (1517), que imer­sou o sub­je­tivis­mo e o rel­a­tivis­mo na Religião tornando‑a uma pura exper­iên­cia sub­je­ti­va e sen­ti­men­tal, essen­cial­mente anti-hierárquica e sub­verte­do­ra da ordem queri­da por Jesus quan­do fun­dou a Sua Igre­ja sobre uma pes­soa que é o Papa, o qual é  na ter­ra o Rei do Cor­po Mís­ti­co; enfim, veio a Rev­olução France­sa (1789), que lev­ou a des­or­dem da Sociedade, na ciên­cia e na ação Políti­ca. O Comu­nis­mo (1917) piorou a des­or­dem da Rev­olução France­sa – bus­can­do destru­ir a própria sociedade pri­va­da, a família e a religião – e con­heceu o seu vér­tice com o 1968 desposan­do o freud­is­mo, que lev­ou a des­or­dem ao inte­ri­or do homem exci­tan­do ao parox­is­mo da incli­nação para o peca­do com as três Con­cu­pis­cên­cias e os sete Vícios cap­i­tais, tor­na­do assim o homem um ani­mal sel­vagem e impul­si­vo. Hoje nos encon­tramos na últi­ma fase da Sub­ver­são, o Mundi­al­is­mo, que a par­tir de 11 de setem­bro de 2011 bus­ca assen­ho­rar-se do mun­do inteiro e edi­ficar um úni­co Tem­po e uma só Repúbli­ca uni­ver­sal para tornar escra­va a quase total­i­dade da humanidade sob o jul­go de Israel e da Améri­ca, os dois Esta­dos dom­i­na­dos pelos prin­ci­pais agentes da Sub­ver­são: o judaís­mo e a maçonar­ia.

 

·        Como não é cor­re­to reduzir ape­nas a maçonar­ia o agente prin­ci­pal da “Sub­ver­são” omitin­do o judaís­mo pós-bíbli­co, que perseguiu Jesus, os Após­to­los e os primeiros cristãos, é igual­mente erra­do reduzir os motores da Sub­ver­são pes­soal a ape­nas dois: “orgul­ho e sen­su­al­i­dade”, enquan­to a Sagra­da Escrit­u­ra nos fala tam­bém de um ter­ceiro motor: a avareza e a vã curiosi­dade, que é o apego des­or­de­na­do aos bens ter­renos e o frívo­lo dese­jo de saber aqui­lo que acon­tece no mun­do (“Con­cu­pis­cên­cia dos olhos”). “O a‑judaísmo” e “a a‑Avareza” (alfa pri­v­a­ti­vo) são as duas defi­ciên­cias do livro “Rev­olução e Con­tra-rev­olução” de Plínio Cor­reia de Oliveira (São Paulo, Brasil, 1949) que busquei reme­di­ar em “Sub­ver­são e Restau­ração”.

 

·        Segun­do a dout­ri­na católi­ca (defini­da “de Fé div­ina” e infalivel­mente pelo Con­cílio de Tren­to, sessão 5, DB 788, 792 e 815 ss.) o Peca­do orig­i­nal de Adão deixou no homem a pri­vação da Graça San­tif­i­cante, o ofus­ca­men­to do espíri­to e o desar­ran­jo na har­mo­nia do seu ser, fazen­do-lhe exper­i­men­tar a rebe­lião dos sen­ti­dos ao espíri­to e a insub­or­di­nação do espíri­to a Deus (cfr. S. Th., II-II, qq. 164–165). A Inci­tação ao peca­do ou a incli­nação des­or­de­na­da para o mal, não é invencív­el e pecaminosa em si; o tor­na ape­nas se a livre von­tade humana a faz pas­sar da potên­cia ao ato do peca­do. Em breve a con­cu­pis­cên­cia não é peca­do, mas incli­na a esse (cfr. Con­cílio de Tren­to, DB 792; S. Th., I‑II, q. 82, a. 2). As Con­cu­pis­cên­cias são três segun­do a Rev­e­lação (1a Jo., II, 16): “Tudo aqui­lo que é do mun­do, a Con­cu­pis­cên­cia da Carne, a Con­cu­pis­cên­cia dos olhos e a Sober­ba da vida, não vem do Pai”

 

·        A “ Con­cu­pis­cên­cia dos olhos” tende a faz­er das riquezas e das vaidades des­ta vida o Fim ulti­mo. A trí­plice Con­cu­pis­cên­cia é a fonte do mal e da sub­ver­são pes­soal; dessa tem origem os sete Vícios cap­i­tais, más tendên­cias que nos impul­siona ao peca­do atu­al e são “chefes” ou fonte de inu­meráveis des­or­dens. Se da Con­cu­pis­cên­cia da Sober­ba nascem três Vícios cap­i­tais (orgul­ho, inve­ja e cólera) e da Con­cu­pis­cên­cia da Sen­su­al­i­dade nascem out­ros três Vícios Cap­i­tais (lux­u­ria, gula e preguiça), não é necessário esque­cer que da Con­cu­pis­cên­cia dos Olhos (avareza e curiosi­dade) nasce o apego des­or­de­na­do a esta vida, como se fos­se aque­la eter­na (S. Th., I‑II, q. 84, aa. 3–4; De Malo, q. 8, a. 1): essa tende a faz­er nos tro­car o meio pelo fim (S. Th., II-II, q. 118; De Malo, q. 113), é uma espé­cie de idol­a­tria, é “o cul­to do bez­er­ro de ouro; não se vive mais que para o din­heiro. Não se dá nada ou quase nada aos pobres e as boas obras: cap­i­talizar, eis o fim supre­mo ao qual inces­san­te­mente se mira. […]. A civ­i­liza­ção mod­er­na desen­volveu uma for­ma parox­ís­ti­ca de amor insaciáv­el das riquezas, a plu­toc­ra­cia, para adquirir  aque­la autori­dade dom­i­nado­ra que vem das riquezas, afim de coman­dar os Sober­a­nos, os Gov­er­nos e os povos. Esta sen­ho­ria do ouro, degen­era muitas vezes em intol­eráv­el tira­nia”  (A. TANQUEREY, Com­pen­dio di Teolo­gia Ascéti­ca e Mist­i­ca, Roma-Pari­gi, Desclée, 1924, pp. 556–557).

 

·        O erro, que muti­la a fonte da “Sub­ver­são pes­soal”, é encon­tra­do – como antecipei aci­ma – em PLÍNIO CORREA DE OLIVEIRA  (Rev­olução e Con­tra-rev­olução, São Paulo Brasil, 1949, tr. It, Cris­tian­ità, 1977) jun­to a muti­lação do motor da “Sub­ver­são social” enquan­to salta de pé jun­tos o Judaís­mo talmúdi­co para falar só en pas­sant de Maçonar­ia. Não por a aca­so os teo-con­ser­vadores íta­lo-amer­i­canos se ref­er­em a esta obra do pen­sador brasileiro sus­ci­ta­do para trans­ferir a “Restau­ração” da ordem pes­soal, famil­iar e social do plano filosó­fi­co, espir­i­tu­al e políti­co, para aque­le cre­matís­ti­co ou espec­u­la­ti­vo e lat­i­fun­di­arista.

·        A “Sub­ver­são” é a des­or­dem que o homem exper­i­mente em si depois do peca­do orig­i­nal, atrás do impul­so das três con­cu­pis­cên­cias (orgul­ho, avareza e luxúria); a “Restau­ração” é a procu­ra do retorno a ordem tur­va­da pelas três con­cu­pis­cên­cias no indi­vid­uo, na família e na Sociedade civ­il.

 

·        A Restau­ração com­por­ta a Hier­ar­quia. Não é necessário cair no vício do farisaís­mo calvin­ista e lib­er­al, o qual tro­ca hier­ar­quia por pre­potên­cia, des­fru­ta­men­to e opressão do fra­co. Hier­ar­quia sig­nifi­ca que existe uma difer­ença aci­den­tal entre os home­ns (quem é mel­hor do que os out­ros, quem é mais inteligente que os out­ros, quem tra­bal­ha mais que os out­ros), a qual faz com que o mel­hor este­ja aci­ma e comande, sem desprezar e mal­tratar quem se encon­tra abaixo e obe­dece. São Paulo por sua vez ensi­na: «Muitos são os mem­bros, mas um só é o cor­po. Nem o olho pode diz­er a mão: “Não pre­ciso de ti”; nem a cabeça aos pés […].   Ao invés dis­so, aque­les mem­bros que pare­cem mais humildes são os mais necessários. […]. Deus assim for­mou o cor­po, de modo que não haja divisão nele, mas antes, para que os vários mem­bros cuidassem um dos out­ros. “Então, se um mem­bro sofre, todos os mem­bros sofrem jun­tos; e se um mem­bro esta bem, todos os out­ros se ale­gram com ele» (1 Cor., XII, 4–20).

 

·        É impor­tante que o mil­i­tante se habitue a viv­er bem, respei­tan­do a Lei div­ina e nat­ur­al, porque “é pre­ciso viv­er como se pen­sa, de out­ro modo se ter­mi­na por pen­sar mal e se viv­er mal”. Não podemos restau­rar a Sociedade se tiver­mos a des­or­dem ou a Sub­ver­são em nós (“se age como se é, o modo de agir é o modo de ser”). Os con­sel­hos práti­cos para restau­rar a si mes­mo, a família e a Sociedade, são os seguintes: 1º) refor­mar a si mes­mo (monás­ti­ca), depois a família (econo­mia)  e então a Sociedade (políti­ca); 2º) retornar ao bom sen­so, ao real­is­mo que con­for­ma o pen­sar a real­i­dade e pos­sivel­mente estu­dar a filosofia perene de San­to Tomás que elevou a ciên­cia o sen­so comum e a reta razão que todo homem nor­mal pos­suí; 3º) vencer o ócio, que é o “pai dos vícios”, e enco­ra­jar o esforço físi­co, int­elec­tu­al e moral; 4º) recor­rer a Deus onipo­tente, porque só Ele pode debe­lar o Levi­atã mundi­al­ista que atual­mente esma­ga os home­ns como escravos.

 

·        Todavia – no pre­sente arti­go “Entrego aos mil­i­tantes” – ocorre com­ple­tar o dis­cur­so feito em “Sub­ver­são & Restau­ração”, com algu­mas con­sid­er­ações para os mil­i­tantes, que se encon­tram a faz­er “políti­ca” (isto é a vir­tude da Prudên­cia na Sociedade Civ­il) dire­ta­mente, apli­can­do a vida quo­tid­i­ana e conc­re­ta os princí­pios estu­da­dos no primeiro livro. Tal inte­gração a uso sobre­tu­do, mas não exclu­si­vo, dos mil­i­tantes lei­gos diz respeito: 1º) a teo­ria e espe­cial­mente a práti­ca da Restau­ração do Reino social de Cristo, evi­tan­do os dois erros por exces­so e por defeito do Ange­lis­mo super-espir­i­tu­al­ista e do Lib­er­al­is­mo laicista. Como o homem é com­pos­to de alma e cor­po e não é só espíri­to ou só matéria, assim ele não é orde­na­do ape­nas ao esta­do laical (laicis­mo lib­er­al) ou hiper-cler­i­cal (super-espir­i­tu­al­is­mo ange­lista), mas as duas esferas se inte­gram na coop­er­ação sub­or­di­na­da de cor­po e alma e de laica­to e sac­erdó­cio. 2º) O não mis­tu­rar o plano da ver­dade e dos princí­pios perenes e imutáveis com os casos práti­cos (plano do mutáv­el agir humano) para diluir os primeiros baixan­do lhes do nív­el imutáv­el da ver­dade teóri­ca a con­tingên­cia da vida práti­ca. 3º) A ver­dade que o homem é uma criatu­ra, a qual diz respeito ao Cri­ador; além dis­so o homem é um ani­mal social, não um “indi­vid­uo abso­lu­to” (ide­al­is­mo) nem um ani­mal sac­er­do­tal por natureza (se con­fundiria a natureza e a graça), evi­tan­do assim os dois erros no indi­vid­u­al­is­mo lib­er­al e ide­al­ista, que leva a anar­quia e o erro do ange­lis­mo hiper-espir­i­tu­al­ista, que tornar­ia o mun­do um con­ven­to (pan-voca­cionista), con­fundin­do os Pre­ceitos com os Con­sel­hos.  4º) Em políti­ca a ver­dade e os princí­pios não devem ser con­fun­di­dos com o cam­po da ação pru­den­cial, mas é pre­ciso aplicar o princí­pio imutáv­el aos casos práti­cos diver­sos e mutáveis. Por princí­pio o Esta­do deve se sub­or­di­nar a Igre­ja, este princí­pio é imutáv­el emb­o­ra deva ser apli­ca­do as várias épocas com dis­crição, bom sen­so e prudên­cia sobre­nat­ur­al, ten­do em con­ta as cir­cun­stân­cias na qual se esta viven­do.

Pról­o­go

·        São Pio X na encícli­ca Iucun­da Sane (1904) nos recor­da que:

1º) Não é pre­ciso con­fundir e mis­tu­rar os princí­pios com a práti­ca, a ver­dade com as exigên­cias da vida, de modo que se caia na evolução per­pé­tua da ver­dade, como que­ria Mau­rice Blondel “ver­i­tas est adae­qua­tio intel­lec­tus et vitae” (Ndt.: a ver­dade é ade­quação da mente a vida), na ver­dade, dado que as exigên­cias da vida humana são con­tin­gentes, conc­re­tas e históri­c­as, o int­elec­to deve se ade­quar a elas que mudam con­stan­te­mente. A ver­dade não esta mais anco­ra­da na esta­bil­i­dade e imutabil­i­dade do ser, mas na flu­tu­ação e no moto per­pé­tuo do devenir. Equiv­ale a anco­rar a nave sobre as flu­tu­ações móveis das ondas e não sobre o fun­do estáv­el do mar.

2º) O cato-lib­er­al­is­mo ou o social-mod­ernismo, ao invés, con­funde vol­un­tari­a­mente e cien­tifi­ca­mente princí­pios e práti­cas, assim for­mu­lam “meias ver­dades” que são mais perigosas que o erro man­i­festo, porque ess­es estão escon­di­dos e secre­tos, como o mod­ernismo qual­i­fi­ca­do como “foe­dus clan­des­tinum” ou “sei­ta sec­re­ta” por São Pio X (Sacro­rum Anti­s­tium, 1º setem­bro de 1910). Tais meias ver­dade são apli­cadas não ape­nas na filosofia, no dog­ma e na moral, mas tam­bém na dout­ri­na social e políti­ca da Igre­ja e sobre­tu­do na colab­o­ração hier­ar­quiza­da entre Esta­do e Igre­ja. 3º) Cer­ta­mente é pre­ciso calar o princí­pio na práti­ca com Prudên­cia, mas a Prudên­cia não é a Fé, o dog­ma, a ver­dade ou o ser; essa é a rec­ta ratio agi­bil­i­um, nos diz como deve­mos faz­er para agir hic et nunc vir­tu­osa­mente a luz dos princí­pios imutáveis, sem con­fundir ser e agir, ver­dade e pru­den­cial­i­dade. Ao invés, para o cato lib­er­al­is­mo ou o social-mod­ernismo a-dog­máti­co o Princí­pio ou o Val­or máx­i­mo, abso­lu­to e uni­ver­sal é: “não é necessário exager­ar na afir­mação da ver­dade, ocorre esmaecê-la e tor­na-la aceitáv­el ao homem mod­er­no”. Ora, é ver­dadeiro que não se deve cair no rig­oris­mo desumano e fanáti­co de quem anu­la os casos práti­cos e vê ape­nas os princí­pios, mas, mas se a vida é fei­ta de casos práti­cos e con­tin­gentes, estes são resolvi­dos a luz dos princí­pios imutáveis e perenes.

·        Mons. Antônio De Cas­tro May­er na sua “Car­ta pas­toral sobre o Reino social de Jesus Cristo” (1978) nos recor­da que:

1º) O homem é uma união de alma, cor­po e socia­bil­i­dade, con­tra o ange­lis­mo super-espir­i­tu­al­ista e con­tra o mate­ri­al­is­mo laicista de dire­i­ta (lib­er­al­is­mo) e de esquer­da (social­is­mo).

2º) A Autori­dade vem de Deus e não do homem ou do povo, que usurparia, assim, o lugar do Cri­ador.

3º) Aderir ao fal­so e faz­er o mal não é ver­dadeira liber­dade, mas é um defeito con­tra-natureza des­ta, porque a alma humana é nat­u­ral­mente forneci­da de int­elec­to para con­hecer o ver­dadeiro e recusar o fal­so, e, de von­tade para amar o bem e fugir do mal.

4º) Dado que Deus é a própria Per­feição sub­sis­tente, não pode faz­er o mal, que seria uma imper­feição. Então, nem mes­mo Deus pode con­ced­er a liber­dade às fal­sas religiões, o dire­ito a liber­dade do erro, que são con­tra a natureza e intrin­se­ca­mente per­ver­sos.

5º) A ordem cronológ­i­ca a seguir para “restau­rar tudo em Cristo” é antes de tudo a con­ver­são pes­soal (“nemo dat quod non habet”), depois a família, então o vilare­jo e enfim o Esta­do. Se essa ordem é inver­ti­da, como fez Charles Mau­r­ras (‘poli­tique d’abord’), e se parte do Esta­do, sem antes ter for­ma­do ver­dadeiros cristãos, famílias e vilare­jos sin­ce­ra­mente cristãos, se tem um teto sem casa e sem fun­da­men­to; um móv­el comi­do por ver­mes, um braço enges­sa­do, mas doente inter­na­mente de gan­grena, que mais cedo ou mais tarde explodirá e fará desin­te­grar a enges­sadu­ra; um esquele­to jurídi­co do Esta­do que tem uma aparên­cia cristã, mas sem alma e sem sub­stân­cia.  Leão XIII (Immor­tale Dei, 1885) e São Pio X (Notre charge apos­tolique, 1910) nos recor­dam que “a Cri­stan­dade exis­tiu, não é pre­ciso inven­tar uma nova, mas instau­rá-la e restau­rá-la inces­san­te­mente con­tra os assaltos da “impiedade” (São Pio X) e que o Evan­gel­ho “primeiro pen­etrou as almas dos cidadãos, das famílias e do exérci­to romano até chegar, enfim, tam­bém ao Palá­cio impe­r­i­al” (Leão XIII).

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·        SANTO AGOSTINHO abor­da em primeiro lugar, mel­hor que todos e de for­ma sis­temáti­ca, o prob­le­ma das relações entre Esta­do e Igre­ja, que depois será retoma­do por todos os out­ros Pais e pelos Escolás­ti­cos.

1º) O Esta­do deve ser sub­or­di­na­do a Igre­ja como o cor­po a alma, a matéria a for­ma, a potên­cia ao ato, o devenir ao ser. Em breve San­to Agostin­ho – jun­to a todos os Padres ecle­siás­ti­cos – ensi­nou a dout­ri­na sis­temáti­ca quase total­mente e defin­i­ti­va­mente con­cluí­da da coop­er­ação hierárquica entre Esta­do e Igre­ja.

2º) A Igre­ja “ não pode não faz­er políti­ca” (São Pio X), que não é par­tidarista mas é a vir­tude da Prudên­cia apli­ca­da a Sociedade civ­il, sendo o homem um “ani­mal social por natureza” (Aristóte­les e San­to Tomás).

O Lib­er­al­is­mo-laicista e o Ange­lis­mo-hiper cler­i­cal­ista

·        O lib­er­al­is­mo laicista quer dessacralizar e dis­solver a Sociedade, porque não admite a dimen­são criat­ur­al (que se ref­ere ao Cri­ador) e social (que alude a Polis e então a Políti­ca) do homem. Para quem o homem e a Sociedade não depen­de­ri­am de Deus (sec­u­lar­iza­ção e dessacral­iza­ção) e o homem não seria um ani­mal social e politi­co (indi­vid­u­al­is­mo anar­co-lib­er­al).

 

·        O ange­lis­mo hiper-espir­i­tu­al­ista quer tornar a religião um fato emi­nen­te­mente indi­vid­ual e “pan-voca­cionista” (“Ou voca­ciona­do ou quase dana­do”), negan­do implici­ta­mente a natureza como Deus a criou: homem ani­mal racional, com­pos­to de alma e cor­po, e nat­u­ral­mente social e não “nat­u­ral­mente sac­er­do­tal”), o que equiv­a­le­ria con­fundir a ordem nat­ur­al com aque­la sobre­nat­ur­al, os Man­da­men­tos com os Con­sel­hos, como fazem as seitas e os regimes abso­lutis­tas.

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Atu­al­i­dade do prob­le­ma

·        São Pio X na Car­ta Encí­clia Iucun­da Sane (Março de 1904) expli­ca que, o meio com que os het­ero­dox­os se infil­tram na Igre­ja, con­siste em aplicar uma regra de ação pru­den­cial aos princí­pios ou aos dog­mas, con­fundin­do o plano teóri­co ou da ver­dade com aque­le práti­co ou do agir humano. Ora, con­tin­ua papa Sar­to, a prudên­cia é uma vir­tude moral, que aju­da a aplicar os princí­pios ao caso práti­co e a resolver este últi­mo a luz do princí­pio, sem rebaixar o princí­pio, fazen­do o váli­do somente se prati­ca­mente útil. Por­tan­to, trans­por prudên­cia ou a práti­ca, confundindo‑a no nív­el dos princí­pios, é baixar o princí­pio do nív­el teóri­co para aque­le práti­co, o que tem con­se­quên­cias desas­trosas: do pon­to de vista teóri­co dilui o princí­pio e cor­rói o dog­ma; do pon­to de vista práti­co pode degener­ar se em las­sidão ou rig­oris­mo como ver­e­mos adi­ante”.

 

·        Infe­liz­mente o catoli­cis­mo lib­er­al faz isto mes­mo a respeito da dout­ri­na sobre a relação entre Esta­do e Igre­ja. Com a des­cul­pa de maior prudên­cia, esse obje­ta que a dout­ri­na da união hierárquica entre poder tem­po­ral e espir­i­tu­al não é “pru­den­cial” ou “pas­toral” no tem­po pre­sente. O lib­er­al­is­mo católi­co ou mod­ernismo social não nega explici­ta­mente o princí­pio da união entre Esta­do e Igre­ja, para não ser expul­so da Igre­ja, mas diz que prati­ca­mente ou pru­den­cial­mente hoje não é mais opor­tuno e útil, mas danoso.

 

·        Para refu­tar tal erro, é necessário dis­tin­guir bem a teo­ria ou o princí­pio, que não muda (2+2=4) da práti­ca (ten­ho 4 maçãs, as pos­so com­er todas jun­tas ou é mais pru­dente com­er 1 de man­hã, 1 depois do almoço, 1 a tarde e out­ra colo­car a parte em caso de neces­si­dade?). Atenção! Dis­tin­guir para unir e não para con­tra­por, na ver­dade a práti­ca segue a teo­ria e é a apli­cação ao caso con­cre­to e con­tin­gente do princí­pio uni­ver­sal e imutáv­el. Se con­fun­do práti­ca ou prudên­cia (com­er 4 maçãs jun­tas pode­ria ser indi­gesto) com o princí­pio (2+2=4) frus­tro a imutabil­i­dade deste (e dou lugar a evolução da ver­dade, do dog­ma, a Tradição vivente…).

 

 

·        É pre­ciso evi­tar o erro por exces­so de quem não con­segue calar na práti­ca o princí­pio e se tor­na um ideól­o­go sec­tário, fanáti­co, implacáv­el e sem mis­er­icór­dia. O mod­ernismo políti­co, ao con­trário, peca por defeito de bom sen­so nat­ur­al, de Fé e de Esper­ança sobre­nat­ur­al e diante do mun­do mod­er­no, que é capaz de enten­der, mas se opõe a ver­dade renun­cian­do por princí­pio aos princí­pios.

 

·        Quan­to a dout­ri­na social católi­ca sobre a união hier­ar­quiza­da entre Esta­do e Igre­ja, o princí­pio é sem­pre váli­do, pre­cisa saber aplicá-lo na práti­ca, mas não mis­tu­rar e con­fundir teo­ria e práti­ca para chegar a dan­i­ficar ou adoçar o princí­pio. Se cairia no util­i­taris­mo lib­er­al ou “comod­is­mo” amer­i­can­ista, con­de­na­dos por Leão XIII na car­ta Testem benev­o­len­ti­ae 1889* (pri­ma­do do útil sobre a ver­dade e amor imod­er­a­do da como­di­dade). Então, emb­o­ra sem rene­gar explici­ta­mente o princí­pio, o acred­i­tam teori­ca­mente e prati­ca­mente ina­bit­u­al, não pos­sív­el, nem sequer a lon­go pra­zo e lhe renun­ci­am se não de jure ao menos de fac­to. Para o qual a úni­ca estra­da per­cor­rív­el é aque­la das con­cessões, do diál­o­go com a mod­ernidade, ceden­do aos seus fal­sos princí­pios mod­er­nos, enquan­to aque­les da filosofia perene, da teolo­gia escolás­ti­ca, do Mag­istério tradi­cional são rep­uta­dos, his­tori­ca­mente e não teo­reti­ca­mente, acha­do arque­ológi­co, desat­u­al­iza­do, graças a men­tal­i­dade his­toricista que, calan­do o princí­pio na sua época históri­ca e tornando‑o um fato cronológi­co e con­tin­gente e não mais um princí­pio imutáv­el, rel­a­tiviza tudo.

 

·        Tam­bém no cam­po social a ver­dade ou os princí­pios não se enquadram no cam­po da ação e do agir pru­den­cial. É necessário aplicar com prudên­cia o princí­pio imutáv­el da ver­dade teoréti­ca ao caso práti­co não só indi­vid­ual mas comum, social e políti­co. Todavia não pre­cisa mis­tu­rar teo­ria e práti­ca, princí­pio e ação, dog­ma e prudên­cia. A ver­dade per­tence a ordem do ser e a prudên­cia aque­la do agir. Ora “agere sequitur esse, modus agen­dit sequitur mod­um essen­di, sed agere non est esse” (o agir segue o ser, o modo de agir segue o modo de ser, mas a ação não é o ser). O modo de agir ou o ato humano práti­co pode ser incom­ple­to, imper­feito e tam­bém mal quan­do é fal­so, mas uma ver­dade teoréti­ca não pode ser, por definição, incom­ple­ta, imper­fei­ta e fal­sa, está seria a con­tradição mes­mo sub­sis­tente como “o cír­cu­lo quadra­do”, para o princí­pio de iden­ti­dade e não con­tradição (verdadeiro=verdadeiro, falso=falso, ver­dadeirofal­so). A ver­dade é a con­formi­dade do int­elec­to a real­i­dade (“adae­qua­tio rei et intel­lec­tus”), a ideia é ver­dadeira se cor­re­sponde ao ser, não a ação, é fal­sa se não há cor­re­spondên­cia, neste últi­mo caso não se tem um con­ceito imper­feito, mas sim­ples­mente fal­so ou errô­neo, ao invés o ato humano pode ser “menos per­feito daqui­lo que dev­e­ria ser” (imper­feição ou “actus remis­sus”) ou ligeira­mente mal (peca­do venial) ou grave­mente mal (peca­do mor­tal). É necessário com­preen­der e sim­pa­ti­zar com a frag­ili­dade práti­ca do homem, sem jus­ti­ficá-la e aprová-la, mas a trans­posição da prudên­cia ao agir na ordem do ser ou da ver­dade, medi­ante meias-ver­dades ou ter­mos equívo­cos, ambígu­os, esmaec­i­men­to, impre­cisos, os quais, delib­er­ada­mente, não são explici­ta­mente errô­neos, é ain­da mais perigoso para a sã razão e a pureza da Fé.

 

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Mons. Antônio de Cas­tro May­er

·        Na sua Car­ta pas­toral sobre a Realeza social de Cristo em 1978, o bis­po brasileiro dis­tingue muito bem a ver­dade da ação práti­ca, e escreve que “o lib­er­al­is­mo que é o indifer­en­tismo rel­a­tivista em matéria reli­giosa e o sep­a­ratismo social do ele­men­to sobre­nat­ur­al é a causa da apos­ta­sia das Nações”. O Lib­er­al­is­mo laicista, na ver­dade, prop­ugna por princí­pio a sep­a­ração entre a religião e políti­ca, Igre­ja e Esta­do, como con­forme­mente a sua filosofia sub­je­tivista-rel­a­tivista uma religião vale a out­ra e con­se­quente­mente o Esta­do deve ser indifer­ente em direção a ver­dadeira religião. Além dis­so con­cebe o indi­vid­uo como um Abso­lu­to, um Fim e nega a dimen­são social e criat­ur­al do homem, que ao invés é em relação com os out­ros e com Deus. Destes princí­pios “teoréti­cos”, indifer­en­tismo, sub­je­tivis­mo, indi­vid­u­al­is­mo e “ práti­cos”, ima­nen­tismo, sep­a­ratismo, lhe segue nec­es­sari­a­mente a sep­a­ração do Esta­do da Igre­ja ou a apos­ta­sia políti­ca, social e nacional, que é mais grave daque­la indi­vid­ual, como matar 1000 pes­soas é mais grave que matar uma só. Em breve é o con­tra reino de Cristo, a con­tra-igre­ja ou a “sin­a­goga de Satanás” (Apoc., II, 9). A dout­ri­na católi­ca ensi­na a coop­er­ação hierárquica entre Esta­do e Igre­ja, para san­tificar não só o indi­vid­uo, que por natureza é sociáv­el e rel­a­ti­vo a sua Causa. Então a Igre­ja quer sacralizar a Sociedade civ­il, união de mais famílias, com­postas por vários home­ns sociáveis, cri­a­dos e depen­dentes de Deus. Ao invés o lib­er­al­is­mo laicista quer dessacralizar a Sociedade, como não admite a dimen­são criat­ur­al e sociáv­el do homem e o ange­lis­mo hiper cler­i­cal­ista quer tornar a religião um fato emi­nen­te­mente indi­vid­ual e “voca­ciona­do”, negan­do implici­ta­mente a natureza como Deus lhe criou: homem ani­mal racional, com­pos­to de alma e cor­po e nat­u­ral­mente social e não “nat­u­ral­mente sac­er­do­tal”: seria con­fundir a ordem nat­ur­al com aque­la sobre­nat­ur­al. Enquan­to o mod­ernismo o faz em detri­men­to do sobre­nat­ur­al ou por dire­ito, o híper-cler­i­cal­is­mo ange­lista o faz por exces­so em detri­men­to da natureza, “sed Gra­tia non tol­lit natu­ra, sup­ponit et per­ficit eam”, ensi­na S. Tomás (S. Th., I, q. 1, a. 8 ad 2). Aqui a causa da apos­ta­sia da hora pre­sente: o laicis­mo-lib­er­al e o ange­lis­mo hiper-espir­i­tu­al­ista, o nat­u­ral­is­mo (Racional­is­mo, Ilu­min­is­mo, Mate­ri­al­is­mo e Ima­nen­tismo) e o espir­i­tu­al­is­mo exager­a­do (Platonismo/Cartesianismo/Idealismo/Ontologismo de Male­branche a Ros­mi­ni).

 

·        “In prin­ci­pio era Auc­tori­tas et Auc­tori­tas erat a Deo”, recita o adá­gio escolás­ti­co. Na ver­dade por Rev­e­lação “não existe Autori­dade se não derivante de Deus”. Ao invés para o lib­er­al­is­mo a autori­dade deri­va do Homem que é o Fim últi­mo de si mes­mo (“non est auc­tori­tas nisi ab homine et pop­u­lo”). O lib­er­al­is­mo é a encar­nação da dout­ri­na das “Duas cidades” descri­ta por S. Agostin­ho no De civ­i­tas Dei, “a cidade de Deus com­pos­ta daque­les que por amor ao Cri­ador recon­hecem a si mes­mos como criat­uras fini­tas e a cidade de Satanás, com­pos­ta daque­les que por amor des­or­de­na­do de si, desprezam a Deus”. A Rev­olução mod­er­na, o laicis­mo lib­er­al con­trapõe Deus e o homem, como duas pes­soas não só dis­tin­tas mas con­trárias e con­tra­pos­tas, uma autôno­ma da out­ra. O homem mod­er­no e con­tem­porâ­neo gri­ta como Lúcifer “Non servi­am!” e como a ser­pente do Éden insin­ua “Ero sicut Deus”. A Igre­ja, que é a ordem ou o con­trário da Rev­olução, a qual é a “própria des­or­dem sub­sis­tente por par­tic­i­pação”, har­mo­niza Deus (“a própria ordem sub­sis­tente”) e o homem como Pai e Fil­ho, dis­tin­tos, não con­trários nem con­tra­pos­tos, mas em relação de con­hec­i­men­to amoroso, altruís­ta, recípro­co e em con­vivên­cia pací­fi­ca medi­ante a Graça san­tif­i­cante. Daqui­lo lhe segue que para a Igre­ja o Esta­do, o qual nat­u­ral­mente é o con­jun­to de home­ns e famílias, deve dar a Deus o cul­to ofi­cial e públi­co, porque o Esta­do é por natureza criatu­ra de Deus. Ao invés o Laicis­mo ou a mod­ernidade antropocên­tri­ca e rev­olu­cionária nega que Deus é cri­ador do homem e a for­tiori da Sociedade civ­il, polis ou civ­i­tas. Então, enquan­to a Igre­ja tem uma con­cepção emi­nen­te­mente políti­ca ou social, dada a natureza sociáv­el do homem cri­a­do por Deus, o laicis­mo, revoltoso e sub­ver­si­vo, odeia a dimen­são social (“o out­ro é o infer­no”, dizia J.P. Sartre, cer­ta­mente os seus escritos foram a moti­vação de muitos jovens, para o suicí­dio  e criat­ur­al do homem, que o colo­ca em relação com os out­ros no Esta­do e em relação com Deus na Igre­ja, a qual é uma Sociedade per­fei­ta jurídi­ca e sobre­nat­ur­al, um “Cor­po mist­i­co”. Mas a dout­ri­na a‑social e lib­er­al – como ensi­na Pio XII – “é con­tra natureza” porque quer “obri­gar o espíri­to e a von­tade do homem a aderir ao erro e ao mal ou a con­sid­erá-lo indifer­ente”, enquan­to o int­elec­to é feito para aderir ao ver­dadeiro e refu­tar o fal­so a von­tade para amar o bem e repudir o mal. Na adesão ao erro ou ao mal não só não se tem nen­hu­ma  per­feição ou enriquec­i­men­to da natureza humana, mas só degradação da inteligên­cia e da von­tade, as quais são as duas fac­ul­dades nobres da alma racional e espir­i­tu­al do homem. O Esta­do, que é o con­jun­to de famílias, as quais se unem para obter mais facil­mente o próprio fim próx­i­mo (bem estar mate­r­i­al) e últi­mo (viv­er vir­tu­osa­mente para unir-se a Deus), não tem o dire­ito de defor­mar a inteligên­cia e a von­tade da alma humana, mas ao con­trário deve aju­dar o homem a con­hecer a ver­dade e a praticar a vir­tude. Tudo isto se con­segue através da coop­er­ação entre políti­ca e religião, Esta­do e Igre­ja. Quem os quer sep­a­rar peca ou por defeito (laicis­mo lib­er­al: indi­vid­u­al­is­mo a‑social) ou por exces­so (espir­i­tu­al­is­mo angelís­ti­co: o homem é só alma, o cor­po é mal­va­do e assim a sociedade ou a polis são um mal a evi­tar para obter o próprio Fim que é o Céu, somente através da religião, a qual não tem nen­hu­ma valên­cia social). Mas o homem não é um anjo, é com­pos­to de alma e cor­po, é feito para viv­er em Sociedade civ­il (Esta­do) e reli­giosa (Igre­ja), as quais não devem pre­scindir uma da out­ra (erro por exces­so: ange­lis­mo platônico/cartesiano) ou com­bat­er-se (erro por defeito: laicis­mo lib­er­al-rev­olu­cionário), mas coop­er­ar sub­or­di­nada­mente como o cor­po e a alma.

 

·        Como por natureza o homem é um ani­mal racional e livre, (feito para con­hecer o ver­dadeiro e amar o bem) e sociáv­el (feito para viv­er em Sociedade civ­il ou políti­ca), nem sequer Deus pode­ria con­ced­er ao Esta­do e ao indi­vid­uo, que são uma criatu­ra nat­ur­al, o poder de con­tradiz­er a sua razão de ser ou final­i­dade (con­hecer o ver­dadeiro, amar o bem, viv­er em Sociedade polit­i­ca nat­ur­al e reli­giosa-sobre­nat­ur­al) e dar-lhes o dire­ito de ser indifer­entes ou neu­tros em matéria de reta razão indi­vid­ual, social e reli­giosa. A liber­dade filosó­fi­ca ou reli­giosa é con­tra a natureza, a tol­erân­cia filosó­fi­ca ou reli­giosa é sem­pre um mal que se pode per­mi­tir de fato, nun­ca quer­er por princí­pio para evi­tar um mal maior. Isto o ensi­na a sã razão, a ver­dadeira teolo­gia, a Tradição apos­tóli­ca e o Mag­istério da Igre­ja. A ignorân­cia invencív­el des­cul­pa o indi­vid­uo do peca­do for­mal, mas não lhe da o dire­ito de faz­er pub­li­ca­mente o mal e propa­gar em foro exter­no e pub­li­ca­mente o erro, porque obje­ti­va­mente ele se encon­tra no erro e no mal, o qual não tem nen­hum dire­ito a existên­cia, a pro­pa­gan­da e a ação públi­ca.

 

·        Uma das final­i­dades da Igre­ja além da con­ver­são indi­vid­ual das almas é a dilatação do Reino de Deus sobre a ter­ra. Este Reino é “prin­ci­pal­mente espir­i­tu­al, mas secun­dari­a­mente tam­bém de ordem políti­ca e tem­po­ral” (Pio XI, Quas Pri­mas, 1925). Então a liber­dade reli­giosa é con­tra a final­i­dade da Igre­ja como Cristo há quis, não só é con­tra a natureza mas tam­bém con­tra a Rev­e­lação. A apos­ta­sia das Nações de Deus, que foi prop­ug­na­da pelos home­ns da Igre­ja (v. Dig­natatis humanae per­son­ae, 7 de dezem­bro de 1965). O ide­al ou a meta apos­tóli­ca a qual todos (lei­gos e cléri­gos) somos chama­dos é a instau­ração do reino de Deus já sobre a ter­ra, emb­o­ra se imper­feita­mente, para obtê-lo per­feita­mente no Paraí­so. Então primeiro deve­mos nos con­vert­er ver­dadeira­mente e viv­er habit­ual­mente na Graça de Deus e então poder­e­mos levar  Cristo na família, no ambi­ente de tra­bal­ho e na Sociedade civ­il. Isto é a ordem a seguir para “instau­rare omnia in Chris­to” (S. Pio X): se não se é cristão inte­ri­or­mente e ver­dadeira­mente não se pode restau­rar a Cri­stan­dade (“nemo dat quod non habet”), não se deve começar com a políti­ca (“poli­tique d’abord” Charles Mau­r­ras) porque isto sig­nifi­caria ini­ciar a con­stru­ir uma cada pelo teto e não pelo fun­da­men­to. Se é con­quis­ta­do o poder do Gov­er­no e se fazem leis cristãs mas o Gov­er­nante e os cidadãos não são cristãos, a “restau­ração” é só exte­ri­or e super­fi­cial e então dura como um fogo de pal­ha. Mes­mo Antônio Gram­sci o havia com­preen­di­do. Segun­do ele, era necessário primeiro con­quis­tar o con­sen­so de uma nação e mudar-lhe a sua men­tal­i­dade e depois con­quis­tar a hege­mo­nia e o poder politi­co  caso con­trário, tudo entraria em colap­so. A Polis é um con­jun­to de famílias e de home­ns, antes vem o indi­vid­uo que unido a out­ra for­ma, uma família, a qual jun­to a out­ras famílias for­mam uma vilare­jo e mais vilare­jos um Esta­do. A Civ­i­tas ou Polis será cristã e orde­na­da na sua medi­da a qual aque­les que lhe fazem parte são orde­nadas e cristãs. Só, então, o Esta­do tem o dev­er de man­ter a ordem e pro­te­ger a vida vir­tu­osa. Mas não se pode começar com o fim, seria uma con­tra­dic­tio in ter­min­is ou um “con­tra-sen­so”, “o princí­pio = o princí­pio, o fim = o fim, o princí­pio ≠ o fim”. Aristóte­les (Políti­ca) e San­to Tomás (De regime prin­cipum) ensi­nan­do que “a políti­ca é a vir­tude da prudên­cia apli­ca­da a Sociedade”, enquan­to a “prudên­cia indi­vid­ual” se chama “monás­ti­ca” e aque­la ‘famil­iar’ se diz “econo­mia”. Leão XIII ensi­na que os primeiros e ver­dadeiros cristãos “fiz­er­am em pouquís­si­mo tem­po, pen­e­trar o Cris­tian­is­mo não só nas suas famílias, mas no exérci­to, no sena­do e por fim no palá­cio do imper­ador”. Não começou no Palá­cio impe­r­i­al, mas do cristão indi­vid­ual.   

 

San­to Agostin­ho

·        Segun­do San­to Agostin­ho o gov­er­nante ou o Príncipe deve admin­is­trar a res-públi­ca como uma ativi­dade volta­da para o bem comum, ou seja, que é faz­er os cidadãos atin­girem o bem moral e fazen­do lhes evi­tar o mal. A origem – como rev­ela São Paulo (Rom., XIII, 1) – do poder é div­ina. O gov­er­no, então, é bom se respei­ta a sua natureza, que é: a Causa efi­ciente da qual tira a Autori­dade, que é Deus, e a sua causa final, que é o bem comum tem­po­ral sub­or­di­na­do àquele moral ou espir­i­tu­al.  De out­ra for­ma se não recon­hece Deus como sua Causa efi­ciente e não tem em mira o viv­er vir­tu­osa­mente (nat­ur­al e sobre­nat­ur­al) o gov­er­no é mau, na ver­dade, é com­paráv­el a “uma ban­da de ladrões”. O bom gov­er­nante deve, segun­do San­to Agostin­ho e todos os Padres Gre­gos e lati­nos, colo­car-se ao serviço do bem e deve pro­mover social­mente ou jun­to a Sociedade civ­il ou Esta­do, a Religião div­ina. A obe­diên­cia a Autori­dade civ­il, todavia, é condi­ciona­da a essa se man­ter na final­i­dade moral (viv­er vir­tu­oso) e na dependên­cia de Deus (causal­i­dade efi­ciente). Senão, a Autori­dade se tor­na tira­nia e é lic­i­to resisti-la em cer­tas e deter­mi­nadas condições (espe­cial­mente de não tornar a situ­ação pos­te­ri­or pior do que a ante­ri­or). Segun­do o Hiponate, o gov­er­nante cristão não ape­nas deve prover a paz inter­na e exter­na da Sociedade civ­il, mas tam­bém aque­la espir­i­tu­al, isto é, o Esta­do deve favore­cer a Igre­ja na sua mis­são de expandir o Reino de Deus em todo o mun­do. Cer­ta­mente a Igre­ja e o Esta­do não podem con­stringir a faz­er o bem, que não seria mais livre e mer­itório, mas devem proibir de faz­er o mal. Antes, para defend­er a Fé pode pedir até mes­mo a inter­venção de quem por­ta a espa­da. Na ver­dade, se o Príncipe deve punir os crimes civis, porque jamais se dev­e­ria impe­di-lo de reprim­ir tam­bém os crimes espir­i­tu­ais (a here­sia e o cis­ma)? Dado que a here­sia e o cis­ma são um mal, na ver­dade o máx­i­mo dos males, quem por­ta a espa­da não pode não servir-se dela para lhes reprim­ir. San­to Agostin­ho refu­ta com 1000 anos de ante­cedên­cia a objeção dos católi­cos lib­erais, segun­do os quais o homem como indi­vid­uo é reli­gioso, mas como cidadão fazen­do parte de um Esta­do deve ser neu­tro em matéria reli­giosa. O Hiponate de fato, afir­ma que o Príncipe serve Deus de dois mod­os: como homem, viven­do a Fé infor­ma­da pela Cari­dade e como Gov­er­nante fazen­do leis con­formes a lei div­ina-nat­ur­al, fazen­do-lhe respeitar e punin­do os seus trans­gres­sores.

 

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Con­clusão

A Igre­ja não pode não faz­er “políti­ca”

·        O Homem é Um Ani­mal nat­u­ral­mente Sociáv­el. Dis­to a neces­si­dade de ensi­nar, hoje mais do que nun­ca, a dout­ri­na social da Igre­ja e de não fechar-se nas sac­ris­tias, como que­ri­am os católi­cos lib­erais,  mas­caran­do tal ced­i­men­to ao catoli­cis­mo lib­er­al sob um exces­si­vo espir­i­tu­al­is­mo ou ange­lis­mo des­en­car­na­do, o qual o lema é “não é pre­ciso faz­er políti­ca!”. Ao invés a real­i­dade, e então a ver­dade, é que o homem é com­pos­to de alma e cor­po, que é um ani­mal racional e tam­bém que é políti­co, feito para viv­er na Soci­etas ou em Polis, e não é um anjo, um ente des­en­car­na­do ou um mon­ge, que vive iso­la­do. Os mon­ges são casos “excep­cionais” e “hero­icos” que con­fir­mam a regra.

 

·        O Peri­go Do Ange­lis­mo Ou Do Espir­i­tu­al­is­mo Exager­a­do. O erro dos con­ser­vadores e de alguns “pseu­do-tradi­cional­is­tas” católi­cos atu­ais é aque­le de elim­i­nar o ele­men­to social da natureza humana, que ao invés foi cri­a­da por Deus nat­u­ral­mente sociáv­el (Aristóte­les, Políti­ca, VI; San­to Tomás de Aquino, De Regimine prin­cipum, liv. I, cap. 14) e de quer­er tornar o homem um indi­vid­uo úni­co (como o lib­er­al­is­mo indi­vid­u­al­ista) sem espaço social e políti­co, para encam­in­há-lo, com um impul­so pura­mente nat­ur­al (até mes­mo se vem do Padre, que per­manece sem­pre um homem mes­mo se con­sagra­do e não é Deus, mas ape­nas um instru­men­to de Deus para aju­dar os fiéis a faz­er a Von­tade de Deus, que não nec­es­sari­a­mente é aque­la do sac­er­dote) para uma vida con­sagra­da a qual pelo con­trário chama ape­nas Deus e na qual se per­se­vera ape­nas com a aju­da de Deus: “Não fos­tes vós que haveis Me escol­hi­do, mas sou Eu que escol­hi a vós”, nos disse Jesus no Evan­gel­ho. A vocação é um con­sel­ho e não um pre­ceito e não se pode obri­gar a seguir um con­sel­ho sob pena de peca­do.

 

·        É pre­ciso con­tes­tar, refu­tar e con­trastar o laicis­mo, em teo­ria e em práti­ca, der­rubar tal modo de vida sub­ver­si­vo e rev­olu­cionário, faz­er a história mais que sofrê-la pas­si­va­mente e ten­tar cri­ar condições de um viv­er social, que facilite aque­le espir­i­tu­al. “A graça pres­supõe a natureza, a aper­feiçoa e não a destruí” (San­to Tomás), assim a Fé pres­supõe a humanidade civ­i­liza­da, a aper­feiçoa, a man­tém em vida e não a deve destru­ir; da mes­ma for­ma a vocação sagra­da pres­supõe a vida famil­iar, social e políti­ca, a per­feição e não a deve aniquilar. Se não hou­vesse uma sociedade famil­iar, não pode­ria haver um “chama­do” e se a Sociedade civ­il ao invés de aju­dar o indi­vid­uo e a família a col­her o próprio Fim lhes impedisse, os “voca­ciona­dos” seri­am muito menos.  É por isto que ocorre “dar a César aqui­lo que é de Cesar [obe­diên­cia as leis tem­po­rais em con­formi­dade com a lei nat­ur­al] e a Deus aqui­lo que é de Deus [a ado­ração].

 

 

Padre Curzio Nitoglia

 10 de jul­ho 2012

 

http://www.doncurzionitoglia.com/consegne_ai_militanti.htm