P. CURZIO NITOGLIA: O BEM DO TODO É MAIOR QUE O BEM DA PARTE


Filosofia, Política / quinta-feira, dezembro 6th, 2012
Padre Curzio Nitoglia
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

Civ­i­tas propter cives, non cives propter civ­i­tatem”

·Con­tra o comu­ni­taris­mo (“o bem de todos”) a sã filosofia ensi­na que a Sociedade não é o Fim abso­lu­to, o bem ao qual os cidadãos são orde­na­dos, mas a Sociedade é orde­na­da ao bem comum dos cidadãos (“civ­i­tas propter cives, et non cives propter civ­i­tatem”). Por isso é pre­ciso enten­der bem o sig­nifi­ca­do do axioma “o bem do todo é supe­ri­or ao bem da parte”, para não cair no abso­lutismo comu­ni­tarista, ou seja, no “cul­to da Comu­nidade” ou do seu “Chefe abso­lu­to”, que destrói os indi­ví­du­os.

 ·A comu­nidade (ou o “bem do todo”) não deve absorv­er, mas deve pro­te­ger os dire­itos do indi­ví­duo e da família (“o bem da parte”). Essa inter­vém ape­nas onde a família e o setor pri­va­do não con­seguem soz­in­hos (v. o princí­pio de sub­sidiariedade) [1].

 ·O Cardeal Alfre­do Otta­viani ensi­na: “indi­vidu­us non est pro Statu, sed Sta­tus pro indi­vid­uo”, o Esta­do (ou “bem do todo”) é para os cidadãos, não vice-ver­sa, ou seja, a pes­soa não é uma engrenagem da Sociedade como uma engrenagem de reló­gio. É pre­ciso que o Esta­do (“o todo”) respeite a pes­soa (“a parte”) provi­da de uma natureza racional, cri­a­da a imagem e semel­hança de Deus, dota­da de uma alma espir­i­tu­al e de int­elec­to e von­tade, e então, livre para faz­er o bem e aber­ta para con­hecer o ver­dadeiro que a con­duzirá a vida sobre­nat­ur­al. O Esta­do (ou “o bem do todo”), por­tan­to, não deve jamais obsta­c­ulizar ou incul­car o con­hec­i­men­to da ver­dade e a práti­ca do bem da pes­soa (“o bem da parte”), antes a deve favore­cer. Quan­do se ini­cia­ram as escav­ações sob o altar da Basíli­ca de São Pedro, para ver se real­mente ali esta­va o cor­po do Após­to­lo, a quem fazi­am notar a Pio XII o risco daque­la oper­ação, o Papa respon­dia: “A Igre­ja não deve ter medo da ver­dade!”.

 ·Além dis­so, a Comu­nidade ou Sociedade deve procu­rar tam­bém e secun­dari­a­mente o bem estar comum tem­po­ral do homem, defend­en­do os seus dire­itos e a sua dig­nidade: a vida, a inte­gri­dade físi­ca, as como­di­dades tem­po­rais, a edu­cação int­elec­tu­al, moral e espir­i­tu­al [2].

Pes­soa e sociedade segun­do a filosofia tomista

·A Sociedade humana vale mais que o bem de uma pes­soa indi­vid­ual nat­u­ral­mente ou mate­rial­mente con­sid­er­a­da; todavia o homem é com­pos­to de cor­po e alma espir­i­tu­al e foi cri­a­do para um fim sobre­nat­ur­al, que ultra­pas­sa infini­ta­mente o bem comum tem­po­ral ou mate­r­i­al da Comu­nidade.

 ·“O todo é maior que a parte” (por exem­p­lo, um homem é maior que a sua mão) é um princí­pio por si notáv­el a todos; por isso “o bem comum é maior e mais nobre que o bem de um só” (cfr. Suma con­tra os Gen­tios, livro III, capí­tu­lo 111–113). Atenção! O todo sobre­nat­ur­al, por­tan­to, é Deus, Cristo; não o Esta­do, a Comu­nidade, uma Asso­ci­ação e até mes­mo uma Con­gre­gação reli­giosa (a qual faz parte da Igre­ja mil­i­tante, mas não é a Igre­ja, que é o Meio por excelên­cia ou o Fim próx­i­mo assis­ti­do por Deus “todo dia até o fim do mun­do” para aju­dar as almas a sal­varem-se e a entrar na Igre­ja tri­un­fante ou o Paraí­so, que é o Fim ulti­mo). Por isso, a tran­quil­i­dade mate­r­i­al-nat­ur­al do Esta­do ou da Con­gre­gação não é supe­ri­or a adesão a ver­dade e ao bem da pes­soa indi­vid­ual, mas deve ser lhe uma garan­tia e uma aju­da para a sua aquisição. São Pio X não hes­i­tou um instante, em 1905 (encícli­ca Vehe­menter, 1906), em perder con­ven­tos, esco­las, Con­gre­gações reli­giosas… na França inteira, para não dev­er aceitar o com­pro­mis­so com o princí­pio cato-lib­er­al da sep­a­ração, por princí­pio, entre Esta­do e Igre­ja. Preferi a ver­dade a tran­quil­i­dade ou pru­den­cial­i­dade.

 ·A alma racional, a razão e a livre von­tade espir­i­tu­al são – na adesão e no con­segui­men­to de seu obje­to – supe­ri­ores ao bem mate­r­i­al e tem­po­ral do Esta­do e da Comu­nidade tem­po­ral e até mes­mo reli­giosa, a qual tem como razão de ser o con­segui­men­to da ver­dade e tam­bém do bem, mas não ape­nas, da ordem sobre­nat­ur­al. Na ver­dade, “a Graça pres­supõe a natureza, não a destrói, mas a aper­feiçoa” (cfr. S. Tomás, S. Th., I, q. 1, a. 8 ad 2; ivi, I, q. 62, a. 5; ibid.; II-II, q. 26, a. 9, arg. 2; ib.,III, q. 69, a. 8, arg. 3. “Gra­tia sup­ponit nat­u­ram, non tol­lit sed per­ficit eam”).

 ·O caso da crise da Autori­dade na Igre­ja a par­tir do Vat­i­cano II (1965–2011) é um exem­p­lo lam­pante de como, se a Sociedade tam­bém reli­giosa impede a adesão ao ver­dadeiro e ao bem, ”Se deve obe­de­cer a Deus, mais que aos home­ns » (Atos dos Após­to­los). O caso anál­o­go já tin­ha – cer­ca de 1900 anos – se apre­sen­ta­do aos próprios Após­to­los de Cristo, quan­do os Sumos Sac­er­dotes da Igre­ja da Anti­ga Aliança (30–70 d.C.) impe­di­am o bem espir­i­tu­al das almas e obsta­c­ulizavam a ”salus ani­marum, supre­ma lex”.

 ·A Dout­ri­na Católi­ca, de um pon­to de vista da ordem nat­ur­al, rejei­ta o lib­er­al­is­mo indi­vid­u­al­ista, que, dan­do um val­or abso­lu­to a pes­soa humana, a tor­na supe­ri­or ao Esta­do, a Igre­ja e ”igual” a Deus. Todavia, rejei­ta tam­bém o total­i­taris­mo, o comu­ni­taris­mo ou a esta­dola­tria, que afir­mam a supe­ri­or­i­dade do bem políti­co ou mate­r­i­al sobre o bem ulti­mo sobre­nat­ur­al do homem, para o qual a políti­ca e o Esta­do seri­am o fim ulti­mo do homem, pri­va­do, assim, do Paraí­so em tro­ca do Esta­do abso­lu­to de matriz lib­er­al-hegeliana.

 ·A dis­tinção fun­da­men­tal para enten­der bem o axioma é esta: “o bem do todo é maior que o bem da parte”. O todo, enten­di­do como a tran­quil­i­dade nat­ur­al ou mate­r­i­al da Sociedade, não é supe­ri­or ao bem sobre­nat­ur­al do homem (o Sumo Ver­dadeiro e o Sumo Bem). Por isso, nun­ca uma Comu­nidade ou Sociedade devem e podem impedir a bus­ca e a práti­ca da ver­dade e do bem por parte de uma pes­soa sob o pre­tex­to de bem mate­r­i­al do todo supe­ri­or ao da parte.

 ·São Paulo em Antióquia em 49 d.C. ““Quan­do Cefas veio a Antióquia, eu resisti-lhe aber­ta­mente, porque era repreen­sív­el”. O próprio Após­to­lo das Gentes rev­el­ou: “Se tam­bém eu ou um Anjo do Céu lhes anun­ci­assem um Evan­gel­ho difer­ente daque­le de Cristo, seja anátema!”. Nestes casos, o bem sobre­nat­ur­al e espir­i­tu­al da alma indi­vid­ual pas­sa a frente da tran­quil­i­dade, da sub­sistên­cia e do bem estar tem­po­ral do todo ou Sociedade, mes­mo daque­la supre­ma (a Igre­ja Mil­i­tante) con­sid­er­a­da nos seus home­ns e não em si mes­ma, e vista em ordem a Igre­ja tri­un­fante.

Pri­or­i­dade da Sociedade ou da pes­soa?

·A pes­soa é orde­na­da ao bem comum da Sociedade; além dis­so, a pes­soa é sub­or­di­na­da a Sociedade como a parte ao todo (por ex., a mão ao homem); então existe uma cer­ta supe­ri­or­i­dade ou pri­or­i­dade mate­r­i­al e nat­ur­al do bem comum sobre a pes­soa. Todavia, a pes­soa não é a engrenagem de uma roda de reló­gio, com­ple­ta­mente sub­or­di­na­da ao fun­ciona­men­to dessa. A pes­soa não é ape­nas um cor­po mate­r­i­al, um ani­mal social (como uma ovel­ha em um reban­ho), não é ape­nas um mem­bro da Sociedade ou um cidadão públi­co; essa é tam­bém e sobre­tu­do, um ani­mal racional, dota­da de alma imor­tal, de int­elec­to e von­tade para con­hecer a Suma Ver­dade e para amar o Sumo Bem.

 ·Por­tan­to, é pre­ciso dis­tin­guir:

 a)Enquan­to cidadão ou reli­gioso a pes­soa humana, é sub­or­di­na­da a Comu­nidade civ­il ou reli­giosa. Já que o homem – escreve S. Tomás – “é parte da Sociedade, enquan­to parte per­tence ao todo. De fato, a natureza sac­ri­fi­ca a parte para sal­var o todo (a mão se ele­va espon­tanea­mente para sal­var o cor­po agre­di­do por um cotovelo ou por uma pedra)” [3];

 b)Enquan­to ani­mal racional e espir­i­tu­al, o homem, laico ou reli­gioso, é supe­ri­or a Sociedade ter­re­na ou civ­il e a Comu­nidade reli­giosa, e é orde­na­do a Cidade celeste ou div­ina (a Igre­ja mil­i­tante e uni­ver­sal na ter­ra e a Igre­ja tri­un­fante no Céu e na eternidade), que tran­scende a Sociedade civ­il, a Comu­nidade reli­giosa par­tic­u­lar e a própria Igre­ja mil­i­tante. “O homem não é orde­na­do a Sociedade políti­ca com tudo de si mes­mo […] mas tudo aqui­lo que é o homem, pode e é orde­na­do a Deus” [4]. A Comu­nidade civ­il e reli­giosa, por­tan­to, deve aju­dar o con­segui­men­to de Deus por parte do homem, não obsta­c­uliza-lo. A Sin­a­goga ou Igre­ja do Anti­go Tes­ta­men­to ces­sou de ser assis­ti­da por Deus, porque impe­dia as almas indi­vid­u­ais fari­saica­mente de “entrar no Reino do céu”, emb­o­ra “haven­do a chave”. Para unir-se a Deus, é pre­ciso con­hece-lo e ama-lo e o con­hec­i­men­to do ver­dadeiro e a práti­ca do bem por parte do homem, não podem ser um obstácu­lo ao bem tem­po­ral do todo (Comu­nidade) e o todo não deve nem pode impedir o con­segui­men­to dis­so a “parte”, de out­ro modo perde a sua final­i­dade, não é mais uma Sociedade orde­na­da ao bem dos cidadãos, mas uma tira­nia final­iza­da ao bem par­tic­u­lar de quem gov­er­na. Mes­mo o prela­do pode trans­for­mar-se em tira­no.

Bon­um com­mune melius est quam bon­um unius”

·O Esta­do, que é um con­jun­to de home­ns (o todo) é nat­u­ral­mente mais nobre que a pes­soa (a parte), mas o fim da pes­soa humana e espir­i­tu­al é mais nobre que o fim do Esta­do (bem estar tem­po­ral); por­tan­to, a pes­soa em si con­sid­er­a­da, é infe­ri­or ao Esta­do em si (con­jun­to de mais pes­soas) é infe­ri­or a Igre­ja em si (Sociedade per­fei­ta de ordem sobre­nat­ur­al) e é tam­bém infe­ri­or ao fim da Igre­ja (o Céu, de ordem sobre­nat­ur­al), mes­mo se o fim da pes­soa humana – sobre­nat­u­ral­mente con­sid­er­a­da – coin­cide com aque­le da Igre­ja (Deus Autor da Graça). Por isso, a Sociedade civ­il e reli­giosa (os home­ns da Igre­ja), não pode obsta­c­ulizar o fim sobre­nat­ur­al da pes­soa, que se obtém através do con­hec­i­men­to nat­ur­al da ver­dade, da Fé sobre­nat­ur­al na Rev­e­lação e do amor nat­ur­al do bem, mais aque­le sobre­nat­ur­al de Deus (Sum­mum Bon­um).

O risco do “princí­pio de Caifás”

·Se si inter­pre­ta mal o axioma “o bem do todo é supe­ri­or ao bem da parte”, se chega inequiv­o­cavel­mente ao “Prin­ci­pio de Caifás”, o qual, sendo Sumo Sac­er­dote de Israel, decre­tou a morte de Jesus, porque obsta­c­uliza­va a tran­quil­i­dade mate­r­i­al e tem­po­ral do Povo de Israel ‘então eleito’, que era a “Igre­ja” da Anti­ga Aliança [5]. Segun­do este Princí­pio “é mel­hor que um só inocente mor­ra para a sal­vação de todo o povo” ou Comu­nidade reli­giosa. Não existe o bem ou o mal em si, mas só por mim/nós/Comunidade.

 ·Princí­pio fun­da­men­tal do lib­er­al­is­mo clás­si­co e do catoli­cis­mo-lib­er­al, que é o util­i­taris­mo ou prag­ma­tismo. Na ver­dade, não existe uma ver­dade espec­u­la­ti­va imutáv­el e um val­or abso­lu­to moral obje­ti­vo, o ato humano não é bom ou mal em si, mas tudo depende da util­i­dade, pru­den­cial­i­dade (da carne) e das con­se­quên­cias práti­cas dis­so, ou seja, se o ato (p. exe. Uma con­fer­ên­cia) pro­duz con­se­quên­cias pos­i­ti­vas, vale diz­er é útil a mim ou a Comu­nidade, então é bom para mim e para a Sociedade; de out­ro modo, é mau para mim e para a Comu­nidade [6], sem cuidar se é ver­dadeiro ou fal­so.

 ·O util­i­taris­mo com­por­ta o hedo­nis­mo psi­cológi­co [7], ou seja, a bus­car do bem estar ou tran­quil­i­dade mate­rial e a fuga da dor ou perseguição. Segun­do o lon­dri­no Geremia Ben­tham (+1832) o praz­er ou a tran­quil­i­dade mate­r­i­al coin­cide com aqui­lo que é útil. O hedo­nis­mo bus­ca o “praz­er” (não no sen­ti­do imoral do ter­mo), vale diz­er, o “bem estar tem­po­ral” não no futuro ou no além, mas no pre­sente. Anti­gos teóri­cos do hedo­nis­mo foram Aris­tipo, Epi­curo e nos nos­sos dias o cato-lib­er­al­is­mo e o Amer­i­can­is­mo. A “max­i­miza­ção” do bem estar e a “min­i­miza­ção” da dor estão fun­dadas, para Ben­tham, não sobre a religião, a moral ou na metafísi­ca, mas sobre o Ego-ismo psi­cológi­co, onde o homem (e a Comu­nidade, “Comun-ismo”) bus­cam sem­pre a sua van­tagem, inter­esse ou util­i­dade mate­r­i­al ou “psi­cológ­i­ca”, ou seja, como se diz hoje o epanuisse­ment. O bem ou a feli­ci­dade, para Ben­tham, não é o Ato Puro, mas o inter­esse próprio (ou comum, para o lib­er­al­is­mo clás­si­co-hegeliano). Este é o erro “cap­i­tal” do lib­er­al­is­mo clás­si­co e do catoli­cis­mo-lib­er­al: faz­er coin­cidir o sumo Bem ou Fim ulti­mo com a criatu­ra (liber­dade, util­i­dade, praz­er, tran­quil­i­dade… do sujeito e da Comu­nidade civ­il ou reli­giosa, no caso do catoli­cis­mo-lib­er­al).

 ·Segun­do este princí­pio mau com­preen­di­do ou mau apli­ca­do, se em uma família o avô se tor­na muito idoso, ele é man­da­do para o asi­lo, já que “o bem de toda a família é supe­ri­or ao bem do avô”. Se um páro­co é impop­u­lar aos poderosos porque pre­ga chaman­do “pão de pão e vin­ho de vin­ho”, ele é man­da­do para o exílio, como sucede a Don Camil­lo. Se uma irmã cai doente ela é man­da­da de vol­ta para a casa (o porquê é sem­pre o mes­mo) [8]. O impor­tante é man­ter a tran­quil­i­dade e a pro­priedade, evi­tar as perseguições na “Dio­cese”, no Con­ven­to e na Comu­nidade. Mas a paz abso­lu­ta não é deste mun­do.

 ·Ao invés dis­so, Jesus nos disse “se vós sois meus ver­dadeiros dis­cípu­los, o que fiz­er­am a Mim o farão tam­bém a vós”. “Não temais quem pode matar o vos­so cor­po [a perseguição físi­ca], temais quem pode matar a vos­sa alma [o peca­do] e lança-la na gena”. Não pre­gou o “Princí­pio de Caifás”, o sofreu, dizen­do-lhes face a face a ver­dade. Não recomen­dou silen­ciar a ver­dade por pru­den­cial­i­dade, antes disse para “gri­ta-la do alto dos tel­ha­dos” e nos exor­tou que se não fiz­er­mos nós “o gri­tari­am as pedras”. Não disse para não falar de história ou políti­ca, mas ensi­nou a “dar a César [Esta­do] aqui­lo que é de César [Vir­tude cívi­ca ou políti­ca] e a Deus [Ver­dade] aqui­lo que é de Deus [espíri­to e ver­dade]”. Enfim, a Pilatos, que pode­ria poupar-lhe a vida, disse: “Eu vim para dar teste­munho da Ver­dade”.

 ·É evi­dente que a éti­ca nat­ur­al e cristã (v. Aristóte­les [9] e San­to Tomás [10]) é abso­lu­ta­mente inc­on­cil­iáv­el com a éti­ca sub­je­tivista e rel­a­tivista do hedo­nis­mo e do util­i­taris­mo (Ego-isti­co ou Comun-isti­co) e por isso o lib­er­al­is­mo e o catoli­cis­mo lib­er­al foram repeti­da­mente e con­stan­te­mente con­de­na­dos pelos Romanos Pon­tí­fices de 1832 até 1953 (Gregório XVI, Pio IX, Leão XIII, Pio XI e Pio XII).

Con­clusão

Indi­vidu­us non est pro Statu, sed Sta­tus pro indi­vid­uo”

·Como sair des­ta men­tal­i­dade? Dan­do uma reta inter­pre­tação ao axioma “o bem do todo é supe­ri­or ao bem da parte”. Retor­nan­do a Ver­dade e ao Bem, em suma a Deus, a uma Sociedade (civ­il e reli­giosa) mais humana, ou menos desumana, para que fun­da­da sobre princí­pios da filosofia perene ou do bom sen­so, coloque as coisas no seu jus­to lugar, devol­ven­do o pri­ma­do a ciên­cia espec­u­la­ti­va (con­hecer para saber) ou metafísi­ca, sub­or­di­nan­do a essa a filosofia práti­ca (con­hecer para faz­er ou para agir) e enfim colo­car a téc­ni­ca (con­hec­i­men­to exper­i­men­tal ou empíri­co) no seu jus­to lugar, que é mais baixo, enquan­to hoje ocu­pa abu­si­va­mente aque­le mais alto, tor­nan­do o homem (e tam­bém o sac­er­dote) uma máquina de pro­dução, que corre sem fôlego, “cansa­do e deses­per­a­do” para um ter­mo que nem mes­mo ele sabe que coisa seja, para um enriquec­i­men­to e uma tran­quil­i­dade mate­r­i­al sem­pre maior, que deixa insat­is­feito o coração humano, des­de que tam­bém é um bem fini­to e cri­a­do (antes “impres­so” ou “cun­hado”) enquan­to “o nos­so âni­mo é inqui­eto até que não repouse no Sen­hor” (S. Agostin­ho), que só, sendo o Sum­mum Bon­um, pode acal­mar as ânsias e os prob­le­mas do homem, o qual é aber­to ao infini­to (ver­dadeira Cari­dade sobre­nat­ur­al) e não é lim­i­ta­do ao prob­le­ma econômico/temporal/prudencial, vis­to pela “dire­i­ta” ou “esquer­da”.

 ·Os peri­gos a evi­tar são: uma humanidade sem Deus (impiedade e ateís­mo) e uma Reli­giosi­dade sem “humanidade” (rig­oris­mo fari­saico), que sac­ri­fi­ca a parte (Jonas [11]/ Jesus) ao bem estar do todo (Israel/Comunidade). Lança ao mar Jonas e colo­ca a cruz em Cristo, mas depois ter­mi­na por arru­inar tam­bém a paz da Comu­nidade (Salmanasar IV e V [12]/Tito).

A pru­den­tia car­nis, lib­era nos Domine!

d. CURZIO NITOGLIA

8 de agos­to de 2011

http://www.doncurzionitoglia.com/bene_del_tutto_e_della_parte.htm

 


Notas:

 

[1] J. Gredt, Ele­men­ta philosophi­ae aris­totelico-thomisth­cae, Herder, Fribur­go, 3ª ed., 1921, Eth­i­ca spe­cialis, cap. III, tesi 25–28. Cfr. Tom­ma­so Zigliara, Sum­ma philo­soph­i­ca, vol. III, Eth­i­ca, Roma, De Pro­pa­gan­da Fide, 1876, pag. 183.

[2] A. Otta­viani, Com­pendi­um Juris Pub­li­ci Eccle­si­as­ti­ci, Typ­is Poly­glot­tis Vat­i­ca­n­is, Roma, 1944, IV ed., pagg. 284–285.

[3] S. Th., I‑II, q.96, a.4.

[4] S. Th., I‑II, q. 21, a.4, ad 3um.

[5] G. Samek Lodovi­ci, op. cit., p. 109.

[6] G. Samek Lodovi­ci, L’utilità del bene, Jere­my Ben­tham, L’utilitarismo e il con­seguen­zial­is­mo, Milano, Vita e Pen­siero, 2006 p. 21. Cfr. anche: G. Abbà, Felic­ità, vita buona e virtù. Sag­gio di filosofia morale, Roma, Libre­ria ate­neo sale­siano, 1995. Id., Quale impostazione per la filosofia morale, Roma, Libre­ria ate­neo sale­siano, 1996.

[7] Ivi, p. 6 e 9 e 204. Cfr. J. Ben­tham, Intro­duc­tion to the Prin­ci­ples of Morals and Leg­is­la­tion, Lon­dra, 1789, pp. 89–90.

[8] Con­heço um ancião, catolicís­si­mo e tradi­cional­is­ta­sis­si­mo, que tin­ha uma mul­her um pouco pesa­da, na qual foi colo­ca­da uma pil­ha [Ndt : Mar­ca pas­so] estim­u­lante no coração doente. Ago­ra, o catoli­cis­mo, apli­can­do incon­scien­te­mente o «Princí­pio de Caifás», tin­ha esta­b­ele­ci­do de des-aplicar ou não recar­regar a pil­ha car­di­ológ­i­ca da mul­her, que tur­ba­va a sua tran­quil­i­dade e daque­la da família, com a des­cul­pa do axioma : «o bem do todo é supe­ri­or ao bem da parte». Como se vê de tal axioma (mal inter­pre­ta­do) pode derivar as máx­i­mas injustiças e os piores crimes. Cavea­mus !

[9] Aris­totele, Eti­ca Nico­machea, 1106b 36; /EN. 1099a 6; /EN, II, 1107a 22–23; /EN, X, 1174a2‑8.

[10] S. Tom­ma­so, S. Th., I‑II, q. 58, a. 5; /q. 64. a. 1; /q. 2, a. 6, q. 19, a. 7; /q. 107, a. 1; /q. 4, a. 4 /q. 19, a. 10; /q. 59, a. 4; /q. 56, a. 2; /q. 62, a. 2; C. G., IV, c. 19; /IV, c. 95; In II Eth­ic., lib. 4, c. 4; /l. 6; /1. 6, c. 6; /9, c. 9.

[11] Giona è vis­su­to nell’800 a. C. cir­ca, sot­to il cor­rot­to Ger­oboamo II (783–743) Re di Israele. Cfr. I. Schus­ter- G.B. Holza­m­mer, Man­uale di sto­ria bib­li­ca. Il Vec­chio Tes­ta­men­to, (1925), tr. it., Tori­no, SEI, II ed., 1951, pp. 756–771.

[12] Salmanasar (IV e V) Rei da Assíria, em 720 a. C. inva­diu o Reino de Israel, destru­iu Samaria e lev­ou os Israe­lens­es e Samar­i­tanos pri­sioneiros para a Assíria. Cfr. G. Ric­ciot­ti, Sto­ria d’Israele. Tori­no, SEI, II vol., Dalle orig­i­ni all’esilio, V ed., 1964, pp. 18–20; F. Spadafo­ra, Dizionario bib­li­co (diret­to da), Roma, Studi­um, IIIed., 1963, voci “Giona,Salmanas­sar”.