Liberalismo e modernismo


Teologia / quinta-feira, julho 23rd, 2015

PADRE CURZIO NITOGLIA

28 de maio de 2011
[Tradução Ged­er­son Fal­cometa]

http://www.doncurzionitoglia.com/liberalismo_e_modernismo.htm

Nada além do homem, nada para fora do homem, nada sem o homem. Este é o clí­max do lib­er­al­is­mo que se chama mod­ernismo”. (Luis Bil­lot)

I) O lib­er­al­is­mo

O Cardeal Luis Bil­lot refutou de for­ma con­cisa e agudís­si­ma tan­to o lib­er­al­is­mo (De Eccle­sia Christi. Tomo II, De abi­tu­dine Eccle­si­ae ad civilem Soci­etatem, III ed., Roma, Gre­go­ri­ana, 1929, Quaes­tione VIII, De errore lib­er­al­is­mi et vari­is ejus formis, pp. 21–63) como seu fil­ho o mod­ernismo ( De vir­tutibus infu­sis, Roma, Gre­go­ri­ana, 1928, De objec­to Fidei, pg. 264–272).

O princí­pio lib­er­al

No que diz respeito ao lib­er­al­is­mo Bil­lot expli­ca que essa é a dout­ri­na que quer eman­ci­par ou “lib­er­tar” o homem de Deus, da sua Lei, da sua rev­e­lação e da sua Igre­ja, tan­to indi­vid­ual como social­mente. Para obter isso, colo­ca a liber­dade como um fim e bem supre­mo, o que sub­sti­tui Deus, com a “liber­dade “.

 

 

I) Tal princí­pio em si con­sid­er­a­do (a liber­dade é o fim últi­mo do homem), segun­do Bil­lot, é:

· Absur­do, na ver­dade a liber­dade não pode ser um fim e tão menos o fim últi­mo e o sumo bem, porque essa é uma potên­cia ou capaci­dade de agir livre­mente. Ora a ação ou oper­ação con­siste em ten­der em direção ao fim. Assim, a liber­dade é um instru­men­to ou meio para cap­tar o fim e não é o fim. Mas se você toma a liber­dade como meio para agir livre­mente bem e para cap­tar o fim (ou livre­mente mal e a perder o fim) se destrói a noção mes­ma do lib­er­al­is­mo, o qual é uma absur­di­dade ou con­tradição nos ter­mos, enquan­to põe a liber­dade como fim e não como meio.

· Anti­nat­ur­al, na ver­dade pre­tende que tudo deve ser orde­na­do a liber­dade indi­vid­ual. Mas o indi­vid­u­al­is­mo é con­tra a natureza mes­ma do homem, o qual foi feito para viv­er jun­to aos out­ros, ou seja, é “ani­mal sociáv­el” (cfr. San­to Tomás de Aquino, De regimine prin­cipum, lib. I, cap. 1). O cume é que o lib­er­al­is­mo que sem­pre se ref­ere a natureza (como resul­ta­do do nat­u­ral­is­mo renascen­tista) erra con­tra a natureza do homem.

· Quiméri­co, porque não cor­re­sponde a real­i­dade: muda o meio para o fim e desnatu­ra o homem fazen­do-lhe um puro indi­ví­duo altís­ta. A con­clusão que muitas vezes vem do lib­er­al­is­mo é exata­mente o con­trário que colo­cou como pon­to de par­ti­da: a destru­ição da liber­dade indi­vid­ual, porque é o prenún­cio de sis­temas sócio-políti­cos democráti­cos nos quais o número e a mas­sa tiranizam sobre o indi­ví­duo e sobre a mino­ria.

IIO princí­pio lib­er­al apli­ca­do as coisas humanas con­duz:

· À anar­quia, enquan­to destrói a natureza social do homem e em segui­da a família (através do divór­cio, o abor­to e a união livre) e con­se­quente­mente o Esta­do, que é a união de mais famílias; ou o abso­lutismo das oli­gar­quias finan­ceiras, como se o indi­ví­duo – espe­cial­mente os mais fra­cos e pobres – fos­se pri­va­do de qual­quer aju­da dos organ­is­mo inter­mediários (empre­sas) e do Esta­do, será Intim­i­da­do pelas grandes potên­cias, da alta finança apátri­das, por oli­gar­quias econômi­cas (cfr. Pio XI, Quadra­ges­i­mo anno, 1931).

IIIO princí­pio lib­er­al apli­ca­do a religião con­duz ao menos implici­ta­mente ao ateís­mo, porque Deus limi­ta a “liber­dade” humana enten­di­da como fim últi­mo e em segui­da deve negar a sua existên­cia para tornar o homem ver­dadeira­mente livre.

Os três diver­sos graus do lib­er­al­is­mo

· Lib­er­al­is­mo abso­lu­to, que nega a existên­cia de Deus, da ordem sobre­nat­ur­al e da Igre­ja como uma ver­dadeira religião fun­da­da por Deus. Esse leva ao mate­ri­al­is­mo, ao ateís­mo e a irre­li­giosi­dade.

· Lib­er­al­is­mo Mod­er­a­do, que não nega Deus e a Igre­ja, mas quer a sep­a­ração com­ple­ta entre Esta­do e Religião. Deus é um Rei que reina mas não gov­er­na e deixa que o homem ten­ha prati­ca­mente o seu pos­to de gov­er­nante, con­tentan­do-se – como dizem os deís­tas – de exi­s­tir sem ser prev­i­dente. Do deís­mo, se pas­sa ao pan­teís­mo enquan­to Deus e o homem prati­ca­mente for­mam uma só coisa, porque é o homem que gov­er­na no lugar de Deus. Mas o pan­teís­mo é um ateís­mo dis­farça­do por uma men­ti­ra. Ora se a hipocrisia pan­teís­ti­ca cede e deixa o cam­po, a sin­ceri­dade leva ao ateís­mo niilís­ti­co: Deus não existe e deve ser can­ce­la­do na con­sti­tu­ição e na leg­is­lação dos Esta­dos.  Além dis­so, o lib­er­al­is­mo é uma for­ma de maniqueís­mo ou de um absur­do dual­is­mo. Na ver­dade, se con­sid­era que existe um só princí­pio e um só fim para o homem: isso é Deus, em segui­da, o lib­er­al­is­mo se desin­te­gra; ou é o Esta­do que em segui­da retor­na ao lib­er­al­is­mo abso­lu­to, ateu e mate­ri­al­ista.

Se ao invés dis­so se con­sid­era o homem, então, ou admite que ele tem uma alma, uma von­tade e inteligên­cia e, por­tan­to, há coop­er­ação e sub­or­di­nação entre Esta­do e religião, como entre o cor­po e a alma, e aqui esta­mos nova­mente no catoli­cis­mo. Ou o homem tem duas almas, e então há um “deus” das coisas tem­po­rais e um “deus” das coisas espir­i­tu­ais (maniqueís­mo). Mas isso é um absur­do, porque Deus é infini­to e não pode admi­tir a coex­istên­cia de um out­ro infini­to; além dis­so essa dout­ri­na faz do homem um esquizofrêni­co: um só homem com duas per­son­al­i­dades, um ateu e um reli­gioso. Final­mente equiv­a­le­ria a colo­car dois motores ou dois cav­a­l­os em um car­ro, um dos quais vai para o norte e um out­ro para o sul. Bem, o car­ro iria que­brar. No entan­to, se os dois motores (igre­ja e esta­do) vão no mes­mo sen­ti­do (Deus), então eles devem coop­er­ar de for­ma coor­de­na­da (como os dois motores de uma aeron­ave).

· Catoli­cis­mo-lib­er­al que pre­tende com­bi­nar o catoli­cis­mo com o lib­er­al­is­mo, ou seja, a sub­mis­são a Deus e o livra­men­to de Deus. Ele é “a própria con­tradição sub­sis­tente.” A sep­a­ração entre Igre­ja e Esta­do não é apre­sen­ta­da pelos católi­cos-lib­erais como uma ver­dade de dire­ito, mas como uma con­veniên­cia de fac­to. Ora, até mes­mo isso é con­tra­ditório. Na ver­dade, os princí­pios teóri­cos são regras que ori­en­tam a ação práti­ca e como tais devem ser apli­ca­dos em con­cre­to, ao invés do católi­co-lib­er­al aceitá-lo, o dizem aceitá-lo,  como puros princí­pios espec­u­la­tivos, mas eles não vão colocá-lo em práti­ca, porque não é útil ou é incon­ve­niente de fato . Esta aparente con­tradição leva o católi­co-lib­er­al admi­tir as vir­tudes da lei e os man­da­men­tos, mas na práti­ca a rejeição de vivê-los, como incon­ve­niente. Aqui está como a imoral­i­dade de dire­ito e não por fraque­za entrou no ambi­ente Católi­co e Ecle­sial, do qual con­stata­mos os tristís­si­mos exem­p­los de hoje que são os fru­tos do lib­er­al­is­mo e do mod­ernismo, não somente do peca­do orig­i­nal.

Tal inco­erên­cia co-essen­cial ao catoli­cis­mo lib­er­al leva inevi­tavel­mente a todo o tipo de com­pro­mis­so a fim de sobre­viv­er. Sua natureza é de “nego­ciar e dialog­ar.” Mas a der­ro­ta é cer­ta, porque as con­tradições ger­am essas rev­oluções e der­ra­ma­men­to de sangue [1]. O trinômio lib­er­al “Liber­dade, frater­nidade e igual­dade” da Rev­olução France­sa foi a sín­tese desse espíri­to con­tra­ditório. Na ver­dade, a liber­dade abso­lu­ta do lib­er­al­is­mo indi­vid­u­al­ista mata a igual­dade sub­stân­cial (o que não exclui a desigual­dade aci­den­tal) dos home­ns cri­a­dos por Deus e orde­na­dos a Deus, enquan­to o lib­er­al­is­mo quer lib­er­tar o homem de Deus. Além dis­so, a liber­dade abso­lu­ta mata a ver­dadeira frater­nidade que é o amor mútuo entre os home­ns de boa von­tade, todos sub­stan­cial­mente, fil­hos de Deus e irmãos entre si e a sub­sti­tui com a livre con­cor­rên­cia, porque o lib­er­al­is­mo quer elim­i­nar qual­quer dependên­cia de Deus e, depois, pela fil­i­ação do homem, a pater­nidade da parte de Deus e a irman­dade dos home­ns entre si.

IIO mod­ernismo

Mod­ernismo dog­máti­co

O lib­er­al­is­mo con­de­na­do por Gregório XVI (Mirari vos, 1832), por Pio IX (Quan­ta cura e Syl­labus, 1864), por Leão XIII (Immor­tale Dei, 1885; Lib­er­tas, 1888; Testem benev­o­len­ti­ae, 1889) se trans­for­mou – pas­san­do em meio ao amer­i­can­is­mo – em mod­ernismo dog­máti­co con­de­na­do por São Pio X (Lam­en­ta­bili, 1907; Pas­cen­di, 1907; Sacro­rum Anti­s­ti­tum, 1910) e social, con­de­na­do com o ‘Motu Pro­prio’ sobre a “A ação pop­u­lar cristã” (1903) e a Car­ta Apos­tóli­ca Notre Charge Apos­tolique (1910).

O Cardeal Luis Bil­lot resum­iu a dout­ri­na mag­is­te­r­i­al (cfr. De Vir­tutibus infu­sis, Roma, Gre­go­ri­ana, 1928. De obiec­to Fidei, pp. 264–272) e definiu o mod­ernismo como um desen­volvi­men­to da abso­lu­ta liber­dade indi­vid­ual própria do lib­er­al­is­mo, em indi­vid­u­al­is­mo e sub­je­tivis­mo dog­máti­co próprio do mod­ernismo. O mod­ernismo é o esta­do final e parox­ís­ti­co dos erros filosó­fi­cos e teológi­cos nat­u­ral­is­tas e lib­erais, chama­do por São Pio X “a cloa­ca que reuni todas as here­sias” (Pas­cen­di, 1907). Os mod­ernistas por sua vez gostari­am de trans­for­mar, per­manecen­do na Igre­ja, a sub­stân­cia do catoli­cis­mo, man­ten­do só a aparên­cia ou os aci­dentes, em um cris­tian­is­mo a‑dogmático para enga­nar os fiéis e a autori­dade ecle­siás­ti­ca.

Bil­lot insiste sobre­tu­do sobre o con­ceito de exper­iên­cia ou sen­ti­men­to reli­gioso do mod­ernismo e expli­ca que, o que fiz­er­am os pos­i­tivis­tas em filosofia: renun­ciar con­hecer a sub­stân­cia, a natureza e o ser das coisas para obser­var somente as exper­iên­cias e os fenô­menos; o mod­ernismo o fez em teolo­gia: não existe mais um dog­ma obje­ti­vo e real, não existe uma ver­dade extra men­tal, mas somente o sujeito ou o indi­ví­duo abso­lu­to, que pro­duz os fenô­menos, os quais devem ser obser­va­dos e exper­i­men­ta­dos: aqui a exper­iên­cia reli­giosa ou o sen­ti­men­tal­is­mo teológi­co, que faz de Deus o pro­du­to da exigên­cia do sub­con­sciente e do sen­ti­men­to do indívid­uo. Para quem a religião e o novo cris­tian­is­mo mod­ernís­ti­co são só uma exper­iên­cia sen­ti­men­tal­ista do pro­du­to “reli­gioso” do incon­sciente do homem.

Nada além do homem, nada fora do homem, nada sem o homem. Este é o clí­max do lib­er­al­is­mo que se chama mod­ernismo. O cul­to do homem, procla­ma­do não por laicis­tas e por anti­cler­i­cais, mas por home­ns da Igre­ja, e esta é a segun­da car­ac­terís­ti­ca do mod­ernismo, como “sei­ta sec­re­ta” ou “clan­des­tinum foe­dus” (São Pio X, Sacro­rum Anti­si­tum, 1 de setem­bro de 1910), que tra­bal­ha den­tro da Igre­ja ocul­ta­mente a mudar a sub­stân­cia da dout­ri­na católi­ca para deixar nela só a aparên­cia. Para o mod­ernismo o catoli­cis­mo no tem­po mod­er­no não pode sobre­viv­er se não esposar os princí­pios da filosofia mod­er­na: sub­je­tivis­mo, rel­a­tivis­mo e ima­nen­tismo. Então para sal­var a Igre­ja é pre­ciso “aggior­nala”. A mod­ernidade não supor­ta mais a idéia de um Deus pes­soal e tran­scen­dente ao mun­do, por­tan­to é pre­ciso sub­sti­tuir-la com o con­ceito de Deus ima­nente ao mun­do e faz­er coin­cidir o teo­cen­tris­mo com o antropocen­tris­mo (2), destru­in­do a sub­stân­cia do primeiro e man­ten­do só a palavra em toda van­tagem do segun­do. Aqui o resul­ta­do e a con­clusão coer­ente­mente rad­i­cal do lib­er­al­is­mo: Deus é somente uma idéia, uma palavra do indívid­uo o do sujeito livre, que para afir­mar a própria absolvição lib­er­ta e elim­i­na a obje­tivi­dade real de Deus e a cria qual fru­to do pen­sa­men­to do homem mod­er­no.

Mod­ernismo social

· São Pio X no “motu pro­prio” sobre a ação pop­u­lar cristã” (18 de dezem­bro de 1903) retoma e con­den­sa uma espé­cie de “syl­labus” de 19 proposições da dout­ri­na social católia expres­sa por Leão XIII na Encícli­ca Quo Apos­toli­ci Muner­is, 1878; Rerum Novarum, 1891; Graves de com­mu­ni re, 1901 e na instrução da “Sagra­da Con­gre­gação para assun­tos ecle­si­as­ti­cos e extra­ordinários” (27 de janeiro de 1902), que con­de­na­va o lib­er­al­is­mo ecô­nomi­co e o social­is­mo. O § 1° ensi­na que a Sociedade civ­il é com­pos­ta de mem­bros desiguais como são desiguais os mem­bros do cor­po humano (cfr. Quod Apos­toli­ci muner­is). O § 2º afir­ma que a igual­dade sub­stan­cial entre os home­ns diz respeito só a natureza de crriatu­ra de Deus. O § 3º expõe que Deus esta­b­ele­ceu que na Sociedade civ­il exis­tem desigual­dades aci­den­tais: gov­er­nantes e súdi­tos, patrões e operários, ricos e pobres, doutores e igno­rantes, que devem se aju­dar de fato (Quod Apos­toli­ci). O § 4º e 6º, retomam a solução da questão social pro­pos­ta pela Rerum Novarm, recor­dan­do a legal­i­dade do dire­ito de pro­priedade. O § 7º recomen­da aos operários de tra­bal­harem hon­es­ta­mente e não dan­i­ficar a pro­priedade do patrão. O § 8º recor­da aos patrões que “frau­dar o jus­to salário aos operários é um peca­do que cla­ma vin­gança ao Céu”. O § 12º abor­da a questão da “democ­ra­cia cristã” já trata­da por Leão XIII na Encícli­ca Graves de com­mu­ni re (1901) e reit­era que a “democ­ra­cia cristã” é somente a “ação pop­u­lar cristã”, que tem por base a fé e a Moral católi­ca e não deve abso­lu­ta­mente for­mar um par­tido políti­co, mas deve realizar uma ação car­i­ta­ti­va e bené­fi­ca em auxílio do povo indi­gente e deve depen­der da autori­dade ecle­siás­ti­ca (3). Enfim o § 18 e 19 retomam a ‘instrução da S. Con­gre­gação para assun­tos ecle­siás­ti­cos extra­ordinários” que estim­u­la todos os cristãos a faz­er todo esforço para faz­er reinar a con­cór­dia e a har­mô­nia, evi­tan­do as reprovações e críti­cas recíp­ro­cas. Quan­do há motivos de divergên­cias é pre­ciso recor­rer ao Bis­po afim de que ele julgue e cor­ri­ja, e tam­bém, não se deve pub­licar ataques pes­soais entre cristãos em jor­nais. Além dis­so, não é pre­ciso inspi­rar sen­ti­men­to de ódio de classe a quem quer que seja.

· Em 1910 São Pio X con­de­na o Sil­lon ou democ­ra­cia social france­sa na Car­ta Apos­tóli­ca Notre Charge Apos­tolique como ver­dadeiro e próprio “mod­ernismo social”. O Papa con­sta­ta a trans­posição em cam­po social e políti­co de vel­hos erros do lib­er­al­is­mo clás­si­co, do lib­er­al­is­mo econômi­co, do amer­i­can­is­mo e dos novos e mais rad­i­cais erros do mod­ernismo dog­máti­co. O mod­ernismo social é uma for­ma de democ­ra­tismo políti­co de molde rousseau­ni­ano, que dese­ja faz­er do Evan­gel­ho uma ide­olo­gia mes­siâni­ca ter­re­na e rev­olu­cionária, a qual mais tarde lev­ou a “teolo­gia da lib­er­ação” [ndt: Ou teolo­gia da lib­er­tação]; Isso transpõe o ima­nen­tismo do cam­po filosó­fi­co a aque­le políti­co e faz da autori­dade um pro­du­to de mas­sa, que vem debaixo e não do alto.

Con­clusão

homo faber for­tu­nae suaedo human­is­mo, que que­ria sub­sti­tuir a Providên­cia de Deus pro­duz­iu o nat­u­ral­is­mo ou o cul­to da natureza sem a graça do Renasci­men­to. O sub­je­tivis­mo reli­gioso de Lutero, aque­le filosó­fi­co de Descartes e aque­le sócio-políti­co de Rosseau prepararam a mod­ernidade, car­ac­ter­i­za­da pelo indi­vid­u­al­is­mo, rel­a­tivis­mo, ima­nen­tismo e ide­al­is­mo kan­tini­ano-hegeliano. Hoje a liber­dade indi­vid­ual abso­lu­ta se tornou, aos olhos da maior parte dos home­ns comuns e não somente dos filó­so­fos, o próprio fim últi­mo e o próprio “deus”. O homem não mais em família, em sociedade, mas tornou-se um ani­mal que vaga solitário e com­puta­doriza­do em relações vir­tu­ais “internéti­ca” e não reais e soci­ais, a roda de uma engrenagem que é o abso­lutismo sinárquico mundi­al­ista que o esma­ga no grande Levi­atã da glob­al­iza­ção. A sep­a­ração entre Esta­do e Igre­ja foi san­ciona­da pela Declar­ação Dig­ni­tatis Humanae do Con­cílio Vat­i­cano II e colo­ca­da em práti­ca na nova Con­cor­da­ta entre o Vat­i­cano e a Itália ** 1984, definido por João Paulo II o “ide­al” (v. L’Osservatore Romano *, *, 1984). As novas ger­ações pós-con­cil­iares foram des-edu­cadas em uma vaga reli­giosi­dade sen­ti­men­tal­ista ou “exper­iên­cia reli­giosa” protes­tante-lib­er­al-mod­ernista. O Cul­to do Homem foi afir­ma­do a claras letras na Gaudi­um Et Spes, Paulo VI e João Paulo II levaram até ao antropocen­tris­mo pan­teís­ti­co no qual o pen­sador pro­duz a idéia de Deus (ver nota n. 2).

De um pon­to de vista social tem se desliza­do na direção do mod­ernismo políti­co mod­er­ada­mente pro­gres­sista e lib­er­al, espe­cial­mente em Itália, com a “Democ­ra­cia Cristã” como par­tido políti­co da maio­r­ia (já con­de­na­do por Leão XIII em 1901 e por São Pio X em 1903 e 1910), que de 1945 a 1995 descris­tian­i­zou as mas­sas que um dia foram real­mente católi­cas; enquan­to na Améri­ca Lati­na se desli­zou em direção ao cato-comu­nis­mo rad­i­cal, rev­olu­cionário e arma­do da Teolo­gia da lib­er­ação [ndt: Teolo­gia da Lib­er­tação].

Como se vê este acú­mu­lo de aber­rações doutri­nar­ias dos sécu­los XIV-XVI pro­duzi­ram dois erros teológi­cos: o catoli­cis­mo-lib­er­al do sécu­lo XVIII e o Mod­ernismo do sécu­lo XIX, que fiz­er­am do sub­je­tivis­mo e do indi­vid­u­al­is­mo o cam­po de batal­ha deles para faz­er ver­dadeira­mente o homo faber for­tu­nae suae, libertando‑o da dependên­cia de Deus, da religião e de toda autori­dade (lib­er­al­is­mo) e até alcançar a fazê-lo assim “onipo­tente” de faz­er-lo “cri­ador” de Deus ou mel­hor da idéia de Deus (mod­ernismo), porque Deus não existe real­mente, mas  ape­nas o pro­du­to do pen­sa­men­to do indi­ví­duo. Todos os erros teológi­cos pres­supõe um erro filosó­fi­co: a liber­dade como fim e bem abso­lu­to, o sujeito humano como cri­ador da real­i­dade extra men­tal e espir­i­tu­al. O mun­do con­tem­porâ­neo esta sub­mer­so no sub­je­tivis­mo teóri­co e moral, para quem ver­dadeiro é aqui­lo que me parece sê-lo e bem aqui­lo que eu gos­to. A par­tir destas pre­mis­sas, só se pode alcançar o caos, que ago­ra inva­diu todos os ambi­entes: nat­ur­al e espir­i­tu­al, indi­vid­ual, famil­iar e social. Se há dout­ri­na católi­ca ensi­na a realeza social de Cristo,  o mun­do mod­er­no e atu­al quer e vive, ao invés, o reino social de satanás, que prepara a vin­da do Anti­cristo final, de quem os vários neo-teoló­gos con­cil­iares são “anti­cristos” ini­ci­ais ou fig­u­ra­tivos. Humana­mente falan­do podemos somente cuidar de sal­var a nos­sa alma e de aju­dar o próx­i­mo mais viz­in­ho a sal­var a própria, de fato somos uma gota em um oceano. Então, afim de que a civ­i­liza­ção européia e a Igre­ja pos­sam sair des­ta “noite escu­ra” é necessário a inter­venção da justiça de Deus, que será muito pesa­da, pro­por­cional a gravi­dade do mal a cor­ri­gir e cas­ti­gar, que é quase imen­so, “a maus extremos, remé­dios extremos” diz o provér­bio pop­u­lar. Todavia “no fim o meu coração imac­u­la­do tri­un­fará!”, nos asse­gurou em 1917 Nos­sa Sen­ho­ra de Fáti­ma.

PADRE CURZIO NITOGLIA

28 de maio de 2011

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Notas

(1) “Atrás dos sofis­mas vem as rev­oluções, depois dos sofis­tas é a vez do car­ras­co” (J. Donoso Cortés, Ensaio sobre catoli­cis­mo, o lib­er­al­is­mo e o social­is­mo, Milano, Rus­coni, 1972, pg. 51).

(2) Gaudi­um et Spes nº 24 especí­fi­ca que “O homem sobre esta ter­ra é a úni­ca criatu­ra que Deus que­ria por si mes­mo (propter seip­sam)”. Este erro é lido a luz do pan­cris­tian­is­mo teil­hardiano de Gaudi­um Et Spes nº 22: “pelo mes­mo fato que o Ver­bo se encar­nou e uniu-se a todos os home­ns”.

Durante “a homília na 9° Sessão do Con­cílio Vat­i­cano II”, em 7 de dezem­bro de 1965, Papa Mon­ti­ni veio a procla­mar: “a religião do Deus que se fez homem se encon­trou com a religião (porque tal é) do homem que se fez Deus. O que acon­te­ceu? Um choque, uma luta, um anátema? Isto pode­ria acon­te­cer; mas não acon­te­ceu. […]. Uma sim­pa­tia imen­sa em direção a todos os home­ns per­me­ou todo o Con­cílio. Dê nos méri­to ao menos nis­to, vós human­istas mod­er­nas, que rejeitaram a ver­dade, as quais tran­scen­dem a natureza das coisas ter­restres, e recon­heces­te o nos­so novo human­is­mo: tam­bém nós, mais de todos, temos o cul­to do homem”.

Karol Wojty­la em 1976 quan­do Cardeal, pre­gan­do um retiro espir­i­tu­al a Paulo VI e aos seus colab­o­radores, pub­li­cou em ital­iano sobre o títu­lo Sinal de con­tradição. Med­i­tações, (Milano, Grib­au­di, 1977), ini­cia as med­i­tações “Cristo rev­ela ple­na­mente o homem ao homem” (cap. XII, pg. 114–122) com Gaudi­um et spes n.º 22 e afir­ma: “o tex­to con­cil­iar, apli­can­do a sua vol­ta a cat­e­go­ria do mis­tério ao homem, expli­ca o carác­ter antropológi­co ou mes­mo antropocên­tri­co da Rev­e­lação ofer­ta­da aos home­ns em Cristo. Esta rev­e­lação é con­cen­tra­da sobre o homem […]. O Fil­ho de Deus através da sua encar­nação, se uniu a todos os home­ns, se tornou – como Homem – um de nós […]. Aqui os pon­tos cen­trais aos quais se pode reduzir o ensi­na­men­to con­cil­iar sobre o homem e sobre seu mis­tério” (pg. 115–116).

Papa João Paulo II afir­ma na sua segun­da encícli­ca (de 1980) “Dives in mis­eri­cor­dia” n.º1:”Enquanto as várias cor­rentes do pen­sa­men­to humano no pas­sa­do e no pre­sente foram e con­tin­u­am a ser propen­sos a dividir e mes­mo a con­tra­por o teo­cen­tris­mo com o antropocen­tris­mo, a Igre­ja [nda: no Con­cílio Vat­i­cano II] […] procu­ra uni-los […] de maneira orgâni­ca e pro­fun­da. E este é um dos pon­tos fun­da­men­tais, e talvez mais impor­tantes, do mag­istério do últi­mo Con­cílio”.

(3) Tam­bém São Pio X falou de “democ­ra­cia cristã”, bem dis­tin­ta do democ­ra­tismo social mod­ernís­ti­co como havia feito Leão XIII. A his­to­ri­eta de Leão XIII papa lib­er­al e repub­li­cano não con­vence ou se deve tam­bém aplicar a São Pio X.