Sermão de Natal de São Leão Magno


No category / terça-feira, dezembro 25th, 2012

 

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São Leão Mag­no

Ser­mão n° 23: «Natal do Sen­hor»

Já muitas vezes, carís­si­mos, ouvistes falar e fos­tes instruí­dos a respeito do mis­tério da solenidade de hoje; porém, assim como a luz visív­el enche sem­pre de praz­er os olhos sadios, tam­bém aos corações retos não ces­sa de causar regoz­i­jo a nativi­dade do Sen­hor.

Jamais deve­mos deixá-la transcor­rer em silên­cio, emb­o­ra não pos­samos condig­na­mente explaná-la, pois aque­la palavra: “a sua ger­ação, quem a poderá explicar?” se ref­ere cer­ta­mente não só ao mis­tério pelo qual o Fil­ho de Deus é co-eter­no com o Pai, mas ain­da a este nasci­men­to em que “o Ver­bo se fez carne”.

O Fil­ho de Deus, que é Deus como seu Pai, que recebe do Pai sua mes­ma natureza, Cri­ador e Sen­hor de tudo, que está pre­sente em toda parte e tran­scende o uni­ver­so inteiro, na seqüên­cia dos tem­pos que, de sua providên­cia depen­dem, escol­heu para si este dia, a fim de, em prol da sal­vação do mun­do, nele nascer da bem-aven­tu­ra­da Virgem Maria, con­ser­van­do intac­to o pudor de sua mãe. A vir­gin­dade de Maria não foi vio­la­da no par­to, como não fora mac­u­la­da na con­ceição, “a fim de que se cumprisse — diz o evan­ge­lista — o que foi pro­nun­ci­a­do pelo Sen­hor, através do pro­fe­ta Isaías: Eis que uma virgem con­ce­berá no seu seio e dará à luz um fil­ho, ao qual chamarão Emanuel, que quer diz­er Deus conosco”.

O admiráv­el par­to da sagra­da Virgem trouxe à luz uma pes­soa que, em sua uni­ci­dade, era ver­dadeira­mente humana e ver­dadeira­mente div­ina, já que as duas naturezas não con­ser­varam suas pro­priedades de modo tal que se pudessem dis­tin­guir como duas pes­soas: não foi ape­nas ao modo de um Habita­dor em seu habitácu­lo que o Cri­ador assum­iu a sua criatu­ra, mas, ao con­trário, uma natureza como que se adi­cio­nou à out­ra. Emb­o­ra duas naturezas, uma a assu­mente e out­ra assum­i­da, é tal a unidade que for­mam, que um úni­co e mes­mo Fil­ho poderá diz­er-se, enquan­to ver­dadeiro homem, menor que o Pai e enquan­to ver­dadeiro Deus, igual ao Pai .

Uma unidade dessas, carís­si­mos, entre Cri­ador e criatu­ra, o olhar cego dos ari­anos não pôde enten­der, os quais, não cren­do que o Unigêni­to de Deus pos­sua a mes­ma glória e sub­stân­cia do Pai, afir­maram ser menor a divin­dade do Fil­ho, argu­men­tan­do com as palavras (evangéli­cas) que dizem respeito à for­ma de ser­vo.

Ora, o próprio Fil­ho de Deus, para mostrar como essa condição de ser­vo nele exis­tente não per­tence a uma pes­soa estran­ha e dis­tin­ta, com ela mes­ma nos diz: “eu e o Pai somos uma só coisa”

Na natureza de ser­vo, por­tan­to, que ele, na plen­i­tude dos tem­pos, assum­iu em vista da nos­sa redenção, é menor do que o Pai; mas na natureza de Deus, na qual exis­tia des­de antes dos tem­pos, é igual ao Pai. Em sua humil­dade humana, foi feito da mul­her, foi feito sob a Lei, con­tin­uan­do a ser Deus, em sua majes­tade div­ina, o Ver­bo divi­no, por quem foram feitas todas as coisas. Por­tan­to, aque­le que, em sua natureza de Deus, fez o homem, revestiu uma for­ma de ser­vo, fazen­do-se homem; é o mes­mo o que é Deus na majes­tade desse reve­stir-se e homem na humil­dade da for­ma revesti­da. Cada uma das naturezas con­ser­va inte­gral­mente suas pro­priedades: nem a de Deus mod­i­fi­ca a de ser­vo, nem a de ser­vo diminui a de Deus. O mis­tério, pois, da força uni­da à fraque­za, per­mite que o Fil­ho, em sua natureza humana, se diga menor do que o Pai, emb­o­ra em sua natureza div­ina lhe seja igual, pois a divin­dade da Trindade do Pai, do Fil­ho e do Espíri­to San­to é uma só. Na Trindade o eter­no nada tem de tem­po­ral, nem existe dissemel­hança na div­ina natureza: lá a von­tade não difere, a sub­stân­cia é a mes­ma, a potên­cia igual, e não são três Deuses, unidade ver­dadeira e indis­so­ciáv­el é essa, onde não pode exi­s­tir diver­si­dade.

Nasceu pois numa natureza per­fei­ta e ver­dadeira de homem o ver­dadeiro Deus, todo no que é seu e todo no que é nos­so. “Nos­so” aqui dize­mos que o Cri­ador criou em nós no iní­cio, e depois assum­iu para restau­rar. O que, porém, o sedu­tor (o demônio) intro­duz­iu e o homem, ludib­ri­a­do, aceitou, isso não teve nem vestí­gio no Sal­vador, pois comungan­do com nos­sas fraque­zas não par­ticipou dos nos­sos deli­tos. Elevou o humano sem diminuir o divi­no, dado que a exi­nanição em que o Invisív­el se nos mostrou visív­el foi desci­da de com­paixão, não defi­ciên­cia de poder.

Assim, para ser­mos nova­mente chama­dos dos gril­hões orig­i­nais e dos erros mun­danos à eter­na bem-aven­tu­rança, aque­le mes­mo a quem não podíamos subir desceu até nós. Se, real­mente, muitos eram os que amavam a ver­dade, a astú­cia do demônio ilu­dia-os na incerteza de suas opiniões, e sua ignorân­cia, orna­da com o fal­so nome de ciên­cia, arras­ta­va-os a sen­tenças as mais diver­sas e opostas. A dout­ri­na da anti­ga Lei não era bas­tante para afas­tar essa ilusão que man­tinha as inteligên­cias no cativeiro do sober­bo demônio. Nem tam­pouco as exor­tações dos pro­fe­tas lograri­am realizar a restau­ração de nos­sa natureza. Era necessário que se acres­cen­tasse às insti­tu­ições morais uma ver­dadeira redenção, necessário que uma natureza cor­romp­i­da des­de os primór­dios renascesse em novo iní­cio. Devia ser ofer­e­ci­da pelos pecadores uma hós­tia ao mes­mo tem­po par­tic­i­pante de nos­sa estirpe e isen­ta de nos­sas mácu­las, a fim de que o plano divi­no de remir o peca­do do mun­do por meio da nativi­dade e da paixão de Jesus Cristo atingisse as ger­ações de todos os tem­pos e, longe de nos per­tur­bar, antes nos con­for­t­asse a vari­ação dos mis­térios no decur­so dos tem­pos, des­de que a fé, na qual hoje vive­mos, não var­i­ou nas diver­sas épocas.

Cessem, por isso, as queixas dos que impia­mente mur­mu­ram con­tra a div­ina providên­cia e cen­suram o retar­do da nativi­dade do Sen­hor, como se não tivesse sido con­ce­di­do aos tem­pos anti­gos o que se real­i­zou na últi­ma idade do mun­do. A Encar­nação do Ver­bo podia con­ced­er, já antes de se realizar, os mes­mos bene­fí­cios que out­or­ga aos home­ns, depois de real­iza­da; o min­istério da sal­vação humana nun­ca deixou de se oper­ar. O que os após­to­los pre­garam, os pro­fe­tas pre­nun­cia­ram; não foi cumpri­do tar­dia­mente aqui­lo a que sem­pre se prestou fé. A sabedo­ria, porém, e a benig­nidade de Deus, cem essa demo­ra da obra salutífera, nos fez mais capazes de nos­sa vocação, pois o que fora pre­nun­ci­a­do por tan­tos sinais, tan­tas vezes e tan­tos mis­térios, poderíamos recon­hecer sem ambigüi­dade nestes dias do Evan­gel­ho. A nativi­dade, mais sub­lime do que todos os mila­gres e do que todo o entendi­men­to, ger­aria em nós uma fé tan­to mais firme quan­to mais anti­ga e ami­u­da­da tivesse sido antes sua pre­gação. Não foi, pois, por delib­er­ação nova ou por comis­er­ação tar­dia que Deus reme­diou a situ­ação do homem, mas, des­de a Cri­ação do mun­do insti­tuíra uma e mes­ma causa de sal­vação, para todos. A graça de Deus, que jus­ti­fi­ca os san­tos, foi aumen­ta­da com o nasci­men­to de Cristo, não foi sim­ples­mente prin­cip­i­a­da. E esse mis­tério da com­paixão, esse mis­tério que hoje já enche o mun­do, fora tão potente em seus sinais pre­fig­u­ra­tivos que todos os que nele creram, quan­do prometi­do, não con­seguiram menos do que os que o con­hece­r­am real­iza­do.

São assim, carís­si­mos, tão grandes os teste­munhos da bon­dade div­ina para conosco que, para nos chamar à vida eter­na, não ape­nas nos min­istrou as fig­uras, como aos anti­gos, mas a própria Ver­dade nos apare­ceu, visív­el e cor­pórea. Não seja, por­tan­to, com ale­gria pro­fana ou car­nal que cele­bre­mos o dia da nativi­dade do Sen­hor. cel­e­bra-lo-emos dig­na­mente se nos lem­brar­mos, cada um de nós, de que Cor­po somos mem­bros e a que Cabeça esta­mos unidos, cuidan­do que não se ven­ha a inserir no sagra­do edifí­cio uma peça dis­cor­dante.

Con­sid­erai aten­ta­mente, carís­si­mos, sob a luz do Espíri­to San­to, quem nos rece­beu con­si­go e quem recebe­mos conosco: sim, como o Sen­hor se tornou carne nos­sa, nascen­do, tam­bém nós nos tor­namos seu Cor­po, renascen­do. Somos mem­bros de Cristo e tem­p­los do Espíri­to San­to e por isto o Após­to­lo diz: “Glo­ri­fi­cai e trazei a Deus no vos­so cor­po”. Apre­sen­tan­do-nos o exem­p­lo de sua humil­dade e man­sid­ão, o Sen­hor comu­ni­ca-nos aque­la mes­ma força com que nos remiu, con­forme prom­e­teu: “Vin­de a mim, vós todos, que tra­bal­hais e estais sobre­car­rega­dos, e eu vos recon­fort­arei. Tomai o meu jugo sobre vós e apren­dei de mim que sou man­so e humilde de coração, e encon­trareis repouso para vos­sas almas”.

Tomem­os, por­tan­to, o jugo, em nada pesa­do e em nada áspero, da Ver­dade que nos guia e imite­mos na humil­dade aque­le a cuja glória quer­e­mos ser con­fig­u­ra­dos. Que nos aux­ilie e nos con­duza às suas promes­sas quem em sua grande mis­er­icór­dia é poderoso para apa­gar nos­sos peca­dos e com­ple­tar seus dons em nós, Jesus Cristo, nos­so Sen­hor, que vive e reina pelos sécu­los dos sécu­los. Assim seja.



FONTE: GOMES, Cir­i­lo Folch, OSB. Antolo­gia dos San­tos Padres. Coleção “Patrolo­gia”. Ed. Pauli­nas, São Paulo, 1985.