Exercício de exegese da Tradição: De João Paulo II a Mons. Bernard Fellay


Teologia / segunda-feira, junho 4th, 2012

Gio­van­ni Ser­vo­dio

[Tradução Ged­er­son Fal­cometa]

Pas­saram-se quase 24 anos daque­le fatídi­co 1988, quan­do João Paulo II no Motu Pro­prio Eccle­sia Dei Adaflic­ta, escrevia: «A raiz deste ato cis­máti­co [a con­sagração dos 4 Bis­pos da FSSPXé detec­táv­el em uma incom­ple­ta e con­tra­ditória noção de Tradição. Incom­ple­ta, porque não tem sufi­cien­te­mente con­ta do caráter vivo da Tradição (…)con­tra­ditória uma noção de Tradição que se opõe ao Mag­istério uni­ver­sal da Igre­ja, do qual é deten­tor o Bis­po de Roma e o Cor­po dos Bis­pos».

Sem esta incom­ple­ta e con­tra­ditória noção de Tradição, enten­dia João Paulo II, Mons. Lefeb­vre não teria “rompi­do o vín­cu­lo ecle­sial” com o Papa.

 

Neste perío­do de tem­po sem­pre cresceu mais a atenção por está prob­lemáti­ca, com con­sid­er­ações que, porém con­tin­uaram a con­fir­mar as duas diver­sas posições, aque­la do Vat­i­cano e aque­la da Frater­nidade São Pio X.

Recen­te­mente a Frater­nidade, pela boca de Padre Jean-Michel Gleize, reit­er­ou que esta con­cepção acer­ca da noção de Tradição tem as suas raízes em dois pon­tos de vista diver­sos: um obje­ti­vo e out­ro sub­je­ti­vo.  A par­tir do Vat­i­cano II, na Igre­ja ofi­cial prevale­ceu o pon­to de vista sub­je­ti­vo, ao qual se enten­deu sub­me­ter o pon­to de vista obje­ti­vo.

Quan­do João Paulo II fala­va da importân­cia do “caráter vivo da Tradição”, não enten­dia recor­dar que a tradição é sem­pre viva, neste caso não se teria dis­cordân­cia com a Frater­nidade, mas repetiu a con­vicção de que a Tradição não pos­sui uma obje­tivi­dade sua, porque essa é tal só em função do sujeito que a trans­mite, seja esse a comu­nidade ecle­sial ou o Papa mes­mo. Segun­do está con­cepção de vital­i­dade da Tradição seria dada pela per­sistên­cia em vida de um sujeito que a trans­mite, com­preen­di­da a inter­pre­tação ou adap­tação que esse/ ele ao lon­go do tem­po aca­ba inevi­tavel­mente por fornecê-la; tal que não é impor­tante à uni­ci­dade e a obje­tivi­dade da Tradição mes­ma, quan­to a uni­ci­dade e a sub­je­tivi­dade do sujeito, «do úni­co sujeito-Igre­ja… que cresce no tem­po e se desen­volve, per­manecen­do porém, sem­pre o mes­mo, úni­co sujeito do Povo de Deus a cam­in­ho», como afir­ma Ben­to XVI no dis­cur­so a Cúria Romana de 22 de dezem­bro de 2005.

Está diver­si­dade de “noção” foi recen­te­mente reafir­ma­da pelo Supe­ri­or Ger­al da Frater­nidade Sac­er­do­tal São Pio X, Mons. Bernard Fel­lay, na homília que pro­nun­ciou em Winona, USA, no dia 2 de fevereiro pas­sa­do. «Em out­ros ter­mos, isto sig­nifi­ca que ess­es dão um out­ro sig­nifi­ca­do a palavra “tradição” e talvez a palavra “coerên­cia” »… «É por isto que nos nos­sos colóquios doutri­nais com Roma nós está­va­mos, por assim diz­er, blo­quea­d­os”.  Nestes colóquios com Roma, a questão chave era em defin­i­ti­vo a questão do Mag­istério, do ensi­na­men­to da Igre­ja»… «Se eles aceitam os princí­pios que nós temos sem­pre sus­ten­ta­do, é porque estes princí­pios para eles sig­nifi­cam aqui­lo que eles pen­sam, e que é em exa­ta con­tradição com aqui­lo que afir­mamos nós. Creio que não se podemos avançar mais na con­fusão».

Em suma, depois de 24 anos parece que não se mudou nada, nos encon­tramos ain­da pre­sos a declar­ação de João Paulo II quan­do afir­mou, “uma incom­ple­ta e con­tra­ditória noção de tradição”, uma noção que, da parte da Frater­nidade, não teria “sufi­cien­te­mente con­ta do caráter vivo da Tradição” e que, da parte de Roma, guardaria a Tradição como a um com­plexo de ensi­na­men­tos que crescem e se desen­volvem no tem­po.

Ora, naqui­lo que a primeira vista pos­sa pare­cer con­tra­ditório, deve-se diz­er que ambas as noções, de seu respec­ti­vo pon­to de vista, são jus­ti­fi­cadas e con­sis­tentes. Do pon­to de vista obje­ti­vo, que é aque­le da Frater­nidade São Pio X, a Tradição é um quid, que impõe ao sujeito que a trans­mite uma coerên­cia que tran­scende o sujeito mes­mo: sendo a Tradição a guia for­ma­ti­va do sujeito. Do pon­to de vista sub­je­ti­vo, que é aque­le do Vat­i­cano, a Tradição um con­jun­to de indi­cações que grad­ual­mente, o sujeito tor­na explíc­i­to em função do tem­po: sendo o sujeito viven­to no tem­po o fim últi­mo da Tradição.

Em out­ras palavras parece que, sendo a Tradição fun­cional ao homem, e isto é a um sujeito, tal função é pos­sív­el que se real­ize em dois mod­os: em sen­ti­do descen­dente, com a Tradição que infor­ma o próprio sujeito fazendo‑o con­forme ao princí­pio imutáv­el do qual é expressão, ou em sen­ti­do ascen­dente, com o sujeito que infor­ma a própria Tradição fazendo‑a con­forme a muta­bil­i­dade da existên­cia. Em ambos os casos a relação entre Tradição e sujeito seria man­ti­da, mas segun­do uma lóg­i­ca inver­sa.

É este o pon­to cru­cial da questão.

Se for de acor­do sobre o princí­pio que a Tradição é fun­cional ao sujeito, mas em um caso, obje­ti­va­mente, é a Tradição que faz o sujeito, no out­ro caso, sub­je­ti­va­mente, é o sujeito que faz a Tradição.

É por isso que Mons. Fel­lay pode afir­mar: «Esta­mos de acor­do sobre o princí­pio, mas percebe­mos que a con­clusão é con­trária. Grande mis­tério! ».

Está lon­ga questão parece não ter solução, se não aque­la já indi­ca­da por João Paulo II: não opor-se “ao Mag­istério uni­ver­sal da Igre­ja, do qual é deten­tor o Bis­po de Roma e o Cor­po dos Bis­pos”, tal que o dile­ma entre obje­tivi­dade e sub­je­tivi­dade seria menor, não porque resolvi­do, mas porque nega­do.

Quan­do João Paulo II afir­ma­va que o Bis­po de Roma e o Cor­po dos Bis­pos “detém” o Mag­istério e então não pode exi­s­tir uma noção de Tradição que se opon­ha a este Mag­istério, sus­ten­ta­va sim­ples­mente que Tradição, Mag­istério e Bispo/s, são todos um, e que então não existe uma relação condi­cio­nante entre Tradição e Mag­istério, tal que o primeiro, obje­to ati­vo, impon­ha ao segun­do, sujeito pas­si­vo, a função de “trans­mis­sor”. Se o sujeito “detém” o obje­to, é inevitáv­el que este segun­do não exista mais na sua obje­tivi­dade, se não através da sub­je­tivi­dade do primeiro. Vale a pena diz­er que o Mag­istério é o úni­co critério da Tradição. Mas, deste modo, não ten­do o mes­mo Mag­istério, de per si, algu­ma obje­tivi­dade, enquan­to essa é nega­da a pri­ori, a úni­ca coisa que per­manece, em per­fei­ta coerên­cia, é a sub­je­tivi­dade do Bispo/i. Em últi­ma análise, a Tradição, e o Mag­istério mes­mo, se iden­ti­fi­cari­am com o úni­co sujeito real que tem a cono­tação de “vivente”: o Papa e o Cor­po dos Bis­pos: seri­am ess­es o Mag­istério e a Tradição.

A inver­são é assim real­iza­da: o Papa e os Bis­pos não “trans­mitem” mais a Tradição, que é difer­ente da sua existên­cia, mas “são” a tradição, tal que está não se pos­sa mais con­sid­er­ar um “dado” a “trans­mi­tir” ao lon­go de sua existên­cia e além dela, mas o fru­to des­ta mes­ma existên­cia; até ao pon­to que se é força­do a con­cluir que deste modo a Tradição não existe, porque, uma vez elim­i­na­do o obje­to a trans­mi­tir, não pode exi­s­tir por definição.

O que res­ta, então? Per­manece só a mera trans­mis­são, isto é a ação sub­je­ti­va do trans­mis­sor, a qual, pri­va­da do obje­to a trans­mi­tir, se resolve em qual­quer coisa de um fim em si mes­mo, basea­do exclu­si­va­mente sobre exigên­cias nas neces­si­dades decor­rentes da existên­cia do próprio sujeito. Isto é o que o Vat­i­cano II, João Paulo II e Ben­to XVI geral­mente chamam de “tradição vivente”.

Podemos tam­bém diz­er que não esta­mos mais diante do amor de um sujeito por um obje­to ama­do, mas ao amar prat­i­ca­do por este mes­mo sujeito como exer­cí­cio auto real­iza­ção. Não mais ao amor do sujeito homem por Deus e, por­tan­to, para os irmãos, mas o exer­cí­cio de amor que, em si mes­mo, pode pre­scindir de Deus e dos irmãos.

Não se ama o obje­to do amor, mas o amor mes­mo, tornando‑o estéril.

Não se trans­mite mais o obje­to da Tradição, mas se práti­ca uma trans­mis­são pri­va­da de seu obje­to: uma trans­mis­são estéril…  uma tradição vazia.

Fonte: Unavox