PIO XII E A EXCOMUNHÃO DO COMUNISMO


História, Política, Teologia / segunda-feira, junho 18th, 2012

DON CURZIO NITOGLIA

6 de março de 2010
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

http://www.doncurzionitoglia.com/PioXII_e_scomunica_comunismo.htm

Intro­dução: justiça e atu­al­i­dade da con­de­nação

Pio XII, através da Sagra­da Con­gre­gação do San­to Oficío emanou três doc­u­men­tos sobre a natureza do comu­nis­mo e a sua incom­pat­i­bil­i­dade com o cris­tian­is­mo.

1º)Um ‘Decre­to ger­al” (1º de jul­ho de 1949), que declara:

a) não ser jamais licí­to inscr­ev­er-se nos par­tidos comu­nistas ou dar a eles apoio, porque o comu­nis­mo é mate­ri­al­ista e anti­cristão;

b) que é veta­do difundir livros ou jor­nais, os quais sus­ten­tem a dout­ri­na e a práti­ca do comu­nis­mo mate­ri­al­ista e ateu;

c) que os fiéis, os quais real­izam com ple­na con­sciên­cia os atos proibidos, não podem rece­ber os Sacra­men­tos;

d) tam­bém que os bati­za­dos, os quais pro­fes­sam, defen­d­em ou propagam con­scien­te­mente a dout­ri­na ou a práti­ca comu­nista, incor­rem ipso fac­to em exco­munhão reser­va­da em modo espe­cial a San­ta Sé, enquan­to após­tatas da Fé católi­ca (a apos­ta­sia é uma pas­sagem da religião cristã a out­ra total­mente diver­sa – no caso o mate­ri­al­is­mo ateu – e por­tan­to mais grave que a here­sia e cis­ma, o qual seria pas­sar do catoli­cis­mo ao protes­tantismo ou “orto­dox­is­mo”).

2º) Uma “Declar­ação sobre o matrimônio” (11 de agos­to de 1949), a qual ensi­na que os escritos das seitas ateís­tas ou acatóli­cas, os quais são os comu­nistas mil­i­tantes, incor­rem no imped­i­men­to diri­mente [1] de religião mista [2], enquan­to ateus, devem sub­scr­ev­er as cauções que são requeri­das aos acristãos (batismo, edu­cação cristã dos fil­hos e remoção do peri­go de per­ver­são do con­jugue não comu­nista).

3º)um ‘Moni­to sobre a edu­cação da juven­tude’ (28 de jul­ho de 1950), con­tra os gen­i­tores que con­sen­tem aos fil­hos de serem inscritos na sociedade jovem per­ver­tidos (FCGI).

O Papa iden­ti­fi­ca no mate­ri­al­is­mo e tam­bém no ateis­mo a causa da incom­pat­i­bil­i­dade absso­lu­ta entre cris­tian­is­mo e comu­nis­mo, mate­ri­al­ista e ateu. Ora vejamos que coisa diz o próprio comu­nis­mo diz ser para com­preen­der se a con­de­nação foi jus­ta. No fim ver­e­mos se tal con­de­nação seja ain­da atu­al aos nos­sos tem­pos onde o comu­nis­mo pro­fes­sa de ter muda­do.

O que o marx­is­mo diz ser ele mes­mo

O marx­is­mo-lenin­is­mo é uma con­cepção unitária do mun­do ou uma úni­ca filosofia práti­ca, que com­preende mate­ri­al­is­mo dialéti­co e históri­co, for­man­do um todo orgâni­co, o qual deve ser con­sid­er­a­do no seu con­jun­to [3].

1º) O ‘mate­ri­al­is­mo dialéti­co’, acred­i­ta na matéria como úni­ca real­i­dade e excluí todos os out­ros ele­men­tos espir­i­tu­ais: não tem Deus, alma, val­ores tran­scen­dentes [4]. O pen­sa­men­to e a con­sciên­cia do homem derivam por evolução da matéria [5]. O ‘mate­ri­al­is­mo dialéti­co’, con­ce­bi a matéria não como obje­to estáv­el, mas como ativi­dade sen­sív­el e práti­ca [6]. Marx acres­cen­ta a dialéti­ca ou dinâmi­ca hegeliana ao mate­ri­al­is­mo clás­si­co ou estáti­co [7]. Aqui­lo que dis­tingue o homem dos ani­mais bru­tos, é o está­gio mais per­feito, mas não ain­da defin­i­ti­vo, da matéria em evolução, a qual graças ao tra­bal­ho trans­for­mou o maca­co em homem, onde o pen­sa­men­to nascem do tra­bal­ho e com o tra­bal­ho [8].

2º)O ‘mate­ri­al­is­mo históri­co’ apli­ca o mate­ri­al­is­mo dialéti­co na história da humanidade [9]. A história é lida a luz da econômia a qual é o ele­men­to fun­da­men­tal da evolução históri­ca [10]. Por­tan­to a história humana é sobre­tu­do a história das class­es soci­ais e eco­nom­i­cas. Essas entram nec­es­sari­a­mente em luta entre elas, a luta de classe é um fenô­meno absso­lu­ta­mente inevitáv­el [11]. Como se vê a con­cepção econômi­ca marx­ista é essen­cial­mente lig­a­da a filosofia de Marx, onde não se pode aceitar a análise econômi­ca marx­ista e recusar a filosofia mate­ri­al­ista dialéti­co-históri­ca. O marx­is­mo, como mate­ri­al­is­mo nega a Deus e como sis­tema econômi­co nega a sociedade pri­va­da [12] através da luta de classe em con­tra­posição dialéti­ca; não pára nem sequer diante da família, onde ela colo­ca a luta dialéti­ca entre homem e mul­her, fil­hos e pais[13], para alcançar a abolição do matrimônio e a sociedade do amor livre [14]. Onde as degen­er­ações freudi­anas e pan­sex­u­al­is­tas da Esco­la de Frank­furt entre os anos Vinte-Sessen­ta (Theodoro Adorno +1969 e Her­bert Mar­cuse +1979) explodiu em 1968, e já esta­va con­ti­das vir­tual­mente em Marx (+1883) e Engels (+1885).

Marx­is­mo e justiça social

Muitos pen­sam, por ignorân­cia e de boa fé, que o comu­nis­mo seja um anseio por justiça social, errad­i­cação da pobreza, mis­éria e da explo­ração dos pobres. Nada menos marx­ista. O escopo do comu­nis­mo é a rev­olução ou dialéti­ca mate­ri­al­ista con­stante e per­ma­nente, ten­den­do ao “paraí­so social­ista na ter­ra” ou sociedade sem Esta­do, classe social, religião e família. O comu­nis­mo para col­her o seu fim (rev­olução con­tin­ua) pre­cisa da pobreza, das con­tradições e injustiças que se encon­tram na sociedade humana, para opor-lhe – hegeliana­mente – como antite­so a riqueza (tesi), onde alcança a sín­tese: “paraí­so na ter­ra”. Sem mis­éria e explo­ração não seria pos­sív­el a revol­ta do pro­le­tari­a­do. Então os abu­sos são um bem, porque eles são a ocasição para des­en­cadear o ódio de classe e a rev­olução do pro­le­tari­a­do [15]. A rev­olução marx­ista, é enten­di­da como um con­tín­uo vir-a-ser e em con­tradição per­ma­nente com a real­i­dade e não como uma sim­ples sub­l­e­vação históri­ca que tem um iní­cio e um fim [16].

O marx­is­mo em ação

Há objeção “o comu­nis­mo hodier­no mudou”, o pro­fes­sor Jean Dau­jat responde com amplas citações de autores marx­is­tas: “[…]. Não é por­tan­to por con­ver­são, nem por hipocrisia que os comu­nistas mudam sem tregua, dizem e fazem todos os dias e ao con­trário do que fiz­er­am e dis­ser­am no dia ante­ri­or; isso é con­forme a mais pura exigên­cia do marx­is­mo e estes não seri­am marx­is­tas se agis­sem diver­sa­mente; porque o marx­is­mo é um evolu­cionis­mo inte­gral, assim eles devem – enquan­to são marx­is­tas – evoluir e con­tradiz­erem-se sem trégua. Deve­mos, de uma vez por todas, nos con­vencer­mos de que aqui­lo que dizem não exprime nen­hu­ma ver­dade, mas ape­nas as neces­si­dades de suas ações, porque para eles nada existe fora des­ta ação. A ação é uma evolução per­pé­tua onde o sim se tor­na não a todo momen­to. Recon­hecer uma ver­dade, equiv­a­le­ria a recon­hecer qual­quer coisa que existe, e com isso renun­ciar a trans­for­má-la com a própria ação. Para Marx, con­hecer é nada, con­duzir a uma ação é tudo [17]. […]. É evi­dente que o marx­is­mo, não admitin­do algu­ma dependên­cia ou algum obje­to, não admi­tirá nem sequer um bem a amar ou realizar em medi­da maior do que admi­tir que existe uma ver­dade a ser con­heci­da. Um bem e um mal a qual a dis­tinção e oposição se impon­ham a nós, são tão ina­ceitáveis para o marx­is­mo quan­to um sim e um não, uma ver­dade e um erro. Para o marx­is­mo não existe um bem a amar ou realizar, existe ape­nas a ação a ser real­iza­da. Admi­tir um bem que seja um fim, qual­quer coisa de boa que se deva amar porque é boa, sig­nifi­caria impor uma dependên­cia na ação humana. Os marx­is­tas que vivem o seu marx­is­mo não podem amar nada, porque amar colo­ca em dependên­cia o obje­to ama­do; o marx­is­mo é uma recusa defin­i­ti­va de todo amor como de toda ver­dade [18]. Se um comu­nista apre­sen­ta qual­quer ide­al como um fim, por exem­p­lo da justiça social colo­ca­da em meio a rein­vidi­cações operárias, ou o ide­al patrióti­co, é uni­ca­mente porque a pre­sença de um ide­al nos cére­bros humanos tor­na-se neste caso um meio efi­caz para arras­tar a ação e a luta, um órgão ou um instru­men­to de ação e luta das forças mate­ri­ais. Esta­mos cer­to, porém, que o comu­nista o qual vive o seu marx­is­mo, tem em vista só a ação rev­olu­cionária e a luta a con­duzir [19]; o ide­al que colo­ca adi­ante é só um meio para con­duzir mel­hor tal ação e tal luta, e não tem, em si mes­mo, algum val­or diante dos olhos: existe só em função des­ta ação e des­ta luta e só por todo o tem­po que é utíl a essa. […] Assim o marx­is­mo é só um human­is­mo exclu­si­vo ou inte­gral, que admite só a ação humana. Jus­ta­mente a este human­is­mo exclu­si­vo o pen­sa­men­to mod­er­no, con­cen­tra­do exclu­si­va­mente no homem, fatal­mente dev­e­ria alcançar [cfr. J. Mar­i­tain, O human­is­mo inte­gral, Paris, 1936, nda].  Qual­quer um que quis­er recon­hecer ape­nas o cresci­men­to e a inde­pendên­cia do indívid­uo ou da pes­soa humana, [se pen­sa no ‘per­son­al­is­mo’ de Emmanuel Mounier + 1950 e Jacques Mar­i­tain + 1972, nda] ou tam­bém da cole­tivi­dade ou da sociedade humana, e recusa  sub­me­ter tal cresci­men­to e inde­pendên­cia a Deus e a sua lei e de ori­en­tar-lo em direção a Deus, abre fatal­mente a estra­da ao marx­is­mo, emb­o­ra ape­nas o marx­is­mo chegue ao fim des­ta estra­da. Qual­quer um recusará o pri­ma­do da con­tem­plação, o aban­dono da inteligên­cia de uma ver­dade a se con­hecer e da von­tade de um bem a se amar, para refu­giar-se na embriaguez da ação pura e cuidar somente do agir, estará na estra­da do marx­is­mo. O cap­i­tal ou o indus­tri­al do sécu­lo pas­sa­do ou de hoje, que faz do tra­bal­ho pro­du­ti­vo e dos seus resul­ta­dos mate­ri­ais o escopo e a essên­cia da vida humana, plan­ta uma árvore da qual o marx­is­mo será o fru­to.  Todos aque­les que anun­ci­am que a civ­i­liza­ção futu­ra será uma “civ­i­liza­ção do tra­bal­ho”, isto é, uma civ­i­liza­ção na qual o tra­bal­ho é o val­or supre­mo da vida, sabem então, que a úni­ca civ­i­liza­ção total­mente e uni­ca­mente “do tra­bal­ho” é o marx­is­mo? […] Para um comu­nista con­sciente do próprio marx­is­mo, o comu­nis­mo não é uma ver­dade (e por este moti­vo que ele poderá sem trégua con­tradiz­er-se sem con­ver­são e sem hipocrisia, mas em vir­tude de seu próprio comu­nis­mo e per­manecen­do per­feita­mente comu­nista), o comu­nis­mo é uma ação.[…]. No marx­is­mo exis­tem ape­nas tomadas de posição para a ação – por­tan­to tão mutáv­el e tão con­tra­ditório – porque a úni­ca real­i­dade do marx­is­mo é a ação [20]. Isto tem como con­se­quên­cia cap­i­tal que não have­ria algum sen­ti­do diz­er que se colab­o­ra ou se alia com a ação dos marx­is­tas rejei­tan­do a dout­ri­na: porque o marx­is­mo se iden­ti­fi­ca com a ação marx­ista, colab­o­rar ou aliar-se com a ação marx­ista sig­nifi­ca colab­o­rar ou aliar-se com o próprio marx­is­mo. Por­tan­to, a natureza própria do marx­is­mo exige que com­plete­mos o nos­so estu­do, expon­do a ação marx­ista e o seu desen­volvi­men­to de Marx a Lênin (+1924) aos nos­sos dias” (Jean Dau­jat, Con­hecer o comu­nis­mo, Milão, O Fal­cão, 1977, pg.11–17).

A ação rev­olu­cionária marx­ista

A ação rev­olu­cionária marx­ista, como um resul­ta­do daqui­lo que acabamos de explicar, é muito diver­sa da noção cor­rente de rev­olução. Para o homem comum, que se propõe a realizar um bem, uma rev­olução é um meio em vista de um fim, que é uma sociedade mel­hor e duráv­el. Evi­den­te­mente tal não é a con­cepção marx­ista, para a qual não há um bem a se realizar, mas ape­nas uma ação a con­duzir. A ação rev­olu­cionária não é para ele um meio: essa mes­ma é queri­da como uma obra gigan­tesca na qual o homem novo cri­ará a si mes­mo, se tra­ta de encon­trar os meios daque­la ação rev­olu­cionária. Ora, na época de Marx, se apre­sen­ta­va um exce­lente meio: a extrema mis­éria e a total insat­is­fação da classe pro­letária. A feli­ci­dade do pro­le­tari­a­do não rep­re­sen­ta um fim para o marx­ista, como se acred­i­ta comu­mente, mas a mis­éria do pro­le­tari­a­do é um meio para a ação rev­olu­cionária. Ninguém pode­ria ser mais con­forme as neces­si­dades do marx­is­mo quan­to a condição do pro­le­tari­a­do no sécu­lo XIX. Para desen­volver uma von­tade rev­olu­cionária total, que não dese­ja con­ser­var nada, que não man­ten­ha nada de con­ser­var­dor, que dese­ja trans­for­mar tudo, cri­ar uma sociedade com­ple­ta­mente nova, procu­rari­am home­ns que não pos­suíssem rig­orosa­mente nada, que fos­sem estri­ta­mente despo­ja­dos de tudo. Isto não foi sem­pre o caso do pobre ou do operário, mas no sécu­lo pas­sa­do foi exata­mente o caso do pro­le­tari­a­do. […] um vagabun­do em uma insta­bil­i­dade total. Ora, para o marx­is­mo, tudo que estiv­er esta­b­ele­ci­do ou já exi­s­tir, tudo o que tem esta­bil­i­dade ou duração, é uma abom­i­nação, porque difi­cul­ta a ação rev­olu­cionária. O que o marx­is­mo neces­si­ta é pre­cisa­mente do pro­le­tari­a­do [hoje são os estu­dantes de psi­canálise, rock­et­tati e dro­ga­dos da Esco­la de Frank­furt, nda]. A causa do lib­er­al­is­mo, que suprim­iu todas as insti­tu­ições profis­sion­ais para deixar sub­si­s­tir só indi­vid­u­os iso­la­dos com­ple­ta­mente livres, ape­nas aque­les que pos­suem instru­men­tos de tra­bal­ho terão uma cer­ta segu­rança, um regime esta­b­ele­ci­do e uma vidade duradoura e de tra­bal­ho. Os out­ros tem para viv­er só a força dos próprios braços alu­ga­da dia por dia para aque­les que pos­suem os instru­men­tos de tra­bal­ho, que os usam ao seu gos­to, ten­do toda liber­dade para explorá-los; ess­es tor­nam-se pro­letários, que não tem nen­hum dire­ito a faz­er valer, nen­hu­ma certeza do aman­hã, nen­hu­ma de vida e de tra­bal­ho;  eles não são mais lig­a­dos por nada a uma sociedade que lhe igno­ra, não recon­hecem eles algum lugar, não faz que explorá-los. Em breve, eles são aban­don­a­dos a uma explo­ração total, não pos­suin­do algum dire­ito sobre os instru­men­tos de tra­bal­ho nem sobre os fru­tos do tra­bal­ho deles, inteira­mente pos­suí­dos por out­ro.[…]. Isto expli­ca porque a pro­pa­gan­da comu­nista não ten­ta con­vencer a todos de uma ver­dade, mas de encon­trar os meios mais efi­cazes e os slo­gans mais ade­qua­dos para tomar posse das mentes, pouco impor­ta se estes slo­gans são ver­dadeiros ou fal­sos: o impor­tante é que são efi­cazes e, em todo caso, eles irão mudar de acor­do com as cir­cun­stân­cias [21]. A expressão “encher o cére­bro” encon­tra aqui o seu sig­nifi­ca­do mais lit­er­al, que não tem nada de per­jo­ra­ti­vo de um pon­to de vista marx­ista: a pro­pa­gan­da é a intro­dução mate­r­i­al no cére­bro da mas­sa de idéias de força [22] que lhe farão agir pela luta rev­olu­cionária [23].  […] Marx, por out­ro lado, anal­i­zou com uma lucidez admiráv­el como o dese­jo sel­vagem de lucros cada vez maiores, dese­jo provo­ca­do pelo lib­er­al­is­mo, traz con­si­go inevi­tavel­mente uma con­cen­tração de cap­i­tal sem­pre maior e uma pro­le­tari­aza­ção da mas­sa sem­pre em cresci­men­to, e como isto por sua vez leva inevi­tavel­mente a rev­olução pro­letária e a con­cen­tração total nas mãos da cole­tivi­dade pro­letária. O marx­is­mo deve, por­tan­to, com­bat­er par­tic­u­lar­mente tudo o que pode­ria sus­ten­tar a peque­na pro­priedade pes­soal e o pequeno empre­gador. Da mes­ma for­ma deve com­bat­er todas ten­ta­ti­vas de restau­ração cor­po­ra­ti­va que resti­tuiria ao tra­bal­hador um pos­to recon­heci­do e um esta­do de vida em uma orga­ni­za­ção profis­sion­al e o tiraria da condição pro­letária, colocando‑o em uma ordem social exis­tente. […]” (J. Dau­jat, ibi, pg 19–22).

O comu­nis­mo hodier­no e a religião

Mais incom­preen­sív­el ain­da é a ati­tude atu­al do comu­nis­mo com respeito a religião, a tol­erân­cia reli­giosa e a “mão estên­di­da” pelos comu­nistas aos católi­cos. Tal incom­preen­são deri­va do fato que sem­pre se con­sid­era o comu­nis­mo como um ateís­mo doutri­nal ao invés de com­preen­der que este é um ateís­mo práti­co. Não se tra­ta do tra­bal­ho, para o comu­nis­mo, de opor uma ver­dade atéia a uma ver­dade reli­giosa. A pro­pa­gan­da doutri­nal anti-reli­giosa em si mes­ma, se não é requeri­da pela exigên­cia da ação rev­olu­cionária mate­ri­al­ista, não inter­es­sa o marx­is­mo , como tudo aqui­lo que é doutri­nal. Falan­do do anti-cler­i­cal­is­mo maçôni­co, Lênin o define “dile­tan­tismo de int­elec­tu­ais bur­gue­ses”, e se com­preen­derá facil­mente isto que está expressão da sua boca pode ter de sober­ana­mente desprezante. O marx­is­mo fará pro­pa­gan­da anti-reli­giosa ape­nas se isto for útil a ação rev­olu­cionária, e ape­nas na medi­da em que, con­stan­te­mente muda de uma hora para out­ra, na qual a religião apareça como um obstácu­lo atu­al a ação rev­olu­cionária. Mas a ver­dadeira ação anti-reli­giosa do marx­is­mo não con­siste no tra­bal­ho de com­bat­er de fora com uma pro­pa­gan­da con­trária: con­siste em suprim­ir a religião a par­tir de den­tro, em esvaziar os home­ns de toda vida e de toda con­cepção reli­giosa, toman­do-os e os arra­s­tan­do inteira­mente a ação pura­mente mate­ri­al­ista. Haverá por­tan­to muitos caos nos quais, para arras­tar os cristãos nes­ta ação pura­mente mate­ri­al­ista e com isto esvaz­iá-los no inte­ri­or de todo o seu cris­tian­is­mo, neces­si­tará “esten­der-lhes a mão” e ofer­e­cer-lhes colab­o­ração [24]. Pouco impor­ta se com isto se con­tradiz uma ati­tude prévi­a­mente hos­til: não se tra­ta nem de con­ver­são, nem de hipocrisia: coman­dam ape­nas a exigên­cia da ação. Se o suces­so da ação a con­duzir requer a colab­o­ração dos cristãos, este suces­so deve, obvi­a­mente, ir antes de tudo para um marx­ista, e então a ver­dade marx­ista será uma “mão estendida””(J. Dau­jat, ibi, pg. 23–27).

Con­clusão

 

A con­de­nação de Pio XII, colo­ca­va na práti­ca aqui­lo que foi afir­ma­do por Pio IX (Qui pluribus 1846; Quan­ta cura/Sillabus 1864), Leão XIII (Quod apos­toli­ci muner­is 1878; Rerum novarum 1891) e Pio XI (Quadra­ges­i­mo anno 1931; Divi­ni Redemp­toris 1937), a par­tir daqui­lo que o comu­nis­mo diz de si, por­tan­to é não só jus­ta, mas tam­bém per­manece atu­al, porque a mudança é a natureza do comu­nis­mo, como a ser­pente que muda de pele, mas per­manece sem­pre a mes­ma [25].

DON CURZIO NITOGLIA

6 de março de 2010

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Link al libro Conoscere il comu­nis­mo di Jean Dau­jat(doc­u­men­to em italia PDF – 195 KB)


[1] O “imped­i­men­to diri­mente” tor­na inváli­do o matrimônio, enquan­to o “imped­i­men­to impe­di­ente” o tor­na só ilíc­i­to.

[2] A “religião mista” é o matrimônio entre mem­bros de duas religiões total­mente difer­entes (cristãos e muçul­manos ou hebreus); a “dis­pari­dade de cul­to” está pre­sente no matrimônio entre católi­cos e con­fis­sões cristãs diver­sas (protes­tantes). Enquan­to a “dis­pari­dade de cul­to” tor­na o matrimônio ile­gal e requer uma dis­pen­sa do “imped­i­men­to impe­di­ente”, a “religião mista” tor­na o matrimônio inváli­do sem a dis­pen­sa do “imped­i­men­to dimente”.

[3] Cfr., Tesi politiche del IX Con­gres­so del PCI, Roma, Edi­tori Riu­ni­ti, 1960.

[4] V. Lenin, Mate­ri­al­is­mo ed empirio-crit­i­cis­mo, in “Opere Scelte”, Roma, Edi­tori Riu­ni­ti, 1970., vol. III, p. 371.

[5] F. Engels, Lud­wig Feuer­bach e il pun­to d’approdo del­la filosofia clas­si­ca tedesca,Roma, Rinasci­ta, 1950, p. 18.

[6] C. Marx, Pri­ma Tesi su Feurbech, in C. Marx – F. Engels, “Opere Com­plete”, Roma, Edi­tori Riu­ni­ti, 1974, vol. XXV, p. 81.

[7] F. Engels, Anti­dühring, in C. Marx – F. Engels, “Opere Com­plete”, Roma, Edi­tori Riu­ni­ti, 1974, vol. XXV, p. 135.

[8] F. Engels, Dialet­ti­ca del­la natu­ra, in C. Marx – F. Engels, “Opere Com­plete”, Roma, Edi­tori Riu­ni­ti, 1974, vol. XXV, p. 461.

[9] G. Stal­in, Mate­ri­al­is­mo dialet­ti­co e mate­ri­al­is­mo stori­co, Roma, Rinasci­ta, 1954, p. 9.

[10] C. Marx – F. Engels, L’ideologia tedesca, Roma, Edi­tori Riu­ni­ti, 1958, p. 70.

[11] G. Stal­in, Mate­ri­al­is­mo dialet­ti­co e mate­ri­al­is­mo stori­co, cit., p. 20.

[12] C. Marx – F. Engels, Il Man­i­festo del Par­ti­to Comu­nista, Roma, Edi­tori Riu­ni­ti, 1971, p.78.

[13] C. Marx, Il Cap­i­tale, Roma, Edi­tori Riu­ni­ti, 1967, vol. I, p. 536.

[14] F engels, Il cat­e­chis­mo dei comu­nisti, Milano, Edi­zioni del Maquis, p. 19; cfr. Id.,L’origine del­la famiglia, del­la pro­pri­età pri­va­ta e del­lo Sta­to, Roma, Edi­tori Riu­ni­ti, 1970, p. 103.

[15] Arthur Rosen­berg, Sto­ria del Bolsce­vis­mo, Firen­ze, San­soni, 1969, p. 3; H. Lefeb­vre,Il marx­is­mo, Milano, Garzan­ti, 1954, p. 49.

[16] H. Lefeb­vre, cit., p. 90.

[17] O ide­al­is­mo era obri­ga­do a chegar a este pon­to: se a idéia não é mais uma expressão – evi­den­te­mente espir­i­tu­al – de uma real­i­dade con­heci­da, deve ago­ra ser con­sid­er­a­da ape­nas um pro­du­to do cére­bro.

[18] “Tudo aqui­lo que existe merece mor­rer” disse Engels.

[19] Para o filó­so­fo que reflete, o marx­is­mo é, por isso um evolu­cionis­mo e rel­a­tivis­mo abso­lu­to, o próprio mate­ri­al­is­mo mais mate­ri­al­ista que pos­sa exi­s­tir. Na ver­dade, uma matéria que fos­se uma sub­stân­cia com uma real­i­dade duradoura, teria uma natureza estáv­el e deter­mi­na­da. Isso seria algo difer­ente da pura pas­sivi­dade e inde­ter­mi­nação da matéria em si, poden­do encon­trar está pura pas­sivi­dade e inde­ter­mi­nação somente na insta­bil­i­dade per­pé­tua.

[20] Isto foi admirável­mente clarea­do em Taille de l’homme de Ramuz.
[21] “Ele­var as mas­sas ao nív­el máx­i­mo de con­sciên­cia dos inter­ess­es de classe pro­letária”, disse Stal­in (+1953).

[22] Stal­in escreve: “A dis­ci­plina de fer­ro no par­tido não pode ser con­ce­bi­da sem uma unidade de von­tade, sem uma unidade de ação com­ple­ta e abso­lu­ta de todos os mem­bros do par­tido” e Lênin afir­ma­va que “o par­tido comu­nista não poderá cumprir o seu dev­er se não for orga­ni­za­do da for­ma mais cen­tral­iza­da, se não é gov­er­na­do por uma dis­ci­plina de fer­ro com fron­teira na viz­in­ha dis­ci­plina mil­i­tar”.

[23] “No comu­nis­mo – disse Lênin – todos os cidadãos se trans­for­mam em empre­ga­dos assalari­a­dos do Esta­do”. “Neces­si­tará – disse Marx – cen­tralizar todos os instru­men­tos de pro­dução nas mãos do Esta­do”.

[24] Marx da por pro­gra­ma ao Esta­do comu­nista:

Aumen­tar a quan­ti­dade o mais rápi­do pos­sív­el das forças de pro­du­ti­vas”.

[25] Cfr. L. Col­let­ti, il marx­is­mo e Hegel, 2 voll., Bari, Lat­erza, 1976; D. Set­tem­bri­ni, il labir­in­to marx­ista, Milano, Riz­zoli, 1975; A. Del Noce,Lezioni sul marx­is­mo, Milano, Giuf­fré, 1972; F. Ocariz, Il marx­is­mo ide­olo­gia del­la riv­o­luzione, Milano, Ares, 1977; GF. Mor­ra,Marx­is­mo e reli­gione, Milano, Rus­coni, 1976; A. Bruc­cu­leri, Il vero volto del comu­nis­mo,Roma, La Civiltà Cat­toli­ca Editrice, 1952; A. Messi­neo, voce“Comu­nis­mo”, in “Enci­clo­pe­dia Cat­toli­ca”, Cit­tà del Vat­i­cano, 1951, vol. IV, coll. 151–158; F. Rodano, Sul­la polit­i­ca dei comu­nisti, Tori­no, Bor­inghieri, 1975; Gior­gio Napoli­tano, Inter­vista sul PCI, Bari, Lat­erza, 1976; E. Bloch, Karl Marx, Bologna, Il Muli­no, 1972.

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