P. CURZIO NITOGLIA: A PAZ DA ALMA — 2ª PARTE: A ACEITAÇÃO DE SI


Espiritualidade / segunda-feira, março 7th, 2016

 

A PAZ DA ALMA
SEGUNDA PARTE
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A ACEITAÇÃO DE SI
P. Curzio Nitoglia
Tradução: Ged­er­son Fal­cometa

 

·         Muitas vezes temos difi­cul­dade de aceitar a von­tade de Deus, quer­e­mos faz­er aqui­lo que gosta­mos, mas algu­mas cir­cun­stân­cias que não nos agradam se apre­sen­tam a nos­sa por­ta, e então, pre­cisamos faz­er as con­tas com elas. O ide­al é renun­ciar aos nos­sos gos­tos e incli­nações que são desvi­a­dos pelo peca­do orig­i­nal, para uni­formizar a nos­sa von­tade à von­tade div­ina que é per­feitís­si­ma em si, mes­mo que nos pos­sa apare­cer incom­preen­sív­el e até mes­mo desagradáv­el. Nem sem­pre somos bem suce­di­dos e algu­mas vezes bus­camos uma escap­atória. Ma isto longe de nos sat­is­faz­er nos deixa insat­is­feitos, porque ficamos real­mente con­fu­sos, ain­da que nos pareça ter­mos obti­do aqui­lo que dese­já­va­mos. No cur­so des­ta segun­da parte bus­care­mos ver todos acon­tec­i­men­tos com os olhos da fé e poder abraçar com amor aqui­lo que temos dese­ja­do evi­tar. Ape­nas assim encon­traremos a ver­dadeira paz inte­ri­or.

·         O seg­re­do é deixar Deus agir e agir em sub­or­di­nação ao seu plano. Infe­liz­mente algu­mas vezes nos obsti­namos a quer­er faz­er­mos nós e assim imped­i­mos a real­iza­ção do pro­je­to divi­no e nos mete­mos em um esta­do de des­or­dem, de desar­mo­nia, des-final­iza­ção que nos tor­na descon­tentes, fora de lugar e sem ver­dadeira paz.

 

·         Uma das condições para per­mi­tir a graça div­ina agir em nós e a de nós coop­er­ar­mos com essa, é a de nos aceitar­mos por aqui­lo que somos com todas as nos­sas car­ac­terís­ti­cas, qual­i­dades e os defeitos. Se nos obsti­namos em não quer­er aceitar um defeito que temos, um acon­tec­i­men­to que se pro­duz­iu, então perdemos a paz. Atenção! Não é o defeito ou o acon­tec­i­men­to neg­a­ti­vo a causa da per­da da paz, mas a nos­sa von­tade que se obsti­na em não aceitá-lo livre­mente e com amor, já que foi queri­do ou ao menos per­mi­ti­do por Deus para o nos­so bem espir­i­tu­al.

 

·         Deus não age no ide­al, na fan­ta­sia, no son­ho, mas na real­i­dade. Em vez dis­so, nós quer­e­mos sem­pre o ide­al, somos doentes de ide­al­is­mo mega­lo­manía­co e de fal­ta de real­is­mo. Ora, o ide­al não é sem­pre real, antes muito rara­mente. A vida quo­tid­i­ana nor­mal­mente é “ordinária”, não é hero­ica, extra­ordinária, fan­tás­ti­ca, não é um son­ho. É pre­ciso viv­er-la assim como é, de out­ra for­ma a trans­for­mamos em um pesade­lo.

 

·         Toda pes­soa é cri­a­da por Deus a sua imagem e semel­hança, porém, cabe a nós viver­mos como criat­uras de Deus, com “a san­ta liber­dade dos fil­hos de Deus” e não em rup­tura com aqui­lo que Deus nos deu (o ser real) para viver­mos em um mun­do imag­inário, feito de “son­hos de glória e de caste­los de areia”. Por exem­p­lo, eu sou uma pes­soa que Deus criou como sou na real­i­dade e não a pes­soa que gostaria de ser. Se não me aceito e não tra­bal­ho sobre mim como sou real­mente, não chego a pro­duzir nen­hum fru­to real e pos­i­ti­vo, tra­bal­ho sobre o vazio e não obten­ho nada. Isto pro­duz a insat­is­fação e a fal­ta de paz ou impaciên­cia. Deus criou e ama as pes­soas reais, não ideais ou “vir­tu­ais”, ordinárias e não extra­ordinárias, dos home­ns e não dos “deuses”. Ele toma cuida­do das suas criat­uras, já que é Providên­cia, mas daque­las reais que criou e não daque­las ideais que exis­tem ape­nas na nos­sa imag­i­nação feri­da pelo peca­do orig­i­nal e que S. Tere­sa d’Ávila chama­va “a lou­ca da casa”, uma vez que é inca­paz de per­manecer qui­eta em seu lugar, mas vai sem­pre cor­ren­do a dire­i­ta e a esquer­da fre­neti­ca­mente, imag­i­nan­do coisas que não exis­tem, ou seja, son­han­do com os olhos aber­tos.

 

·         Muitas vezes des­perdiçamos a nos­sa vida a lamen­tar­mos de não ter­mos tal qual­i­dade ou de ter tal defeito. Ora, tudo isso é irre­al. Deve­mos aceitar a real­i­dade e tra­bal­har, com a graça de Deus que não é nega­da a ninguém, para mel­ho­rar aqui­lo que somos se é pos­sív­el ou a aceitar os nos­sos lim­ites se são ine­lim­ináveis.  O que impede a graça de Deus de agir ple­na­mente sobre a nos­sa alma não são os nos­sos lim­ites e nem sequer as nos­sas mis­érias (se recon­heci­das e con­fes­sadas com propósi­to de cor­ri­gi-las), mas a fal­ta de uni­formi­dade a von­tade de Deus e a não aceitação daqui­lo que nos faz defeitu­osos, que é uma recusa práti­ca e implíci­ta da von­tade div­ina. É difí­cil que dig­amos recusar por princí­pio o modo de agir de Deus, mas na práti­ca é muito fácil bus­car evitá-lo ou de torná-lo sim­i­lar aos nos­sos dese­jos. Para aplainar toda difi­cul­dade bas­taria diz­er sim com Fé e Con­fi­ança amorosa em Deus a nos­sa existên­cia e, sobre­tu­do aos lados dessa que nos repug­nam.

 

·         A graça de Deus age ple­na­mente sobre nós se nós a aceita­mos livre­mente. “Qui creav­it te sine te, non salv­abit te sine te” (“Quem te criou sem ti não te sal­vará sem ti”) escrevia San­to Agostin­ho. Se não me aceito como sou pon­ho obstácu­lo a graça div­ina e lhe impeço de sanar me e de ele­var me. Atenção, porém! Esta aceitação não é preguiça ou qui­etismo. O dese­jo de mel­ho­rar­mos deve estar sem­pre pre­sente em nós, mas de for­ma cal­ma e real­ista.

 

·         Viv­er acei­tan­do os nos­sos lim­ites com o dese­jo de mel­ho­rar aju­da­dos por Deus não é con­tra­ditório, mas é a jus­ta óti­ca cristã segun­do a qual “a graça não destrói a natureza, mas a pres­supõe e a aper­feiçoa” (San­to Tomás de Aquino). A nos­sa natureza real é aque­la que deve­mos obser­var, aque­la sobre a qual deve­mos tra­bal­har aju­da­dos pela graça para mel­ho­ra-la na medi­da em que Deus o rep­u­ta pos­sív­el e bené­fi­co para a nos­sa alma.

 

·         A mudança e a con­ver­são real e pro­fun­da começam ape­nas quan­do enten­demos que somos lim­i­ta­dos, aceita­mos a real­i­dade dos nos­sos defeitos e dese­jamos, com a aju­da de Deus, nos mod­i­fi­car­mos e mel­ho­rar­mos por quan­to con­sista a fraque­za humana. Cer­to, parece fácil mas não é. O orgul­ho, o amor próprio, o apego a própria von­tade e o medo de não ser esti­ma­do e então ama­do são rad­i­ca­dos no fomes pec­ca­ti que se encon­tra em todo fil­ho de Adão. Ape­nas sob o olhar de Deus e com a luz da Fé podemos chegar, graças a vir­tude da humil­dade, a aceitar todos os nos­sos lados, belos, menos belos e tam­bém defeitu­osos, com a esper­ança de con­vert­er lhes em algo mel­hor. Na ver­dade o próx­i­mo, mes­mo o mais caro ami­go, não pode ter aque­le olhar pleno de mis­er­icór­dia onipo­tente e aux­il­i­ado­ra que ape­nas Deus tem. Então, diante Dele não temos nada a temer, nada a escon­der (seria tolo: Ele é oni­sciente). Sentin­do-nos ama­dos por Deus (“Dilec­tione per­pet­ua dilexi te”) con­seguire­mos amar-nos e aceitar-nos com os nos­sos defeitos, con­fi­antes que lhe poder­e­mos mel­hor se é para o bem da nos­sa alma, de out­ro modo lhe deve­mos aceitar: ess­es não nos tiram nem o amor de Deus por nós, nem a paz do nos­so espíri­to. Se Deus habi­ta em nós, ape­sar dos nos­sos defeitos (ape­nas o peca­do mor­tal o afas­ta da nos­sa alma), nós não deve­mos nos desprezar, já que jun­to a nós desprezare­mos, implici­ta­mente e indi­re­ta­mente, tam­bém Deus. A fal­sa humil­dade, que coin­cide com a fal­ta de esper­ança, pode ser mais perigosa que o orgul­ho. Ven­do ape­nas os nos­sos defeitos, os lados neg­a­tivos, começamos a deses­per­ar de nós e da aju­da de Deus, mas isto leva a deses­per­ação final, que é um peca­do con­tra o Espíri­to San­to, o peca­do que não pode ser per­doa­do ape­nas porque da nos­sa parte fal­ta o pedi­do de perdão. Deus nos ama primeiro e aman­do-nos tor­na-nos bons (S. Tomás); não é a nos­sa “bondade”que atrai o amor de Deus. A fal­sa humil­dade no fun­do coin­cide com o orgul­ho , uma vez que pre­sente que sejam as “nos­sas” qual­i­dades a tornar-nos amáveis e assim perdemos o con­ta­to com a real­i­dade sub­sti­tuin­do lhe com a imag­i­nação ou ide­al­iza­ção.

 

·         O mun­do mod­er­no feito de ima­gens e fan­tasias nos propõe ou impõe, com uma pro­pa­gan­da sútil e sola­pante, ser­mos exte­ri­or­mente belos, fortes, ricos como as divas (e “divos”) do cin­e­ma, sob pena de ser­mos tira­dos de “cena cin­e­matográ­fi­ca”. O cris­tian­is­mo, ao invés, nos con­vi­da amavel­mente a nos aprox­i­mar­mos de Deus, dia após dia, como um via­jante que escala uma mon­tan­ha. Jesus não nos impõe ser­mos os mel­hores, os vence­dores, os ricos, os poderosos, antes as bem-aven­tu­ranças (ou feli­ci­dade) nos ensi­nam o con­trário: “bem aven­tu­ra­dos os pobres de espíri­to ou os humildes; os man­sos; aque­les que choram; os pací­fi­cos; aque­les que dese­jam a san­ti­dade; os mis­eri­cor­diosos; os puros de coração; os persegui­dos”. São estas qual­i­dades inte­ri­ores que não tem nada haver com o mito do super-homem, antes requer uma cer­ta abjeção aceita­da e ama­da, que leva a feli­ci­dade. É todo o con­trário da filosofia deste mun­do.

 

·         Como se vê o cris­tian­is­mo não nos obri­ga a nos esforçar­mos para apare­cer ou fin­gir­mos ser ricos, os mel­hores, os potentes, os afor­tu­na­dos, os sanís­si­mos, sem­pre em ple­na for­ma e sem­pre vence­dores. Não! Graças ao Evan­gel­ho podemos viv­er em san­ta paz, ape­sar dos defeitos, dos fra­cas­sos e dos xeque-mates; o úni­co ver­dadeiro mal é o peca­do, que nos sep­a­ra de Deus, mas que se detes­ta­do é per­doa­do. O mun­do nos obri­ga a fin­gir ser aqui­lo que não somos e não podemos ser, dada a nos­sa natureza efêmera e lim­i­ta­da, sujei­ta a cor­rupção do cor­po e as más incli­nações da alma. O Evan­gel­ho nos exor­ta a ser­mos aqui­lo que somos, seguros de ser­mos ama­dos por Deus, ape­sar dos nos­sos lim­ites, con­tan­to que ten­hamos a boa von­tade de “faz­er o bem e fugir do mal”. 

 

·   O amor de Deus é gra­tu­ito, não nos é dev­i­do. As nos­sas mis­érias, se com­bat­i­das, atraem a mis­er­icór­dia de Deus. San­ta Bernadete Soubirous disse:”o pecador é aque­le que ama o peca­do e quer per­manecer nele”. Esta má von­tade nos sep­a­ra de Deus no tem­po e, se si morre em tal esta­do, pela eternidade. Em vez dis­so, bas­ta ter a boa von­tade de faz­er o bem e purificar-se do mal para viv­er na graça de Deus, unidos a ele, ama­dos por ele e plenos de Fé, Esper­ança e Cari­dade para com ele. É o olhar amáv­el e mis­eri­cor­dioso de Deus que nos lib­era deste asi­lo mun­dano de dev­er, ou mel­hor, de apare­cer os mel­hores a todo cus­to em todos os cam­pos. Todavia o Evan­gel­ho não nos inci­ta a inér­cia, mas a nos lançar­mos livres para a san­ti­dade e a união com Deus. Ele a quer nos dar para que a queiramos livre­mente tam­bém nós, mas na paz e serenidade, sem esforços men­tais, como se depen­desse sobre­tu­do de nós. Estas são as duas asas para voar em direção a Deus: a aceitação de si e a con­fi­ança na mis­er­icór­dia div­ina, que quer e pode nos aju­dar a faz­er nos san­tos.

 

·         Atenção em evi­tar um fal­so modo qui­etista de enten­der a aceitação de si. Não deve­mos per­manecer com os braços cruza­dos, fixos nos nos­sos lim­ites. Não! Podemos e deve­mos nos mel­ho­rar, ten­der a san­ti­dade. Mas ao mes­mo tem­po não deve­mos nos faz­er par­al­is­ar pelo medo de indig­nidade diante dos olhos de Deus. Nada de mais fal­so. Aceitar a si mes­mo sig­nifi­ca ver as próprias defi­ciên­cias mas tam­bém as qual­i­dades que Deus nos deu, faz­er fru­ti­ficar estas ulti­mas e bus­car mel­ho­rar as primeiras, sem pres­sa, ânsia e fre­n­e­si todo humano e nat­u­ral­ista. Deve­mos desen­volver as nos­sas capaci­dades com a aju­da de Deus e faz­er tesouro das nos­sas mis­érias para atrair a Mis­er­icór­dia div­ina (“Abis­sus abis­sum invo­cat”). A san­ti­dade, porém, não deve ser con­fun­di­da com a per­feição exte­ri­or, afe­ta­da, fari­saica, que não cor­re­sponde a quase nada de inte­ri­or; não deve ser con­fun­di­da nem com a impeca­bil­i­dade e nem mes­mo com o mito do super-homem. San­ti­dade é a pos­si­bil­i­dade de avançar sobre a via de Deus, de crescer espir­i­tual­mente no amor sobre­nat­ur­al que pres­supõe a Fé teolo­gal, sus­ten­ta­da e impul­sion­a­da pela graça div­ina. Isto é acessív­el a todos, mas muitos não o querem e então, não a obtém. Não todos tem a aptidão do cien­tista, do escal­ador, do herói, mas todos tem de Deus a capaci­dade de faz­erem-se san­tos. Na ter­ceira parte ver­e­mos a aceitação do sofri­men­to.

 

P. CURZIO NITOGLIA

 

2 de abril de 2012

http://www.doncurzionitoglia.com/pace_anima2.htm

 

Paz na alma (Primeira parte: liber­dade, feli­ci­dade e oblação)