LA CIVILTÀ CATTOLICA: COMENTÁRIO A CARTA ENCÍCLICA PASCENDI DOMINICI GREGIS DE SUA SANTIDADE PAPA PIO X — TEXTO II


História, Política, Teologia / sábado, março 12th, 2016

O MODERNISMO REFORMISTA
La Civiltà Cat­toli­ca*
Roma 1908
Comen­tário a Car­ta Encícli­ca 
Pas­cen­di Domini­ci Greg­is
Tradução: Ged­er­son Fal­cometa

O heréti­co – que é anárquico na ordem reli­giosa e moral – insurge vol­un­tari­a­mente, como anárquico politi­co e social, em nome de qual­quer ideia, ou mel­hor, de qual­quer palavra sub­lime, par­tic­u­lar­mente ao som grandioso de ren­o­vação, de pro­gres­so e de refor­ma. Somente, quan­do da altura da espec­u­lação desce para a enormi­dade da apli­cação, a práti­ca, ele se desco­bre como é de fato: sob o man­to do refor­mador auda­cioso um abje­to e orgul­hoso per­verte­dor.  Toda a história dos sécu­los cristãos é ple­na deste fato: e o fato, de resto, tem a sua raiz no instin­to, já fre­quente­mente denun­ci­a­do, do erro e do vicio, que é de trans­fig­u­rar-se no sem­blante de ver­dade e de vir­tude. É então suma­mente ben­eméri­to quem lhe arrebatan­do a más­cara a tem­po, colo­ca-lhe o nu da feia figu­ra, antes que a sim­u­lação adquira crédi­to e potên­cia em dano da religião e da moral, da Igre­ja e da sociedade. Ora, isto ocor­reu ao mod­ernismo, graças, sobre­tu­do a vig­orosa encícli­ca Pas­cen­di: isto aparece na sua ver­gonhosa nudez, não sábio refor­mador, qual osten­ta, mas destru­idor insip­i­ente e per­verte­dor. E tal deve­mos tam­bém mostra-lo ago­ra breve­mente, sobre os traços da encícli­ca, para con­cluir, com esta ráp­i­da olha­da, o nos­so já muito lon­go trata­men­to do mod­ernismo.

 

I

Mas antes trata­mos de avis­ar – para dis­si­par um equívo­co, fútil, mas assaz cômo­do aos mod­ernistas e, porém muito abu­sa­do – e adver­ti­mos que, ele não é chama­do mod­ernismo per­verte­dor e destru­idor ape­nas por denún­cias de abu­sos ou deman­da de refor­mas, longe dis­so: seria este um grande méri­to de sin­ceri­dade e de zelo, onde se fizesse dev­i­da­mente, como foi pro­pri­a­mente sem­pre das almas nobres, desin­ter­es­sadas e san­tas. De fato, ou por abu­so se entende mais pro­pri­a­mente o uso des­or­de­na­do de algum poder ou dire­ito legí­ti­mo, ou mais ampla­mente ai se com­preende qual­quer espé­cie de des­or­dem, de incon­veniên­cia ou de defeito. Ago­ra em um sen­ti­do e em out­ro é muito claro que nun­ca o abu­so pode deixar, em lon­go pra­zo, de insin­uar-se por uma parte em qual­quer obra, sociedade ou insti­tu­ição de criat­uras racionais e livres, mas ao mes­mo tem­po defi­ciente e fini­to. Então, o denun­ciá-lo de for­ma apro­pri­a­da e mais o tra­bal­ho para removê-lo é obra hon­es­ta: muitas vezes difí­cil, por vezes del­i­ca­da, mas sem­pre necessária. E esta é a obra do refor­mador.

Por­tan­to, nem a obra de refor­ma é própria da nos­sa idade, nem des­ta ou daque­la idade: é de todos os tem­pos. Nem vale ape­nas para esta ou aque­la condição de sociedade ou de vida, mas é neces­si­dade, lei, é quase da essên­cia, da própria vida humana, seja indi­vid­ual ou social. Mais, a refor­ma é lei e condição de pro­gres­so em todas as coisas sujeitas a muta­bil­i­dade, ao declínio ou ao incre­men­to: então refor­ma de estu­dos de ideias na vida cien­tí­fi­ca, refor­ma de cos­tumes e de leis na vida moral do indi­vid­uo e da sociedade, e assim por diante. Mais ain­da; para chegar a razão ulti­ma e pro­fun­da, esta lei ou condição de vida é inelutáv­el e per­pé­tua, como con­se­quên­cia intrínse­ca e necessária da defectibil­i­dade por uma parte, e por out­ra da per­fectibil­i­dade do homem e de quan­to é sujeito ao homem de cá embaixo. Do ser, isto é, defec­tív­el vem que a criatu­ra pode decair pas­so a pas­so da sua nati­va per­feição; do ser per­fec­tív­el segue que pode ser recon­duzi­do a per­feição anti­ga, que é como diz­er, refor­ma­da. A defectibil­i­dade tor­na o homem neces­si­ta­do; a per­fectibil­i­dade o faz capaz de pro­gres­so, de emen­da ou de refor­ma.    Já que, a respeito dis­so, o axioma bem vel­ho na vida do espíri­to, diz que o mes­mo non pro­gred­it ret­ro­gred­it est.

Nem porque fazem parte da Igre­ja os home­ns, são sim­ples fiéis, são pas­tores, per­dem pon­to ou uma ou out­ra pro­priedade intrin­se­ca­mente sua, onde são sub­meti­dos a abu­sos ou cer­to a defi­ciên­cias, e per­manecem, por­tan­to, sem­pre neces­si­ta­dos e sem­pre capazes de aper­feiçoa­men­to ou de refor­mas. Mas este ele­men­to humano, assim mutáv­el e imper­feito, que deve ser com­bi­na­do ao ele­men­to divi­no, con­stante e imutáv­el na Igre­ja, porém, não deve nun­ca ser com esse con­fun­di­do, que nun­ca se altera pelos abu­sos, nem por refor­mas o mod­i­fi­cações, bem que o man­ten­do entre abu­sos e refor­mas imu­ta­do, lhe com­pro­va com o próprio fato da sua história a natureza e a origem diver­sa, isto é div­ina.

Ora, no con­fundir um e out­ro ele­men­to, peca antes de tudo o mod­ernismo reformista: esse chama crise da Igre­ja, abu­sos e des­or­dens da Igre­jadaque­les que estão na Igre­ja; e com isto per­vertem o próprio con­ceito da Igre­ja e lhe rene­ga a origem e a vital­i­dade div­ina, atribuin­do a ela, a sua essên­cia, ao seu gov­er­no ou con­sti­tu­ição essen­cial os abu­sos que são próprios dos seus mem­bros enfer­mos, com a con­se­quente neces­si­dade de refor­mas. A Igre­ja, enquan­to sociedade div­ina, qual nasce das mãos de Cristo fun­dador, não tem nem pode ter mácu­la, nem ruga e nem out­ra tal imper­feição. Com ela é Cristo, mestre e autor da san­ti­dade, até a con­sumação dos sécu­los; e Cristo a preser­va da cor­rupção da cul­pa como do extravio para o erro, e assim intac­ta ele a guia, entre a pestilên­cia do sécu­lo e os obscuros  even­tos da história, conservando‑a sem­pre jovem e flo­res­cente para as núp­cias eter­nas.

Então, emb­o­ra o cor­po inteiro da Igre­ja não é, nem nun­ca pode­ria diz­er-se con­t­a­m­i­na­do pelos abu­sos, nem nun­ca que lhes aprove ou lhes fomente. Porque, como escrevia a este propósi­to S. Agostin­ho, «a Igre­ja de Deus, assim colo­ca­da entre mui­ta pal­ha e mui­ta cizâ­nia, muitas coisas tol­era; mas aque­les que são con­tra a fé ou a vida boa, ela não apro­va, nem silen­cia e nem faz» [1].

A tal dis­tinção, ele­men­tar mais vitalís­si­ma, não colo­can­do mente o mod­ernista, e às vezes pos­i­ti­va­mente ridicularizando‑a, ele se aviz­in­ha, ou pior vem primeiro dos hereges de todos os sécu­los pas­sa­dos, nom­i­nal­mente ao protes­tante da pseu­do-refor­ma do sécu­lo XVI, ao jansenista do XVII, ao filó­so­fo e lib­erti­no do XVIII e ao lib­er­al do XIX. Todos eles de fato são con­cordes em gri­tar degen­er­a­da a Igre­ja pelos abu­sos de alguns de seus fil­hos, neces­si­ta­da então de ser atu­al­iza­da ou refor­ma­da a seu capri­cho sob um ou out­ro pre­tex­to; emb­o­ra para alguns o pre­tex­to é a neces­si­dade de recon­duzi-la atrás a sim­pli­ci­dade dos primeiros sécu­los, a sub­lime pobreza das cat­acum­bas – e o malig­no acres­cen­ta com sar­cas­mo, a pal­ha de Belém – para out­ros é a neces­si­dade de impul­sioná-la a frente, a segun­da da cor­rente cor­rente impetu­osa dos tem­pos, de reju­ve­nescê-la no fres­cor perene do pro­gres­so; porque, fei­ta agradáv­el ao sécu­lo, acor­da com ele um novo conúbio.

Pre­cisa­mente entre este dup­lo inten­to influ­en­ci­am os sequazes do mod­ernismo reformista; e se dis­cor­dam entre eles, isto é ape­nas na aparên­cia ou em qual­quer propósi­to secundário: o princí­pio onde se movem a acusar a própria Igre­ja pelos ver­dadeiros abu­sos ou supos­tos de alguns fil­hos seus, é um em todos: o espir­i­to do mun­do e o desamor da Igre­ja. Então um é tam­bém em todos, o êxi­to final: a per­ver­são, não a refor­ma.

II

E isto aparece tam­bém, com mui­ta tris­teza evi­dente, no estran­ho con­teú­do e no modo com o qual estes novos fal­sos refor­madores, a semel­hança dos anti­gos, se fazem denun­ci­adores de escân­da­los e de abu­sos. Aqui falam­os de coisas notáveis a todos, em Itália e fora da Itália: e sem que nós o repi­ta­mos nem recor­ramos a mente de cada um dos autores. Como aque­les anti­gos, assim estes mod­er­nos inven­tam, agravam ou propalam injus­ta­mente; como aque­las anti­gas calú­nias, de exager­ação e de fofo­ca. E este fre­n­e­si colo­ca lín­gua em cada coisa; cada coisa maldiz ou deprime, lhe con­sid­er­am a pes­soa, se não seja mod­ernista ou de qual­quer for­ma anti­católi­ca; e o que é pior, tro­cam as som­bras com a real­i­dade, dão como ver­dadeiros fatos e son­hos das dis­tor­ci­das imag­i­nações e dos maquina­men­tos das almas enve­ne­nadas ou enfim sobre uma tenuís­si­ma tra­ma de ver­dades vem bor­dan­do toda uma tela fan­tás­ti­ca de acusações, de insin­u­ações, de exager­ações e em suma de denún­cias injus­tas; as quais então, engrossadas defor­mada­mente, vão propa­lan­do con­tra toda razão de justiça, bem como de cari­dade e de con­veniên­cia. Tudo isto em nome da sin­ceri­dade e da leal­dade; da qual se atribuem ess­es o orgul­ho e por pouco o monopólio. Mas nós ape­nas dire­mos aqui, com toda man­sid­ão isto era o que se escrevia, já, a mais de um sécu­lo atrás, pelos mod­ernistas de então, tam­bém ansiosos para propalar escân­da­los e abu­sos:

«Pode dar-se que esta espé­cie de mania seja zelo: mas pode dar-se que tam­bém seja aver­são e amor próprio. Se ela é zelo, tira a sua origem em um coração reto, deve acom­pan­har-se com cari­dade e com impar­cial­i­dade. Neste caso, não se ouvi­ram fremir as nos­sas bocas, quan­do nos será ocasião de falar das des­or­dens do clero, não se tin­gi­ram de sangue os nos­sos olhos, não bus­care­mos com­pan­hia nas nos­sas impetu­osas decla­mações, e não acred­itare­mos muito vol­un­tários em tudo aqui­lo que nos seja con­ta­do de tais des­or­dens. Mas se ela então, é aver­são e amor próprio, as invec­ti­vas se reunirão com des­or­dem sobre as nos­sas bocas, voltare­mos as costas a qual­quer um que ouse defend­er a fama do clero, e se provará uma sec­re­ta com­placên­cia de seus males e de suas desven­turas. Os Judeus, os Tur­cos, os heréti­cos serão nos­sos ten­ros irmãos, porque não colo­cam nen­hum obstácu­lo as nos­sas paixões, e porque conosco igualam a lín­gua em maldiz­er os Padres e os clausura­dos», etc.

Assim escrevia o douto e pio Affon­so Muz­zarel­li [2], ao entrar no sécu­lo pas­sa­do, e as suas palavras pare­ci­am de ontem: tan­to bem se apli­cam aos mod­ernistas; se não que estes ao ter irmãos, nom­i­na­dos aci­ma, acres­cen­tam ateus, social­is­tas, maçons e toda sim­i­lar ger­ação de inimi­gos da Igre­ja e com eles igualam a lín­gua em maldiz­er não ape­nas o clero, mas aqui­lo que é de mais sagra­do e rev­er­ente no mag­istério, no cul­to, no gov­er­no, na moral e em cada coisa.

Nem é necessário que andemos aqui em citações: sabe­mos bem, por via de exem­p­lo, a memória de todas as maledicên­cias do «San­to» mod­ernista e dos seus devo­tos: «a Igre­ja neu­tral­iza a bus­ca da ver­dade»… a Igre­ja «acor­renta e sufo­ca tudo que den­tro dela vive juve­nil­mente»… a Igre­ja «é hos­til a quem quer ques­tionar aos inimi­gos de Cristo a direção do pro­gres­so social»…  Pior ain­da – assaz pior daqui­lo que blas­fe­mavam os jansenistas – a Igre­ja esta enfer­ma, se não mori­bun­da mes­mo, como out­ros a querem: qua­tro espíri­tos malig­nos «entraram no seu cor­po para faz­er guer­ra ao Espíri­to San­to» e são o espíri­to de men­ti­ra, espíri­to de dom­i­nação do clero, espíri­to de avareza e espíri­to de imo­bil­i­dade. E como se não bas­tasse, out­ra grande pra­ga se acres­cen­ta: o «defeito de cor­agem moral»; onde «antes de colo­car-se em con­fli­to com os supe­ri­ores, nos colo­ca em con­fli­to com Deus…» ; e com isto um cumu­lo de out­ras des­or­dens e abu­sos.

Mas note-se que aqui, como tam­bém, o escritor, dig­no de mel­hor sujeito, é um eco sim­ples de decla­mações apaixon­adas de home­ns ambi­ciosos e frívo­los, os quais a anos, mais de um decênio, vin­ham enchen­do de sim­i­lares feiuras as colô­nias dos seus jor­nais e per­iódi­cos, qual, por ex. a Cul­tura Social, abu­san­do da longân­ime tol­erân­cia dos calu­ni­a­dos e da própria autori­dade da Igre­ja. Sobre estas colô­nias, para lhe citar um ensaio, se podia escr­ev­er (agos­to de 1905) que «da época da San­ta Aliança… a nos­sa vida públi­ca foi e con­tin­ua a ser uma grande men­ti­ra, dirigi­da con­tra os inter­ess­es dos humildes, do povo, da ver­dade e da justiça, e con­tra o con­teú­do social do cris­tian­is­mo, sufo­ca­do pelas aparên­cias da reação»!  Assim, um mestre de vida públi­ca mod­ernista, que son­ha a aliança com o social­is­mo ateu. E out­ras insolên­cias não menos belas se aven­tam peri­odica­mente con­tra os abu­sos da vida pri­va­da dos católi­cos, e em gênero de toda a vida reli­giosa, pelo mes­mo mestre do mod­ernismo reformista, o qual reser­va­va ao invés, mil car­in­hosas lison­jas pelos «ten­ros irmãos», inimi­gos de Deus e de toda religião.

De resto, sobre tais insip­iên­cias dos novos reformis­tas não é pre­ciso mais insi­s­tir: ess­es se mostram por si mes­mos, na abje­ta lin­guagem, com a vel­ha mar­ca dos pseu­do-refor­madores, isto é, diz­er destru­idores insip­i­entes e per­verte­dores.

III

Mas muito assazes se mostram tais, quan­do para faz­er reparo aos abu­sos ver­dadeiros ou fal­sos, que ess­es denun­ci­am assim super­fi­cial­mente, se colo­cam a apre­sen­tar as suas grandiosas pro­postas de refor­ma. Destes, como de pon­to mais vital para a questão de princí­pio, fala ener­gi­ca­mente a encícli­ca, e lhe descreve bem ao vivo, aqui­lo que andamos dizen­do, como as ruí­nas se mul­ti­pli­cam sob os golpes do mod­ernismo refor­mador.

Isto de fato, mais que o lib­er­al­is­mo, mira ao coração: que se refor­mar antes de tudo a dout­ri­na; então refor­ma­da a for­mação filosó­fi­ca e teológ­i­ca das jovens esper­anças da Igre­ja, com a supressão da filosofia escolás­ti­ca e da teolo­gia racional; então refor­ma­da a instrução dos fiéis, com a supressão ou mutação rad­i­cal do cate­cis­mo, trans­for­ma­do segun­do alguns em «um trata­do sibili­no de escolás­ti­ca». Em segui­da, e logi­ca­mente, quer refor­ma­do o cul­to, par­tic­u­lar­mente com a diminuição arbi­traria ou a supressão das devoções exter­nas. Assim tam­bém refor­ma­do o gov­er­no e a con­sti­tu­ição ecle­siás­ti­ca, max­i­ma­mente para a parte dis­ci­pli­nar e dog­máti­ca, intro­duzin­do lhe mais ampla­mente o clero infe­ri­or e o laica­to, e dimin­uin­do a exces­si­va cen­tral­iza­ção da autori­dade; refor­ma­dos os órgãos da autori­dade que são as con­gre­gações romanas, par­tic­u­lar­mente aque­las mais inco­modas do San­to Ofí­cio e do índice (Ndt.: Index Libro­rum Pro­hibito­rum); refor­ma­da a ati­tude da própria autori­dade nas questões políti­cas e soci­ais. Enfim quer refor­mar a moral, e então a vida toda do povo cristão, sin­gu­lar­mente dan­do prevalecên­cia as vir­tudes ati­vas sobre as assim ditas pas­si­vas; e com isto tam­bém refor­ma­do o clero, recon­duzin­do-lhe a anti­ga pobreza, mas jun­to a nova liber­dade do mod­ernismo, a qual, segun­do algu­mas pes­soas, querem tam­bém suprim­i­do o celi­ba­to; refor­ma­da em suma toda coisa, sal­vo a vida dos próprios novos refor­madores. Assim, a sua mania de ino­vação, como fala a encícli­ca, «tem por obje­to  tudo que existe no catoli­cis­mo».

E em todas essas pro­postas e em out­ras um pouco menos letais, os novos reformis­tas pro­ce­dem rápi­dos e res­o­lu­tos. Descober­to, ou assim acred­i­ta­do, o abu­so, tem pronta­mente o remé­dio: colo­car a mão na raiz, e com um golpe cortá-la. Nem a raiz, segun­do ess­es, é a defectibil­i­dade ou a cul­pa do indi­vid­uo: é a própria autori­dade, o poder o dire­ito, do qual se faz ou se pode faz­er abu­so; é o sujeito, é a insti­tu­ição na qual o próprio abu­so aparece. Então, aten­uan­do ess­es ou rejei­tan­do em tudo a legit­im­i­dade da existên­cia daque­la insti­tu­ição, autori­dade ou poder, daque­le do qual veem ou acred­i­tam ver o abu­so; e proce­den­do  con­se­quentes aos princí­pios querem cor­ta­do de repente e destruí­do, onde se encon­tra, o sujeito dos abu­sos, dos incon­ve­nientes e dos defeitos, que a eles desagradam.

Assim é sujeito de abu­so ou de incon­ve­niente a insti­tu­ição rigi­da­mente escolás­ti­ca; é muito austera, é com­pli­ca­da para a ane­mia int­elec­tu­al mod­er­na: então se supri­ma. É sujeito de abu­so ou de incon­ve­niente a instrução pop­u­lar, estre­ita­mente cateq­ui­sta; é muito ári­da, é dura para a friv­o­l­i­dade das mentes con­tem­porâneas: então seja abol­i­da. E depois dis­to, a peque­na escolás­ti­ca se sub­sti­tuirá com a pos­i­ti­va «evolu­cionista»; a cate­quéti­ca pedestre com a con­fer­ên­cia «ala­da». Sim­i­lar­mente é, ou parece, sujeito de abu­so o cul­to exter­no; muitas man­i­fes­tações suas con­trastam a del­i­cadeza dos nos­sos tem­pos: então se depri­ma, se dimin­ua até reduzi-lo aos mín­i­mos ter­mos; e a «religião exte­ri­or» sob a «religião inte­ri­or», a religião do espíri­to, sem maior con­strang­i­men­to dos dog­mas, das fór­mu­las e dos ritos.

O mes­mo se diga naqui­lo que diz respeito a admin­is­tração e o gov­er­no, os decre­tos da autori­dade e dos seus órgãos autên­ti­cos, as con­gre­gações romanas e os seus orde­na­men­tos, as instruções reli­giosas, os seus endereços, as obri­gações do povo e aque­las do clero; se corre a negação, se gri­ta a abolição ou a trans­for­mação de quan­to mostra qual­quer lado defeitu­oso e qual­quer abu­so.

IV

Ora, este pro­ced­er assim expres­so dos mod­ernistas, a cor­tar e abolir o sujeito para refor­mar lhe o abu­so ver­dadeiro ou supos­to que seja, é movi­do por um princí­pio absur­do, por um sofis­ma. Por aque­le sofis­ma que os lógi­cos chamam de falá­cia do aci­dente, atribuem ess­es a natureza da coisa aqui­lo que lhe con­vém ape­nas em modo con­tin­gente e var­iáv­el, como seria diz­er, por caso ou por abu­so, por insip­iên­cia ou por malí­cia do homem. Ou por out­ro sofis­ma sim­i­lar ao prece­dente – o sofis­ma da fal­si­dade da causa(non causa pro causa) – imputam, quase a causa própria ao sujeito ou a coisa em si, como a autori­dade, a lei, ao méto­do, o efeito do abu­so, por uma sim­ples razão de con­comitân­cia, de sucessão ou sim­i­lar, que aparece, como seria porque o efeito do abu­so o acom­pan­ha ou o segue em qual­quer caso par­tic­u­lar, ou, dize­mos tam­bém, em muitos. Sofis­ma fre­quente um e out­ra para cer­ta exu­berân­cia fácil; mas tan­to mais odioso em cada parte da ciên­cia e da vida, tan­to mais repug­nante a causa, como sabe todo noviço de lóg­i­ca, ao con­trário de todo sim­ples sequaz do sen­so comum.

Que o mod­ernismo reformista se move por um princí­pio assim absur­do, não faz mar­avil­ha que se colo­ca por uma via fal­sa e chega a absur­das con­se­quên­cias: a erros ou here­sias na ordem espec­u­la­ti­va; a remé­dios piores que o mal e a ruí­na na ordem práti­ca.

São Erros, e muitas vezes here­sias, as negações a qual isso pas­sa da legit­im­i­dade, da razoa­bil­i­dade ou do débito daqui­lo que se encon­tra pelo des­ti­no sujeito a abu­sos. São remé­dios piores que o mal, isto é ruí­na ordem práti­ca, aque­les remé­dios práti­cos e rad­i­cais que isso propõe de pre­juí­zos, de abolições ou trans­for­mações, em tro­ca da refor­ma. Tan­to mais que, admi­to o seu princí­pio ou nor­ma práti­ca de refor­ma –  aque­la de cor­rer em breve a rene­gar a legit­im­i­dade espec­u­la­ti­va­mente, e prati­ca­mente destru­ir a existên­cia daqui­lo que vai de encon­tro aos abu­sos – nada mais sub­siste, em qual­quer ordem, de intac­to e de seguro.

Não na ordem práti­ca; porque não leva afi­nal grande exper­iên­cia, nem grande per­spicá­cia de raciocínio a estar con­ven­ci­do de que não se dá nada ao mun­do, no qual ou por insip­iên­cia ou por malí­cia do homem não pode e em lon­go pra­zo não chega a insin­uar-se qual­quer abu­so. E os próprios mod­ernistas, por quan­to se supon­ham otimis­tas, que são ingên­u­os além de toda crença, nas pro­postas de refor­mas sem fim, e todas ráp­i­das e rad­i­cais, que nos fazem, não ousaram talvez esper­ar tan­to.

Não na ordem espec­u­la­ti­va; porque como o erro do cam­po das ideias pas­sa, por nat­ur­al exten­são, a ordem dos fatos, a práti­ca; assim, para um fácil recâm­bio, do cam­po dos fatos vol­ta àquele das ideias, sem diz­er que já a cul­pa chama seco ou pres­supõe uma ignorân­cia ou um erro. Con­forme a isto, toda des­or­dem ou abu­so é fácil ocasião de errar; enquan­to quem o sus­ten­ta bus­ca em um fal­so princí­pio a própria jus­ti­fi­cação, e quem o con­de­na encon­tra no próprio fato do abu­so um pre­tex­to para tirar-lhe qual­quer fal­sa con­clusão.

Mas em um e no out­ro caso, como se notou mais vezes na história do erro, se move por um mes­mo pres­su­pos­to fal­so e dis­so logi­ca­mente se tiram con­clusões con­tra­ditórias.

O fal­so pres­su­pos­to é o de con­fundir o dire­ito com o uso, o dev­er ou poder com a atu­ação ou o exer­cí­cio. Por­tan­to, a con­clusão de alguns, que a legit­im­i­dade daqui­lo des­culpe ou legit­ime a des­or­dem dis­to, isto é, o abu­so. E então tam­bém a con­clusão dos out­ros que a ile­git­im­i­dade dis­to mostra evi­dente a ile­git­im­i­dade daqui­lo, isto é, do dire­ito,  e por­tan­to a neces­si­dade de abolir o próprio dire­ito ou o sujeito do abu­so, para que seja efi­caz a refor­ma. São con­clusões opostas entre si e em si absur­das, como cada um vê, mas deduzi­do logi­ca­mente de um mes­mo princí­pio. E porém, se vale ain­da qual­quer coisa, a lóg­i­ca, eles se bas­tari­am por si só, quan­do out­ro não hou­ve, a demon­strar a fal­si­dade do próprio princí­pio. Da fal­si­dade e da con­tradição do resul­ta­do não se pode que remon­tar a fal­si­dade do antecedente; como ape­nas de uma absur­di­dade do princí­pio se pode ir logi­ca­mente a uma absur­di­dade de con­clusões, por uma parte assim opos­ta e por out­ra, assim con­cordes em errar.

Quem então, segun­do o dita­do da anti­ga sapiên­cia, quer evi­tar as con­se­quên­cias, pre­cisa que mude os princí­pios, de onde estes resul­tam em: Muta anteceden­tia, si vis vitare sequen­tia.

V.

De todas as coisas ditas se con­fir­ma nova­mente, que nem sequer neste ulti­mo extremo de seu sis­tema os mod­ernistas são mod­er­no: eles con­tin­u­am ain­da aqui a vel­ha tradição do vício e do erro.

E o sim­i­lar nota­va já, até a primeira metade do sécu­lo XVI, o grande chancel­er parisiense, Ger­son, a propósi­to de muitos heréti­cos, mes­mo de seu tem­po; que tin­ham toma­do os movi­men­tos para enga­nar por fal­so zelo ou por pre­tex­to «de remover os escân­da­los da casa de Deus por está ou aque­la via de pre­gação». De quem – escrevia ele – as here­sias con­tra o pri­ma­do da Igre­ja romana, que sem ela você tem saúde; con­tra as dotações da Igre­ja uni­ver­sal, que foram quase venenos espal­ha­dos sobre ela e ofic­i­na de toda espé­cie de simo­nia; con­tra a condição esplen­di­da e a ampla família dos prela­dos, e então se pode­ria tomar dos sec­u­lares cada coisa; con­tra a observân­cia dos reli­giosos, quase que con­tratam a liber­dade da lei de Cristo… e assim de muitas out­ras coisas. Enquan­to desagra­davam os cos­tumes, nasce­r­am os erros: foi con­de­na­da por alcançar o esta­do, enquan­to lá avis­ta­va desagradáv­el abu­so, a exem­p­lo do médi­co estul­to que destruí o sujeito, enquan­to se esforça para caçar-lhe a doença. » [3].

E não menos orgul­hoso de Ger­son insur­gia con­tra a hipocrisia e a sofisti­ca dos fal­sos refor­madores Pietro d’Ailly, no Con­cílio de Con­stança, com as palavras escul­tur­ais nas quais vibra ver­dadeira­mente o pal­pite da atu­al­i­dade e que nós tam­bém repeti­mos aos mod­ernistas [4].

Sain­do então da idade da pseu­do-refor­ma e cam­in­han­do até aque­la do jansenis­mo, do gal­i­can­is­mo, do lib­er­al­is­mo dos nos­sos tem­pos, as teste­munhas des­ta sofisti­ca nos pre­ten­sos refor­madores são tan­tas e assim palpáveis que se tor­na inútil o faz­er-vos insistên­cia.

VI

Pelo con­trário é para deplo­rar de novo, que o mod­ernismo reformista tam­bém piore muito esta vel­ha sofisti­ca; e, que é pior ain­da, a enderece a mover furtiva­mente os próprios fun­da­men­tos da Igre­ja, sob as cores de refor­ma. Quem nos man­teve atrás até aqui, não lhe terá mais dúvi­da: quem dele ain­da retivesse qual­quer som­bra, e exam­i­nar cal­ma­mente os qua­tro chefes das refor­mas, a que se podem reduzir as pro­postas men­cionadas pela encícli­ca e por nós aci­ma recor­dadas em com­pên­dio: ensi­na­men­to, cul­to, con­sti­tu­ição ou gov­er­no e cos­tumes.

Ain­da sem um lon­go trata­do – qual pode­ria tam­bém faz­er-se para cada uma de tais pro­postas em par­tic­u­lar – apare­cerá man­i­festo na primeira parte, com esse por­tan­do con­si­go uma infinidade de ino­vações, espec­u­la­ti­vas e prat­i­cas, as mais rad­i­cais; onde enfim o per­ver­ti­men­to e a destru­ição daqui­lo que é a própria essên­cia da Igre­ja. Assim, o ensi­na­men­to, refor­ma­do sobre as ruí­nas da escolás­ti­ca e do cate­cis­mo, na insti­tu­ição cien­tí­fi­ca e na instrução pop­u­lar, quer acabar com a destru­ição de todo edifí­cio doutri­nal do catoli­cis­mo, que é de todo cris­tian­is­mo dog­máti­co, para intro­duzir em seu lugar um «cris­tian­is­mo éti­co» em per­pé­tua evolução, com uma nova for­ma de religião ou reli­giosi­dade do futuro.

Da mes­ma for­ma o cul­to, refor­ma­do pelo mod­ernista ou pelo con­trário debil­i­ta­do, se não total­mente aboli­do, em todas ou quase todas as man­i­fes­tações exte­ri­ores, chega a romper ou a relaxar o vín­cu­lo social da religião, a sufo­car ou esfri­ar o fer­vor da religião inter­na, que dada a natureza do homem, com­pos­ta de alma e de cor­po, deve expandir-se da neces­si­dade em atos tam­bém exte­ri­ores; enfim chega a dis­torcer o próprio con­ceito de cul­to dev­i­do a Deus, o qual cul­to não é restri­to ape­nas ao espíri­to do homem, mas a todo homem, do qual Deus é o autor. Que emb­o­ra se queira con­ser­va­do o cul­to exter­no segun­do as plac­itas do sim­bolis­mo mod­ernista, isso é reduzi­do a uma som­bra, a um cadáver de cul­to, sem espíri­to nem vida, ou mais ver­dadeira­mente a uma for­ma de impos­tu­ra.

Não menos grave é a ino­vação que vague­jam na con­sti­tu­ição e no gov­er­no da Igre­ja: essa impor­ta a negação de não poucos dog­mas, como da fun­dação div­ina da própria Igre­ja, da sua unidade monárquica, do pri­ma­do de Pedro e dos seus suces­sores, com todos os seus dotes e pre­rrog­a­ti­vas: e mais, uma intro­dução explíci­ta da prevalecên­cia democráti­ca, que acabaria em uma anar­quia na con­sti­tu­ição e no gov­er­no ecle­siás­ti­co: isso seria em suma, a dis­torção na sua trí­plice função, leg­isla­ti­va, judi­ciária e exec­u­ti­va, segun­do as teo­rias polit­i­cas de Rousseau, não sem muitos encon­tros com os anti­gos deli­rantes leg­uleios [Ndt.: Indi­ví­duo que cumpre servil­mente a lei.] e dos impe­ri­al­is­tas medievais, dos jansenistas e dos gal­i­canos – de quem a história recor­da os pestífer­os efeitos nas mais graves des­or­dens – levan­do com eles uma inteira sub­l­e­vação da dis­ci­plina e do dog­ma.

Não falam­os então de refor­mas de cos­tumes ou de moral; que aqui as pro­postas se mul­ti­pli­cam tan­to mais facil­mente, enquan­to os mod­ernistas falam sem­pre de refor­mar os out­ros e nun­ca de si mes­mos, ao con­trário dos san­tos. Ess­es, ao invés dis­so, se indig­nam como por insul­to, con­tra qual­quer um que fale deles por pen­sar algum pouco de si próprios, para refor­mar as suas ideias, os seus mod­os ou cos­tumes. Na ver­dade o exam­i­nar-se, o arrepen­der-se o humil­har-se, o obe­de­cer, o mor­ti­ficar-se e em suma, todas as vir­tudes que são orde­nadas ao ato, primeira e mais necessária ao indi­vid­uo, para aper­feiçoar a si próprio, são por eles desprezadas com apeli­do de «pas­si­vas»; exal­tadas em seus lugares, e somente a essas hom­e­nageiam com o títu­lo pleonás­ti­co de «ati­vas», as vir­tudes orde­nadas a ação exte­ri­or, nas quais o homem se expande, se agi­ta e se der­ra­ma todo no tur­bil­hão da vida mod­er­na, bus­can­do os seus mod­e­los, não sobre o Calvário ou Belém, mas lá, além dos mares,  «nos país­es de vida inten­sa».

Muito menos tocare­mos ago­ra nas pro­postas muito dubi­a­mente sin­ceras, de retornar o clero a anti­ga pobreza, e menos ain­da de out­ras mais del­i­cadas, quais, por exem­p­lo, a abolição do celi­ba­to e a co-edu­cação dos dois sex­os, defen­di­da por Don Domeni­co Bat­tai­ni, e esta por Dom Romo­lo Mur­ri, os quais se olhari­am bem por des­men­ti-lo.

Por hora nós quer­e­mos ter­mi­nar aqui, com o encer­ra­men­to doloroso do Nos­so San­to Padre Pio X:

- « Que se deixa então de intac­to na Igre­ja que não se deva a eles e segun­do os seus princí­pios refor­madores? » – E se é assim, não são ess­es refor­madores sábios, mas destru­idores insip­i­entes e per­verte­dores. E tan­to bas­ta.

*La Civiltà Cat­toli­ca, anno 59°, vol. 4 (fasc. 1401, 29 out­ubro de 1908), Roma 1908, pag. 288–301.

NOTAS:

[1] «Eccle­sia Dei inter mul­tam paleam mul­taque ziza­nia con­sti­tu­ta, mul­ta tol­er­at; et tamen quae sunt con­tra fidem vel bonam vitam non appro­bat, nec tacet, nec fac­it». Ep. 55 ad Ian­uar. Cf. Migne, Patrol. lat., XXXII, 221 s.

[2] Il buon uso del­la log­i­ca in mate­ria di reli­gione. 4a ediz. Roma 1807. Tom. 1, p. 113 ss.

[3] Ger­son, De con­sol. the­ol., lib. III, 2. Uma sim­i­lar obser­vação fazia tam­bém, com mui­ta vivaci­dade, a propósi­to de Arnal­do de Bres­cia, un seu con­tem­porâ­neo, Gun­tero cis­ter­ciense, no poe­ma Lig­ur­i­nus, escrito em lou­vor do Bar­ba roxa (lib. III, v. 288; cf. MignePatrol. lat., CCXII, 370); onde se dói que o here­siar­ca de ver­dadeiros abu­sos dos cléri­gos deduz fal­sas con­se­quên­cias, e que das suas fal­sas con­se­quên­cias os cléri­gos tirassem pre­tex­to para não se cor­ri­girem dos abu­sos: onde ele excla­ma,  naque­les seus hexâmet­ros amáveis, mas efi­cazes:

«Et fate­or, pul­chram fal­l­en­di nover­at artem,
Veris fal­sa probans quia tan­tum fal­sa loquen­do

Fall­ere nemo potest; veri sub imag­ine fal­sum

Influit, et fur­tim decep­tas occu­pat aures».

[4] Cf. Civ. Catt., 1906 (3 febb.), p. 257.

Fonte: Prog­et­to Bar­ru­el