P. GUIDO MATIUSSI, S.J: DOGMAS MUTÁVEIS*.


Teologia / segunda-feira, março 7th, 2016

Padre Gui­do Matius­si 
Tradução: Ged­er­son Fal­cometa

  “Virá o dia que um Con­cílio adap­tará a religião aos novos tem­pos, expondo‑a segun­do as idéias ago­ra aceitadas, como o Con­cílio de Tren­to por sua vez a expôs segun­do as idéias escolás­ti­cas. Assim muitos dizem, e mais despu­do­rada­mente que out­ros, Loisy“.

O con­ceito de ver­dade rel­a­ti­va, não é uma vaidade sem dano. Porque jun­to com o reo sub­je­tivis­mo kan­tini­ano no qual se fun­da, ela tam­bém leva ao ceti­cis­mo. E aqui­lo que é pior, espal­han­do o fal­so con­ceito e a for­ma erra­da de ver­dade rel­a­ti­va, e, por­tan­to mutáv­el segun­do as condições do homem, a tudo aqui­lo que por qual­quer meio pas­samos a con­hecer, vem a causar dano tam­bém nas ver­dades rev­e­ladas. Se não ousam tocar pre­cisa­mente enquan­to são em Deus ou a nós vem de Deus, ao menos os despo­jos enquan­to são rece­bidas pela Igre­ja, e expres­sas no ensi­na­men­to cristão, e for­mu­ladas nas definições dog­máti­cas. Os autores daque­le novo modo de falar a apoiam ain­da ao fato, que a nos­sa mente não pode ade­quar-se aos divi­nos mis­térios; obser­vam que his­tori­ca­mente as religiões se adap­taram aos con­ceitos e a voz que encon­trou nas esco­las humanas; deduzem que as asserções pro­postas a nos­sa fé são como são, pelo fato con­tin­gente da influên­cia gre­ga prevale­cente entre nós; out­ro seria, se ao princí­pio tivesse prevale­ci­do a filosofia kan­tini­ana, de Spencer ou de Descartes; e assim podemos esper­ar que mudan­do-se o esta­do das almas com a cul­tura mod­er­na, tam­bém as expressões usadas nos anti­gos Con­cílios, e o sen­ti­do a essas atribuí­do, as novas idades e as nos­sas mentes se adap­tarão.
O Ser supe­ri­or unido a Humanidade de Cristo não seria jamais dito Ver­bo do Pai, assim dizem, se a filosofia platôni­ca flo­res­cente em Alexan­dria não tivesse sug­eri­do aque­la voz e aque­le pen­sa­men­to. Não se teria dis­tin­to a Essên­cia do con­ceito de Pes­soa em Deus, se os gre­gos não tivessem fal­a­do de supos­tos e de razões genéri­c­as especí­fi­cas. Assim a tran­sub­stan­ci­ação se fun­da sobre a opinião da sub­stân­cia dis­tin­ta dos aci­dentes. E a graça foi con­ce­bi­da ao modo de qual­i­dade, a causa dos predica­men­tos aris­totéli­cos. E a alma foi defini­da como for­ma do cor­po, expri­m­in­do no mel­hor modo que podia no medie­vo a união que faz no homem. Mas todas essas deter­mi­nações pas­sam e mudam como a dout­ri­na que dom­i­na na esco­la. Quem dos mod­er­nos com­preende mais estas anti­quadas noções? Virá o dia que um Con­cílio adap­tará a religião aos novos tem­pos, expondo‑a segun­do as ideias ago­ra aceitadas, como o Con­cílio de Tren­to por sua vez a expôs segun­do as ideias escolás­ti­cas. Assim muitos dizem, e mais despu­do­rada­mente que out­ros Loisy.
Ora tudo isto é intol­eráv­el. Porque nós somos obri­ga­dos a acred­i­tar por fé div­ina, qual subesse non potest fal­sum (como disse o Tri­denti­no), nas ver­dades rev­e­ladas por Deus, pro­postas pela Igre­ja, como são con­ti­dos nas dis­tin­tas asserções do mag­istério comum ou da supre­ma autori­dade. Quem não afir­ma as proposições onde con­stam os cânones do Con­cílio, não acei­tan­do as palavras ai escritas, ou alteran­do o sig­nifi­ca­do, cai sobre o anátema, Quem se atreve a diz­er: Segun­do o pre­sente grau de cul­tura, con­vém afir­mar uma Essên­cia úni­ca em Deus, na qual sub­siste três Pes­soas; talvez, tam­bém irá o pro­gres­so filosó­fi­co mudar o próprio sen­ti­do daque­les ter­mos e mostrará inex­a­ta a expressão usa­da até ago­ra? Se fos­se lic­i­to diz­er assim, a pre­sente asserção seria fal­sa, e a ver­dade dev­e­ria esper­ar, mas sem­pre em vão, pelo tem­po futuro.
Alguns acred­i­tam ter em mãos um exem­p­lo evi­dente de ver­dade dog­máti­ca, onde é necessário mudar as ideias, ou ao menos as expressões, na desci­da de Cristo ao infer­no e na ascen­são ao céu: dizem que os novos con­hec­i­men­tos astronômi­cos destroem de fato as anti­gas ima­gens. – Respon­demos que, quan­to a colo­car a habitação dos dana­dos e das almas sus­pen­sas no sub­ter­râ­neo, não existe pare­cer cien­tifi­co algum, com o qual se pos­sa com­bat­er a opinião tida como anti­qua­da. Não se chegou ain­da a cin­co quilômet­ros de pro­fun­di­dade, e para chegar ao cen­tro ain­da fal­tam mais de seis mil e trezen­tos. Então, quem chegasse talvez veria ou ouviria almas e dia­bos? Se o descen­dit in infe­ri­ores partes ter­raede S. Paulo per­suade os Padres, pode igual­mente per­suadir tam­bém a nós. Quan­to aos céus, as rep­re­sen­tações que os anti­gos podi­am faz­er dos céus esféri­cos não foi jamais obje­to de fé, e estavam bem côn­scios os Escolás­ti­cos que trata­va-se de opinião humana. Pre­scindin­do de toda deter­mi­na­da imagem do céu, se diz e sem­pre se dirá entre nós como entre os antípo­das, que local­mente se ele­va da ter­ra e parte em sen­ti­do opos­to a gravi­dade; metafori­ca­mente se ele­va daqui e vai a lugar mais nobre. Ora, Nos­so Sen­hor foi vis­to ele­van­do-se do solo indo para o fir­ma­men­to; foi a lugar mais nobre e glo­rioso que não era a ter­ra; então se elevou. Se qual­quer vel­ho pen­sou por isto ao primeiro móv­el ou a últi­ma esfera, pior para ele; nun­ca na definição dog­máti­ca, nun­ca na profis­são comum da fé, de esferas e de empíreo, dis­so se falou. Então o que se quer mudar? Nada. Ou pen­sastes vós de poder faz­er um ato de fé segun­do a cos­mo­grafia mod­er­na? Este­jam cer­tos de que a Igre­ja não a definirá nem mais nem menos que a anti­ga.
No que diz respeito aos divi­nos mis­térios, se advir­ta que os con­ceitos ou os nomes não nos são rev­e­la­dos nem infu­sos, como novas espé­cies. Deve­mos tomá-lo da lin­guagem humana, humana­mente deter­mi­nar-lhe a sig­nifi­cação. Pela fé lhe conec­ta­mos em juí­zo, que do con­trário não for­maríamos. Não nos foi dito sobre­nat­u­ral­mente que coisa importe a sub­stân­cia ou pes­soa, que coisa seja um e três: mais Deus nos disse que Nele uma é a sub­stân­cia e deve­mos afir­mar três pes­soas. Aque­las mes­mas noções eram nat­u­rais nos nos­sos int­elec­tos, foram cul­ti­vadas e clareadas pelo estu­do sin­cero da filosofia, e as mel­hores esco­las da Gré­cia fornece­r­am cer­ta­mente uma dout­ri­na racional, da qual pode se valer a Igre­ja para exprim­ir exata­mente a ver­dade, não para falar segun­do a cul­tura rel­a­ti­va. Até quan­do as expressões não foram bas­tante claras e exatas, a Igre­ja não definiu, não for­mu­lou o dog­ma que deve per­manecer pelos sécu­los: assim ela foi pru­dente, assim o Espíri­to a dirigiu. Mas quan­do foi necessário dar a exa­ta definição con­tra os hereges enfure­ci­dos, dis­pôs Deus que os con­ceitos e as vozes fos­sem preparadas con­ve­nien­te­mente, para asse­gu­rar que as afir­mações resul­tassem em tudo ver­dadeiras – con­formes a real­i­dade, vale diz­er – e para sem­pre imutáveis. Os novos estu­dos poderão acres­cen­tar novas notí­cias; cor­ri­gir ou tocar aque­las que foram definidas, não poderão nun­ca [1].
E que a anti­ga filosofia de Alexan­dria ou de Ate­nas ten­ha podi­do fornecer ele­men­tos a serem incor­po­ra­dos na lin­guagem teológ­i­ca católi­ca, como de uma mina se leva o ouro e gemas (Ndt: Pedra pre­ciosa) para o tabernácu­lo, é sinal de grande hon­ra para esta filosofia, e bem demon­stra que, emb­o­ra em muitas partes incer­tas e errantes, todavia, em grande parte tin­ha pro­pos­to o ver­dadeiro, com a luz da boa natureza; era uma parte daque­la filosofia peren­nis, que injus­ta­mente out­ros dizem cad­u­ca; era um teste­munho a bon­dade da natureza que de Deus recebe­mos, e que, com ver­dadeirís­si­mo sac­rilé­gio, a humana sober­ba, enquan­to aspi­ra a inchar-se e a ele­var-se, degra­da e destrói. Se ao con­trário as mod­er­nas filosofias não tem nada a dar ao pen­sa­men­to cristão, estas se encon­tram ao invés a ele con­trário, e ten­dem a mudar aqui­lo que foi esta­b­ele­ci­do, é sinal que essas são fal­sas, e já não são ilus­tração e desen­volvi­men­to, mas per­ver­são e ruí­na, da reta razão e da luz nat­ur­al.
Cer­ta­mente quem se provou a exprim­ir os mis­térios da Trindade e da encar­nação, mudan­do o con­ceito anti­go de pes­soa para aque­le que ago­ra corre pelas esco­las e pelos livros, mudou aque­le dog­ma em absur­das here­sias. Era claro e pro­fun­do o anti­go con­ceito de pes­soa, mel­hor que qual­quer out­ro desen­volvi­do pelo Angéli­co Doutor, colo­can­do-lhe a parte comum com qual­quer supos­to na sub­sistên­cia dis­tin­ta, e a própria deter­mi­nação no ser int­elec­ti­vo. Esta últi­ma nota vale para dis­cernir a pes­soa, que tem razão própria em vista de um fim, das coisas sim­ples­mente voltadas ao bem de out­ros, como são todas as naturezas infe­ri­ores. Mas aqui­lo que impor­ta ao mis­tério esta na primeira parte da sub­sistên­cia: aqui com­peti a ver­dade rev­e­la­da que a div­ina Essên­cia sub­siste em três dis­tin­tas Pes­soas; ou a out­ra, que em Jesus Cristo é úni­ca a Pes­soa div­ina, a qual é e assum­iu a Humanidade con­ce­bi­da no seio da Virgem Maria. Trí­plice então é em Deus, por oposição rel­a­ti­va, não por divisão de enti­dades abso­lu­tas, a per­son­al­i­dade dis­tin­ta; úni­ca é a sub­sistên­cia em Jesus.
Ago­ra que dirão os mod­er­nos? Para adaptarem-se as esco­las mod­er­nas, dev­erão colo­car a pes­soa con­sti­tuí­da da con­sciên­cia. Con­sciên­cia que é? É ato cognosc­i­ti­vo de si. Serão em Deus três con­sciên­cias como três pes­soas? Então, Ele con­hece a Si mes­mo com três atos e o triteís­mo, ou um brutís­si­mo politeís­mo, é man­i­festo. Jesus con­hecerá a si mes­mo com um só ato? Aqui esta­mos em ple­na here­sia monofi­sista, e será removi­da a dis­tinção per­fei­ta das duas naturezas, com as suas pro­priedades e oper­ações. Para escapar a tal pro­fanação e absur­di­dade, dirão ao invés que úni­co é o con­hec­i­men­to na Divin­dade, dúplice em Jesus Cristo; mas que Deus tem con­sciên­cia de ser três, Jesus disse ser um, e em tal modo reduzi­ram a con­sciên­cia a noção de pes­soa? Ou não se notam que o saber de si supõe já o ser con­sti­tuí­do; que por con­se­quên­cia é ridícu­lo quer­er declarar a uni­ci­dade real da pes­soa, com a con­sciên­cia de ser um e não mais? Con­vém que anteceden­te­mente seja ver­dadeira esta uni­ci­dade, ou seja, já con­sti­tuí­da a pes­soa que sabe ser uma. São então estes novos mestres, for­ma­dos pelos neb­u­losos con­ceitos da esco­la mod­er­na, ou ímpios con­tra a fé, ou absur­dos con­tra a razão, e de fato cor­rompem a uma e a out­ra.
Poder­e­mos induzir out­ros exem­p­los, talvez tan­tos quan­tos são os dog­mas da Igre­ja, ou quan­to são os cânones do Tri­denti­no, a qual atribuem a desven­tu­ra de ter expres­so a dout­ri­na da fé com lin­guagem da Esco­la anti­ga. Que dirão os mod­er­nos da graça, ou san­tif­i­cante ou movente? Que dirão para adap­tar as novas doutri­nas a Eucaris­tia? Bas­tará evi­den­te­mente para a sub­je­ti­va imanên­cia, que se ten­ha união de pen­sa­men­to e de espíri­to, de sím­bo­los e de fig­uras. De fato dis­ser­am: este­ja diante da Hós­tia con­sagra­da, como se real­mente fos­se Jesus. Mas isto não é declarar nova­mente os dog­mas; é negar-lhe com ver­dadeira e já dana­da here­sia. E sem chegar a tais exces­sos, mal­gra­do é embe­bi­da de ceti­cis­mo aque­la hipótese cor­rente que, estu­dan­do e apren­den­do, tem de mudar a dout­ri­na antes adquiri­da. Isto advém entre aque­les que são sem­per dis­centes et nun­quam ad sci­en­tiant ver­i­tatis per­ve­nientes(II Tm. III, 7); não advém na Esco­la da sã teolo­gia, nem muito menos na Igre­ja do Deus vivo, a qual é col­u­na e sus­ten­tácu­lo da ver­dade (I Tm. III, 15)

*“O Veneno Kan­tini­ano”, Roma, Tipografia Pon­tif­í­cia no Insti­tu­to Pio XI, II ed., 1914, pg 320–327;

Nota:

[1] Então não havia erra­do, mais ver­dadeira­mente escrevia Bossuet, opon­do a indefini­da vari­ação da hidra heréti­ca, a eter­na­mente imutáv­el ver­dade das definições dog­máti­cas na Igre­ja Católi­ca. E se New­man a isto tivesse con­tra­di­to, obser­van­do que a ver­dade do catoli­cis­mo é inex­au­rív­el para as nos­sas mentes: obser­vação de resto nota­bilís­si­ma e antiquís­si­ma. Mal se imag­i­nou de ver con­trariedade quem escreve o arti­go “O dog­ma na história”, na Revista das ciên­cias teológ­i­cas, nov. de 1905.