ELIAS BENAMOZEGH, CRISTIANISMO E JUDAISMO


Apologética / terça-feira, agosto 6th, 2013

 

PADRE CURZIO NITOGLIA

[Tradulção: Ged­er­son Fal­cometa]

9 de março de 2009

http://www.doncurzionitoglia.com/EliaBenamozegh.htm

 

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 Ben­amozegh (Livorno 1823–1900) bib­lista, tal­mud­ista e cabal­ista, foi um dos maiores rabi­nos ital­ianos do sécu­lo XX. Nasceu de uma família sefardi­ta, orig­inária do Mar­ro­cos, pas­sou toda a sua vida em Livorno, exerci­tan­do o ofí­cio de rabi­no. O seu pen­sa­men­to é respeitáv­el, ilu­mi­nante e sobre­tu­do atu­al.

O rabi­no livor­nese (mestre do pai de Hélio Toaff, ex-rabi­no chefe de Roma, que acol­heu João Paulo II na sin­a­goga romana em 13 de abril de 1986, onde pro­nun­ciou a famiger­a­da frase sobre “hebreus nos­sos irmãos maiores a Fé”) con­hece um jovem católi­co de Lion, Aimé Pal­lière o qual se encon­tra­va «a bus­ca de uma exper­iên­cia reli­giosa que não encon­tra­va mais no Catoli­cis­mo… Pal­lière mostrou a intenção de con­vert­er-se ao hebraís­mo, mas Ben­amozegh o dis­suade; o jovem francês havia para Ben­amozegh uma tare­fa par­tic­u­lar, quase prov­i­den­cial, que pode­ria cumprir ape­nas per­manecen­do cristão; Pal­lière devia ser o men­sageiro da… dout­ri­na dos Noaquitas, segun­do a qual os hebreus havi­am a função de sac­er­dotes do gênero humano… Para se dar con­ta des­ta mis­são, Pal­lière não tin­ha neces­si­dade de con­vert­er-se, mas ape­nas de “purificar” a própria religião de alguns erros: a encar­nação e a Trindade»1.

Ben­amozegh definia os dog­mas dos Cristãos «como um maca­co para o Homem [Israel, nda]… o maca­co é a imi­tação mal suce­di­da do mod­e­lo, e ao mes­mo tem­po a sua car­i­catu­ra… o Cris­tian­is­mo é uma religião… não para home­ns nor­mais, onde atrás do exces­so de ascetismo se esconde a cor­rupção»4.

Em Israel e a humanidade (escrito antes de 1885 e pub­li­ca­do na França pela primeira vez em 1914) nos apre­sen­ta o judaís­mo como “men­sageiro da religião no mun­do inteiro, mas o cris­tian­is­mo procurou adul­ter­ar a mis­são div­ina de Israel e esse dev­e­ria restau­rar “um orde­na­men­to hierárquico da humanidade para Israel e renun­ciar a cen­tral­i­dade da Igre­ja a favor da cen­tral­i­dade de Israel orde­nan­do a humanidade ao povo sac­er­do­tal Israel”5.

O judaís­mo religião «con­tém uma dúplice crença – para Ben­amozegh – o plu­ral­is­mo da divin­dade e a imanên­cia. É pelo menos o que afir­ma a teolo­gia cabal­ista… Quan­to a imanên­cia… os anjos apare­cem como o pro­longa­men­to da Divin­dade na natureza; o Tal­mud diz até mes­mo que são seus mem­bros e órgãos… A Cabalá, é a uni­ca capaz de resta­b­ele­cer a har­mo­nia entre o hebraís­mo e a gen­til­i­dade… porque a ver­dadeira tradição hebraica recon­hece tan­to a imanên­cia como a tran­scendên­cia de Deus, e une assim o pan­teís­mo com o monoteís­mo. A fé que Israel con­ser­va, poderá um dia rec­on­cil­iar as Igre­jas divi­di­das»4. Segun­do o rabi­no livor­nese «a Cabala con­cil­iará Israel sac­er­dote com a humanidade laica»5. O sac­erdó­cio hebraico pres­supõem uma humanidade ao serviço da qual é colo­ca­da. «A frater­nidade entre todos os povos e a comunhão de todos com Israel, que é o cen­tro para o qual devem ten­der, para se reunir, todas as religiões»6. O fim supre­mo do cul­to hebraico é para a Cabala a unifi­cação do Deus ima­nente e do Deus tran­scen­dente, por meio do homem. 

«O homem deve agir sobre sua natureza dominando‑a, e tal domínio é – para o hebraís­mo – uma coop­er­ação com Deus… Os cabal­is­tas apre­sen­taram este domínio como uma vitória que o homem con­segue sobre Deus como cri­ador»7. Enquan­to o cris­tian­is­mo com a sua con­cepção de Deus-homem, Jesus Cristo, escav­ou um abis­mo entre Deus tran­scen­dente e o mun­do. Se para o cris­tian­is­mo a Encar­nação se cumpre em ape­nas um homem, «para a Cabala a encar­nação existe no fato e pelo fato da inteira cri­ação»8. Israel deve ser o cen­tro da humanidade, porque é um povo des­ti­na­do a assumir – na humanidade – o papel de sac­er­dote. «Israel foi escol­hi­do para exe­cu­tar a emi­nente tare­fa de doutor, de pre­gador, de sac­er­dote das nações, tare­fa dev­i­da… cer­ta­mente tam­bém a sua nat­ur­al pre­dis­posição a acol­her a ver­dade reli­giosa… e sobre­tu­do ao seu caráter indômi­to, firme e tenaz, que era necessário para resi­s­tir ao mun­do pagão, para vencê-lo e con­vertê-lo»9.

Em 1863 a Alliance Israélite Uni­verselle decide pub­licar a ter­ceira parte da obra de Ben­amozegh (Essai sur l’origine des dogmes et de la morale du chris­tian­isme) inti­t­u­la­da Morale juive et morale chré­ti­enne. Na Itália Caruc­ci pub­li­cou as primeiras duas partes da obra de 1863, sob o títu­lo de As ori­gens dos dog­mas cristãos, que bem rápi­do terá uma pub­li­cação em francês.

A origem dos dog­mas cristãos é uma expli­cação cabal­ista da dog­máti­ca cristã, nela o autor sus­ten­ta que «O Gnos­ti­cis­mo não é senão um puro trav­es­ti­men­to da tradição acroamáti­ca [esotéri­ca] hebraica, ou seja, da Cabala»10. Enquan­to o cris­tian­is­mo teria nasci­do – segun­do o rabi­no de Livorno – sobre­tu­do da Cabala que se encon­trou com a filosofia platôni­ca, esto­ica e ori­en­tal e Jesus teria sido ini­ci­a­do por Essênios cabal­is­tas. Jesus teria sido uma espé­cie de ini­ci­a­do no eso­ter­is­mo cabal­ista e no tal­mud­is­mo11.

Ben­amozegh o pro­va escreven­do que o Gnos­ti­cis­mo é de origem cabal­ista e assim a Cabala através do Gnos­ti­cis­mo influiu sobre o cris­tian­is­mo12. Os Padres da Igre­ja do II sécu­lo recusaram porém tal gnos­ti­cis­mo cabal­ista e o bularam como heréti­co, então para Ben­amozegh o cris­tian­is­mo prim­i­ti­vo era gnós­ti­co, esotéri­co e cabal­ista; enquan­to o catoli­cis­mo dos Padres, e já antes com João e Paulo, repu­diou a sua origem judaico-cabal­ista-talmúdi­ca para eri­gir-se em Igre­ja13. A Gnose declar­a­da heréti­ca por S. João e S. Paulo e exco­munga­da pelos Padres é a Cabala rabíni­ca-fari­saica, aceita­da por Jesus mas recu­sa­da pelos Pas­tores e pelos Após­to­los, por­tan­to o Ben­amozegh con­vi­da a Igre­ja a retornar as suas ori­gens cabal­is­tas e a recusar a hel­eniza­ção e roman­iza­ção do cris­tian­is­mo orig­i­nal oper­a­da pelos Padres14.

Em Moral hebraica e moral cristã – Ben­amozegh – procu­ra provar que a moral do Evan­gel­ho é infe­ri­or àquela fari­saica, «O cris­tian­is­mo… fez um Deus a sua imagem, como os deuses de Home­ro, ao invés de faz­er o homem a imagem de Deus… Ora, com isto, ofend­eu não só o bom sen­so, a reta razão… mas fez inútil toda rev­e­lação»15. Além dis­so, acusa o cris­tian­is­mo de haver dis­tribuí­do amor pátrio. «O patri­o­tismo, é um sen­ti­men­to da Anti­ga Aliança, que teori­ca­mente não tem lugar na Nova; e o dia em que o Evan­gel­ho foi pre­ga­do aos Gen­tios foi o ulti­mo dia da nacional­i­dade [ou mel­hor, nacional­is­mo exas­per­a­do, nda]. O sen­ti­men­to de nacional­i­dade como o enten­dem os Ingle­ses é um sen­ti­men­to essen­cial­mente hebraico… Os cristãos são um não-povo, isto é, a negação teóri­ca e práti­ca de toda nacional­i­dade»16.

Ben­amozegh con­tin­ua: «espetácu­los hor­ríveis, teo­rias repug­nantes, doutri­nas dis­formes, vícios inau­di­tos se escon­dem sob os princí­pios do Cris­tian­is­mo… a ficção da ressur­reição dos fiéis com Jesus… estes vícios não estavam escon­di­dos, não se enver­gonharam de si mes­mos, mas ocu­param auda­ciosa­mente um lugar na Igre­ja, expuser­am sem pudor a sua deformi­dade ao sol»17.

O cabal­ista livor­nese de origem mar­ro­quina con­cluí com a exal­tação do farisaís­mo que super­aria infini­ta­mente a moral evangéli­ca, escreven­do «a moral hebraica assemel­ha ao homem, mas ao homem que real­iza as suas duas for­mas, e isto é, o homem prim­i­ti­vo de Moisés, o andrógeno de Platão, o homem de dois sex­os…, a moral cristã assemel­ha a mul­her iso­la­da, sep­a­ra­da do homem, sem o con­trape­so da sua firmeza, da sua exper­iên­cia; a mul­her aban­don­a­da a todos os trans­portes da sen­si­bil­i­dade, da paixão… a con­cepção do Cris­tian­is­mo prim­i­ti­vo tem algu­ma coisa de muito fem­i­ni­no…, há nas palavras e nos atos de Cristo e dos seus primeiros dis­cípu­los o eter­no fem­i­ni­no… »18.

 

Con­clusão

 

Como se vê as idéias ben­amozeghi­anas foram rece­bidas ple­na­mente pelo Vat­i­cano II e pen­e­traram pro­fun­da­mente no ambi­ente católi­co pós-con­cil­iar.

1º) Ben­amozegh: “Renun­ciar a cen­tral­i­dade da Igre­ja a favor da cen­tral­i­dade de Israel”; cfr. Pao­lo VI, NOM de 1970, oração da Sex­ta-feira San­ta “pro judaeis”, em que se pede a sua “fidel­i­dade a anti­ga Aliança”. João Paulo II (Mainz, 1981) “A Anti­ga Aliança jamais revo­ga­da; (Roma, 1986) os “Hebreus irmãos maiores [e predile­tos] na Fé”.

2º) Ben­amozegh: “A fé que Israel con­ser­va, poderá um dia rec­on­cil­iar as Igre­jas divi­di­das”; cfr. J. Ratzinger, Muitas religiões, uma só Aliança, (Assis, A Por­ciún­cu­la, 2008) em que exam­i­na a nova teolo­gia con­cil­iar e pós-con­cil­iar sobre as “raízes judaicas do cris­tian­is­mo”, que devem reunir as diver­sas religiões.

3º) Ben­amozegh: “Se para o cris­tian­is­mo a Encar­nação se cumpre em um só homem para a Cabala a encar­nação existe no fato e pelo fato da inteira cri­ação”; cfr. “Gaudi­um et Spes” n.° 22 (de 1965): “pelo próprio fato que o Ver­bo se encar­nou, se uniu a cada homem”, com os rel­a­tivos comen­tários de João Paulo II nas suas encícli­cas “Redemp­tor homin­is” (1979) e “Dominum et viv­ifin­can­tem” (1986). Na primeira escreve: “Com cada um Cristo se uniu para sem­pre […]. Des­de o momen­to em que vem con­ce­bido sob o coração de sua mãe” (n.º 13); “qual­quer homem, sem exceção algu­ma, […] mes­mo quan­do o homem é dis­to incon­sciente” (n.º 14). Na out­ra encícli­ca se lê: “A encar­nação […] sig­nifi­ca assunção de […] toda a humanidade, de todo mun­do visív­el e mate­r­i­al” (n.º 50); “o Ver­bo se uniu a toda carne ou criatu­ra espe­cial­mente ao homem. […] Deus é ima­nente ao mun­do e o viv­i­fi­ca a par­tir de den­tro” (n.º 54).

Mais claro (ou “obscuro”) do que isso, se morre.

 

 

d. Curzio Nitoglia

 

9 de março de 2009

 

http://www.doncurzionitoglia.com/EliaBenamozegh.htm

 


NOTAS :

1. A. Guet­ta, Qab­balà e Cris­tianes­i­mo nel­la filosofia di Elia Ben­amozegh, in «La Rasseg­na Men­sile di Israel», vol. LXIII, set­tem­bre-dicem­bre 1997, pagg. 20–21.

2. Ibi­dem, pagg. 23–24.

Cfr. A. Pal­lière, Il san­tu­ario sconosci­u­to, Roma, 1953.

3 E. Ben­amozegh, Israele e l’umanità, Mari­et­ti, Gen­o­va, 1990, pagg. XIII-XIV.

4. Ibi­dem, pagg. 39–41 e 50.

5. Ibi­dem, pag. 101.

6. Ibi­dem, pag. 115.

7. Ibi­dem, pag. 156.

8. Ibi­dem, pag. 166.

9. Ibi­dem, pag. 287.

10. E. Ben­amozegh, Le orig­i­ni dei dog­mi cris­tiani, Mari­et­ti, Gen­o­va, 2002, pagg. 15–16.

11. Cfr. Ibi­dem, pagg. 21–60.

12. Ibi­dem, pag. 73.

13. Ibi­dem, pag. 111.

14. Ibi­dem, pag. 112.

15. E. Ben­amozegh, Morale ebraica e morale cris­tiana, Caruc­ci, Assisi-Roma, 1977, pag. 6.

16. Ibi­dem, pagg. 12–13.

17. Ibi­dem, pagg. 45–46.

18. Ibi­dem, pagg. 188 e 192.