P. CURZIO NITOGLIA: A DOUTRINA SOCIAL DE PIO XII


Política, Sociologia / quinta-feira, março 3rd, 2016

 

P. Curzio Nitoglia
Tradução: Ged­er­son Fal­cometa

“Em todas as partes hoje a vida das Nações foi desin­tegra­da pelo cul­to cego
do val­or numéri­co” (Pio XII, Radiomen­sagem 24.12.1944)

 

Proêmio

 

Já vimos qual é a con­cepção políti­ca clás­si­ca e escolás­ti­ca. Ago­ra deve­mos ver como no fim da II Guer­ra Mundi­al Pio XII com­preen­deu que esta­va ten­do fim a mod­ernidade e que a humanidade esta­va para desem­bo­car na via da pós-mod­ernidade niilista. Ele procurou faz­er com­preen­der que a úni­ca via per­cor­rív­el para evi­tar um esface­la­men­to pior que o do segun­do con­fli­to mundi­al era o retorno à sã filosofia clás­si­ca e escolás­ti­ca, à ver­dadeira teolo­gia tomista e às dire­ti­vas do Mag­istério ecle­siás­ti­co. Vejamos jun­tos o ensi­na­men­to social e políti­co de Pio XII.

 

Qual­i­dade” e não “quan­ti­dade” na “Res pub­li­ca”

 

Em 6 de abril de 1951, Pio XII fez um Dis­cur­so aos diri­gentes do Movi­men­to Uni­ver­sal por uma Con­fed­er­ação Mundi­al, no qual o Papa refu­ta o otimis­mo democ­ra­tista, que vê na democ­ra­cia mod­er­na e no cul­to do número a úni­ca e mel­hor for­ma de gov­er­no. Pio XII expõe e refu­ta os “três dog­mas” da “políti­ca” antropocên­tri­ca mod­er­na.

 

O povo é “sober­a­no” ou “canal”?

 

Segun­do a tese erronêa do democ­ra­tismo mod­er­no, o poder vem do povo, de baixo, e não de Deus ou do Alto. Ao invés, o poder vem de Deus causa primeira e fonte de todas as coisas e é trans­feri­do dos eleitores para o eleito, assim como a água que atrav­es­sa um canal vem da fonte (Deus) e não do próprio canal (povo) e chega ao Gov­er­nante, que é o dono e não tem ape­nas seu uso. Só se aque­le que gov­er­na se tornar tira­no ou não gov­ernar para o bem comum, então a san­ior pars pop­uli pode reti­rar de fato o poder que de jure Deus já não sub­sidia, porque é exerci­ta­do con­tra Deus e a sua Lei. Os home­ns e as famílias, para viverem jun­tos e vir­tu­osa­mente, devem nec­es­sari­a­mente ter um Gov­er­nante, uma Autori­dade. Sim, porque a Sociedade civ­il é divi­di­da em Gov­er­nantes que devem coman­dar (faz­er leis, faz­er respeitá-las e cas­ti­gar quem as vio­le) e súdi­tos que devem obe­de­cer. O ver­dadeiro sober­a­no, porém, é Deus e não a von­tade pop­u­lar, que no máx­i­mo pode escol­her um Gov­er­nante cujo poder deri­va remo­ta­mente de Deus através do povo, que serve como um canal de for­ma próx­i­ma.     

 

clip_image002 

 

Infal­i­bil­i­dade” do povo eleitor?

 

• Depois do peca­do orig­i­nal, o homem está sujeito à ignorân­cia e ao erro. Somente Deus e o Mag­istério da Igre­ja, quan­do quer definir e obri­gar a crer em uma ver­dade de Fé ou de Moral, são infalíveis. O povo eleitor não par­tic­i­pa da infal­i­bil­i­dade div­ina, ao con­tário do Mag­istério pon­tí­fi­cio ou uni­ver­sal. Ninguém jamais prom­e­teu a infal­i­bil­i­dade ao povo, exce­to os dem­a­go­gos, que servem a seus próprios inter­ess­es com decisões que fiz­er­am a mas­sa manobra­da tomar, refu­gian­do-se atrás do pára-ven­to da infal­i­bil­i­dade do eleitora­do pop­u­lar.

• Pio XII insiste muito na dis­tinção entre “povo” e “mas­sa”. O “povo vive e se move com vida própria” [1], tem uma for­ma, um ato, um ser e uma vida sua; ao invés, “a mas­sa é mul­ti­dão amor­fa” ou sem for­ma ou princí­pio de vida, matéria pas­si­va, inde­ter­mi­na­da, sem ato ou per­feição. O Papa con­tin­ua: “a mas­sa é de per si inerte, e não pode ser movi­da senão ser de fora. O povo vive da plen­i­tude de vida dos home­ns que o com­põem”. Assim, o povo é con­sti­tuí­do de home­ns inteligentes e livres, que têm princí­pios, con­vicções, são donos de si mes­mos e con­hecem as suas obri­gações e dire­itos; enquan­to a mas­sa é pura poten­cial­i­dade que é movi­da e dirigi­da por alguém de fora dela, como um car­ro pux­a­do por bois. A mas­sa é uma enti­dade sub-humana pri­va­da de con­vicções próprias, de princí­pios, de uma sã moral, sem ini­cia­ti­va própria; e por­tan­to vive do instin­to, de paixões e sen­ti­men­tos desreg­u­la­dos sem nen­hu­ma sub­or­di­nação à razão e à von­tade livre. O homem que faz parte da mas­sa não é “o ani­mal racional” aris­totéli­co, mas “o ani­mal sen­si­ti­vo” da pós-mod­ernidade niilista, a qual com o con­fli­to de 1968 fez do homem uma “ovel­ha lou­ca” que – como dizia em 1944 Pio XII – “é um joguete fácil nas mãos de qual­quer um que explore seus instin­tos e impressões sen­síveis” [2]. O povo não é a maio­r­ia quan­ti­ta­ti­va, mas é a parte qual­i­ta­ti­va­mente mel­hor da sociedade. O democ­ra­tismo mod­er­no não tem nada que ver com a idéia aris­totéli­ca e tomista da sã democ­ra­cia clás­si­ca, que é a pop­u­lação de um País dota­da de forte per­son­al­i­dade indi­vid­ual e social.

• O povo é sim­i­lar ao cor­po humano de que fala­va Mene­nio Agrip­pa e depois tam­bém São Paulo, no qual todos os órgãos pos­suem sua função e importân­cia, tan­to os infe­ri­ores (pés) como os supe­ri­ores (cére­bro), e nen­hum deles pode faz­er menos que os out­ros porque todos são necessários, além de terem uma hier­ar­quia, que não empo­brece nen­hum, mas eno­brece a todos, fazen­do-os par­tic­i­par do bem comum. Assim como os pés de um homem lev­am o seu coração e o seu cére­bro, assim tam­bém as class­es humildes da Sociedade tor­nam pos­sív­el a sub­sistên­cia das ele­vadas não tan­to por riqueza, mas por vir­tude moral e racional. Este apól­o­go ensi­na a evi­tar dois erros opos­tos: um por defeito (o igual­i­taris­mo), segun­do o qual todos são qual­i­ta­ti­va­mente abso­lu­ta­mente iguais e que nega toda diver­si­dade ou desigual­dade qual­i­ta­ti­va; e o out­ro por exces­so (o des-igual­i­taris­mo), que exagera a difer­ença aci­den­tal e ergue bar­reiras intransponíveis entre os home­ns, não tan­to pela qual­i­dade int­elec­tu­al, moral e espir­i­tu­al ou de “boa edu­cação, que é a flor da cari­dade” (São Fran­cis­co Sales), mas sobre­tu­do pela econômi­co-social. Estes são os famosos “s‑nobs” os “s[em]-nob[reza]”, os quais, como aSer­va patrona de Goldoni, querem a todo o cus­to faz­er valer a posição socioe­conômi­ca que alcançaram, muitas vezes sine nobil­i­tate ou cum magna injusti­tia seu dis­hon­es­tate. O Livro Sagra­do dos Provér­bios recor­da que “não há pes­soa mais cru­el que uma escra­va que se tor­na patroa”. A ver­dade se encon­tra in medio et cul­men (no jus­to meio de pro­fun­di­dade e agudeza e não de medioc­ridade e baix­eza). Entre ess­es dois erros opos­tos ou desvios morais está a dout­ri­na da Cari­dade fra­ter­na sobre­nat­ur­al propter Deum, Pai de todos os home­ns. Na ver­dade, se todos os home­ns são iguais quan­to à natureza humana, neles exis­tem difer­enças aci­den­tais, as quais, longe de sus­ci­tar a con­tra­posição entre “esquer­da” (ódio de classe) e “dire­i­ta” (s‑nobismo), devem faz­er que eles coop­erem car­i­ta­ti­va­mente para o bom fun­ciona­men­to da Sociedade, que como um cor­po físi­co pre­cisa de órgãos nobres (coração e cére­bro) e menos nobres (pés e mãos). Não exis­tem class­es moral­mentebaixas ou vis; o impor­tante é que todos cumpram bem o seu dev­er de esta­do na classe em que a Providên­cia os colo­cou. Exis­tem home­ns moral­mente e int­elec­tual­mente baixos, vis e estúpi­dos, mas talvez eco­nomi­ca­mente “altos” ou altivos, como os que desprezaram até São José e o Meni­no Jesus porque eram carpin­teiros e não fazi­am parte das elites tradi­cionais, por descen­derem cer­ca de mil anos depois do Rei Davi e serem social­mente “caducos”.

Pio XII recor­da que, se o povo não é por si mes­mo infalív­el, a mas­sa quase segu­ra­mente erra, pri­va­da de con­vicções, de ver­dadeira liber­dade, e escra­va da opinião públi­ca, que é maniputa­da pelos titereiros, que pux­am as cor­das que segu­ram as mar­i­onetes.

 

clip_image003

 

O “sufrá­gio uni­ver­sal” é fonte de dire­ito e ver­dade?

 

• Uma das votações mais céle­bres da história humana foi a que con­de­nou à morte Jesus e pre­miou Barrabás. Ago­ra, pode-se per­gun­tar: o sufrá­gio uni­ver­sal exprime a von­tade da mas­sa manobráv­el e manobra­da ou a do povo ou san­ior pars Soci­etatis? O povo é uma Sociedade civ­il, orgâni­ca, viva e vivente, hierárquica como todo cor­po, orde­na­da, não achata­da e nive­la­da, na qual as difer­enças con­stituem sua har­mo­nia e beleza (imag­ine-se uma mão em que os cin­co dedos fos­sem todos iguais: seria mon­stru­osa!). Então, se todos podem pro­nun­ciar-se do mes­mo modo e com o mes­mo val­or sobre todas as coisas, e se na con­tagem dos votos expres­sos todos valem a mes­ma coisa, de fac­to este sis­tema exprime a von­tade da mas­sa e não da san­ior pars pop­uli. Por exem­p­lo, durante o proces­so de Jesus, alguns dos Escribas e dos Sac­er­dotes eram con­trários à sua con­de­nação, e o mes­mo Pilatos o era; mas a mas­sa inci­ta­da pelo Siné­drio votou major­tari­a­mente pela morte de Jesus e pela liber­dade de Barrabás. Isto sig­nifi­ca que o sis­tema do sufrá­gio uni­ver­sal, que con­fere somente à maio­r­ia númer­i­ca ou quan­ti­ta­ti­va, em detri­men­to da qual­i­fica­ti­va, o dire­ito de esta­b­ele­cer uma lei e uma ver­dade, não rep­re­sen­ta a von­tade do autên­ti­co povo orgâni­co e vivo, mas da mas­sa amor­fa e informe, pronta para ser manip­u­la­da, como a argi­la pelo oleiro. Assim, através da eleição ou sufrá­gio uni­ver­sal, na qual vence a maio­r­ia quan­ti­ta­ti­va ou numéri­ca e não a qual­i­fica­ti­va, não é o povo vivo que decide. Pio XII estigma­ti­za­va esta tendên­cia e a definia como o “cul­to cego do val­or numéri­co” [3]. O cidadão não con­ta por aqui­lo que é ou vale segun­do o seu grau de civil­i­dade, mas como quan­ti­dade, número ou voto ou con­tribuição eleitoral que tor­na pos­sív­el ao “poder”, no sen­ti­do “dete­ri­o­rante” do ter­mo, con­tin­uar a man­ter o con­sen­so e o gov­er­no. Diante deste peri­go para o qual se esta­va dirigin­do tam­bém a Europa, Pio XII procurou reme­di­ar pro­pon­do a reafir­mação dos princí­pios da filosofia perene teóri­ca e social e procu­ran­do indicar uma ordem social futu­ra na qual as insti­tu­ições políti­cas pudessem depen­der não do “cul­to cego do número”, mas da ordem orgâni­ca e nat­ur­al da san­ior pars Soci­etatis. Na ver­dade, segun­do o democ­ra­tismo mod­er­no e antropocên­tri­co o mun­do políti­co não é uma Sociedade de famílias que se unem por tendên­cia nat­u­ral­mente inscri­ta no homem a fim de con­seguir o “viv­er vir­tu­oso”, mas uma engrenagem arti­fi­cial e mecâni­ca, na qual prevalece a quan­ti­dade ou matéria e não tem nen­hu­ma relevân­cia a qual­i­dade ou for­ma intrínse­ca. No cam­po cul­tur­al e moral, já não dom­i­nam os val­ores obje­tivos con­formes à lei nat­ur­al e div­ina, mas a liber­dade indi­vid­ual como val­or abso­lu­to ou fim e não como meio para atin­gir um propósi­to, lib­er­a­da pois de todo vín­cu­lo e lei obje­ti­va. O propósi­to do Esta­do é aju­dar as famílias e os indi­ví­du­os que o com­põem a con­seguir a “vida vir­tu­osa” na lin­ha traça­da pelo Decál­o­go, o que per­mite faz­er alcançar o bem indi­vid­ual, pri­va­do e comum. A mod­ernidade tem uma con­cepção de Esta­do e de políti­ca mecanicista, com o homem, a família e a Sociedade civ­il não nat­u­ral­mente orde­na­dos a seu fim, que é o bem comum nat­ur­al, vir­tu­oso e sobre­nat­ur­al, e sim como uma máquina (vide Descartes e o homem ani­mal máquina) não orgâni­ca ou viva, mas estu­da­da e pro­je­ta­da (já a par­tir de Maquiav­el,  para chegar, através dos idéol­o­gos de 1789, até o marx­is­mo revisa­do e ao teolib­er­al­is­mo) como um con­jun­to de rodas ou mecan­is­mos, que se movem não pela vida que pos­suem den­tro de si mes­mos (“vivere est movere seip­sum”, dizia Aristóte­les), senão por um movi­men­to que vem do exte­ri­or ou “het­erodi­rigi­do”. A quan­ti­dade não é nem pode ser o critério supre­mo. Ora, na democ­ra­cia mod­er­na ou democ­ra­tismo, é o “cul­to do número”, ou seja, a quan­ti­dade de votos, que se tor­na critério supre­mo de ver­dade e bon­dade. Um exem­p­lo muito práti­co para faz­er enten­der a absur­di­dade deste sis­tema ide­ológi­co-polití­co: se somos 10 pes­soas na Torre Eif­fel e se decide que deve­mos jog­ar-nos dela, e 6 pes­soas dizem que sim, as out­ras 4 pes­soas seri­am obri­gadas – segun­do o democ­ra­tismo igual­i­tarista – a seguir a maio­r­ia quan­ti­ta­ti­va, mas evi­den­te­mente não qual­i­fica­ti­va, na própria irra­cional­i­dade sui­ci­da: assim, se a maio­r­ia decide que o abor­to é legal, o infan­tí­cidio tor­na-se lei de Esta­do. Não é a qual­i­dade ou quem racioci­na segun­do a ver­dade e a justiça, mas o “número amor­fo”, que esta­b­elece o que é ver­dadeiro e bom!

 

É pos­sív­el “hoje” uma Sociedade cristã?

       

• Ime­di­ata­mente não é prováv­el, porque natu­ra non fac­it saltus, sed pro­ced­it gra­da­tim. Todavia, deve-se sem­pre man­ter vivo o princí­pio ou ide­al da filosofia políti­ca perene, do Mag­istério tradi­cional e do “Dire­ito públi­co ecle­siás­ti­co”, os quais ensi­nam que nat­u­ral­mente o homem deve ser sub­mis­so a Deus seu Cri­ador, e sem­pre nat­u­ral­mente a Sociedade civ­il deve a Deus, que criou o homem ani­malnat­u­raliter socialis, o cul­to que lhe é dev­i­do. A natureza impele o homem, a família e o Esta­do a viverem vir­tu­osa­mente em comum, obser­van­do os Man­da­men­tos que Deus inscreveu na nos­sa natureza e que depois rev­el­ou para tornar mais fácil a sua observân­cia. Assim tam­bém, a Autori­dade nat­u­ral­mente tende a estim­u­lar o bem e a punir o mal, porque esta e a sua final­i­dade nat­ur­al e intrínse­ca. Ora, ape­sar da degradação do homem, da família e da Sociedade (civ­il e reli­giosa) con­tem­porâneas, a natureza não pode mudar sub­stan­cial­mente; pode sofr­er maus influx­os, mas tende ao seu fim, e nada é mais forte que a natureza, espe­cial­mente se aju­da­da pela Graça, que é dada de for­ma sufi­ciente a todos os home­ns. Assim, o Esta­do, a família e o indi­ví­duo ten­dem ao seu fim nat­ur­al: o viv­er vir­tu­osa­mente na via traça­da pelo Decál­o­go; e a Autori­dade tende a faz­er que ele seja respeita­do e a punir sua trans­gressão, ape­sar das depravações com que podem ferir o homem e a Sociedade os deten­tores da Autori­dade, nas várias épocas históri­c­as.

 Pio XII havia com­preen­di­do per­feita­mente que o mun­do con­tem­porâ­neo no cam­po cul­tur­al, moral e espir­i­tu­al esta­va para desem­bo­car na via do niil­is­mo e havia excla­ma­do: “A liber­dade indi­vid­ual, lib­er­ta de todos os vín­cu­los, de todas as nor­mas e regras, de todos os val­ores obje­tivos indi­vid­u­ais e soci­ais, na real­i­dade é uma anar­quia mor­tal, sobre­tu­do na edu­cação da juven­tude” (24 de dezem­bro de 1944). Nun­ca uma pro­fe­cia de des­graça foi mais certeira! E nun­ca a utopia do otimis­mo exager­a­do com respeito ao encon­tro entre o homem mod­er­no e a Igre­ja (João XXIII), entre antropocen­tris­mo e teo­cen­tris­mo [4] (Paulo VI e João Paulo II) foi mais erra­da e fora da real­i­dade. Pio XII recor­da que, enquan­to organ­is­mo ou cor­po social é con­forme à natureza e então é reto, ver­dadeiro e bom, o “mecani­cis­mo”, e a Sociedade mecanicista pro­je­ta­da pelos ideól­o­gos rev­olu­cionários, é inad­e­qua­do e inca­paz de explic­i­tar a final­i­dade iner­ente à natureza humana. Na ver­dade, as peças de uma máquina não se movem por si mes­mas, mas são movi­das de fora. É por isso que a mas­sa é “manip­uláv­el”, como o foi pelo Siné­drio durante o proces­so de Jesus. A natureza é obra de Deus, obra dire­ta d’Ele como Causa primeira e prin­ci­pal, enquan­to a máquina é obra do homem e dirigi­da por ele.

 

O laicis­mo mod­er­no

 

Já cita­mos os Padres e o Mag­istério sobre a sub­or­di­nação hierárquica entre Esta­do e Igre­ja. O leitor pode valer-se de um livro muito pre­cioso, infe­liz­mente já não à ven­da, com­pi­la­do por dois pro­fes­sores da Uni­ver­si­dade Católi­ca do Sagra­do Coração de Milão: Gior­gio Bal­ladore-Pal­lieri & Giulio Vis­mara, Acta pon­ti­f­i­cia Juris Gen­tium usque ad annum MCCCIV, Milão, 1946. Ele recol­he os doc­u­men­tos pon­tí­fi­cios des­de o sécu­lo II até Bonifá­cio VIII. O Mag­istério retornou ao tema a par­tir do “Dire­ito novo” nasci­do com a mod­ernidade ilu­min­ista, que prop­un­ha a sep­a­ração total entre Esta­do e Igre­ja. Do Papa Pio VI (+1799) a Pio XII (+1958) é con­fir­ma­da a dout­ri­na da união e sub­or­di­nação hierárqui­va dos dois poderes segun­do a nobreza dos fins (tem­po­ral e espir­i­tu­al). O Esta­do cristão exis­tiu des­de Con­stan­ti­no até a Rev­olução france­sa.

Leão XIII o recor­da: “Hou­ve um tem­po em que a Filosofia do Evan­gel­ho gov­er­na­va os Esta­dos. Quan­do a força do espíri­to cristão esta­va pen­e­tra­da nas leis civis, nas insti­tu­ições tem­po­rais, nos cos­tumes dos povos; […] quan­do pro­ce­di­am con­corde­mente o sac­erdó­cio e o Império. […]. Se a Europa cristã domou as hor­das bár­baras, […] se vito­riosa­mente repeliu as invasões dos muçul­manos, se tem o pri­ma­do da civ­i­liza­ção, […] não há dúvi­da que em grande parte ela o deve à religião. Sem dúvi­da, todos ess­es bene­fí­cios teri­am dura­do, se hou­vesse de igual modo dura­do a con­cór­dia entre os dois poderes” (Immor­tale Dei, 1885). Leão XIII depois pas­sa a explicar como tal har­mô­nia foi romp­i­da pelo “espíri­to de novi­dade do sécu­lo XVI”, o qual “primeiro ata­ca a religião [sub­je­tivis­mo luter­a­no], depois a filosofia [sub­je­tivis­mo carte­siano] e por fim o Esta­do [democ­ra­tismo rousseau­ni­ano]”, de modo que o “dire­ito nat­ur­al” foi sub­sti­tuí­do por um “novo dire­ito”, sub­je­ti­vo e fun­da­do sobre o Indi­vid­u­al­is­mo rel­a­tivista (Immor­tale Dei, 1885).

 

Que inimi­go fez tudo isto?

 

• Pio XII fez esta per­gun­ta no Dis­cur­so aos home­ns da Ação Católi­ca, “Nel con­tem­plare”, de 12 de out­ubro de 1952. Pacel­li excla­ma: “Não per­gun­tais qual é o inimi­go, nem que roupa veste. Ele se encon­tra em todas as partes e no meio de todos; sabe ser vio­len­to e des­on­esto. […]. Ele quer a natureza sem a graça; a razão sem a Fé; a liber­dade sem a Autori­dade. É um inimi­go que se tem tor­nan­do cada vez mais con­cre­to, com uma ine­scrupolisidade que nos deixa ain­da atôni­tos: Cristo, sim; Igre­ja não. Depois: Deus sim; Cristo não. Final­mente o gri­to ímpio: Deus está mor­to, Deus nun­ca sequer exis­tiu”. Como se vê, segun­do Pio XII, que remon­ta ao Mag­istério con­stante e então infalív­el da Igre­ja de Gelá­sio I (+469), a sep­a­ração ou divór­cio entre Esta­do e Igre­ja é um mal, um peca­do, uma apos­ta­sia gravís­si­ma do homem, da família e do Esta­do e da Igre­ja que Ele fun­dou. A teo­ria, o ide­al ou o princí­pio é o da união e coop­er­ação hier­ar­quiza­da entre Esta­do e Igre­ja. Todavia, algu­mas vezes, para evi­tar um mal maior, tem-se de tol­er­ar prati­ca­mente, mas não teori­ca­mente, um cul­to e uma religião não católi­ca, os quais não pos­suem dire­itos, mas devem ser tol­er­a­dos como uma dor de dente até que o den­tista pos­sa arran­car o dente cari­a­do: “Aqui­lo que não cor­re­sponde à ver­dade e à nor­ma moral não tem obje­ti­va­mente nen­hum dire­ito à existên­cia, nem à pro­pa­gan­da” [5]. Tam­bém o Papa repro­va a “neu­tral­i­dade reli­giosa do Esta­do”, porque a úni­ca situ­ação nor­mal é a de união e colab­o­ração entre os dois poderes.

 

Rup­tura entre Vat­i­cano II e Tradição apos­tóli­ca

 

Por tudo se evi­den­cia como a dout­ri­na da “Liber­dade reli­giosa” em foro exter­no e em públi­co para todas as cor­rentes de pen­sa­men­to filosó­fi­co e teológi­co pro­mul­ga­da pelo Con­cílio Vat­i­cano II (Dig­natis Humanae, 7 de dezem­bro de 1965) está em oposição e con­tradição com a Tradição apos­tóli­ca e o Mag­istério con­stante da Igre­ja. L’Avvenire, o diário da “Con­fer­ên­cia Epis­co­pal Ital­iana”, em 8 de jun­ho de 2011, na pági­na 27, pub­li­cou um edi­to­r­i­al de Flávio Felice inti­t­u­la­do Lib­er­al­is­mo norte-amer­i­cano fil­ho do Cris­tian­is­mo, no qual se lê: “A impre­scindibil­i­dade da pes­soa humana foi elab­o­ra­da por um pen­sador pro­fun­da­mente cristão, John Locke. […] Segun­do a tradição do lib­er­al­is­mo de inspi­ração cristã: Ros­mi­ni, Stur­zo e out­ros, recor­da­dos recen­te­mente por Ben­to XVI na car­ta envi­a­da a Gior­gio Napoli em 17 de março pas­sa­do, o lib­er­al­is­mo é tal enquan­to elege a pes­soa como o fim da vida asso­ci­a­da”. É o cul­to do Homem, que toma o lugar de Deus, ou da coin­ci­den­tia oppos­i­to­rum entre o antropocen­tris­mo e o teo­cen­tris­mo. Gaudi­um et Spes n. 24 especi­fi­ca: “O homem, úni­ca criatu­ra sobre a ter­ra a ser queri­da por Deus por si mes­ma (propter se ipsam)”. Durante “a homil­ia da 9a. Sessão do Con­cílio Vat­i­cano II”, em 7 de dezem­bro de 1965, o Papa Mon­ti­ni veio a procla­mar: “A religião, que é o cul­to de Deus que quis ser homem e a religião — porque o é — que é o cul­to do homem que se quer Deusencon­traram-se. Que acon­te­ceu? Com­bate, luta, anátema? Tudo isso pode­ria ter-se dado, mas de fato não se deu. A anti­ga história do bom samar­i­tano foi o exem­p­lo e a nor­ma segun­do os quais se ori­en­tou o nos­so Con­cílio. Com efeito, um imen­so amor para com os home­ns pen­etrou total­mente o Con­cílio. A descober­ta e a con­sid­er­ação ren­o­va­da das neces­si­dades humanas […] absorver­am toda a atenção deste Con­cílio. Vós, human­istas do nos­so tem­po, que negais as ver­dades tran­scen­dentes, dai ao Con­cílio ao menos este lou­vor e recon­hecei este nos­so human­is­mo novo: tam­bém nós —  e nós mais que ninguém — temos o cul­to do homem” [6]. Karol Wojty­la em 1976 quan­do ain­da Cardeal, pre­gan­do um retiro espir­i­tu­al a Paulo VI e aos seus colab­o­radores, pub­li­cou em ital­iano com o títu­lo de Sinal de con­tradição. Med­i­tações, (Milão, Grib­au­di, 1977), ini­cia a med­i­tação “Cristo rev­ela ple­na­mente o homem ao homem” (cap. XII, pp. 114–122) com Gaudi­um et Spes n. 22 e assev­era: “A reunião con­cil­iar, apli­can­do à sua vol­ta a cat­e­go­ria do mis­tério ao homem, expli­ca o carater antropológi­co ou até antropocên­tri­co da Rev­e­lação ofer­e­ci­da aos home­ns em Cristo. Esta Rev­e­lação se con­cen­tra sobre o homem […]. O Fil­ho de Deus, através da sua Encar­nação, se uniu a todos os home­ns, e tornou-se – como homem – um de nós. […] Aqui estão os pon­tos cen­trais a que se pode­ria reduzir o ensi­na­men­to con­cil­iar sobre o homem e sobre seu mis­tério” (pp. 115–116). O Papa João Paulo II afir­ma na sua segun­da encícli­ca (de 1980), “Dives in mis­eri­cor­dia”, n. 1: “Enquan­to as várias cor­rentes do pen­sa­men­to humano no pas­sa­do e no pre­sente eram e con­tin­u­am a ser propen­sas a dividir e a até con­tra­por o teo­cen­tris­mo e o antropocen­tris­mo, a Igre­ja [con­cil­iar, N. Do T.] […] bus­ca conec­tá-los […] de for­ma orgâni­ca e pro­fun­da. E este é um dos pon­tos fun­da­men­tais, e talvez o mais impor­tante, do mag­istério do últi­mo Con­cílio”.

 

 

 

 Notas:

[1] Pio XII, Radiomen­sangem ao mun­do inteiro, 24 de dezem­bro de 1944. Segun­do Aristóte­les (De ani­ma), a vida con­siste no “movi­men­to intrínseco”: ali­men­tar-se, crescer indi­vid­ual­mente e repro­duzir-se ou con­tin­uar a espé­cie. Na ver­dade, quem não se ali­men­ta não cresce, mas degen­era e morre e não pode per­pet­u­ar a espé­cie. O movi­men­to é intrínseco (“movere seip­sum”) ao sujeito vivente: a plan­ta, o ani­mal e o homem se ali­men­tam, crescem e se repro­duzem. Os três vivem, têm um princí­pio de vida que é uma alma, que é veg­e­tal para as plan­tas: elas ali­men­tam-se, crescem, repro­duzem-se assex­u­ada­mente, e não têm nen­hum tipo de con­hec­i­men­to ou apetite sen­sív­el ou instin­ti­vo; fal­ta a elas a razão e a von­tade racional e livre, que pos­sui só o homem, que tem uma alma racional, espir­i­tu­al e pois incor­rup­tív­el, porque não está sujei­ta a divisão. Hoje está na moda – mas a teo­ria remon­ta ao sécu­lo XVIII e foi lança­da por filó­so­fos sen­sis­tas ingle­ses – diz­er que o ani­mal é “inteligente” ou que o homem tem o mes­mo grau de con­sciên­cia e apetite ou dese­jo do ani­mal bru­to. Isto é des­mentin­do pela exper­iên­cia. Por exem­p­lo: uma abel­ha, que tam­bém é muito hábil instin­ti­va­mente, se bate a cabeça con­tra um vidro de uma janela meio aber­ta, pas­sa a repe­tir todos os dias o mes­mo erro e não é capaz de deslo­car-se neum um cen­tí­men­tro para sair da meia parte da janela não aber­ta. Out­ro exem­p­lo, a que assisti pes­soal­mente. Um cão muito ale­gre e aler­ta – de nome “Nero” – per­manece den­tro de um quar­to, latin­do instin­ti­va­mente para faz­er a por­ta se abrir, mas a por­ta tem, além da maçane­ta, uma haste que pen­e­tra ver­ti­cal­mente o piso. Mas o cão, para ten­tar sair, em vez de deixar o para­fu­so lev­an­ta­do, o abaixa com as patas e tor­na impos­sív­el a mim abrir a por­ta do lado de fora. Ten­ho de chamar um chaveiro, que, não ten­do estu­da­do “filosofia mod­er­na” na uni­ver­si­dade, tem o bom sen­so de excla­mar: “Que estúpi­do este cão! Mes­mo a cri­ança mais sono­len­ta teria com­preen­di­do que pre­cisa­va lev­an­tar a haste”. Por quê? Porque o cão, muito aler­ta quan­to ao instin­to e à sen­si­bil­i­dade, não tem inteligên­cia racional.

[2] Radiomes­sangem ao mun­do inteiro, 24 de dezem­bro 1944.

[3] Radiomes­sangem ao mun­do inteiro, 24 de dezem­bro de 1944.

[4] Cf. C. Fab­ro, La svol­ta antropo­log­i­ca di Karl Rah­n­er, Milano, Rus­coni, 1974.

[5] Cfr. Pio XII, Dis­cor­so al V Con­gres­so nazionale dell’Unione Giuristi Cat­toli­ci Ital­iani “Ci riesce, 6 de dezem­bro de 1953.

[6] Enchirid­ion Vat­i­canum. Doc­u­men­to del Con­cilio Vat­i­cano II. Testo uffi­ciale e traduzione ital­iana, Bologna, Edi­zioni Deho­ni­ane Bologna, 9a. ed., 1971, Dis­cor­si e mes­sag­gi, pp. 282–283.