Índole pastoral do Vaticano II: uma avaliação.


História, Teologia / segunda-feira, julho 30th, 2012

Fratres in Unum

Apre­sen­ta­mos a tradução da preleção de Mon­sen­hor Brunero Gher­ar­di­ni no Con­gres­so sobre o Vat­i­cano II real­iza­do em Roma, em dezem­bro de 2010, pelos Fran­cis­canos da Imac­u­la­da.

Por Mon­sen­hor Brunero Gher­ar­di­ni

Fratres in Unum.com | Com a gen­erosa con­tribuição de Ged­er­son Fal­cometa - Era uma vez a ave Fênix. Todo mun­do fala­va dela, mas nun­ca ninguém a havia vis­to. E hoje há uma ver­são sua aggior­na­ta, da qual todos tam­bém falam e ninguém sabe diz­er do que se tra­ta: chama-se Pas­toral.

1 – A Palavra – Sejamos bem claros: a palavra em si não é um prob­le­ma, sendo evi­dente a sua derivação de pascere: ver­bo que vem do latim pab­u­lum (pas­to, ali­men­to), da qual surge uma família não muito numerosa, mas bem iden­ti­ficáv­el em seus com­po­nentes: pascere, pre­cisa­mente, no sen­ti­do de con­duzir à pastagem e dar de com­er; pas­tum, do qual uma clara tradução é o ital­iano pas­to [ali­men­to, comi­da], mas que tam­bém pode se traduzir com cibo [pas­to, comi­da] ; pas­tor, indi­can­do que con­duz ao pab­u­lum, dá ali­men­to e man­tém reban­hos e man­adas. Pas­tor se tor­na, por sua vez, o pai de pas­tori­cia ars, em ital­iano pas­tor­izia, ou a arte de quem cria ani­mais; de pas­tu­ra, com o sig­nifi­ca­do de pas­to aber­to, e de pas­tu — ou pas­toral, já pre­sente no latim tar­dio para descr­ev­er o “ves­tuário, os ali­men­tos, os cos­tumes, a lin­guagem do pas­tor. Não descende, todavia, a pas­teur­iza­ção, ou pro­ced­i­men­to de con­ser­vação de ele­men­tos líqui­dos, como o leite, porque a palavra vem do francês pas­toris­er, derivan­do por sua vez de L. Pas­teur (1822–1895), seu inven­tor.

[…] [O ter­mo] Pas­toral entrou cedo no jargão ecle­siás­ti­co, para qual­i­ficar três das car­tas pauli­nas, ou a ativi­dade dos evan­ge­lis­tas e de seu ensi­no, ou as insíg­nias epis­co­pais, como o anel, o bácu­lo, as car­tas. Mais recente, mas não mod­er­no, é o uso de pas­toral em refer­ên­cia à teolo­gia e com abor­dagem não-dog­máti­ca; orig­i­nal­mente, de fato, foi anti-dog­máti­co. Aos que descon­hecem o jargão ecle­siás­ti­co, no entan­to, um homem da média cul­tura muito facil­mente asso­cia­rá pas­toral à mocin­ha da poe­sia arcádi­ca, à com­posição poéti­ca de origem provençal e de con­teú­do amoroso, à éclo­ga vir­giliana, à tragé­dia “Aminta” de T. Tas­so e à músi­ca de caráter sim­ples e ter­no, com especí­fi­ca tip­i­fi­cação na “sex­ta” de Beethoven.

2 – O ter­mo no Vat­i­cano II - Depois de um espec­tro semân­ti­co de tal ampli­tude, a alusão à descon­heci­da e invisív­el ave fênix pode­ria pare­cer insus­ten­táv­el por evi­dente con­tradição. A não ser que o condi­cional “pode­ria” este­ja neu­tral­iza­do pela ausên­cia, nos doc­u­men­tos con­cil­iares, de uma razão sufi­ciente que o jus­ti­fique. Digo “razão sufi­ciente”, porque se dissesse que nos doc­u­men­tos con­cil­iares está ausente a “palavra”, daria demon­stração de uma ignorân­cia cras­sa e imper­doáv­el do Vat­i­cano II. A “palavra” não só existe, mas é abun­dante; na real­i­dade, car­ac­ter­i­za o Vat­i­cano II em sua especi­fi­ci­dade de Con­cílio ecumêni­co diante dos vinte Con­cílios que o pre­ce­dem. O Vat­i­cano II fala, de fato, de ação pas­toral em gênero, e mais dire­ta­mente de ativi­dades pas­torais;  iden­ti­fi­ca várias neces­si­dades pas­torais e, diante delas, pede a insti­tu­ição e a recíp­ro­ca colab­o­ração de vários sub­sí­dios pas­torais, não deixan­do de assi­nalar entre estes o plane­ja­men­to e orga­ni­za­ção de “cur­sos, con­gres­sos, cen­tros com bib­liote­cas conexas des­ti­nadas aosestu­dos pas­torais, a serem con­fi­a­dos a pes­soas alta­mente capazes”. A fim de expandir no mais amp­lo raio pos­sív­el a sen­si­bil­i­dade pas­toral e os con­hec­i­men­tos con­veni­nentes, o Vat­i­cano II obri­ga os bis­pos a “estu­dar iso­lada­mente ou em nív­el inter­dioce­sano o mel­hor sis­tema” que asse­gure aos pres­bíteros, “sobre­tu­do alguns anos após sua orde­nação”, o ade­qua­do apro­fun­da­men­to dos méto­dos pas­torais. Dado que uma forte con­tribuição para a ação apos­tóli­ca da Igre­ja pode vir tam­bém dos lei­gos, o Con­cílio con­vi­da aos bis­pos a escol­her “sac­er­dotes dota­dos das qual­i­dades necessárias e con­ve­nien­te­mente for­ma­dos”, que, por sua vez, dêem uma for­mação ade­qua­da aos lei­gos para então con­fi­ar suas espe­ci­ais tare­fas de ação pas­toral. E porque “a unidade de propósi­to entre padres e Bis­po tor­na sem­pre mais fecun­da sua ativi­dade pas­toral”, enco­ra­ja-se uma per­iódi­ca reunião do clero, esten­di­da tam­bém a out­ros mem­bros do organ­is­mo ecle­sial, “para tratar de questões pas­torais”.

Às Con­fer­ên­cias Epis­co­pais de cada nação, recomen­da-se calorosa­mente a atenção e pro­moção dafor­mação pas­toral do clero medi­ante “insti­tu­tos pas­torais em colab­o­ração com paróquias opor­tu­na­mente escol­hi­das, con­gres­sos per­iódi­cos, exer­cí­cios apro­pri­a­dos”. Não se podia evi­tar um chama­do à “com­pe­tente autori­dade ecle­siás­ti­ca ter­ri­to­r­i­al” para o esta­b­elec­i­men­to de um insti­tu­to “de pas­toral litúr­gi­ca” que se val­ha de “espe­cial­is­tas em litur­gia, músi­ca, arte sacra e pas­toral”.

Estes dados demostram que a ave fênix está em casa no Vat­i­cano II, mas o Vat­i­cano II não disse o que é ou quem ela é.

Aque­le que “gov­er­na e apas­cen­ta o povo de Deus” é, ade­mais, insti­ga­do a encar­nar o Bom Pas­tor “que dá a vida por suas ovel­has (Jo 10:11)” e a seguir “o exem­p­lo daque­les padres que tam­bém em nos­so tem­po não hes­i­taram a sac­ri­ficar-se a si mes­mos pelo próprio reban­ho”. Em suma, ao exor­tar o clero a se faz­er dia após dia instru­men­to de um serviço sem­pre mais idô­neo para o povo de Deus, o Vat­i­cano II declara explici­ta­mente que a sua final­i­dade pas­toral se com­pro­m­ete com “uma ren­o­vação inter­na da Igre­ja, a difusão do evan­gel­ho em todo o mun­do e no esta­b­elec­i­men­to de uma relação dialóg­i­ca com este”. Uma tal final­i­dade cor­re­sponde, evi­den­te­mente, a uma ideia de fun­do, a uma noção de pas­toral ao menos rudi­men­tar e tão logo ofus­ca­da: relação dialóg­i­ca com o mun­do da parte de uma Igre­ja ren­o­va­da em seus méto­dos de evan­ge­liza­ção e de apos­to­la­do. Aqui, um pouco vaga­mente, a ave fênix começa a se faz­er con­heci­da.

Tal e taman­ha insistên­cia não sur­preende. É, antes, um sinal de docil­i­dade e fidel­i­dade às lin­has mes­tras que o Papa Ron­cal­li, em 11 de out­ubro de 1962, apre­sen­tou aos Padres abrindo ofi­cial­mente a grande Assem­bléia con­cil­iar: ao colo­car a dout­ri­na em primeiro lugar nos tra­bal­hos con­cil­iares, diver­si­fi­cou sua metodolo­gia com relação ao pas­sa­do. Antes, a Igre­ja não evi­ta­va a con­de­nação, sev­era e firme. Hoje, à sev­eri­dade pref­ere o remé­dio da mis­er­icór­dia. Para o Papa Ron­cal­li, então, espe­cial­mente diante de uma humanidade pre­sa a tan­tas difi­cul­dades, a Igre­ja dev­e­ria mostrar o ros­to bom, benévo­lo, paciente da Mãe, fomen­tar a pro­moção humana expandin­do os espaços da cari­dade, difundir a serenidade, paz, har­mo­nia e amor. Des­ta for­ma, as car­ac­terís­ti­cas da ave fênix, emb­o­ra per­ma­nen­cen­do ain­da indefinidas, se con­fun­dem com as da mãe paciente e boa.

Con­fir­man­do a ori­en­tação de Ron­cal­li, o Papa Paulo VI, na homil­ia de 07 de dezem­bro de 1965, por ocasião da nona sessão do Con­cílio, declar­ou que a Igre­ja traz em seu coração, jun­to com o reino dos céus, o homem e o mun­do, e mais, está toda a serviço do homem e do mun­do, sendo ínti­ma a lig­ação entre a religião católi­ca e a vida humana, a pon­to que a religião católi­ca pode se diz­er a própria vida do homem e do gênero humano graças à sua sub­limed­out­ri­na, ao cuida­do mater­no com que acom­pan­ha o homem ao seu fim últi­mo e aos meios que lhes dá para que pos­sam alcançá-lo. Enési­ma declar­ação de propósi­tos pas­torais que, man­ten­do-se den­tro dos lim­ites do genéri­co, ain­da não rev­e­lam o ros­to ou as feições da ave fênix. 

No entan­to, não há nen­hu­ma dúvi­da e nen­hu­ma dis­cussão sobre a pas­toral­i­dade do Con­cílio. O Vat­i­cano II não foi, ape­nas porque não dev­e­ria sê-lo, um Con­cílio dog­máti­co e, con­sideran­do tudo, nem mes­mo dis­ci­pli­nar. Quis ape­nas ser pas­toral. E mes­mo assim, ape­sar das muitas inter­venções inter­nas e exter­nas, o ver­dadeiro sig­nifi­ca­do de sua declar­a­da pas­toral­i­dade ain­da está debaixo de um nevoeiro.

3 – Um con­ceito não definido – Pouco aci­ma, indiquei as fac­etas da pas­toral­i­dade con­cil­iar. A pas­toral como adje­ti­vo qual­i­fica­ti­vo ou como adje­ti­vo sub­stan­ti­va­do dá, na ver­dade, dezenas e dezenas de voltas. Nen­hu­ma, porém, para lhes dar, senão a definição, ao menos um indí­cio de expli­cação. Recon­heço que, anal­isan­do criti­ca­mente as diver­sas declar­ações, é pos­sív­el ter uma vaga idéia; mas, no entan­to, não seria uma expressão dire­ta do ensi­na­men­to con­cil­iar.

O exem­p­lo mais pro­batório é dado pela Gaudi­um et Spes, qual­i­fi­ca­da como “Con­sti­tu­ição Pas­toral”, sendo inteira­mente um fer­men­to int­elec­tu­al e proa­t­i­vo em favor do homem, da sua liber­dade e dig­nidade, da sua pre­sença na família, na sociedade, na cul­tura e no mun­do, com o obje­ti­vo de con­ferir à vida pri­va­da e públi­ca um sopro e uma dimen­são à medi­da do homem. A união das duas palavras-chaves – Con­sti­tu­ição Pas­toral – é a mais recente novi­dade de todo o Vat­i­cano IIo foi para os próprios Padres con­cil­iares que, antes de aprová-la, dis­cu­ti­ram várias out­ras denom­i­nações. A úni­ca jus­ti­fica­ti­va para a união está na nota que acom­pan­ha o inco­mum doc­u­men­to, definido como “pas­toral” seja porque, “basea­do em princí­pios doutri­nais, pre­tende apre­sen­tar a ati­tude da Igre­ja em relação ao “mun­do e aos home­ns de hoje”, ou porque ati­tude e princí­pios doutri­nais per­me­iam um ao out­ro. Se dev­e­ria inferir que a ati­tude em questão é sem­pre a apli­cação e a tradução práti­ca dos princí­pios doutrinários. Mas per­manece um prob­le­ma, a desco­brir a origem: talvez dos princí­pios soci­ológi­cos, políti­cos, econômi­cos, mas, pelo menos dire­ta­mente, não dos princí­pios evangéli­cos.

A refer­ên­cia ao homem e ao mun­do recor­da de ambos a fini­tude orig­i­nal, a condição de criat­uras, a tem­po­ral­i­dade, o dinamis­mo, o con­stante evoluir, sobre o quais paira a espa­da de Dâmo­cles de uma sem­pre pos­sív­el involução. Isto evi­den­cia suas condições var­iáveis e con­tin­gentes, mas tam­bém a prob­lem­ati­ci­dade da apli­cação práti­ca dess­es princí­pios doutri­nais que são em grande parte abso­lu­tos irrefor­máveis.

Tam­bém a nota adverte uma tal apo­r­ia e a assi­nala; mas não a resolve. Antes, a com­pli­ca no exa­to momen­to no qual esta­b­elece que “a Con­sti­tu­ição dev­erá ser inter­pre­ta­da segun­do as nor­mas gerais da her­menêu­ti­ca teológ­i­ca, ten­do em con­ta… as cir­cun­stân­cias mutáveis intrin­se­ca­mente conexas às matérias tratadas”. Na real­i­dade, se a pas­toral devesse con­si­s­tir nesse balé de diz­er sim-e-não, uma definição sua seria impos­sív­el. Diz-se que ao con­tin­gente vai apli­ca­da a indis­cutibil­i­dade da dout­ri­na; mas se essa apli­cação reduzisse a dout­ri­na à con­tingên­cia, ou tor­nasse indis­cutív­el e abso­lu­to o con­tin­gente, per­ver­t­e­ria um e out­ro ele­men­to: o sim de mãos dadas com o não. Com­preen­do porque, já na Aula con­cil­iar, Gaudi­um et Spes foi o tex­to mais dis­cu­ti­do e mais obsta­c­uliza­do, para o qual pouco valeu a sua des­ig­nação a comis­sões e sub­comis­sões, como tam­bém a pas­sagem por bem qua­tro refor­mu­lações: a difi­cul­dade, para chegar­mos no lim­ite da pre­sunção, está na afir­mação simultânea do sim e do não.

E talvez depen­desse des­ta apo­r­ia não resolvi­da a prob­lemáti­ca que ain­da acom­pan­ha, após cer­ca de meio sécu­lo de pós-con­cílio, todo dis­cur­so sobre a pas­toral. Na práti­ca, ela serve para legit­i­mar um pouco de tudo e o seu próprio con­trário. As duas her­menêu­ti­cas con­cil­iares, as quais fre­quente­mente se referiu a análise do San­to Padre, aque­la que faz do Vat­i­cano II o iní­cio de um novo modo de ser Igre­ja e aque­la que, pelo con­trário, o conec­ta à Tradição ecle­sial vivente, são ambas legit­i­madas pela apo­r­ia não resolvi­da. Nas duas her­menêu­ti­cas, na real­i­dade, o Vat­i­cano II:

  1. assume, no âmbito doutrinário, a aparên­cia e o val­or de um Con­cílio dog­máti­co: uma [cor­rente] faz dele um super Con­cílio, enquan­to a out­ra faz dele a sín­tese doutri­nal de todos os con­cílios prece­dentes;
  2. no âmbito pas­toral, ele surge como um recip­i­ente sem difer­en­ci­ação pela sua própria qual­i­dade de pas­toral, uma espé­cie de “fran­co ati­rador” ao qual, por razões pas­torais, é con­ce­di­do diz­er simul­tane­a­mente o sim e o não.

Se impõe, sobre este pon­to, um juí­zo sereno e obje­ti­vo sobre a qual­i­dade ger­al do Vat­i­cano II, que apres­sa­da e ingen­u­a­mente foi encer­ra­do na área pas­toral.

4 – Os qua­tro níveis do Vat­i­cano II Quem tem famil­iari­dade não só com a Gaudi­um et Spes, mas com todos os dezes­seis doc­u­men­tos con­cil­iares, tem con­sciên­cia de que a var­iedade temáti­ca e a co-respec­ti­va metodolo­gia colo­cam o Vat­i­cano II sobre qua­tro níveis, qual­i­ta­ti­va­mente dis­tin­tos:

  1. o genéri­co, do Con­cílio ecumêni­co enquan­to Con­cílio ecumêni­co;
  2. o especí­fi­co, do âmbito pas­toral;
  3. o nív­el do evo­car out­ros Con­cílios;
  4. e os das ino­vações.

No âmbito genéri­co, o Vat­i­cano II sat­is­faz todas as condições para ser um autên­ti­co Con­cílio da Igre­ja Católi­ca; o 21º da série. Provém dele um mag­istério con­cil­iar, isto é, supre­mo e solene. O que, por si mes­mo, não depõe pela dog­mati­ci­dade e infal­i­bil­i­dade de suas asserti­vas; antes, nem mes­mo a com­por­ta, ten­do, de iní­cio, afastado‑a de seu próprio hor­i­zonte.

No âmbito especi­fi­co, a qual­i­fi­cação de pas­toral lhe jus­ti­fi­ca os vastís­si­mos inter­ess­es, dos quais não poucos exce­dem o âmbito da Fé e da teolo­gia: por exem­p­lo, a comu­ni­cação social, a tec­nolo­gia, o efi­ci­en­tismo da sociedade con­tem­porânea, a políti­ca, a paz, a guer­ra, a vida econômi­co-social. Mes­mo este nív­el per­tence ao ensi­na­men­to con­cil­iar e é, então, supre­mo e solene, mas não pode reivin­dicar, pela matéria trata­da e pelo modo não dog­máti­co de tratá-la, uma val­i­dade por si infalív­el e irrefor­máv­el.

A evo­cação de alguns ensi­na­men­tos dos Con­cílios prece­dentes con­stituem o ter­ceiro nív­el. É uma evo­cação por vezes dire­ta e explíci­ta (LG 1: “praece­den­tium Con­cil­io­rum argu­men­to instans”; LG 18: “Con­cili Vat­i­cani pri­mi ves­ti­gia pre­mens”; DV 1: “Con­cil­io­rum Tri­den­ti­ni et Vat­i­cani I inhaerens ves­tigis”), por vezes indi­re­ta e implíci­ta, que recor­da a ver­dade já defini­da: por exem­p­lo, a natureza da Igre­ja, a sua estru­tu­ra hierárquica, a sucessão apos­tóli­ca, a juris­dição uni­ver­sal do Papa, a encar­nação do Ver­bo, a redenção, a infal­i­bil­i­dade da Igre­ja e do mag­istério ecle­siás­ti­co, a vida eter­na dos bons e a eter­na con­de­nação dos maus. Sob este aspec­to, o Vat­i­cano II goza de uma incon­testáv­el val­i­dade dog­máti­ca, sem ser por isso um Con­cílio dog­máti­co, sendo sua uma dog­mati­ci­dade de reflexo, própria dos tex­tos con­cil­iares cita­dos.

As ino­vações con­stituem o quar­to nív­el. Se olhar­mos para o espíri­to que guiou o Con­cílio, seria pos­sív­el afir­mar que o Vat­i­cano II foi todo ele um quar­to nív­el, ani­ma­do como era de um espíri­to rad­i­cal­mente ino­vador, mes­mo onde bus­ca­va o seu enraiza­men­to na Tradição. Algu­mas ino­vações são, porém, especí­fi­cas: a cole­gial­i­dade dos bis­pos, o absorvi­men­to da Tradição na Sagra­da Escrit­u­ra, a lim­i­tação da inspi­ração e inerrân­cia bíbli­ca, as estra­nhas relações com o mun­do hebraico e islâmi­co, o irromper da assim chama­da liber­dade reli­giosa. Por fim, é muito claro que, se existe um nív­el ao qual a qual­i­dade dog­máti­ca abso­lu­ta­mente não é recon­hecív­el, é pro­pri­a­mente este das novi­dades con­cil­iares.

5 – Con­clusão – A adesão ao Vat­i­cano II é, pelo aci­ma expos­to, qual­i­ta­ti­va­mente dis­tin­ta. Enquan­to todos os qua­tro descritos níveis exprimem um mag­istério con­cil­iar, todos os qua­tro colo­cam ao indi­vid­uo e à comu­nidade cristã-católi­ca o dev­er de uma adesão que não nec­es­sari­a­mente será sem­pre “de Fé”. Esta só vale para as ver­dades do ter­ceiro nív­el e ape­nas enquan­to provêm de out­ros Con­cílios, segu­ra­mente dog­máti­cos. Aos out­ros três níveis, é necessário reser­var uma reli­giosa e respeitosa acol­hi­da, até que qual­quer uma de suas asserti­vas não se choque con­tra a perene atu­al­i­dade da Tradição por evi­dente rup­tura com o “eodem sen­su eademque sen­ten­tia” de qual­quer vari­ante for­mal sua. O dis­senso neste caso, par­tic­u­lar­mente quan­do sereno e fun­da­men­ta­do, não car­ac­ter­i­za nem here­sia, nem erro. Quan­to ao segun­do nív­el, aque­le pas­toral, como observei na nota n.19, é necessário pen­sar que os Padres con­cil­iares não con­hece­r­am a hipote­ca ilu­min­ista paga por eles mes­mos com a aber­tu­ra do Con­cílio a uma pas­toral que, des­de o começo, segun­do a lóg­i­ca ilu­min­ista da qual depen­dia, havia expul­sa­do a Deus para sub­sti­tuí-lo pelo homem e por vezes para iden­ti­ficar no homem o próprio Deus. Foi, de fato, a pas­toral do sécu­lo XVIII quem deu as costas para as moti­vações, as fontes, os con­teú­dos e o méto­do da teolo­gia dog­máti­ca. E para abrir as por­tas da for­t­aleza teológ­i­ca ao pri­ma­do do nat­ur­al, do racional, do tem­po­ral e do soci­ológi­co.

Com isto não digo, abso­lu­ta­mente, que a pas­toral do Vat­i­cano II seja a mes­ma pas­toral do sécu­lo XVIII. Mas seria ingên­uo ou desin­for­ma­do quem, para não afir­mar-lhe a iden­ti­dade, negasse todo o seu par­entesco. Tam­bém no Vat­i­cano II a matriz da pas­toral per­maneceu aque­la ilu­min­ista, emb­o­ra diver­sa­mente expres­sa e moti­va­da. Coube a Paulo VI retirá-la da areia movediça do ilu­min­is­mo e, na aber­tu­ra do segun­do perío­do con­cil­iar, trans­ferí-la para uma esfera român­ti­ca, para faz­er dela “uma ponte para o mun­do con­tem­porâ­neo”, comu­ni­can­do a ele “a sua vital­i­dade inte­ri­or… como fenô­meno viv­i­f­i­cante e instru­men­to de sal­vação do próprio mun­do”. A ave fênix tor­na­va-se assim uma ponte, um coe­fi­ciente de vida, um instru­men­to de sal­vação. Sem perder, porém, o seu par­entesco com a matriz ilu­min­ista, através da inspi­ração neo­mod­ernista dos seus apoiadores. Não à toa, a par­tir de uma teolo­gia pas­toral assim enten­di­da tem origem a sec­u­lar­iza­ção que, mais tarde, tri­un­fará na pre­sente fase pós-con­cil­iar. E se da ignorân­cia dos seus prece­dentes depende a inde­cisa noção de pas­toral­i­dade, de seu orig­inário par­entesco com eles depen­de­ria o absur­do da dog­máti­ca de um con­cílio que se auto-definiu sim­ples­mente pas­toral. A ave fênix, dessa for­ma, rev­ela o seu ros­to. Soman­do tudo isto, teria sido mel­hor se ela tivesse con­tin­u­a­do a escondê-lo.

Brunero Gher­ar­di­ni