CARDEAL GIUSEPPE SIRI: A RELAÇÃO ENTRE A ORDEM NATURAL E SOBRENATURAL EM HENRI DE LUBAC


Teologia / quinta-feira, agosto 22nd, 2013

Extraí­do do livro
Get­se­mani
Reflexões sobre a teolo­gia con­tem­porânea
 Cardeal Giuseppe Siri
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

Se volta­mos atrás a quarenta anos, ver­e­mos nos escritos de alguns teól­o­gos , um ren­o­va­do inter­esse acer­ca da relação entre aqui­lo que se chama­va, até então, ordem nat­ur­al e ordem sobre­nat­ur­al. É indis­pen­sáv­el enten­der que isto não é um argu­men­to abstra­to, uma espec­u­lação “dile­tante” para não ter con­se­quên­cias de lon­ga duração no pen­sa­men­to e na vida da Igre­ja. Seja em teolo­gia ou em filosofia e na ciên­cia exper­i­men­tal, poucos argu­men­tos, poucos casos são abso­lu­ta­mente neu­tros.

O P. Hen­ri de Lubac (1) havia for­mu­la­do naque­le perío­do con­sid­er­ações novas, não abso­lu­ta­mente novas, mas apre­sen­tadas com uma lin­guagem nova e com apli­cações par­tic­u­lares. Em 1946 pub­li­ca­va o seu livro “O Sobre­nat­ur­al”, onde expres­sou todo o seu pen­sa­men­to de então (2). Afir­ma­va que a ordem sobre­nat­ur­al está nec­es­sari­a­mente impli­ca­da na nat­ur­al. Como con­se­quên­cia deste con­ceito foi que fatal­mente o dom da ordem sobre­nat­ur­al não era gra­tu­ito porque era dev­i­do a natureza. Então, excluí­da a gra­tu­idade da ordem sobre­nat­ur­al, a natureza pelo mes­mo fato que existe se iden­ti­fi­ca com o sobre­nat­ur­al. Qual foi a razão ado­ta­da? O raciocínio fun­da­men­tal pode ser expres­so assim: o ato int­elec­tu­al com­por­ta a pos­si­bil­i­dade de referir-se a noção do infini­to e, por isso, o sobre­nat­ur­al é impli­ca­do na natureza humana per sé.

Esta visão da real­i­dade ínti­ma e essen­cial do homem foi difun­di­da nos escritos ante­ri­ores do P. De Lubac. Temos pas­sagens, por exem­p­lo em seu livro “Catoli­cis­mo” (3), do qual não se pode ver­dadeira­mente com­preen­der o teor, nem a insistên­cia com que são colo­cadas em rele­vo algu­mas expressões bíbli­cas, senão no espíri­to da dout­ri­na mais tarde expres­sa no “Sobre­nat­ur­al”.

Fica-se impres­sion­a­do pela insistên­cia com que o autor quer dar um sig­nifi­ca­do par­tic­u­lar a expressão de São Paulo “rev­e­lar em mim o seu fil­ho”, sig­nifi­ca­do que parece ir além da expli­cação admi­ti­da por todos os exege­tas que inter­pre­taram a palavra “em mim” (***), exata­mente como o Padre M. J. Lagrange (4)

O Padre de Lubac escreve:

Paulo pro­nun­ciou uma das as palavras mais novas e mais ric­as de sig­nifi­ca­do que jamais foi pro­nun­ci­a­da pelo homem, o dia em que con­strangi­do a apre­sen­tar a própria defe­sa aos seus caros Gálatas para recon­duzir-lhes à reta via, ditou estas palavras: “Mas quan­do aprou­ve aque­le que des­de o ven­tre da min­ha mãe, me escol­heu e me chamou medi­ante a sua graça, para rev­e­lar em mim o seu Fil­ho…” (Gal. 1,15–16). Não ape­nas – qual­quer que seja o prodí­gio exte­ri­or do qual os Atos dos após­to­los nos trans­mitem a história – rev­e­lar-me seu Fil­ho, mostrá-lo a mim em uma visão qual­quer ou faz­er-me com­preendê-lo obje­ti­va­mente, mas rev­elá-lo em mim. Rev­e­lando o Pai e sendo rev­e­la­do por Ele, Cristo aca­ba por rev­e­lar o homem a si mes­mo. Toman­do posse do homem, afer­ran­do-lhe e pen­e­tran­do até ao fun­do do seu ser, ain­da o impul­siona a cair em si, para desco­brir brus­ca­mente regiões até então insus­peitáveis. Para Cristo a pes­soa é adul­ta, o homem emerge defin­i­ti­va­mente do uni­ver­so.” (5)

Enquan­to, como o Padre M. J. Lagrange escreve, “em mim – ***” sig­nifi­ca:

Por meio de uma comu­ni­cação ínti­ma fez con­hecer a Paulo o Fil­ho de Deus, tesouro da sua inteligên­cia e do seu coração (Fil. 3,8). Dan­do a “***” o seu sig­nifi­ca­do nat­ur­al, pro­va-se, no ver­sícu­lo 16, não um ter­ceiro bene­fí­cio de Deus para Paulo, mas a real­iza­ção na sua alma do ape­lo do ver­sícu­lo 15”. (6)

O Padre de Lubac diz que o Cristo rev­e­lando o Pai e rev­e­la­do por Ele, aca­ba por rev­e­lar o homem a si mes­mo. Qual pode ser o sig­nifi­ca­do des­ta afir­mação? Ou Cristo é uni­ca­mente homem, ou o homem é divi­no. Tais con­clusões podem não ter sido expres­sas clara­mente, todavia deter­mi­nam sem­pre esta noção do sobre­nat­ur­al enquan­to impli­ca­do na natureza humana de per si. E então, sem querê-lo con­scien­te­mente, se abre o cam­in­ho ao antropocen­tris­mo fun­da­men­tal.

Em ger­al, a argu­men­tação espec­u­la­ti­va é con­duzi­da como se fos­sem excluí­dos os princí­pios, as noções aceitadas até então como princí­pios fun­da­men­tais da fé. Como con­cluir com sim­pli­ci­dade e lóg­i­ca não arti­fi­ciosa que a refer­ên­cia a noção do infini­to sig­nifi­ca auto­mati­ca­mente que o infini­to nela este­ja con­ti­do? O argu­men­to foi porém retoma­do vinte anos mais tarde no livro “O Mis­tério do Sobre­nat­ur­al” (7) com mati­za­ções e uma maior pre­ocu­pação pelas con­se­quên­cias que tais proposições pode­ri­am rep­re­sen­tar para os espíri­tos. É muito grave, de fato, emi­tir como princí­pio que a refer­ên­cia à ordem do infini­to implique que a essên­cia do infini­to este­ja na natureza humana.

Nen­hum sil­o­gis­mo, sútil e com­pli­ca­do que seja, pode preencher a difer­ença entre a noção do infini­to que o homem pode ter nele e a real­i­dade infini­ta de Deus, pos­i­ti­va, ale­ga­da, sen­ti­da e ao mes­mo tem­po inacessív­el; a difer­ença entre a aspi­ração para o infini­to e o próprio Infini­to assim como o homem o con­cebe. Cer­ta­mente se pode afir­mar que a aspi­ração do homem para a eternidade exprime a final­i­dade eter­na da alma cri­a­da, a pos­si­bil­i­dade para o homem de par­tic­i­par, na graça, a mil ilu­mi­nações da Vida eter­na, mas não se pode diz­er que esta nos­tal­gia implique que o homem exista des­de toda a eternidade e que pos­sa pos­suir a plen­i­tude eter­na de Deus. Do mes­mo modo, a noção do infini­to e a aspi­ração para o infini­to exprimem a pos­si­bil­i­dade para o homem de entrar em con­ta­to con­tin­uo com a infinidade de Deus. Não se pode diz­er, porém, que esta aspi­ração do homem  para o infini­to sig­nifique que o homem pos­sa par­tic­i­par por iden­ti­dade, na infini­tude div­ina. Nes­ta aspi­ração do homem pelo infini­to, estão sem­pre pre­sentes a noção e a certeza dos nos­sos lim­ites. O nos­so cam­in­ho pode ser inter­mináv­el, mas a própria essên­cia do nos­so cam­in­ho para o infini­to man­i­fes­ta a difer­ença entre a nos­sa noção, a nos­sa par­tic­i­pação e o Infini­to de Deus.

Em 1950, qua­tro anos depois da pub­li­cação do “Sobre­nat­ur­al”, foi emi­ti­da pela Igre­ja a Encícli­ca de Pio XII “Humani Gener­is”. E a propósi­to des­ta con­cepção, Pio XII disse expres­sa­mente nes­ta encícli­ca:
“Alguns defor­mam a ver­dadeira noção da gra­tu­idade da ordem sobre­nat­ur­al, quan­do pre­ten­dem que Deus não pode cri­ar seres dota­dos de inteligên­cia sem chamá-los e ordená-los a visão beat­i­fi­ca”. (8)

Inde­pen­den­te­mente do con­sen­so ou das críti­cas lev­an­tadas por esta encícli­ca, é incon­testáv­el que Pio XII foi o primeiro a colo­car o dito sobre pon­to extrema­mente del­i­ca­do e perigoso des­ta definição do homem e da sua relação com Deus. Se Deus, quan­do cria, imprime na criatu­ra isto que temos con­ce­bido como sobre­nat­ur­al, então, muda a noção deste sobre­nat­ur­al e da gra­tu­idade; daqui deri­va, mal­gra­do todos os esforços para pro­fes­sar a gra­tu­idade do ato cri­ador de Deus, uma mul­ti­dão de con­sid­er­ações sobre o homem, sobre sua liber­dade, sobre a graça, sobre a relação do homem com Deus, sobre a liber­dade do homem e sobre a liber­dade de Deus, etc… Con­sid­er­ações que podem con­duzir ain­da – como muitas vezes con­duz­iu – a inver­são dos princí­pios essen­ci­ais da Rev­e­lação. Facil­mente esta não-gra­tu­idade da ordem sobre­nat­ur­al – para cada caso par­tic­u­lar – con­duz a uma espé­cie de monis­mo cós­mi­co, a um ide­al­is­mo antropocên­tri­co.

***

No novo livro “O Mis­tério do Sobre­nat­ur­al”, o Padre de Lubac expli­ca algu­mas insu­fi­ciên­cias da expressão do seu primeiro livro “O Sobre­nat­ur­al”, mas sus­ten­ta sem­pre a mes­ma tese e quer ape­nas evi­tar novos mal-enten­di­dos. (9)

Ele pro­duz e entre­laça, com uma sur­preen­dente sagaci­dade, sil­o­gis­mos e espec­u­lações, no esforço de equi­li­brar os dois con­ceitos: de um lado o sobre­nat­ur­al impli­ca­do na natureza des­de a cri­ação, e do out­ro a gra­tu­idade do sobre­nat­ur­al, da graça. Se pre­ocu­pa em defend­er-se da acusação da “Humani Gener­is”… Quem leu o seu livro se dá con­ta clara­mente des­ta pre­ocu­pação do P. De Lubac e segu­ra­mente for­mu­la­rá a mes­ma per­gun­ta, colo­ca­da pelo próprio P. De Lubac no fim do livro: “Por qual razão nos delong­amos em vão sobre este argu­men­to com tan­tos dis­cur­sos e mul­ti­pli­camos inutil­mente tan­tas fras­es e dize­mos uma tal mul­ti­dão de palavras? (10)

Aqui talvez, con­tin­ua de Lubac, aqui­lo que mais de um leitor poderá diz­er, per­cor­ren­do este tra­bal­ho. Aqui, a cada modo, aqui­lo que o autor não pode­ria deixar de per­gun­tar-se muito fre­quente­mente, a seguir um dis­cípu­lo medieval de San­to Agostin­ho e de San­to Tomás, que um dia se inter­ro­ga­va de tal modo, pre­cisa­mente a propósi­to do nos­so argu­men­to”. (11)

Uma humilde inter­ro­gação; a respos­ta porém que o próprio P. de Lubac dá mais abaixo à sua per­gun­ta causa per­plex­i­dade: “A respos­ta foi escri­ta na natureza da nos­sa inteligên­cia, que não pode rece­ber a rev­e­lação div­ina sem que subita­mente sur­jam naque­la mil questões, que se ger­am uma a par­tir da out­ra. Ela não pode faz­er menos que respon­der. Mas, nas suas expli­cações sem­pre oscilantes, por quan­to pareça andar adi­ante, sabe não andar nun­ca ao encon­tro de ter­ras descon­heci­das”. (12)

A respos­ta do P. de Lubac rev­ela os seus critérios à respeito das suas vias de con­hec­i­men­to e ain­da a sua ati­tude int­elec­tu­al a respeito do grande prob­le­ma da relação entre Deus e o homem. Isto expli­ca a impos­si­bil­i­dade de encon­trar para esta via o equi­líbrio do qual temos fal­a­do e um con­hec­i­men­to que, em har­mô­nia com a Rev­e­lação, com a mis­éria e de uma respos­ta a pro­fun­da aspi­ração de paz do homem. Os nos­sos critérios a respeito das vias de con­hec­i­men­to são ver­dadeiros e obje­tivos quan­do surgem em har­mô­nia estáv­el, clara e ime­di­a­ta com os grandes dados eter­nos da Rev­e­lação.

Em todo caso, o P. de Lubac fala de um “dese­jo nat­ur­al abso­lu­to” da visão de Deus. Esta noção do dese­jo nat­ur­al abso­lu­to descar­ta, mal­gra­do todos os esforços espec­u­la­tivos empre­ga­dos, a gra­tu­idade do sobre­nat­ur­al, isto é, da visão beat­i­fi­ca. E nis­to “a inteligên­cia”, a qual aci­ma se ref­ere o P. de Lubac, não pode ser de grande aju­da soz­in­ha. De fato, per­manece a antin­o­mia. Essa per­manece e teve con­se­quên­cias muito grandes nas con­sciên­cias.

Para se dar con­ta do ori­en­ta­men­to ger­al do pen­sa­men­to e da lin­guagem do P. de Lubac e do seu papel na nova teolo­gia con­tem­porânea, e ain­da para se dar con­ta de como per­manece a antin­o­mia, da qual falam­os, bas­ta referir-se a algu­ma fór­mu­la e algu­mas afir­mações fun­da­men­tais do “Mis­tério do Sobre­nat­ur­al”:

- Primeiro tipo de afir­mações:

O ‘dese­jo de ver Deus’, não pode­ria ser eter­na­mente frustra­do sem um sofri­men­to essen­cial”. (13)

A vocação de Deus é con­sti­tu­ti­va. A min­ha final­i­dade, da qual este dese­jo é expressão, foi escri­ta no meu próprio ser, tal como foi colo­ca­do por Deus neste uni­ver­so. E pela von­tade de Deus, eu hoje não ten­ho out­ro fim real, isto é, real­mente anex­a­do à min­ha natureza e ofer­e­ci­do à min­ha adesão – sob qual­quer for­ma isto se ver­i­fi­ca – senão aque­le de ‘ver Deus’”. (14)

Em out­ros ter­mos: o ver­dadeiro prob­le­ma, se hou­ver, se colo­ca para o ser, o qual a final­i­dade é ‘já’, se si pode diz­er, toda sobre­nat­ur­al, porque tal é, em efeito, o nos­so caso. Colo­ca-se para a criatu­ra para quem a ‘visão de Deus’ imprime não ape­nas um fim pos­sív­el, ou futur­ista – mes­mo o fim que é mais con­ve­niente – mas o fim que, a jul­gar humana­mente, parece dev­er ser, porque é, pela hipótese, o fim que Deus anexa a esta criatu­ra. Des­de o momen­to que eu exis­to, toda inde­ter­mi­nação é reti­ra­da. E qual­quer coisa pode­ria ser antes, ou que isso pode­ria ser qual­quer coisa em uma existên­cia real­iza­da de for­ma diver­sa, nen­hu­ma out­ra final­i­dade parece mais pos­sív­el para mim que aque­la que se encon­tra ago­ra, de fato, inscri­ta no fun­do da min­ha natureza. Existe ape­nas um fim do qual, por con­se­quên­cia, por­to em mim, con­sciente ou não, o ‘dese­jo nat­ur­al’”.  (15)

E, a este propósi­to o P. de Lubac afir­ma a cor­re­spondên­cia do seu pen­sa­men­to com a dout­ri­na do “exis­ten­cial sobre­nat­ur­al per­ma­nente, pré-orde­na­do a graça” do P. Karl Rah­n­er, do qual falare­mos mais tarde. (16)

- Segun­do tipo de afir­mações:

O nos­so Deus é ‘um Deus que ultra­pas­sa toda capaci­dade de dese­jo’ (Ruys­broeck). É um Deus, con­tra o qual seria blas­femo e tolo supor que algu­ma exigên­cia de qual­quer ordem nun­ca pode­ria se impor, qual­quer que seja a hipótese que alguém pos­sa ter no espíri­to, e qual­quer que seja a situ­ação conc­re­ta onde se pos­sa imag­i­nar a criatu­ra”. (17)

Deus pode­ria recusar-se a sua criatu­ra, assim como Ele podia e quis doar-se. A gra­tu­idade da ordem sobre­nat­ur­al é par­tic­u­lar e total. O é em si mes­ma. O é para qual­quer um de nós. O é em ‘relação aqui­lo que para nós, tem­po­ral­mente e logi­ca­mente, o pre­cede. E mais – e é isto que algu­mas teo­rias, que nós dis­cu­ti­mos, não nos pare­ce­r­am deixar ver o sufi­ciente – esta gra­tu­idade é sem­pre ina­ta. E per­manece em toda hipótese. É sem­pre nova. Per­manece em todas as eta­pas da preparação do Dom, em todas as eta­pas do próprio Dom. Nen­hu­ma “dis­posição” na criatu­ra, poderá jamais de nen­hu­ma maneira pren­der o Cri­ador. Con­stata­mos aqui com ale­gria o acor­do sub­stan­cial não ape­nas de San­to Agostin­ho, de San­to Tomás e dos out­ros anti­gos, mas ain­da de San­to Tomás e de seus comen­ta­dores, a começar por Gae­tano; como ain­da dos teól­o­gos que, no nos­so próprio sécu­lo, divergem mais ou menos, nas suas ten­ta­ti­vas de expli­cação. Como o dom sobre­nat­ur­al em nós nun­ca é nat­u­ral­izáv­el, nun­ca a beat­i­tude sobre­nat­ur­al pode tornar para nós – qual­quer que seja a nos­sa condição real ou sim­ples­mente pen­sáv­el – uma meta ‘necessária e exigív­el”. (18)

Ape­nas estas afir­mações, citadas como exem­p­lo, seri­am sufi­cientes para colo­car em evidên­cia a antin­o­mia e o vín­cu­lo cego no qual o P. de Lubac faz entrar o pen­sa­men­to e o coração, na ten­ta­ti­va de fun­dar a sua própria dout­ri­na a respeito do sobre­nat­ur­al. Lev­an­tam-se numerosas questões sem pos­si­bil­i­dade de respos­ta ou de uma ori­en­tação do pen­sa­men­to, que ven­ha a dar paz. Como enten­der, por exem­p­lo que o meu “fim real” – isto é “ver Deus” – é “anex­a­do a min­ha natureza”? E que ao mes­mo tem­po é ofer­ta­do para a min­ha adesão? Quan­do acon­tece isto? No momen­to da min­ha cri­ação, ou depois, durante o tem­po da min­ha vida ter­restre? Se acon­tece no momen­to da min­ha cri­ação, como pos­so escol­her a min­ha adesão? Se ocorre depois, durante a min­ha vida, como pos­so diz­er que “a vocação de Deus é con­sti­tu­ti­va”, isto é, o a min­ha vocação a visão de Deus é uma parte inte­grante da criatu­ra que somos?

Se “do momen­to em que exis­to, toda inde­ter­mi­nação é reti­ra­da”, como pode­ria ter lugar então a min­ha adesão depois dos primeiros momen­tos da min­ha existên­cia? De fato, se tudo é deter­mi­na­do de for­ma abso­lu­ta, como insiste de Lubac, não existe a pos­si­bil­i­dade para mim de adesão ou não adesão.

Se por­to em mim, ain­da sem ter con­sciên­cia – como diz o P. de Lubac – o “dese­jo nat­ur­al”, como é ofer­e­ci­do este fim para a min­ha adesão?

O P. de Lubac repete que Deus pode­ria não me cri­ar. Porém, quis me cri­ar. Então podemos nos  per­gun­tar: uma vez que me criou, como pos­so diz­er que não foi empen­hado, des­de a min­ha cri­ação, a dar me a ale­gria de vê-lo, porque o dese­jo nat­ur­al abso­lu­to de vê-lo, colo­cou Ele mes­mo no cen­tro do meu ser com seu ato cria­ti­vo?

Se admi­to que, com o seu ato cria­ti­vo, Deus empen­hou e não pode recusar a mim a min­ha real­iza­ção, isto é, a ale­gria de vê-lo, como poderei diz­er que “a gra­tu­idade da ordem sobre­nat­ur­al é par­tic­u­lar e total; o é em si mes­ma, o é para qual­quer um de nós”? Pode­ria-se pre­tender que a gra­tu­idade da ordem sobre­nat­ur­al é a gra­tu­idade da cri­ação, isto é, admi­tir a iden­ti­dade entre a ordem nat­ur­al e sobre­nat­ur­al; isto porém o P. de Lubac não quis admi­tir. Acei­ta que nos seja a graça da cri­ação e que a parte nos seja a graça do chama­do sobre­nat­ur­al.

Como podemos diz­er que “nen­hu­ma dis­posição da criatu­ra poderá nun­ca de nen­hum modo pren­der o Cri­ador”, e ao mes­mo tem­po diz­er que “a vocação de Deus é con­sti­tu­ti­va”? Tal “dis­posição”, de fato, o Cri­ador a impôs a criatu­ra. Como então pro­por que “a própria dis­posição de Deus não o prende de nen­hu­ma maneira”? Qual a ideia que poder­e­mos ter então do Cri­ador e da sua supre­ma liber­dade?

Não é nem logi­ca­mente, nem espir­i­tual­mente con­ve­niente apre­sen­tar de todos os mod­os – como no caso da citação do P. de Lubac aci­ma relata­da – que Deus não foi obri­ga­do a nos cri­ar assim como nos criou, para afir­mar a gra­tu­idade da ordem sobre­nat­ur­al; não é con­ve­niente, porque é con­fundir os prob­le­mas e as real­i­dades. Diz­er na ver­dade, que Deus pode­ria recusar a dar-se a sua criatu­ra, como pode e quis fazê-lo, é como falar do iní­cio da cri­ação do homem, porque a frase sig­nifi­ca que Deus, já escol­heu doar-se. E quan­do falam­os da gra­tu­idade da ordem sobre­nat­ur­al, falam­os de todas as graças e de todas as inter­venções de Deus na nos­sa vida ter­restre, isto sem nen­hum méri­to e nen­hu­ma pos­sív­el exigên­cia da nos­sa parte.

Se “do momen­to que exis­to, toda inde­ter­mi­nação é reti­ra­da”, isto é se tudo é escrito no homem des­de o momen­to da sua cri­ação e de for­ma abso­lu­ta, como disse o P. de Lubac, como a criatu­ra não teria uma exigên­cia para os apetites nela escritos, e como con­ce­ber que o Cri­ador destes apetites e destes dese­jos “não este­ja pre­so de modo nen­hum”?

Podemos nos colo­car uma infinidade de per­gun­tas que se esten­dem a todas os domínios e sob vários ângu­los, da definição do sobre­nat­ur­al até as mais evi­dentes e práti­cas con­se­quên­cias na vida da Igre­ja. Mais tarde, porém, e em uma per­spec­ti­va mais glob­al, se poderá med­i­tar mais pro­fun­da­mente sobre o con­jun­to deste grave prob­le­ma. Para o momen­to, é sufi­ciente não esque­cer dis­to: se si pode diz­er que o homem des­de a sua cri­ação por­ta a pos­si­bil­i­dade de escu­tar o chama­do de Deus para o fim sobre­nat­ur­al ao qual é des­ti­na­do, isto não sig­nifi­ca que esta pos­si­bil­i­dade de escu­tar seja já o chama­do, e que o sobre­nat­ur­al, ao qual o homem é chama­do, este­ja já pre­sente nele.

Fonte: “Get­sê­mani, Reflexões sobre a teolo­gia con­tem­porânea, Capí­tu­lo 3, PRINCÍPIO ETERNOS E PONTOS DE REFERÊNCIA TEMPORAIS PARA A COMPRENSÃO DO MOVIMENTO TEOLÓGICO ATUAL. A relação entre ordem nat­ur­al e ordem sobre­nat­ur­al – Três casos sig­ni­fica­tivos: a – P. Hen­ri de Lubac. b – P. Karl Rah­n­er. c – Jacques Mar­i­tain. O impalpáv­el”, Cardeal Giuseppe Siri, Frater­nidade da San­tís­si­ma Virgem, Roma.

Notas:

(1) HENRI DE LUBAC S. I., nasci­do em 1896, pro­fes­sor na Fac­ul­dade teológ­i­ca di Lyon-Fourvière e no ‘Insti­tu­to Católi­co de Paris, per­i­to no Con­cilio Vat­i­cano II, mem­bro da Com­mis­são Teológ­i­ca Inter­na­cional.

(2) H. DE LUBAC, «Sur­na­turel», Etudes his­toriques. Ed. du Seuil, Paris 1946.

(3) H. DE LUBACCatholi­cisme, les aspects soci­aux du dogme. Ed. du Cerf, Paris 1938; 4a ed. 1947.

(4) MARIE-JOSEPH LAGRANGE O.P. (1855–1938), pro­fes­sor de exe­ge­si no ‘Insti­tu­to Católi­co de Toulouse e fun­dador da “Ecole Biblique de Jérusalem”.

(5) H. DE LUBACCatholi­cisme, ed. cit. pp. 295–296

(6) M. J. LAGRANGEl’Epitre aux Galates, Lecof­fre ed., Paris 1918, p. 14.

(7) H. DE LUBACLe Mys­tère du Sur­na­turel, Aubier, Paris 1965; Ed. ital­iana, Il Mis­tero del Sopran­nat­u­rale, Il Muli­no ed., Bologna 1967.

(8) cf. Denz. 3891.

(9) Il Mis­tero del Sopran­nat­u­rale, p. 76.

(10) «Ut quid in vanum bane mate­ri­am in tot ser­mones pro­rumpimus, et frus­tra tot elo­quia mul­ti­pliea­mus et in tan­tam ver­bo­rum mul­ti­tudinem jacimus?». (Il Mis­tero del Sopran­nat­u­rale, p. 308).

(11) Il Mis­tero del Sopran­nat­u­rale, p. 308, citazione d’Egidio Romano.

(12) Il Mis­tero del Sopran­nat­u­rale, p. 308

(13) Il Mis­tero del Sopran­nat­u­rale, p. 80.

(14) Il Mis­tero del Sopran­nat­u­rale, p. 80.

(15) Il Mis­tero del Sopran­nat­u­rale, p. 82.

(16) Il Mis­tero del Sopran­nat­u­rale, p. 82 nota. 4.

(17) Il Mis­tero del Sopran­nat­u­rale, p. 306.

(18) Il Mis­tero del Sopran­nat­u­rale, p. 307.