Salazar filósofo da política e verdadeiro homem de governo


Filosofia, História, Política / domingo, setembro 1st, 2013

 

 

[Extratos]

PADRE CURZIO NITOGLIA

[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

22 de jul­ho de 2010

http://www.doncurzionitoglia.com/salazar_filosofo_e_uomo.htm

 

 

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 Ai dos povos que não supor­tam a supe­ri­or­i­dade de seus grandes home­ns! Mais desven­tu­ra­dos ain­da aque­les onde a políti­ca não é orde­na­da de modo a per­mi­tir  aos home­ns de raro val­or a servirem as suas nações […]. Mas quase em toda parte os home­ns pare­cem hoje infe­ri­ores aos acon­tec­i­men­tos. Ao invés de lhes faz­er frente, ess­es ten­tam fugir. Eles se sen­tem fora de for­ma, inca­pazes de rea­gir de for­ma tão poderosa con­tra as forças des­en­cadeadas”. (Salazar)

 

Pról­o­go

 

JACQUES PLONCARD D’ASSAC,     que foi por muitos anos o con­fi­dente de Salazar, escreveu uma biografia (Salazar, Paris, Edi­tion de la Table Ronde, 1967; tr. It., Milão, Le Edi­zioni del Borgh­ese, 1968), na qual traça tam­bém a lin­ha do pen­sa­men­to políti­co do estadista por­tuguês. No pre­sente arti­go me baseio sobre o escrito do cele­bér­ri­mo con­tra-rev­olu­cionário francês (autor entra tan­tos out­ros livros, tam­bém de Doc­trines du Nation­al­isme, 1959; L’Etat cor­po­ratif, 1960; L’Eglise occupée, 1975; Le secret des Francs-Maçons, 1979; Apolo­gia del­la reazione, Milão, Edições de Borgh­ese, 1970, quan­do reas­sume em um capí­tu­lo a figu­ra de Mons. Hum­ber­to Benig­ni e a dout­ri­na do Sodal­i­tium Pianum fun­da­do por ele para com­bat­er o mod­ernismo e os mod­ernistas).

Vida

 

Salazar nasce em 28 de abril de 1889 em Vimiero as três da tarde e seu nome com­ple­to era ANTÔNIO DE OLIVEIRA SALAZAR. Em 1900 entra no Sem­i­nário e onde ficou até 1909, quan­do, aos dezen­ove anos, o deixou para empreen­der os estu­dos de jurisprudên­cia na Uni­ver­si­dade de Coim­bra. Por­tu­gal em 1910 pas­sa por uma onda de revoltas, depois do assas­si­na­to do rei Manuel II feito por dois maçons em 1º de fevereiro de 1908 e em 5 de out­ubro de 1910 vem ser procla­ma­da a Repúbli­ca filo-maçôni­ca e anti-cristã. Este acon­tec­i­men­to lev­ou o nos­so jovem estu­dante de leis a ocu­par-se aten­ta­mente dos even­tos políti­cos e ler a luz do ensi­na­men­to do sis­tema tomista e do Mag­istério Ecle­siás­ti­co, que havia rece­bido no Sem­i­nário.

 

Filosofia políti­ca tomista con­heci­da e vivi­da

 

Salazar des­de o inicío escreve que “o prob­le­ma nacional é primeiro um prob­le­ma de edu­cação e pouco impor­ta mudar o regime ou par­tido se não se ini­cia antes de tudo a mudar os home­ns. Neces­si­ta­mos de ver­dadeiros home­ns e é necessário edu­car-los”. A sua filosofia políti­ca é muito difer­ente daque­la de CHARLES MAURRAS. Por isto pre­cisa ocu­par-se antes de tudo da políti­ca (“poli­tique d’abord”), enquan­to o Por­tuguês havia enten­di­do que é necessário primeiro ocu­par-se do homem: se não tem ver­dadeiro homem, ani­mal racional e livre, equipa­do de inteligên­cia reta para con­hecer o ver­dadeiro e refu­tar o fal­so e de von­tade livre para faz­er o bem e fugir do mal, se este homem, que é tam­bém ani­mal social, não é edu­ca­do a ser dono de seu cor­po, de seus sen­ti­men­tos e de suas paixões e a realizar a sua final­i­dade na sociedade na qual vive, não vale nada uma “estru­tu­ra políti­ca” ou a for­ma de gov­er­no. Antes de tudo a for­mação do úni­co homem, da família que ele faz parte e então se poderá orga­ni­za cor­re­ta­mente a Sociedade civ­il, que está jun­to da família. Como não se pode edi­ficar uma casa se não se colo­cam os sin­gu­lares tijo­los um sobre o out­ro, assim não se pode orga­ni­zar o Esta­do, a soci­etas ou a polis, se primeiro não se edu­ca o homem e as famílias que a con­stituem. Para Salazar “são as idéias que gov­er­nam e dirigem os povos, e são os ver­dadeiros e os grandes home­ns que pos­suem as ver­dadeiras e grandes idéias”, mas para haver os ver­dadeiros grandes home­ns, que real­izam a natureza de ani­mais inteligentes deles, livres e sociáveis, é pre­ciso edu­car-los, for­má-los; então é necessário preparar um sério méto­do de edu­cação inte­gral do homem, no seu físi­co, na sua sen­si­bil­i­dade, na sua racional­i­dade livre e respon­sáv­el, chama­da a realizar-se em sociedade com out­ros home­ns. Para toda a sua vida políti­ca (1926–1970) Salazar procu­rará for­mar ver­dadeiros home­ns, ver­dadeiras famil­iar e uma ver­dadeira Sociedade, Nação ou Pátria.

·         Se Salazar não é mau­r­ras­siano, não que­ria nem mes­mo a cri­ação em Por­tu­gal de uma “Democ­ra­cia Cristã” do tipo do Sil­lon francês, mas tra­bal­hou para o inser­i­men­to dos princí­pios católi­cos na vida social e políti­ca de seu país, con­trar­ian­do o espíri­to católi­co lib­er­al. Ele é a “pro­va prova­ta” que se pode ser inte­gral­mente católi­co, sem ser mau­r­ras­siano.

 

Fidel­i­dade ao mag­istério

 

·         O “peca­do da Monar­quia”, a saber ou reter que a úni­ca for­ma pos­sív­el de gov­er­no seja aque­la monárquica, como pen­savam os inimi­gos de Leão XIII na França em 1892 e depois os mau­r­ras­sianos em 1926, não há nun­ca toca­do a inteligên­cia for­ma­da no tomis­mo e nas dire­ti­vas do supre­mo Mag­istério pon­tif­í­cio, de Salazar: “a for­ma de gov­er­no é secundária. Aqui­lo que con­ta são os home­ns”. Em 1918 se for­ma e é nomea­do pro­fes­sor de Ciên­cia de Dout­ri­na Econômi­ca na Uni­ver­si­dade de Coim­bra. Ele ini­cia o ensi­na­men­to com a ideia dire­triz de toda sua vida:”quer ser for­mador de home­ns, acred­i­ta na vir­tude do ensi­na­men­to, o faz pas­sar para ação políti­ca e a dis­to faz depen­der o futuro do renasci­men­to politi­co do seu país”. Segun­do nos­sa fonte, para Salazar “ape­nas a ação dos par­tidos políti­cos não podem resolver os grandes prob­le­mas que nos cer­cam. […] A solução dos quais – cos­tu­ma­va diz­er – se encon­tra muito mais em cada um de nós que na cor políti­ca dos min­istros. Eu tra­bal­ho para faz­er dos meus estu­dantes, home­ns, no mais alto sig­nifi­ca­do dos ter­mos e do bom por­tuguês. […] O prob­le­ma nacional aque­le da edu­cação e do desen­volvi­men­to inte­gral e har­mo­nioso de todas as fac­ul­dades do indi­ví­duo e não ape­nas da inteligên­cia”. Cer­ta­mente a políti­ca, como vir­tude prudên­cia social, é impor­tante para Salazar, mas vem somente depois de haver for­ma­do o homem, como a soci­etas ou a polis se for­mam somente depois que várias famílias se unirem em vista um fim e embaixo de uma autori­dade.

·         Salazar é can­dida­to do “Cen­tro Católi­co” ao Par­la­men­to, é eleito e em 2 de setem­bro de 1921 par­tic­i­pa pela primeira e últi­ma vez de uma sessão par­la­men­tar. Dali per­manece choca­do. Na ver­dade um min­istro por­tuguês do par­tido con­ser­vador, do qual fazia parte a maio­r­ia, depois de ter dito que na França os pro­gres­sis­tas havi­am ven­ci­do as eleições, lhes disse: “Não podemos faz­er nada. É o momen­to da esquer­da!”. Ele vê – naque­le instante – toda a inutil­i­dade e vacuidade da vida par­la­men­tar. O gov­er­no tin­ha a maio­r­ia, mas se sen­tia impo­tente de gov­ernar porque em um país estrangeiro a esquer­da havia ven­ci­do as eleições. “O nos­so futuro depende só de nós, comen­ta Salazar, o pre­sente ain­da é nos­so”, e na mes­ma noite revisa a renún­cia do car­go de dep­uta­do. Apre­ci­a­va a políti­ca como prudên­cia social, mas não a par­tidária par­la­men­tarista e o democ­ra­tismo rosseau­ni­ano.

 

As três for­mas de gov­er­no

 

Em 1922 enfrenta o prob­le­ma da for­ma políti­ca a ser dada a Por­tu­gal como filó­so­fo da políti­ca e não como par­la­men­tar. Ele se guia pelo ensi­na­men­to que em 18 de dezem­bro de 1919 Ben­to XV na Epís­to­la ao Cardeal Patri­ar­ca de Lis­boa Cele­bér­ri­ma evenisse  tin­ha dado aos por­tugue­ses retoman­do a Car­ta Encícli­ca que Leão XIII havia escrito aos France­ses, em 1892 (Au milieu des sol­lic­i­tude). Papa Gia­co­mo Dal­la Chiesa exor­ta­va os católi­cos por­tugue­ses a sub­me­terem se a autori­dade da Repúbli­ca, porque todas as for­mas de gov­er­no em si são lic­i­tas; o que a faz boa ou ruim são as leis que elas fazem.

Ora a monar­quia em Por­tu­gal foi der­ruba­da em 1909 e não sem nen­hu­ma pos­si­bil­i­dade de vitória. Por­tan­to os católi­cos devem faz­er de modo que a Repúbli­ca por­tugue­sa ten­ha um par­la­mente que leg­isle con­forme de acor­do com o dire­ito divi­no-nat­ur­al: “Que os fiéis obe­deçam as autori­dades, qual­quer que seja o orde­na­men­to do Esta­do. Dis­so depende o bem comum, que é a supre­ma lei do Esta­do. […]. É dev­er cristão a fiel sub­mis­são ao poder con­sti­tuí­do, como ensi­nou admi­rav­el­mente Leão XIII na Car­ta Encícli­ca Au milieu des sol­lic­i­tudes de 16 de fevereiro de 1892. […]. A Igre­ja recen­te­mente tem ren­o­va­do relações mútuas com a Repúbli­ca Por­tugue­sa, os católi­cos de val­or, por sua vez sub­me­tem-se com boa von­tade ao poder civ­il como ago­ra con­sti­tuí­do”. A políti­ca do “re-aviz­in­hamen­to” em Por­tu­gal teve bom êxi­to, porque os católi­cos por­tugue­ses obe­de­ce­r­am ao Papa e seu pen­sador era Salazar; na Itália a políti­ca de “Rec­on­cil­i­ação” de 1929 teve bom êxi­to (ver Motu Pro­prio Non Abbi­amo Bisog­no de Pio XI), porque era Chefe do gov­er­no um homem que não tin­ha os pre­con­ceitos da esco­la lib­er­al do ressurg­i­men­to de abso­lu­ta sep­a­ração entre Esta­do e Igre­ja,  como declar­ou ele e o Papa Pio XI; somente na França o “Ral­liement” fal­ha, porque o gal­i­can­is­mo não aceitou o con­sel­ho do Papa e se agravou sobre Pio XI em 1926 com Mau­r­ras, que era ateu e ten­dia para a sep­a­ração entre Esta­do e Igre­ja, entre a políti­ca e a moral. O essen­cial para a Igre­ja e para Salazar é que a Repúbli­ca recon­heça que “a autori­dade vem de Deus” (São Paulo) remo­ta­mente e do povo somente como canal, o qual des­igna um nome e lhe trans­mite, como  um “canal”, a potes­tas quae est nisi a Deo como “fonte”. Tam­bém a Repúbli­ca não hipote­ca o democ­ra­tismo igual­i­tarista e con­trat­u­al­ista de Rousseau, mas acei­ta a hier­ar­quia nat­ur­al como meio necessário ao homem, que vive em sociedade, para alcançar o bem comum tem­po­ral sub­or­di­na­do àquele espir­i­tu­al. Out­ro tema impor­tante de filosofia políti­ca, toca­do naque­le por Salazar, é aque­le da legit­im­i­dade do poder. Ele se baseia na final­i­dade do poder, que deve faz­er leis con­forme ao fim da sociedade; uma lei defor­ma­da daque­la div­ina e nat­ur­al non est lex sed cor­rup­tio legis.

 

Gov­er­no “de fato” con­sti­tuí­do e legí­ti­mo

 

Salazar se per­gun­ta, e responde de acor­do com a dout­ri­na católi­ca, sub­li­ma­da em SANTO TOMÁS DE AQUINO, na segun­da escolás­ti­ca espan­ho­la e por­tugue­sa (JOÃO DE SANTO TOMÁS); o gov­er­no sim­ples­mente con­sti­tuí­do, que não seja ain­da legí­ti­mo, deve ser obe­de­ci­do? Ora, “con­sti­tuí­do” equiv­ale a “eleito, fun­da­do, unido, esta­b­ele­ci­do ou pre­sente” (N. ZINGARELLI). Se isto não vio­la a lei div­ina e nat­ur­al, se lhe deve obe­diên­cia e, se leg­is­la não para o bem comum ou em vista do fim da sociedade, a revol­ta é lici­ta somente com a condição que seja a extrema ratio, que se este­ja cer­to do suces­so do suces­so do golpe de Esta­do e que a situ­ação pos­te­ri­or não seja igual ou pior aque­la do gov­er­no der­ruba­do (V. “Tiran­nide e tiran­ni­cio”, neste mes­mo site). O gov­er­no por­tuguês não obri­ga­va os súdi­tos a vio­lar a lei div­ina e podia estando “legal­mente con­sti­tuí­do” tornar-se “moral­mente legí­ti­mo” por mod­um fac­ti; por isso foi necessário – segun­do o nos­so estadista filó­so­fo – entrar na are­na políti­ca e faz­er o par­la­men­to social­mente ou politi­ca­mente bom, que fez, o que é, das  leis con­forme aque­la divi­no-nat­u­rale e cor­re­spon­dente ao fim sociedade civ­il. Para Salazar a políti­ca do “Re-aviz­in­hamen­to” era líci­ta e tam­bém lou­váv­el, tam­bém porque “é necessário sub­or­di­nar a prefer­ên­cia e a ativi­dade políti­ca a defe­sa da religião […]. Os católi­cos, então, devem obe­de­cer ao poder con­sti­tuí­do e a princí­pio aque­le legí­ti­mo” em tudo que não é con­trário a lei de Deus. Ora a for­ma de gov­er­no repub­li­cana não é má em si. Então se pode e deve sus­ten­tar a Repúbli­ca por­tugue­sa no gov­er­no des­de 1910 e bus­car fazê-la sem­pre em maior con­formi­dade ao Reino social de Cristo. Para o nos­so estadista filó­so­fo, “é mais urgente e impor­tante den­tro do atu­al regime con­sti­tuir a liber­dade fun­da­men­tal da Igre­ja e das almas que sub­sti­tuir um regime (repúbli­ca) por um out­ro (monar­quia). […]. O que con­ta é o inter­esse da Nação e da Igre­ja, o bem comum tem­po­ral e espir­i­tu­al. A trans­for­mação em mel­hor Repúbli­ca por­tugue­sa será inter­na, com a proibição dos par­tidos e orga­ni­za­ções cor­po­ra­ti­vas, […] superan­do o indi­vid­u­al­is­mo par­tidário do par­la­men­taris­mo democráti­co com a ordem cor­po­ra­ti­va”.

 

Democ­ra­cia aris­totéli­ca-tomista

 

Como se vê, a “democ­ra­cia” segun­do Salazar é aque­la clás­si­ca de Aristóte­les e San­to Tomas e não aque­la de Jean Jacques Rousseau. A “políti­ca” é a prudên­cia social e  não a “par­tidária”, que leva divisão a sociedade ao invés de uní-la em vista do bem comum. Hoje, infe­liz­mente, a tendên­cia é con­fundir “políti­ca” com “par­tido” ou democ­ra­cia par­la­men­tar; Nada mais fal­so. O homem nat­u­ral­mente é um ani­mal social; nada mais “inat­ur­al abstra­to e fal­so que o homem isolado”ou que o indi­vid­u­al­is­mo lib­er­al, assim como o cole­tivis­mo pan-estadis­mo total­itário. Como se vê, a con­cessão políti­ca de Salazar é a filosofia social; da Igre­ja, dos Padres Ecle­siás­ti­cos e dos Escolás­ti­cos, espe­cial­mente de San­to Tomás de Aquino. A sua práx­is políti­ca e de gov­er­no deri­va e segue como con­clusão práti­ca des­ta filosofia. Salazar foi com­para­do a Sólon, a Men­tor (o sábio con­sel­heiro de Uliss­es na Odis­séia) ou a Platão, ele é “mais um filó­so­fo que um dita­dor, um daque­les sábios da anti­ga Gré­cia que velavam sobre a sorte dos home­ns, como pro­te­tores e mod­er­adores, ou que escrevi­am as leis” (Gabriel Bois­sy, La Tri­bune des Nations, 30 de abril de 1936). Sem dúvi­das ele é um pen­sador, um con­tem­pla­ti­vo com­ple­ta­do por um homem de ação.

 

A questão operária: nem lib­er­al­is­mo e nem comu­nis­mo

 

A questão operária, agi­ta­da pelo social-comu­nis­mo, foi resolvi­da por Salazar segun­do os princí­pios dados por Leão XIII na Car­ta Encícli­ca Rerum Novarum de 1891 e retoma­dos por Pio XI na Quadra­ges­i­mo anno em 1931: “é erra­do crer que somente os operários tra­bal­ham e pro­duzam; que as out­ras class­es vivam do seu esforço como par­a­sitas. Há uma hier­ar­quia no tra­bal­ho: tra­bal­ho de invenção, de orga­ni­za­ção, de direção e de exe­cução. […]. Há uma desigual­dade nat­ur­al. […]. Há uma riqueza-egoís­mo, des­ti­na­da ao con­sumo e ao paga­men­to das neces­si­dades cri­adas arti­fi­cial­mente da sociedade con­sum­is­tas [ cre­matís­ti­ca (ciên­cia que se ocu­pa da riqueza), logís­ti­ca ou mon­etária]; há uma riqueza-sac­ri­fí­cio, que exige pre­v­idên­cia, a econo­mia e o espíri­to de sac­ri­fí­cio [econo­mia ou “prudên­cia famil­iar”]”. Salazar evi­ta as escol­has do social­is­mo e do lib­er­al­is­mo, fun­dan­do-se sobre a dout­ri­na social da Igre­ja. Em 1926, diante do peri­go de um golpe de esta­do comu­nista o gen­er­al Car­mona, toma o poder e nomeia Salazar min­istro das Finanças, da guer­ra, em segui­da do inte­ri­or, final­mente Pres­i­dente do Con­sel­ho, sem par­la­men­taris­mo, em um Esta­do Nacional cor­po­ra­ti­vo a saber em uma ditadu­ra pro tem­pore. Salazar, antes de ser um estadista é um homem de gov­er­no, e um filó­so­fo da políti­ca; era usu­al ele diz­er: “ai dos povos nos quais os gov­er­nos não podem definir os princí­pios supe­ri­ores, uma dout­ri­na econômi­ca e tam­bém uma filosofia, a qual obe­deça sua admin­is­tração públi­ca”. Pre­ciso “voltar as costas ao lib­er­al­is­mo, que desmem­brou o indi­ví­duo da sua família e da sociedade, […] para voltar me em direção a um Esta­do cor­po­ra­ti­vo e social em estre­i­ta relação com a con­sti­tu­ição nat­ur­al da Sociedade civ­il: as famílias, as paróquias, as comu­nidades, as cor­po­rações, que for­mam a Nação”. A dout­ri­na econômi­ca, antes que a Uni­ver­si­dade e do Mag­istério ecle­siás­ti­co, Salazar apren­deu com sua mãe. Ele o con­fes­sou respeito ao “mila­gre da recu­per­ação econômi­ca por­tugue­sa”: “Eu apren­di com a min­ha mãe. Admin­istro o Esta­do como um hotel, com decisões e espíri­to de econo­mia”. O lib­er­al­is­mo, ao invés, con­funde a econo­mia ou prudên­cia domés­ti­ca com a logís­ti­ca ou arte de enrique­cer, que faz da riqueza o fim e não um meio.

 

Salazar e Fran­co

 

Salazar em 1935 deve enfrentar o prob­le­ma da rev­olução comu­nista na Espan­ha e a reação do gen­er­alís­si­mo FRANCISCO FRANCO (1892–1975). Ele se colo­cou aber­ta e ime­di­ata­mente ao lados dos Caudil­hos, emb­o­ra Inglater­ra, França e Esta­dos Unidos eram hostis. Pelo con­trário, des­de que a Espan­ha repub­li­cana tin­ha ten­ta­do, medi­ar a infil­tração da maçonar­ia inter­na­cional em Por­tu­gal, para der­rubar o legí­ti­mo gov­er­no, Salazar aproveitou a ocasião para dis­solver a maçonar­ia nove anos depois da sua toma­da do poder. A maçonar­ia o con­de­nou a morte. LÉON DE PONCINS (Le por­to­gal renait) o escreve a letras claras. Ele se encon­tra­va em Lis­boa, em maio de 1935 e con­stata­va que “a polí­cia pren­deu, neste dia, no por­to, um con­heci­do ter­ror­ista, Quin Mar­in­heiro, escapa­do do exte­ri­or em 1921 e ago­ra de vol­ta em Por­tu­gal para orga­ni­zar um aten­ta­do con­tra o Pres­i­dente da Repúbli­ca Car­mona, o Primeiro Min­istro Salazar e con­tra Cabral, autor da lei con­tra a maçonar­ia”. Em 13 de jul­ho de 1936 foi assas­si­na­to, provavel­mente por Dolores Ibar­ruri o líder monárquico espan­hol Cal­vo Sote­lo. O ter­ror se espal­ha em toda Espan­ha. Fran­co se lev­an­ta con­tra a judaico-maçonar­ia e o bolchevis­mo anti­cristão em uma ver­dade e própria cruza­da. Salazar declara:”se for necessário, imitare­mos a hero­ica juven­tude da Itália e da Ger­mâ­nia. Lutare­mos com as armas em pun­ho” e fun­da a “Legião por­tugue­sa”, um cor­po de vol­un­tários pron­tos a com­bat­er con a idéia e com a espa­da, com o livro e o mos­quete. Ele “se faz sem­pre mais con­ta que a guer­ra civ­il da Espan­ha é somente um pre­tex­to que já prepara o grande choque final: a “cruza­da” da democ­ra­cia con­tra o fas­cis­mo”. Domin­go 4 de jul­ho de 1937 uma bom­ba vem a explodir a três met­ros de Salazar que per­manece incólume e se foi tran­quil­a­mente para a Mis­sa e depois se colo­ca ao tra­bal­ho comen­tan­do: “Deus não per­mi­tiu que eu mor­resse, então volto a tra­bal­har. Somos inde­strutíveis porque a Providên­cia decid­iu assim”.

 

As causas do mal estar que agi­tam os povos

 

Salazar procu­ra a causa de tan­to mal estar que agi­ta a Europa e o seu Por­tu­gal. Con­sta­ta “um per­tur­ba­men­to men­tal e moral da Europa. […]. Enquan­to as forças ao serviço da ordem agis­sem dis­per­sas, existe um acor­do, tác­i­to ou for­mal, entre os ele­men­tos que se dedicam a des­or­dem. […]. O pos­to des­ta batal­ha é mes­mo a civ­i­liza­ção européia”. Tais agi­tações pre­ludiem a ativi­dade do “par­tido de guer­ra, que procu­ram um choque glob­al entre a democ­ra­cia e o fas­cis­mo. Ora as democ­ra­cias não se preparam nun­ca para a guer­ra se não quan­do a ten­ham já declar­a­do. Então se começará por procu­rar um pre­tex­to para se declarar a guer­ra. […]. Por trás da França esta a Inglater­ra; por trás da Inglater­ra está os Esta­dos Unidos, e em qual­quer lugar está a “cruza­da” Inter­na­cional da democ­ra­cia”. Salazar, enquan­to sendo geo-politi­ca­mente viz­in­ho a Inglater­ra, via claro e bem longe. Com a des­cul­pa a ditadu­ra fascista se esta­va preparan­do o eixo Moscou-Lon­dres-Wash­ing­ton, que trouxe uma nova ordem mundi­al, no qual a Europa, expul­sa das suas colo­nias na África, teria sem­pre menos peso e van­tagem que a URSS e os Esta­dos Unidos. 

 

 

Judaís­mo, amer­i­can­is­mo e bolchevis­mo

 

Então embaix­ador dos Esta­dos Unidos em Inglater­ra, Joseph Kennedy, pai do futuro Pres­i­dente amer­i­cano, havia escrito: “Cham­ber­lain me disse: “A Améri­ca e o judaís­mo inter­na­cional tem lev­a­do com a força a Inglater­ra em guer­ra”. E a história con­tin­ua. Salazar esta con­sciente des­ta con­tradição, mas real­is­ti­ca­mente sen­ten­cia que, se “moral­mente Por­tu­gal é lig­a­da a Europa até que essa con­tin­ua a ser o “cére­bro e o coração do mun­do”, geo-politi­ca­mente é ban­hado pelo Atlân­ti­co, viz­in­ho da Inglater­ra, que dom­i­na os mares, os quais devem ser atrav­es­sa­dos para Por­tu­gal ir as suas Colo­nias na África e na Índia”. Todavia a Inglater­ra não tar­dará (ceden­do a Índia, assim como a França a Algéria e a Bél­gi­ca o Con­go), a desiludir-se deixan­do que as Colo­nias por­tugue­sas caiam em mãos de revoltosos utopis­tas, sem pis­car os olhos.

 

A crise da Europa

 

·         “Crise européia, crise do espíri­to – adverte Salazar – crise do espíri­to, crise de civ­i­liza­ção. No seio da Europa nasceu a civ­i­liza­ção gre­co-lati­na e cristã. Na prováv­el ruí­na da Europa se encon­trará lugar ain­da para a ver­dade, a hon­ra e a justiça ?”. A Rús­sia comu­nista começou a espal­har seus erros, ain­da que adap­ta­da as cir­cun­stân­cias, no mun­do e par­tic­u­lar­mente na Europa dos anos Vinte-Trin­ta” (se pen­sa a “Esco­la de Frank­furt”). Em 1968 Salazar verá a explosão parox­ís­ti­ca de tais erros, que fará uma limpeza dos val­ores em que a Europa foi fun­da­da e cresceu, e exclam­ou: “a guer­ra pas­sa­da foi um mal, mas há para os povos males maiores, porque super­aram a morte e a pobreza, e são a des­on­ra e o niil­is­mo”. Cer­ta­mente o 1968 e o Con­cílio Vat­i­cano II foram bem piores que a II guer­ra mundi­al.

·         A frase de Salazar rela­ciona aci­ma do arti­go: Ai dos povos que não supor­tam a supe­ri­or­i­dade de seus grandes home­ns! Mais desven­tu­ra­dos ain­da aque­les onde a políti­ca não é orde­na­da de modo a per­mi­tir  aos home­ns de raro val­or a servirem as suas nações !” é muito atu­al e vál­i­da que mais do que nun­ca, não só para as Nações, mas tam­bém no âmbito ecle­sial, onde, é lic­i­to ado­tar o adá­gio “quan­do não há cav­a­l­os, os trote dos bur­ros tem fãs”, nun­ca dev­e­ria valer “os bur­ros na frente e os cav­a­l­os atrás”. Infe­liz­mente, ao invés, se vê que isto segun­do o provér­bio tam­bém começa a tomar lugar em ambi­entes católi­cos “tradi­cionais”. E Salazar con­tin­ua: “…os home­ns pare­cem hoje infe­ri­ores aos acon­tec­i­men­tos. Ao invés de lhes faz­er frente, ess­es ten­tam fugir”. Se ontem o peri­go mais aparente era o comu­nis­mo e o Esta­do não era capaz de con­tra­por a ele uma dout­ri­na pos­i­ti­va, supe­ri­or e con­trária; hoje o é o judaís­mo, tam­bém no cam­po reli­gioso. Isto entrou mes­mo na men­tal­i­dade dos home­ns da Igre­ja, tam­bém dos mais altos, com a shoah e Nos­tra aetate, e, se qual­quer um ten­ta colo­car remé­dio, é persegui­do e tacha­do de anti­s­semitismo.

Não se pode fugir do prob­le­ma políti­co, social, econômi­co e sobre­tu­do teológi­co colo­ca­do pelo judaís­mo nos primeiros anos depois da guer­ra e durante o Vat­i­cano II até Ben­to XVI, pre­cisa enfren­tá-lo e rea­gir com igual força e poder assim des­en­cadea­d­os. “Con­tra mali­ti­am, mili­tia!”. Infe­liz­mente os home­ns de val­or não são colo­ca­dos em grau de servir a Igre­ja e a ver­dade, ‚mas são impe­di­dos por “meios home­ns, que pro­fes­sam “meias ver­dades” (“agere sequitur esse”). Mao Tse Tung o havia plan­i­fi­ca­do: “faz do homem uma meia mul­her e da mul­her um meio homem. Assim gov­ernará facil­mente sobre meias coisas”. Nos ambi­entes ecle­siás­ti­cos fiz­er­am dos “mon­sen­hores”, meios “mon-sen­hores” e assim a “Sin­a­goga de Satanás” (Apoc., II,9)  pode gov­ernar sobre “meias coisas”, a saber um híbri­do o “judaico-cris­tian­is­mo”. “Mala tem­po­ra cur­runt, sed bona tem­po­ra veni­ant”. Pio XII tin­ha intuí­do: “é todo um mun­do a ser refeito des­de o fun­da­men­to”. A restau­ração da Mis­sa tradi­cional é um bem, mas não bas­ta; não fugi­mos da real­i­dade e não nos refugiemos na ilusão. É necessária uma mudança total de rota, no cam­po dog­máti­co, moral, ascéti­co, dis­ci­pli­nar e metafísi­co. Salazar não se fazia iludir sobre a luta nat­u­ral­mente ímpar, mas que­ria con­tin­uar a diz­er a ver­dade, ain­da que como “uma voz que fala no deser­to”, porque sobre­nat­u­ral­mente “com aju­da de Deus não se sabe nun­ca aonde pode chegar os ecos de uma voz”.

 

Comu­nis­mo e colo­nial­is­mo

 

·         Quan­to ao colo­nial­is­mo, ver­e­mos Salazar, nos anos Sessen­ta, a cam­in­ho com Inglater­ra, a Améri­ca e a França, que tola­mente “se cur­vou aos ven­tos da história” prove­niente da África e eles foram “son­hadores”. Salazar atribuía esta que­da de esti­lo, sobre­tu­do na Inglater­ra que tin­ha cedi­do a Índia, a “fal­ta de for­mação doutri­nal, as ver­dades incom­ple­tas, as idéias muito vagas, a intox­i­cação de palavras e ao sen­ti­men­tal­is­mo indefinido, que sug­e­ri­am aos Esta­dos e que não podi­am não pro­duzir out­ra coisa que não con­tradições”.

·         Um dos peri­gos que ameaçavam a Europa e a civ­i­liza­ção do mun­do inteiro era, para o Nos­so estadista filó­so­fo, o comu­nis­mo soviéti­co, que tin­ha sub­sti­tuí­do a hege­mo­nia alemã e que estu­p­ida­mente tin­ha sido man­ti­do vivo, finan­cia­do e reforça­do pelos Esta­dos Unidos. A natureza do bolchevis­mo o lev­a­va inevi­tavel­mente ao dese­jo de domínio mundi­al, do qual a primeira víti­ma seria a Europa, a qual lutou para se opor ao nazis­mo enquan­to havia supor­ta­do um peri­go muito maior: “era pouco sig­ni­fica­ti­va a vitória de uma guer­ra, se per­diam-se os princí­pios espec­u­la­tivos e moral que ape­nas pode­ri­am fun­dar uma civ­i­liza­ção”. O comu­nis­mo e a sub­ver­são em gênero não se vence só com bom­bas, mas com uma dout­ri­na supe­ri­or e con­trária ao erro mate­ri­al­ista, que crie condições de vida adver­sas ao pros­elit­ismo do comu­nis­mo. O Japão tin­ha sido sub­sti­tuí­do pelo Esta­dos Unidos, que, dada a sua con­cepção lib­er­al e lib­ertária de sociedade, não podia com­pe­tir ade­quada­mente com a dis­ci­plina fér­rea do comu­nis­mo, até que estes entrari­am em colap­so ab intrínseco pela defi­ciên­cia inat­ur­al de seu sis­tema econômi­co, pro­du­tor de pobreza, coisa que ocor­reu no fim dos anos Oiten­ta, a saber vinte anos depois da morte de Salazar. O solo “anti­co­mu­nis­mo neg­a­ti­vo” amer­i­cano e das democ­ra­cias europeias, sem pro­por uma alter­na­ti­va doutri­nal e práti­ca pos­i­ti­va, não pode­ria der­ro­tar o marx­is­mo; na ver­dade não bas­ta ser neg­a­ti­va­mente “con­tra” qual­quer coisa, mas é pre­ciso tam­bém ser pos­i­ti­va­mente “para” uma deter­mi­na­da alter­na­ti­va.

·         O out­ro peri­go era a renún­cia as Colo­nias na África, que – segun­do Salazar – era a con­tin­u­ação da Europa. Enquan­to a URSS e os EUA pri­mavam para a des­col­o­niza­ção, não por moti­vo human­itária, os quais estavam sem ban­deira úni­ca públi­ca e exte­ri­or­mente, mas real­mente e em seg­re­do para abater aqui­lo que resta­va das potên­cias europeias, a qual não seria mais com­pet­i­ti­va com os dois blo­cos (amer­i­cano e rus­so) sem as Colo­nias na África e na Índia. Infe­liz­mente a França, a Inglater­ra e a Bél­gi­ca renun­cia­ram, intox­i­cadas pelo democ­ra­tismo amer­i­can­ista,  a suas Colo­nias e que decre­tou o declínio econômi­co, politi­co e mil­i­tar do “Vel­ho (mas sábio) Con­ti­nente”. Tam­bém se o comu­nis­mo não dese­ja­va implan­tar-se na África, terá ven­ci­do, porque terá lev­a­do a des­or­dem. É a mes­ma lição que apren­deu e colo­cou em práti­ca hoje no Ori­ente Médio, a Améri­ca. A “guer­ra trava­da” com o Iraque foi per­di­da, como aque­la com o Afe­gan­istão, ao invés con­seguiu – como “guer­ra psi­cológ­i­ca ou ide­ológ­i­ca” – “vencer” colo­can­do em caos e des­or­dem ao menos no Iraque e espera de exportá-la ao mun­do árabe inteiro, partin­do do Irã, Síria, Líbano e Palesti­na. Todavia uma grave incóg­ni­ta se ergue de fronte do judeu-amer­i­can­is­mo do Esta­do de Israel: a Turquia de Kemal Ataturk (1881–1938), arma­da até os dentes por EUA e por Israel, com 80 mil­hões de habi­tantes e um dos exérci­tos mais poderosos do mun­do, aca­ba de pas­sar, com Recep Erdo­gan, ao cam­po inver­so.

·         Salazar tin­ha tam­bém vis­lum­bra­do o peri­go do islamis­mo. Em Jul­ho de 1959 o NEGUS NEGHESTI em Lis­boa encon­tra Salazar e declara: “A Etiópia, que tem sido des­de o  Sécu­lo IV o bastião da civ­i­liza­ção cristã no con­ti­nente africano, tomou para si a mis­são de defend­er a Fé e o des­ti­no do cris­tian­is­mo. […]. E na cruza­da con­tra o islã que Etiópia e Por­tu­gal tin­ham real­iza­do a epopeia de sua história comum”. Salazar retoma o dis­cur­so de Negus em 1962 e afir­ma que “o con­t­role da África do norte da parte Europa é essen­cial para a paz. Sem este con­t­role, a segu­rança européia está com­pro­meti­da. […]. Se a Europa con­tin­uará a enfraque­cer e a perder sua cor­agem, a sua von­tade, que lhe res­ta de ide­al, o mun­do árabe se mostrará muito ameaçador”.

 

A dout­ri­na colo­nial­ista clás­si­ca de Salazar

 

O colo­nial­is­mo salazar­i­ano, defen­di­do até o fim, não se apoia­va sobre fun­da­men­tos racis­tas biológi­co-mate­ri­al­ista dar­wini­ano. Todavia esse não nega­va a con­statação de bom sen­so que parte do fato históri­co (“con­tra fac­tum non valet argu­men­tum”) da supe­ri­or­i­dade, sem despre­zo ou orgul­ho, da civ­i­liza­ção européia sobre aque­la africana, ele seguia a tare­fa da Europa de edu­car a Europa, fazen­do a pros­per­ar pouco a pouco. Ele admite a existên­cia de algu­mas elites norte africanas, mas dúvi­da da sua sufi­ciên­cia de gov­ernar um país sem a aju­da da Europa. Na ver­dade, “eles não tem abas­tança de ele­men­tos próprios sobre os quais apoiar-se. Ora um Esta­do não é con­sti­tuí­do somente de diri­gentes, mas é pre­ciso engen­heiros, econ­o­mis­tas, agrônomos, vet­er­inários, médi­cos, pro­fes­sores, líderes empre­sari­ais, operários espe­cial­is­tas”. Na fal­ta deste cor­po inter­mé­dio entre Chefe e súdi­tos, onde chegará a África? Em direção a sua ruí­na, víti­mas da sub­ver­são marx­ista ou neo-colo­nial­is­tas apátri­das e dos negó­cios trust.   

A Europa gre­co-romana, graças ao Cris­tian­is­mo, aper­feiçoou a sua mis­são civ­i­lizado­ra uni­ver­sal, que deve ser colo­ca­da gra­tui­ta e gen­erosa­mente a dis­posição dos out­ros país­es. Mas a Europa esta­va atrav­es­san­do uma pro­fun­da crise doutri­nal e moral e então não have­ria podi­do dar aos out­ro o que não havia sabido man­ter para si mes­ma (“nemo dat quod non habet”). Então a crise do Colo­nial­is­mo clás­si­co ou civ­i­lizador era inevitáv­el e em seu lugar seria infil­tra­da a sub­ver­são comu­nista e o ódio de raça ao con­trário a saber os bran­cos ou o neo-colo­nial­is­mo super-cap­i­tal­ista, que seria ape­nas o aproveita­men­to das riquezas nat­u­rais da África, deixan­do os africanos como babás de si mes­mos. Infe­liz­mente, con­stata­va Salazar:”a Europa se enver­gonha de pro­fes­sar sua alta mis­são edu­cado­ra e civ­i­lizado­ra onde Deus há chamou”. Assim hoje os home­ns da Igre­ja se enver­gonham de pro­fes­sar a supe­ri­or­i­dade, a uni­ci­dade e a ver­dade de uma Igre­ja Romana.

 

Salazar refu­ta o amod­er­na­men­to e o aggior­na­men­to

 

·         As forças super-cap­i­tal­is­tas inter­na­cionais que prom­e­ter­am o desen­volvi­men­to de um Por­tu­gal lib­er­al e democráti­co, ele responde:”O cap­i­tal e a tec­nolo­gia não se inven­ta, se impor­ta ou se cria. Quan­to a mim, preferirei andar um pouco mais lenta­mente, no quadro de uma vida mod­es­ta, ao invés de arriscar de sub­me­ter o país a for­ma de col­o­niza­ção sel­vagem e estrangeira”. Havia vis­to com justiça. A crise econômi­co-finan­ceira que agar­rou hoje, depois do boom dos anos pas­sa­dos, a Améri­ca, a Inglater­ra e a Europa é o fru­to de uma logís­ti­ca, que dese­jou tudo ime­di­ata­mente, ao som dos dívi­das. Cri­aram uma riqueza vir­tu­al e não real, que está para ter­mi­nar sub­m­er­sa em um mar de notas.

·         Salazar refutou tam­bém a “despoli­ti­za­ção” do Esta­do em favor da tec­noc­ra­cia. A tec­nolo­gia não é supe­ri­or a vir­tude da prudên­cia políti­ca ou social, porque “sem a polis não exi­s­tiria téc­ni­ca e não se pode­ria tra­bal­har”. Per­to do fim da sua vida ele responde a um cro­nista que o tin­ha per­gun­ta­do se não seria des­cul­pa man­ter Por­tu­gal longe “do pro­gres­so, da mod­ernidade e do lib­er­al­is­mo”, “E lhe parece pouco?”. Esta frase, soz­in­ha, detém toda a grandeza de Salazar.

·         Por estes motivos em 1961 a Améri­ca e a Inglater­ra o boico­taram e deixaram que Por­tu­gal perdesse as suas Colo­nias, e procu­raram der­rubá-lo politi­ca­mente, sem suced­er. Em 6 de setem­bro de 1968 Salazar é atingi­do de uma semi-par­al­isia e remete o seu manda­to nas mãos do Pres­i­dente da Repúbli­ca almi­rante Thomaz, morre em 27 de Jul­ho de 1970 as nove da man­hã. Foi o homem politi­co mais silen­cioso da Europa, tin­ha as “Con­fis­sões” de San­to Agostin­ho sem­pre entre as mãos durante o cur­so da sua vida políti­ca e soube ler nos fatos históri­cos (intus leg­gere) para ver qual direção dar a vida do seu país. O gov­ernou com sagaci­dade do filó­so­fo e do homem de ação, do con­tem­pla­ti­vo e do guer­reiro, habit­u­a­do a ver as coisas face a face, ele não arreme­tia em políti­ca, não tin­ha preguiça, nem covar­dia e nem o son­ho utópi­co, mas os olhos sem­pre aber­tos. Com­bat­eu até o fim e Deus o poupou de ver a matança da rev­olução social­ista em 1964 empos­sar-se de Por­tu­gal.

 

PADRE CURZIO NITOGLIA

22 de jul­ho de 2010