LA CIVILTÀ CATTOLICA: COMENTÁRIO A CARTA ENCÍCLICA PASCENDI DOMINICI GREGIS DE SUA SANTIDADE SÃO PIO X — TEXTO I


Filosofia, Teologia / segunda-feira, setembro 2nd, 2013
O MODERNISMO TEOLÓGICO
E O SEU SISTEMA DE CONCILIAÇÃO
La Civiltà Cat­toli­ca
Roma 1908
Comen­tá a Car­ta Encícli­ca Pas­cen­di Domini­ci Greg­is
Tradução: Ged­er­son Fal­cometa

I.

A con­tradição teóri­ca e a hipocrisia práti­ca iner­ente por neces­si­dade lóg­i­ca a absur­di­dade do mod­ernismo – como acená­va­mos nos prece­dentes arti­gos1, com­pro­van­do as afir­mações da encícli­ca com os teste­munhas de chefes de esco­las mod­ernistas – aparece bem man­i­fes­ta na sín­tese das doutri­nas neb­u­losas do mod­ernista crente: fé reduzi­da pri­mari­a­mente a um intu­ito da con­sciên­cia, a uma adesão do coração ou exper­iên­cia inti­ma, e em suma a um sen­ti­men­to sui gener­is; rev­e­lação àquele exci­ta­men­to psi­cológi­co, orgâni­co, às vezes tam­bém mór­bido que o causa, a uma «emoção» par­tic­i­pa­da ime­di­ata­mente na con­sciên­cia de qual­quer um, que é tam­bém exper­iên­cia ou via de exper­iên­cia; tradição a uma trans­mis­são de tal exper­iên­cia; inspi­ração a um impul­so ou neces­si­dade de explicar ou «for­mu­lar a exper­iên­cia»; dog­ma a uma con­cepção humana, como «fór­mu­la» orde­na­da a rep­re­sen­tar ou a sim­bolizar a exper­iên­cia segun­do as cat­e­go­rias mutáveis do pen­sa­men­to humano; e grad­ual­mente, com vari­a­do, ambíguo e exóti­co frasario, que é um palia­ti­vo mas não mit­i­ga a enormi­dade dos erros.

Mas tam­bém aparece mais evi­dente, a uma e a out­ra con­tradição do absur­do, quan­do seguin­do o mod­ernismo nos seus infini­tos rodeios, nas suas esparsas e multí­plices man­i­fes­tações, se não em todas as con­se­quên­cias inu­meráveis e pestíferas dos supra­men­ciona­dos princí­pios, se veja recol­hi­do — aqui­lo que primeiro se dava por sim­ples méto­do ou por tendên­cia teológ­i­ca – em um doutri­nal próprio, quase em um cor­po de teolo­gia, firme, deter­mi­na­do e com­plexo ou quer­e­mos diz­er, em um for­mal e próprio sis­tema teológi­co. Em segui­da desco­b­ri­mos um sis­tema híbri­do de negações, o qual se estende uni­ver­salmente a todas as partes da teolo­gia cristã, a todas faz con­traste auda­ciosa­mente e todas quer abater pelos fun­da­men­tos para recon­stru­ir sobre as ruí­nas da anti­ga a nova teolo­gia. Então, um sis­tema que é de propósi­to a antítese da teolo­gia cristã e católi­ca, da mes­ma for­ma e pelas mes­mas razões, que a filosofia do mod­ernista filó­so­fo é antítese da filosofia racional e a fé do mod­ernista crente é negação da fé reli­giosa, como demon­stramos prece­den­te­mente seguin­do os pas­sos da encícli­ca. É isto que entende incul­car a própria encícli­ca, enquan­to resume em uma sín­tese vig­orosa os ele­men­tos espar­sos e flu­tu­antes, mas não fic­tí­cios, das pre­mis­sas e das con­se­quên­cias teológ­i­cas mais graves do mod­ernista teól­o­go, como antes do filó­so­fo e do crente; pois, vale a pena repe­tir, este des­mas­cara­men­to do erro lhe é a primeira e mais necessária, como a mais opor­tu­na e mais efi­caz refu­tação. Nem por out­ro títu­lo, nós acred­i­ta­mos, deles tiver­am tan­to despre­zo os mod­ernistas obsti­na­dos, nem ain­da por out­ro ess­es protes­tam de não quer­er saber de sil­o­gis­mos, de lóg­i­ca, de sín­tese defin­i­ti­va. Despre­zo impo­tente e inútil protesto, porque ninguém pode pre­sumir de opor-se a própria lei do pen­sa­men­to; e o mod­ernista que aqui­lo pre­sume, se des­mente por si mes­mo com a con­tradição intrínse­ca do erro: con­tradição tan­to mais reprováv­el e enorme em quem pre­tendeu inven­tar um sis­tema novo de con­cil­i­ação entre a ciên­cia e a fé, a cul­tura nova e a teolo­gia anti­ga, o pro­gres­so do evolu­cionis­mo e o tri­un­fo do catoli­cis­mo.

A con­tradição jor­ra tam­bém aqui por todas as partes do edifí­cio que se des­faz; a par­tir de cada pon­to da nova teolo­gia; já que a princí­pio a todos se man­i­fes­tam repug­nantes um ao out­ro e, jun­tos, os dois ele­men­tos que se dese­jaria com­por em nobre acor­do.

Mas não poden­do nos delon­gar nos detal­h­es, a qual expres­sa e dis­tin­ta refu­tação pela inti­ma conexão das questões neces­si­taria de um trata­do muito amp­lo de quase toda a teolo­gia cristã, nos restringire­mos a princí­pio, a um olhar sin­téti­co de tudo, isto é, do sis­tema com­plexo já aci­ma men­ciona­do, do mod­ernista teól­o­go; o qual é todo um com o mod­ernista crente e com o filó­so­fo, enquan­to entre­ga as fontes e os princí­pios da sua teolo­gia ou enquan­to expli­ca a gênese e a evolução dos seus «reben­tos» de fé.

II.

A dupla con­tradição teóri­ca e práti­ca do mod­ernismo teológi­co, enquan­to novo sis­tema de con­cil­i­ação entre ciên­cia e fé, alude antes de tudo a encícli­ca, quan­do nos indi­ca o mod­ernista cair «sobre a are­na teológ­i­ca», explicar a luz do sol a sua recôn­di­ta teolo­gia – bre­vis pro­fec­to supellex, sed ei super­abun­dans… – mais que abun­dante para ele que pro­fes­sa ter que estar em todas as assim ditas con­clusões da ciên­cia: por­tan­to, teolo­gia «toda fiel ao delírio dos filó­so­fos»; então com filosofe­mas esotéri­cos, com ficções ou espec­u­lações humanas estu­dadas para engrossar este seu tênue adorno teológi­co; de filosofias esotéri­c­as, de espec­u­lações humanas, não de fontes div­inas, não de um depósi­to sagra­do de rev­e­lação, alcança a inter­pre­tação dos mis­térios divi­nos, como tam­bém toda a expli­cação da origem do desen­volvi­men­to, do pro­gres­so dos flori­dos e lux­u­ri­antes «reben­tos» de sua fé. Tudo isto para obter o grande fim que é exata­mente, diz a encícli­ca, «a con­cil­i­ação da fé com a ciên­cia, per­manecen­do, porém, sem­pre incólume o pri­ma­do da ciên­cia sobre a fé».

Esta ati­tude audaz e con­tra­ditória do teól­o­go mod­ernista que desce na are­na teológ­i­ca, desar­ma­do total­mente de quais­quer armas da teolo­gia, de toda pro­teção de palavra div­ina escri­ta ou trans­mi­ti­da, de todo mag­istério autên­ti­co e infalív­el, como de todo critério exter­no de ver­dade rev­e­la­da; con­se­quente­mente, o méto­do que dele resul­ta, de pro­ced­er na ciên­cia div­ina abso­lu­ta­mente como se fos­se na humana, ain­da pior que nas coisas humanas, ao arbítrio indi­vid­ual e sub­je­ti­vo, se pode diz­er ati­tude e méto­do necessário e, segun­do a lóg­i­ca do erro, tam­bém lógi­co no teól­o­go mod­ernista que negou como filó­so­fo e como crente a sobre­nat­u­ral­i­dade da fé, da rev­e­lação pos­i­ti­va e das suas fontes (Escrit­u­ra e Tradição), que   sacode em suma o próprio fun­da­men­to da religião cristã. Mas dis­to salta exata­mente irre­sistív­el a evidên­cia da hipocrisia práti­ca e da absur­di­dade teóri­ca da ati­tude e do próprio méto­do de quem prom­ete defend­er e con­cil­iar a mes­ma fé e o cris­tian­is­mo com a ciên­cia e a mod­ernidade: a qual evidên­cia em segui­da lança nec­es­sari­a­mente a sua fra­ca luz sobre toda a obra de con­cil­i­ação pseudo­cien­tí­fi­ca e pseu­do-teológ­i­ca, ten­ta­da pelo mod­ernista teól­o­go.

Semel­hantes méto­dos e ati­tudes apare­cem a princí­pio cheios de inco­erên­cia, que pare­cem implicar uma man­i­fes­ta desleal­dade, e nos fazem recor­rer a pena as graves palavras dos teól­o­gos rela­tores do Vat­i­cano con­tra a arte ou a fraude dos vel­hos racional­is­tas do sécu­lo pas­sa­do. Pre­cisa­mente porque estes se estu­daram e con­seguiram assaltar mais efi­caz­mente a religião cristã medi­ante a depravação dos dog­mas e o abu­so dos nomes2. 

Com sim­i­lar méto­do – obser­va­va já Eduar­do Quinet, escreven­do ao tradu­tor francês de Kant3 – no sécu­lo XIX como no XVIII, «enquan­to a França saia do cír­cu­lo da tradição, nega­va aber­ta­mente o cris­tian­is­mo pela boca dos enci­clo­pe­dis­tas, a Ale­man­ha chega­va ao mes­mo ter­mo, mudan­do, mod­i­f­i­can­do, trans­for­man­do o dog­ma, a fim de sub­sti­tuí-lo por um teo­re­ma moral. Na França a filosofia pro­ce­dia com um espíri­to de rev­olução, luta­va aber­ta­mente. Do out­ro lado do Reno, no entan­to, essa pen­e­tra­va se insin­u­a­va até den­tro do san­tuário; enfim, se assen­ta­va sem tumul­to no lugar do sac­er­dote. Mes­mo Deus já tin­ha desa­pare­ci­do, e nada ain­da pare­cia ter muda­do». Foi esta obra noci­va dos ide­al­is­tas alemães: e com ess­es, como já demon­stramos, par­tic­u­lar­mente com Kant e com Hegel, tem cer­ta­mente pro­fun­da relação, dig­amos que incon­sciente, os nos­sos mod­ernistas do sécu­lo vinte. 

Mas, deixan­do isto de lado, a evidên­cia da con­tradição resul­ta, de qual­quer modo, do fato de que ninguém pode colo­car em dúvi­da, não poder a dout­ri­na do mod­ernismo teológi­co, con­sid­er­a­da no seu sis­tema e na série com­plexa das suas seque­las, chegar a pon­to menos repug­nante a toda for­ma de cris­tian­is­mo pos­i­ti­vo, naque­la que con­si­ga con­sid­er­a­da nos seus pres­su­pos­tos filosó­fi­cos, e mais no próprio fun­da­men­to e em sua raiz, de que pul­u­la, que é a dout­ri­na e o con­ceito de ver­dade, de ciên­cia e de fé. O que nos legí­ti­ma e nos con­stringe senão a repe­tir que de todas as teo­rias do mod­ernista teól­o­go – antes mes­mo de colo­car-lhe a pro­va os pilares de seu sis­tema doutri­nal – esta agra­va aqui­lo que demon­stramos de seus fun­da­men­tos, a propósi­to do mod­ernista filó­so­fo e do crente.

III.

Mas, todavia, favore­cerá a faz­er-lhe juí­zo mais dire­to, obser­var nes­tas próprias indi­cações o edifí­cio vivo que ele quer sub­sti­tuir ao caste­lo tedioso da teolo­gia medieval; obser­var que a apli­cação práti­ca do novo sis­tema, ten­ta­ti­va de con­cil­i­ação ale­ga­da pelo mod­ernista teól­o­go. Esboça­do nos seus traços prin­ci­pais, des­de os traços da encícli­ca e os escritos a nós já notáveis dos chefes de sei­ta mod­ernistas, ele repousa antes de tudo, como já dize­mos, sobre pos­tu­la­dos filosó­fi­cos sub­je­tivos e sobre a dout­ri­na já men­ciona­da da fé «emo­cional», da rev­e­lação indi­vid­ual e ima­nente, do critério úni­co da exper­iên­cia ínti­ma ou assim dita con­sciên­cia reli­giosa, e de sim­i­lares aber­rações que são todas igual­mente fru­to e apli­cação de uma fal­sa filosofia.  Sim­pli­f­i­can­do em segui­da com a encícli­ca o sis­tema do mod­ernista teól­o­go, se pode reduzi-lo a três pon­tos cap­i­tais: sim­bolis­mo teológi­co, imanên­cia e per­manên­cia div­ina.

O sim­bolis­mo teológi­co quer que as rep­re­sen­tações da div­ina real­i­dade, as fór­mu­las, isto é, que são os dog­mas, sendo meros sím­bo­los e instru­men­tos, sejam inteira­mente pro­visórios, sal­vo a hon­ra que por respeito social é dev­i­da as fór­mu­las do mag­istério públi­co, ou como out­ros dizem «a teolo­gia con­ven­cional, ofi­cial e tradi­cional», segun­do o que vari­avel­mente ess­es chamam a dout­ri­na da Igre­ja.

A imanên­cia teológ­i­ca do mod­ernista, em segui­da, faz Deus ima­nente no homem, mas não de ordinário em sen­ti­do orto­doxo, mas con­fundin­do a ação de Deus, causa primeira, com aque­la do homem, causa segun­da; isto é, o con­cur­so divi­no de ordem nat­ur­al com aque­le de ordem sobre­nat­ur­al, como faz o nat­u­ral­is­mo deís­ta: alguns pelo con­trário pas­sam, mais logi­ca­mente, até a con­fundir não somente a ação mas o ser, segun­do o nat­u­ral­is­mo pan­teís­ta. 

A per­manên­cia div­ina final­mente é por respeito a imanên­cia, aqui­lo que a exper­iên­cia pri­va­da é a respeito da exper­iên­cia trans­mi­ti­da por tradição, ou como out­ros dizem, a con­sciên­cia indi­vid­ual em respeito a con­sciên­cia cole­ti­va; que a últi­ma com­preende em si a suma da exper­iên­cia pri­va­da, quer diz­er, das con­sciên­cias indi­vid­u­ais. Assim, pro­por­cional­mente, a imanên­cia div­ina, con­tin­u­a­da em qual­quer uma dessas con­sciên­cias indi­vid­u­ais, nos daria a per­manên­cia div­ina na con­sciên­cia cole­ti­va.

Mas insistin­do no exem­p­lo tira­do da encícli­ca, os mod­ernistas con­seguintes dirão que a insti­tu­ição da Igre­ja e dos sacra­men­tos, não é de Cristo; e tam­bém pode­ria se diz­er que é dele (ime­di­ata­mente) e, por­tan­to div­ina, porque na con­sciên­cia de Cristo estavam vir­tual­mente inclusas todas as con­sciên­cias cristãs; onde a sua vida – que é em segui­da a vida da con­sciên­cia cole­ti­va – segun­do a fé, é vida div­ina, como a vida de Cristo. Assim, ape­nas por esta per­manên­cia se expli­ca a origem div­ina da Escrit­u­ra, dos dog­mas, como dos sacra­men­tos, da Igre­ja e de cada insti­tu­ição ecle­siás­ti­ca, como de cada definição ou elab­o­ração dog­máti­ca, e entre­tan­to dizen­do; emb­o­ra a origem primária ou ime­di­a­ta seja tam­bém nat­ur­al e psi­cológ­i­ca, como aque­la que por si é atribuí­da a qual­quer «neces­si­dade».

E como se expli­ca a origem, assim tam­bém a evolução, unin­do aos supra­men­ciona­dos princí­pios a teo­ria das «neces­si­dades»: o que bem ilus­tra a encícli­ca, pas­san­do ime­di­ata­mente a sin­téti­ca revista das doutri­nas mod­ernistas em torno dos ger­mes da fé; onde tam­bém é para notar que se faça uso da palavra «germe» não em sen­ti­do da causa vital, mas de efeito, como seria diz­er «reben­to ou bro­to», já irrompe a par­tir da semente; e a semente aqui seria exata­mente a assim dita «metafisi­ca das neces­si­dades»: e daí aparece por si a dupla con­tradição do sis­tema, enquan­to se con­sidere como «teolo­gia das neces­si­dades».

IV.

Da neces­si­dade de elab­o­rar o próprio pen­sa­men­to reli­gioso para clarear a própria e as out­ras con­sciên­cias, nasce o dog­ma: da neces­si­dade de dar algu­ma coisa de sen­sív­el a religião e propagá-la surge o cul­to; no qual se querem inclu­sos tam­bém os sacra­men­tos, reduzi­dos a meros sím­bo­los, ou sinais efi­cazes para atin­gir os âni­mos (segun­do o vel­ho erro protes­tante, con­de­na­do pelo Tri­denti­no): da neces­si­dade mais vee­mente de man­i­fes­tar por voz ou por escrito a própria fé ou exper­iên­cia reli­giosa – com qual neces­si­dade tam­bém se con­funde a inspi­ração – veio a Sagra­da Escrit­u­ra, que pode por isso definir-se como um apan­hado de exper­iên­cias: igual­mente da neces­si­dade da con­sciên­cia indi­vid­ual do crente, de unir-se pelo bem comum, nasceu a Igre­ja, a qual por isso é «obra da con­sciên­cia cole­ti­va»: enfim, da neces­si­dade para todo cor­po social, de uma autori­dade que a reja, surgiu na Igre­ja a trí­plice autori­dade: dis­ci­pli­nar, dog­máti­ca e cul­tual; de modo que deve ser con­sid­er­a­da como provin­da não ime­di­ata­mente de Deus e por isso autocráti­ca, mas porém da con­sciên­cia reli­giosa do povo, e por­tan­to a isto sujei­ta, isto é democráti­ca.

Ain­da, da neces­si­dade da Igre­ja entrar em acor­do com a sociedade civ­il, que tem fim diver­so, nasce a neces­si­dade que o Esta­do seja sep­a­ra­do da Igre­ja, e logi­ca­mente lhe virá tam­bém aque­la que a Igre­ja, na sua autori­dade dis­ci­pli­nar, seja sujei­ta ao Esta­do nas coisas tem­po­rais; como da neces­si­dade de entrar em acor­do com a con­sciên­cia cole­ti­va segue o débito para a autori­dade dis­ci­pli­nar e a dog­máti­ca de depen­der da con­sciên­cia indi­vid­ual, da qual nasce e a qual bem é orde­na­da: de onde a neces­si­dade de refor­mas democráti­cas.

Em tudo isto o mod­ernismo agra­va enorme­mente o erro do vel­ho lib­er­al­is­mo e do vel­ho racional­is­mo, como tam­bém se faz muito man­i­festo a qual­quer um que lhe enten­da os ter­mos.

Mas ain­da mais quan­do isso vem a sua dout­ri­na cap­i­tal que é aque­la do evolu­cionis­mo – pela qual tudo em uma religião vivente se quer mutáv­el – e se apli­ca a um modo a teo­ria das «neces­si­dades». Por aque­las neces­si­dades próprias onde nasce, a fé que foi primeiro rudi­men­tar e comum a todos os home­ns, porque nasci­da da própria natureza, se desen­volve com evolução vital, ou seja, não pelo acrésci­mo de for­mas extrínse­cas, mas por maior pen­e­tração do sen­ti­do reli­gioso na con­sciên­cia; e isto em dois mod­os: neg­a­ti­va­mente, com a remoção de todo ele­men­to estran­ho, e pos­i­ti­va­mente, com o aper­feiçoa­men­to int­elec­tu­al e moral do homem onde se ampliou a ideia div­ina e o sen­ti­men­to reli­gioso se afi­nou, con­cor­ren­do ai o gênio reli­gioso dos pro­fe­tas e do máx­i­mo entre ess­es, Cristo. Então, da neces­si­dade da fé de vencer as oposições, como da neces­si­dade do fiel de pen­e­trar-lhe os arcanos, se expli­ca a evolução do dog­ma: da neces­si­dade de adap­tar-se as usanças dos povos como de aproveitar-se da eficá­cia desse, a evolução do cul­to; da neces­si­dade de aco­modar-se as condições históri­c­as e as for­mas de gov­er­no esta­b­ele­ci­das, a evolução da Igre­ja.

Mas para que a evolução não se exce­da, insti­ga­da pelas neces­si­dades e pelas forças pro­gres­sis­tas que lhe cor­re­spon­dem, rep­re­sen­ta­da espe­cial­mente pelos lei­gos, se opõem a esta uma força con­ser­vado­ra, aque­la da tradição, rep­re­sen­ta­da pela autori­dade reli­giosa. Então um con­fli­to; e dis­to a neces­si­dade de um acor­do ou com­pro­mis­so entre as duas forças, dev­i­do isto as con­sciên­cias indi­vid­u­ais que oper­am sobre a con­sciên­cia cole­ti­va; já que esta últi­ma, encalça­da pela neces­si­dade daque­la, encon­tra-se por sua vez nec­es­sari­a­mente no dev­er de forçar e pre­mer sobre a autori­dade, e então a autori­dade vem tam­bém encon­trar diante dessa ape­nas no dev­er, ou neces­si­dade, de capit­u­lar.

Em semel­hantes teo­rias é nat­ur­al em segui­da que se con­forme a práti­ca dos mod­ernistas na sua ati­tude para com a Igre­ja; teo­rias e práti­cas assaz piores em si e mais per­ni­ciosas aos out­ros que aque­la do vel­ho nat­u­ral­is­mo dos lib­erais e, dire­mos tam­bém, dos racional­is­tas e inimi­gos aber­tos da nos­sa fé.

Uns, de fato, não se apartavam da ver­dade católi­ca com taman­ha uni­ver­sal­i­dade de erros; os out­ros com tal arte de fin­gi­da con­cil­i­ação. Quan­to aos primeiros, nós podemos con­cluir com a encícli­ca que «se, pois, de uma só vista de olhos aten­tar­mos para todo o sis­tema, a ninguém causará pas­mo ouvir-Nos defi­ni-lo, afir­man­do ser ele a sín­tese de todas as here­sias. Cer­to é que se alguém se pro­pusesse jun­tar, por assim diz­er, o des­ti­la­do de todos os erros, que a respeito da fé têm sido até hoje lev­an­ta­dos, nun­ca pode­ria chegar a resul­ta­do mais com­ple­to do que alcançaram os mod­ernistas. Tão longe se adi­antaram eles, como já o nota­mos, que destruíram não só o catoli­cis­mo, mas qual­quer out­ra religião».

Até aqui a encícli­ca; e o que ela afir­ma, nós temos demon­stra­do des­de o iní­cio, colo­can­do em encon­tro o vel­ho nat­u­ral­is­mo com o jovem mod­ernismo. E isso con­fir­ma­do pela práti­ca, a todos man­i­fes­ta sem neces­si­dade de lon­go dis­cur­so, o fato públi­co e cotid­i­ano, assi­nal­a­do tam­bém na encícli­ca: o lou­vor dos inimi­gos da Igre­ja. «Por isto aque­les den­tre os racional­is­tas que falam mais clara e aber­ta­mente, se van­glo­ri­am de não ter ali­a­dos mais efe­tivos que os mod­ernistas». Assim é infe­liz­mente: e «assim se expli­cam os aplau­sos dos racional­is­tas», nos diz a encícli­ca4.

Mas assim não se expli­cam os aplau­sos, as sim­pa­tias, a mansa tol­erân­cia, ou ao menos as tími­das e car­in­hosas reser­vas por parte de tan­tos católi­cos, lei­gos e ecle­siás­ti­cos, até a aparição dos recentes atos pon­tif­í­cios. A explicar tudo isto, deve estar, sem dúvi­da, uma das razões que lhes pode ter seduzi­do, prin­ci­pal­mente aos mais jovens: o fascínio da novi­dade e o poder das ideias obscuras: um e out­ro já recor­da­do pelo saudoso Brunetière, que em parte lhe foi víti­ma,  emb­o­ra víti­ma gen­erosa e des­culpáv­el como out­ros estu­diosos lei­gos na França. Mas é necessário repen­sar tam­bém a out­ra pro­priedade do sis­tema mod­ernista; isto é, a arte fin­gi­da, ago­ra des­mas­cara­da pela encícli­ca, de envolver o pen­sa­men­to incré­du­lo em aparên­cia de ciên­cia e de orto­dox­ia, de dá-lo senão a apolo­gia e a con­cil­i­ação, enquan­to para os infor­ma­dos isto não é out­ra coisa que traição e aber­ta negação: isto é uma união da con­tradição teóri­ca a con­tradição práti­ca; a incredul­i­dade a hipocrisia.  

V.

E isto ain­da se pode con­fir­mar, exam­i­nan­do panorami­ca­mente, os primeiros fru­tos, isto é, algu­mas con­se­quên­cias primeiras, da con­cil­i­ação con­tem­pla­da pelo mod­ernismo teológi­co, nos três princí­pios expli­ca­dos aci­ma, do sim­bolis­mo, da imanên­cia e da per­manên­cia div­ina. Com sim­bolis­mo os mod­ernistas pre­ten­dem encon­trar o modo de sal­var os dog­mas con­tra qual­quer ataque ou descober­ta da ciên­cia mod­er­na. Mas eles fazem uma ten­ta­ti­va deses­per­a­da, pior do que a ardilosa já fei­ta pelos sofis­tas e pagãos, como de Cel­so, de Por­fírio, de Juliano Após­ta­ta, pela esco­la neo­pitagóri­ca e neo­platôni­ca, dos primeiros sécu­los da Igre­ja, para sal­var o pagan­is­mo abal­a­do e a sua desa­cred­i­ta­da mitolo­gia. Cien­tifi­ca­mente a ten­ta­ti­va é um absur­do, reli­giosa­mente uma hipocrisia; porque reduzi­dos os dog­mas a sím­bo­los e instru­men­tos pro­visórios e mutáveis, não pos­suem mais a ver­dade; nem se podem mais admi­tir, muito menos impor-lhes para crer com assen­ti­men­to razoáv­el e irrevogáv­el; nem existe mais lugar para falar de cris­tian­is­mo históri­co e pos­i­ti­vo, bem como do catoli­cis­mo. E ai é de pio­rar: porque, bem obser­va a encícli­ca, «se todos os ele­men­tos, que chamam int­elec­tu­ais, não pas­sam de meros sím­bo­los de Deus, por que moti­vo não será tam­bém um sím­bo­lo o mes­mo nome de Deus ou de per­son­al­i­dade div­ina? E se assim for, bem se pode­ria duvi­dar da mes­ma per­son­al­i­dade div­ina, e ter­e­mos aber­ta a estra­da para o pan­teís­mo».

Ver­dadeiro é que os mod­ernistas creem «super­ar esta arma» prote­s­tando no seu famiger­a­do Pro­gra­ma [5], que «quan­to ao sim­bolis­mo, o sím­bo­lo não impli­ca mais hoje a ideia de uma cri­ação fic­tí­cia, talvez mes­mo fraud­u­len­ta… Isso é uma real­i­dade, uma real­i­dade sui gener­is, a qual a fé con­fere um val­or ines­timáv­el, até fazê-lo tornar-se veícu­lo real e ocasião bené­fi­ca de uma ele­vação do espíri­to e de uma mais pro­fun­da pen­e­tração reli­giosa». Mas não dizem eles qual «real­i­dade» enten­dem, e com razão; porque ao sím­bo­lo, estando o ide­al­is­mo max­i­ma­mente em seus princí­pios, eles não podem atribuir out­ra que uma «real­i­dade ide­al», quer diz­er, o ser inten­cional e sub­je­ti­vo que tem na mente, ou mel­hor dizen­do, como eles amam, na con­sciên­cia do crente; que da fé  esse sím­bo­lo tem exata­mente o «val­or ines­timáv­el» ou – aqui­lo que retor­na ao mes­mo -  tem a vida e a ação. Então, as palavras citadas os mod­ernistas acres­cen­tam ime­di­ata­mente esta razão: «E porque a nos­sa vida é para cada um de nós algu­ma coisa de abso­lu­to ou o úni­co abso­lu­to, tudo aqui­lo que dessa emana e a essa retor­na, tudo aqui­lo que lhe ali­men­ta e lhe enriquece a expli­cação tem igual­mente o val­or de um abso­lu­to». Ora, este val­or – vale a pena repe­tir – não é uma ver­dade abso­lu­ta, não é um val­or de con­formi­dade do sím­bo­lo com o obje­to sim­boliza­do: é no mais um val­or práti­co, isto é, de uma sim­ples con­formi­dade do sím­bo­lo com o sen­ti­do reli­gioso: ou para dizê-la com a elegân­cia de mod­ernista, é «o val­or ines­timáv­el» de «veícu­lo real» etc6 ou com expressão mais pitoresca, de «vibração do diafrag­ma do espíri­to» ou da con­sciên­cia, de «vibração do ser moral ao unís­sono com a palavra do divi­no que se rev­el­ou e se rev­ela»; enten­dem esta palavra do divi­no e a con­se­quente rev­e­lação não qual man­i­fes­tação da ver­dade, mas qual exci­tação psi­cológ­i­ca do sen­ti­men­to, qual propa­gação de vida. Com isto se entende mel­hor, aqui­lo que temos nota­do mais de uma vez, como, segun­do o mod­ernista, todas as ver­dades reli­giosas este­jam con­ti­das implici­ta­mente na con­sciên­cia do homem, o qual por isso «pode­ria faz­er sem mestre se pudesse ler as neces­si­dades do seu espíri­to e da sua con­sciên­cia», como fala Tyrrel. E se entende tam­bém como ele não pode admi­tir a rev­e­lação se não com uma espé­cie de exci­ta­men­to do sen­ti­do e da piedade que faz «ler» ou sen­tir as «neces­si­dades» supra­men­cionadas; onde nasce então a sua fé como «pro­du­to de uma inter­na exper­iên­cia», como «adesão a real­i­dade sen­ti­da». O sim­bolis­mo, por­tan­to, se conec­ta nec­es­sari­a­mente no sis­tema mod­ernista ao princí­pio de imanên­cia, como o evolu­cionis­mo ao con­ceito da per­manên­cia div­ina. Ora, por uma e por out­ra via o mod­ernista teól­o­go, não só alcança a con­cil­i­ação que prom­ete, mas se encam­in­ha para o pre­cipí­cio, em direção ao pan­teís­mo e ao ateís­mo.

VI.

A imanên­cia teológ­i­ca de fato, no sen­ti­do que o mod­ernista apre­sen­ta, dese­jaria con­cil­iar a ordem sobre­nat­ur­al com a nat­ur­al, mas a exten­ua e a con­funde: dese­jaria explicar a união de Deus com o homem no ser e no oper­ar, mas a revi­ra e a aniquila; onde então transcor­rem muitas e aber­tas con­tradições, na ordem espec­u­la­ti­va e na prat­i­ca. Mas nós aqui, cor­ren­do, nos con­tentare­mos de deman­dar, com a implacáv­el lóg­i­ca da encícli­ca: «Essa imanên­cia dis­tingue ou não dis­tingue Deus do homem? Se dis­tingue, que divergên­cia então pode haver entre essa dout­ri­na e a católi­ca? Ou então, por que rejeitam os mod­ernistas a dout­ri­na da rev­e­lação exter­na? Se, pelo con­trário, não se dis­tingue, temos de novo o pan­teís­mo», que é exata­mente o con­fundir Deus com o homem, ou em out­ras palavras negar Deus. – E para a vibrante deman­da dev­e­ri­am dar uma vibrante e categóri­ca respos­ta tam­bém àque­les fau­tores da imanên­cia, que se apegam ao primeiro mem­bro do orgul­hoso dile­ma, e depois de ter con­tra­pos­to a sua dout­ri­na a anti­ga, por eles zom­ba­da, protes­tam ago­ra de ter dado a imanên­cia por eles defen­di­da o sig­nifi­ca­do ace­na­do aqui pela encícli­ca. O que, se fos­se ver­dadeiro, mostraria, todavia, que ess­es tem peca­do de ambigu­idade nos ter­mos, desvir­tuan­do lhes de sua prim­i­ti­va sig­nifi­cação, e muito além da temeri­dade no opor, quase nova, a sua dout­ri­na àquela anti­ga e unân­ime dos Pais e doutores da Igre­ja. «Mas, de fato – con­tin­ua a encícli­ca – a imanên­cia dos mod­ernistas quer e admite que todo fenô­meno da con­sciên­cia pro­ce­da do homem, enquan­to homem. Com legí­ti­mo raciocínio deduz­i­mos por­tan­to que Deus e o homem são uma e a mes­ma coisa; e daqui o pan­teís­mo».

Estas palavras da encícli­ca tem tam­bém uma triste con­fir­mação, não só no Pro­gra­ma dos mod­ernistas já cita­do, na recente afir­mação de Loisy: «A evolução da filosofia mod­er­na tende sem­pre mais a ideia de um Deus ima­nente, que não tem neces­si­dade de inter­mediário para oper­ar no mun­do e no homem». Com isto o após­ta­ta não corre soz­in­ho para depor toda a dout­ri­na da Igre­ja católi­ca e de Cristo reden­tor, medi­a­tor Dei et hominum; mas igual­mente para con­fundir, como é na lóg­i­ca do seu sis­tema, a própria ideia de Deus, quase uma for­ma sub­je­ti­va, ou seja, a evolução mera­mente psíquica do próprio homem, jus­to o puro ide­al­is­mo pan­teís­ta de Hegel.

Não lhe reme­dia, antes agra­va o mal, a dout­ri­na mís­ti­ca do mod­ernismo, par­tic­u­lar­mente aque­la de Laberthon­nière na França, de Tyrrel, de von Hügel, de out­ros na Inglater­ra; a qual dá um col­ori­do novo a imanên­cia, e quer pas­sar dessa a tran­scendên­cia, medi­ante o con­ceito próprio a tais mís­ti­cos, da fé «como ato emo­cional», intu­iti­vo ou exper­i­men­tal, onde a alma sente Deus em si, ou mais, como ess­es dizem, o divi­no. Ao próprio Tyrrel lhe con­vém; e enquan­to esta­mos escreven­do, ele man­da pub­licar em todos os jor­nais do orbe, aque­la sua men­ti­ra des­den­hosa, onde nega de ter jamais opos­to o seu mod­ernismo mís­ti­co, que é de calor visionário, àquele criti­co de frio racional­ista de Loisy. «Ten­ho a declarar, ele escreve, que as posições críti­cas, mís­ti­cas e filosó­fi­cas do mod­ernismo não se difer­en­ci­am já quais tendên­cias opostas, mas como tendên­cias para­le­las, ou mel­hor dizen­do, con­ver­gentes»7.

Mas nós não temos neces­si­dade de tais teste­munhos.  É muito claro para a razão e muito con­fir­ma­do pela exper­iên­cia na história de todo fal­so mist­i­cis­mo, como da pre­ten­são de quer­er sen­tir, apren­der e quase afer­rar o divi­no em si, da con­fusão da vital e inten­cional união a mente com o obje­to pela via da simil­i­tude, (que é própria do ato cognosc­i­ti­vo) com uma opinião própria e real, quase de iden­ti­dade – a qual pre­ten­são é comum a todo fal­so mist­i­cis­mo – o mís­ti­co pode pas­sar muito facil­mente, e pelo breve cam­in­ho, a iden­ti­fi­cação do divi­no com a natureza, com tudo, ou enfim com a sua própria con­sciên­cia ou com «uma auto­con­sciên­cia infini­ta que é a alma do mun­do e na qual se reen­con­tra a nos­sa multí­plice con­sciên­cia pes­soal». Isto insin­ua tam­bém William James, out­ro orácu­lo para os mod­ernistas, o qual des­ta nota dá méri­tos a esco­la hegeliana «que está hoje pro­fun­da­mente influ­en­cian­do o pen­sa­men­to inglês e amer­i­cano»8, como ele disse, e nós deve­mos acres­cen­tar tam­bém francês e ital­iano. – Ora este pan­teís­mo não é out­ra coisa que ateís­mo dis­farça­do.

Não é então con­tra­ditória a acusação que a encícli­ca faz ao mod­ernismo de favore­cer por uma parte o ateís­mo e por out­ra o pseu­do-mist­i­cis­mo; e aque­les mod­ernistas os quais no seu Pro­gra­ma encon­tram a con­tradição aparente por si9, se mostram bem pouco inteligentes ou bem pouco sin­ceros. Nen­hu­ma coisa pelo con­trário, aparece assim evi­dente na mod­er­na con­fusão de sis­temas de erros, quan­to ao híbri­do conúbio do fal­so mist­i­cis­mo com pan­teís­mo e com o ateís­mo mais ou menos aber­to; conúbio de resto que «aparece por si» não pou­cas vezes na história das aber­rações humanas. E bas­taria que os mod­ernistas hou­vessem recor­da­do obras pseudomís­ti­cas, das quais se ini­ciou a qual­quer tem­po a pub­li­cação com seu aplau­so e favor, ou podemos diz­er com a sua ati­va par­tic­i­pação, na Itália e fora dela: sobre as quais prefe­r­i­mos ago­ra reti­rar o véu.

VII.

Nem mes­mo quer­e­mos insi­s­tir aqui sobre as con­se­quên­cias prat­i­cas e as doutri­nas morais, que desce­ri­am logi­ca­mente, e se podem encon­trar mais ou menos tim­i­da­mente insin­u­adas nos escritos mod­ernistas. Não seria demais diz­er que: tan­to mais quan­to o asceti­cis­mo, e mist­i­cis­mo do mod­ernista teól­o­go sabe muito bem trans­fig­u­rar-se em anjo de luz, sob o nim­bo não só da imanên­cia div­ina da con­sciên­cia indi­vid­ual, mas tam­bém da per­manên­cia do divi­no na «con­sciên­cia cole­ti­va, solidária, imen­sa» da Igre­ja.

E assim protes­tam os mod­ernistas no seu Pro­gra­ma que depois da «con­statação leal da evolução» foram induzi­dos «para sus­ten­tar a sua fé, ao con­ceito de uma per­manên­cia do divi­no na Igre­ja10».

Mas se a este princí­pio da per­manên­cia do divi­no se dá o sen­ti­do mod­ernista, com toda a exten­são e a com­preen­são lóg­i­ca de que é capaz, bem como sus­ten­tar a fé, não deixa intac­ta uma só parte da teolo­gia; tão ampla e ilim­i­ta­da é a apli­cação que lhe faz o mod­ernista. Ele pres­supõe na ver­dade, medi­ante esta per­manên­cia do divi­no, enten­di­da em um sen­ti­do inteira­mente novo, de con­cil­iar com a origem div­ina que o cris­tian­is­mo se atribuí, a origem humana e nat­u­ral­ista, que lhe afix­am os racional­is­tas, nomeada­mente os evolu­cionistas ou trans­formis­tas, e então a desin­for­ma­da evolução da própria religião e de tudo aqui­lo que a religião per­tence, deriva­da igual­mente a uma e a out­ra, e a origem e a evolução, da «neces­si­dade»; como da «neces­si­dade» é orig­i­na­da a fé. Daí, tam­bém, suas teo­rias suas sobre a gênese e a evolução das assim chamadas «sementes» ou pro­le da fé, sobre a qual por­menorizada­mente fala a encícli­ca, fazen­do-lhe seguir pre­cisa­mente a ampla trata­ti­va da sín­tese dos três princí­pios ace­na­dos, segun­do cer­to nexo lógi­co bem razoáv­el, seja o que ten­ha jul­ga­do out­ros que não lhe sabi­am dis­tin­guir as con­se­quên­cias dos princí­pios.

Porque, segun­do estes princí­pios e espe­cial­mente em vir­tude da imanên­cia e da per­manên­cia div­ina, a «neces­si­dade» seja da con­sciên­cia indi­vid­ual, seja «con­sciên­cia solidária», da con­sciên­cia imen­sa ou cole­ti­va da sociedade cristã ou do inteiro gênero humano, como falam os mod­ernistas, sig­nifi­caria diz­er coisa div­ina. Onde suposta­mente seri­am Deus e tam­bém Cristo imantes pela fé na con­sciên­cia que lhe apreen­dem com sen­ti­do reli­gioso, isto é, o sen­tem em si pela exper­iên­cia inter­na, tudo isto que é de um impul­so ou «neces­si­dade» reli­giosa da con­sciên­cia se pode diz­er que é de Deus, e na con­sciên­cia cristã uni­da ao Cristo da fé, se pode diz­er que é de Cristo, como uma nova rev­e­lação.

Não é necessário insi­s­tir em demon­strar a enormi­dade do equívo­co ou mes­mo da insidia que se encer­ra nes­ta ten­ta­ti­va de con­cil­i­ação da origem e da vida do cris­tian­is­mo, enquan­to históri­ca, sobre­nat­ur­al e div­ina, com a gênese e a evolução inteira­mente nat­ur­al e psi­cológ­i­ca das religiões, admi­ti­da con­jun­ta­mente por racional­is­tas, teosofis­tas e mod­ernistas. Essa destrói o próprio fun­da­men­to da insti­tu­ição pos­i­ti­va da Igre­ja e da sua prodi­giosa propa­gação e con­ser­vação: destrói o ver­dadeiro sen­ti­do e a eficá­cia toda daque­la div­ina promes­sa, que é a nos­sa con­so­lação e a força da Igre­ja: «Eis que Eu estou con­vosco todos os dias até a con­sumação dos sécu­los». – A con­tradição então do mod­ernismo teológi­co, tam­bém aqui, é assim enorme e palpáv­el, que a pre­ten­são de con­cil­i­ação ou do acor­do tem todo ar de hipocrisia e de uma zom­baria.

Aos mod­ernistas teológi­cos não seria então ino­por­tuno recor­dar por ulti­mo o enér­gi­co avi­so da Escrit­u­ra, que com Deus não se fin­ge nem se brin­ca: Deus non irride­tur!

*La Civiltà Cat­toli­ca anno 59° vol. 2 (fasc. 1388, 10 aprile 1908), Roma 1908 pag. 170–187.

NOTAS:

1 Vedi quad. 1381–1386.

2 Eis as próprias palavras dos teól­o­gos na sua pal­pi­tante atu­al­i­dade: «In fide chris­tiana, aiunt, non intel­lig­i­tur ver­i­tas in se ipsa, sed sus­cip­itur sub sym­bol­i­cis velaminibus… Hac fraude… duo haec con­se­qui stu­dent, ut se ipsos ab infamia athe­is­mi ac impi­etatis tuean­tur, et chris­tianam reli­gionem per depra­va­tionem dog­ma­tum ac abusum nominum effi­cacius oppug­nent», Gaudeau, Libel­lus fidei, p. 221–222. — Cf. quad. 1386, p. 662 ss.

3 La reli­gion dans les lim­ites de la rai­son, par E. Kant. Traduit par J. Trullard (Paris 1841), p. VI. Esta vel­ha obra de Kant parece todo um pro­gra­ma do mod­ernismo; onde, escrevia o próprio Quinet, «o dra­ma da fé e da ciên­cia… se dis­solve tran­quil­a­mente em uma igual mis­tu­ra de ceti­cis­mo e de ide­al­is­mo: a vós se vê apare­cer sobre­tu­do aque­le sis­tema de inter­pre­tação fig­u­ra­da que, alargan­do-se sem­pre mais, parece ago­ra insin­uar um espíri­to novo na letra da Rev­e­lação». E o fru­to deste espíri­to novo, ele acres­cen­ta pre­cisa­mente, acober­tada­mente vai da trans­for­mação do dog­ma em irre­ligião e em ateís­mo: próprio como ocorre no mod­ernismo, vel­ho e decrepi­to tam­bém nis­to.

4 E com os racional­is­tas se podem bem aco­mu­nar os assim ditos «protes­tantes lib­erais», que não se lhe difer­en­ci­am sal­vo no nome. Entre ess­es um dos mais audazes, o Camp­bell, que na sua New The­ol­o­gy (Lon­dra 1907) transcorre até ao pre­to pan­teís­mo, recon­hece como «é pre­cisa­mente aque­le mes­mo movi­men­to que, sob uma for­ma ligeira­mente difer­ente, é rep­re­sen­ta­do na Inglater­ra pela Nova Teolo­gia, e que sob out­ro nome se vem desen­vol­ven­do na Itália e em out­ro lugar por obra dos católi­cos romanos». Assim no Hib­bert Jour­nal (abril de 1907, pg. 489), tão lou­va­do pelos mod­ernistas ital­ianos. Cf. J. Lebre­ton, L’en­cy­clique et la the­olo­gie mod­erniste, p. 5 ss.; p. 22 ss. Este afir­ma (na pg 7) de não haver até ago­ra encon­tra­do a for­ma de pan­teís­mo puro em nen­hum católi­co; mas ago­ra talvez lhe encon­traria mais do que indí­cios nas últi­mas obras de Loisy, e pior ain­da em cer­tos arti­gos dos seus pequenos papa­gaios romanos de Nova et Vet­era, como naque­les de um pobre  «Aschen­brödel», já por nós denun­ci­a­dos e por ess­es muito ambigua­mente des­cul­pa­dos. Dis­to tam­bém con­vém recen­te­mente um L. Donati no ulti­mo numero da defun­ta Vita reli­giosa de Flo­rença (março-abril de 1908) art. «Qual è a nos­sa filosofia?» (Aceno de uma filosofia da vida), p. 133 s.

5 Pag. 112.

6 Estran­ha coin­cidên­cia! Tam­bém a frase pere­g­ri­na do «veícu­lo», como aque­la assim gen­til do diafrag­ma da con­sciên­cia e das suas vibrações em unís­sono (sobre o qual se pode ver Civ. Catt., 1907, vol. IV, quad. 1378, p. 392) nos soam muito vel­has. Não seria difí­cil encon­trar-lhe, com o resto de adorno teológi­co do mod­ernismo, em filó­so­fos het­ero­dox­os. Nos bas­ta aqui citar, por exem­p­lo, um dos seus mestres em vol­un­taris­mo. Assim, Demofele con­tra Filarete no diál­o­go de Schopen­hauer (in Par­erga und Par­alipom­e­na, vol. II. § 174) pre­tende defend­er a religião como um teól­o­go mod­ernista: «Essa não deve, para adap­tar-se a inteligên­cia e a neces­si­dade de um públi­co tão grande e tão vari­a­do, apre­sen­tar a ver­dade nua, ou para usar uma com­para­ção médi­ca, dar-lhe em seu esta­do puro, mas servir-se de um sol­vente, de um veícu­lo míti­co… a ver­dade, que em ger­al não pode vir de out­ro modo expres­sa que sob for­ma de mito ou de ale­go­ria, assemel­ha-se a água, que sem vaso não pode ser trans­porta­da… O sen­ti­do pro­fun­do e o alto fim da vida podem vir aber­tos e apre­sen­ta­dos ao povo ape­nas sim­boli­ca­mente. A filosofia, ao con­trário, deve ser como os mis­térios eleusi­nos para os poucos, para os eleitos… Talvez em todas as religiões a parte metafísi­ca é fal­sa; mas a parte moral é ver­dadeira em todas. Não é um engano: essa é coisa ver­dadeira, e é a mais impor­tante de todas as ver­dades… ensi­na aqui­lo que não é pre­cisa­mente ver­dadeiro para si mes­mo, mas para o sen­ti­do que em si encer­ra: e assim enten­di­da essa é a ver­dade». De Schopen­hauer saiu ago­ra mes­mo uma par­cial tradução inti­t­u­la­da pre­cisa­mente Moral e religião (Turim, 1908): nós a cita­mos, como sinal dos tem­pos.

7 Gior­nale d’I­talia, 30 de março de 1908. Admiráv­el exatidão de con­ceito e limpi­dez de lin­guagem está do pobre mís­ti­co que esta além do Canal da Man­cha, o qual aprox­i­ma assim bela­mente as para­le­las as con­ver­gentes!

8 W. James, Le varie forme del­la coscien­za reli­giosa. (Trad. ital.), p. 387. Uma sim­i­lar tendên­cia de «sub­je­tivis­mo agnós­ti­co e de pan­teís­mo ide­al­ista» é recon­heci­da até mes­mo pelo cita­do escritor de Vita reli­giosa como «con­ceito fun­da­men­tal  pro­gres­si­va­mente afir­ma­do e desen­volvi­do pela revista Nova et Vet­era, cujos autores, por­tan­to, se jun­tam a esco­la hegeliana de Benedet­to Croce e Gio­van­ni Gen­tile». (Vita reli­giosa, p. 133).

9 Il Pro­gram­ma dei mod­ernisti, p. 107.

10 Pag. 23 s.