Doutrina da Igreja Católica a respeito do uso dos livros sagrados


História, Teologia / quarta-feira, agosto 29th, 2012

Da: Jean-Bap­tiste. Mal­ou, La lec­ture de la Sainte Bible en langue vul­gaire, tomo I, Lovanio – Pari­gi – Bonn 1846 pag. 27–37.

Jean-Bap­tiste Mal­ou

[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

A leitu­ra da Sagra­da Bíblia em lín­gua vernácu­la (I)

 

 

I.

Dout­ri­na da Igre­ja Católi­ca a respeito do uso dos livros sagra­dos

Nós acred­i­ta­mos que as Sagradas Escrit­uras foram dadas a Igre­ja para instru­ir todos os fiéis, e que foram par­tic­u­lar­mente con­fi­adas aos pas­tores, afim de que as con­ser­vassem intac­tas e puras em meio às vicis­si­tudes e rev­oluções das sociedades humanas, afim de que ess­es fizessem dela a base de seu ensi­na­men­to. Acred­i­ta­mos que con­tém a maior parte das ver­dades rev­e­ladas, e que a Igre­ja docente, isto é, o cor­po dos pas­tores, o suces­sor de Pedro como chefe, rece­beu a mis­são de inter­pretá-la de for­ma autên­ti­ca por meio da tradição vivente, por ela con­ser­va­da em seu próprio seio em vir­tude da autori­dade rece­bi­da do Sal­vador. Acred­i­ta­mos que as Sagradas Escrit­uras em várias cir­cun­stân­cias são sufi­cientes por si só, para con­fundir a here­sia se enten­di­das no sen­ti­do atribuí­do a elas pelos SS. Padres e con­forme­mente às decisões ante­ri­ores da Igre­ja; mas acred­i­ta­mos ain­da com Ter­tu­liano que não são sus­cep­tíveis de resolver defin­i­ti­va­mente e abso­lu­ta­mente algu­ma con­tro­vér­sia quan­do sep­a­radas do princí­pio de autori­dade e se lhe deter­mine o sen­ti­do segun­do opiniões pre­con­ce­bidas ou segun­do sis­temas humanos; neste últi­mo caso, elas para servir-nos da expressão enér­gi­ca daque­le Doutor Africano, servem ape­nas para tur­bar o estô­ma­go e o cére­bro [1]. Acred­i­ta­mos que a Escrit­u­ra não con­tém todas as ver­dades rev­e­ladas, mas acred­i­ta­mos que a sua leitu­ra seja necessária aos pas­tores de almas e que pos­sa ser útil a todos os fiéis que são prepara­dos para esta mes­ma leitu­ra; acred­i­ta­mos que jamais Deus orde­nou a todos os cristãos de lerem a Sagra­da Bíblia e atin­gir com os seus próprios esforços o con­hec­i­men­to da rev­e­lação; acred­i­ta­mos que os fiéis lucram com as Sagradas Escrit­uras se colo­cam aten­ta­mente e docil­mente o ouvi­do ao ensi­na­men­to dos seus pas­tores, e acred­i­ta­mos que a Igre­ja teve legí­ti­mos motivos para esta­b­ele­cer e mod­i­ficar as leis dis­ci­pli­nares ou os cos­tumes locais que restringi­ram ou enco­ra­jaram em épocas difer­entes o uso dos livros sagra­dos entre os lei­gos.

 

Aqui de for­ma breve, aqui­lo que acred­i­ta­mos, aqui a ver­dadeira e própria dout­ri­na da Igre­ja; para com­preen­der lhe os princí­pios, é necessária a ciên­cia de uma série de fatos fun­da­men­tais que os protes­tantes igno­ram ou per­dem de vista e que é essen­cial recordá-los para provar aqui sumari­a­mente que as crenças da Igre­ja não são arbi­trárias, mas se lig­am conc­re­ta­mente ao berço do cris­tian­is­mo e as insti­tu­ições fun­dadas pelo Sal­vador.

O primeiro fato que reten­ho rel­e­vante con­statar é o méto­do usa­do pelo divi­no Mestre no ensi­na­men­to da fé; ele des­de o princí­pio pode­ria con­sagrar o uso da leitu­ra dos livros san­tos com o seu exem­p­lo, propondo‑o aos seus dis­cípu­los, e ao invés difundiu a própria dout­ri­na a viva voz e for­mou os após­to­los por meio do ensi­na­men­to oral. Seguiram eles, o pro­je­to da sua Igre­ja, pre­disse a eles as tem­pes­tades que essa dev­e­ria sofr­er um dia, falou a eles de todos os inter­ess­es do seu povo, de todos os dons do seu amor, e impôs a eles o dev­er de anun­ciar a fé no mes­mo modo com o qual eles mes­mos a havi­am rece­bido; por dis­posição da sua providên­cia a nova aliança foi não só anun­ci­a­da a viva voz, mas foi tam­bém con­cluí­da e san­ciona­da antes que um só livro do Novo Tes­ta­men­to tivesse sido escrito.

A Igre­ja mes­ma foi fun­da­da sem a aju­da de tais livros; o Sal­vador lhe havia escol­hi­do o chefe, prepara­do os ele­men­tos, rev­e­la­do as crenças antes de subir ao céu, e depois da sua glo­riosa ressur­reição con­fere a Pedro [2] e aos após­to­los a juris­dição que havia a eles prometi­do [3], e ten­do sen­tan­do-se a destra do Pai os envi­ou segun­do a sua promes­sa o Espíri­to con­so­lador, que ensi­nou a eles toda a ver­dade [4]. A lei evangéli­ca, pro­mul­ga­da no dia de Pen­te­costes, exis­tia assim toda inteira no ensi­na­men­to oral da Igre­ja rep­re­sen­ta­da pelo colé­gio apos­tóli­co e que, comu­ni­ca­da a viva voz aos primeiros dis­cípu­los do Evan­gel­ho, foi anun­ci­a­da a todas as nações da ter­ra, fru­ti­f­i­can­do entre essas ao cên­tu­p­lo.

Os livros sacros foram escritos depois que a fé já havia sido anun­ci­a­da no mun­do inteiro [5]; a sua pro­mul­gação foi lenta e tar­dia, o seu uso se intro­duz­iu suces­si­va­mente nas Igre­jas. O primeiro livro sacro do Novo Tes­ta­men­to foi escrito ape­nas oito ou dez anos após a morte do Sal­vador, e o últi­mo cer­ca de sessen­ta anos mais tarde, pelo fim do primeiro sécu­lo da era cristã. Ini­cial­mente as Igre­jas não rece­ber­am o depósi­to com­ple­to das Sagradas Escrit­uras; no iní­cio do IV sécu­lo se con­tavam sete livros divi­nos do N.T. a qual origem sacra não era uni­ver­salmente esta­b­ele­ci­da [6].

Aque­les livros dos quais a origem é indu­bitáv­el não tin­ha um forte caráter de util­i­dade ger­al; alguns, como os Evan­gel­hos, emb­o­ra fos­sem de extremo inter­esse para a Igre­ja uni­ver­sal, foram redigi­dos sobre a req­ui­sição de alguns sin­gu­lares fiéis: S. Mateus escreve para os Judeus con­ver­tidos, S. Mar­cos sobre req­ui­sição dos fiéis de Roma, S. Lucas para fornecer uma aju­da aos gen­tios, S. João sobre req­ui­sição dos seus ami­gos [7]; out­ros livros, quais as Epís­to­las de São Paulo, foram endereça­dos a igre­jas par­tic­u­lares ou a sim­ples bis­pos para resolver difi­cul­dades locais ou para con­sel­hos cir­cun­stan­ci­ais; nen­hum deles pos­suía car­ac­terís­ti­cas de uma lei uni­ver­sal, pro­mul­ga­da na origem em todas as Igre­jas como úni­co códi­go do povo cristão.

Todavia, longe de nós o pen­sa­men­to de atribuir ao aca­so a pub­li­cação dos livros sacros, ou de negar o fim prov­i­den­cial que pre­sidia a sua redação! Nós acred­i­ta­mos com a Igre­ja que o Espíri­to de Deus, inspi­ran­do-lhes, que­ria ofer­e­cer aos fiéis uma lei div­ina e uni­ver­sal que servisse como tutela e sal­va­guar­da da fé em todas as idades; mas ousamos afir­mar sem temor de ser­mos refu­ta­dos que este fim não se con­cretiza na for­ma dos livros divi­nos, nem nas cir­cun­stân­cias do seu nasci­men­to [8]. Tais livros have­ri­am tido o caráter con­cre­to de lei úni­ca e uni­ver­sal se os após­to­los, ao invés de pro­mul­gar lhe suces­si­va­mente e iso­lada­mente, e a segun­da exigên­cia dos tem­pos e dos lugares, lhe hou­vessem redigi­dos em comum e lhes hou­vessem pro­mul­ga­do suces­si­va­mente de comum acor­do como o úni­co códi­go da Igre­ja, como a úni­ca fonte de instrução cristã.

Deus, que havia con­fi­a­do a Igre­ja o depósi­to da Tradição, não per­mite que uma pro­mul­gação solene das Escrit­uras viesse de qual­quer modo a des­men­tir o seu primeiro dom com o consignar a Sacra Bíblia uma des­ti­nação que ela própria não tin­ha; Ele deu muito maior evidên­cia a insti­tu­ição do min­istério apos­tóli­co e a primeira pre­gação do Evan­gel­ho, mais que a pub­li­cação dos livros san­tos, e isto para man­i­fes­tar de modo fac­tu­al a sua von­tade for­mal de sub­me­ter ao juí­zo da Igre­ja a inter­pre­tação dos livros inspi­ra­dos, e de faz­er depen­der da autori­dade dos pas­tores o fru­to con­seguív­el com o seu estu­do. A práti­ca de quinze sécu­los jun­to ao teste­munho da Bíblia e a dout­ri­na dos SS. Padres ates­tam no mun­do mais explíc­i­to esta von­tade do Sal­vador; mas ain­da na ausên­cia destas provas evi­dentes, o con­jun­to dos fatos orig­i­nais que acabamos de expor o provaria com a máx­i­ma evidên­cia, adquirindo toda a força de uma apolo­gia em favor da dis­ci­plina atu­al da Igre­ja; e em efeito, é fácil deduzir-lhe os princí­pios fun­da­men­tais da nos­sa crença e das leis dis­ci­pli­nares que nos regem.

Em primeiro lugar pre­cisa con­cluir-se que o uso dos livros san­tos não é uma neces­si­dade abso­lu­ta no ensi­na­men­to da fé, que, além dis­so, qual lhe pos­sa ser a util­i­dade: o com­por­ta­men­to dos após­to­los e as relações exis­tentes entre os livros san­tos e as primeiras rev­e­lações orais não con­sen­tem a mín­i­ma dúvi­da a este respeito. Os após­to­los não se servi­ram dos livros san­tos para chamar os idóla­tras à fé, e os seus dis­cípu­los, um sécu­lo depois da morte do Sal­vador, anun­ci­avam ain­da a viva voz o Evan­gel­ho aos povos bár­baros, que não tin­ham noção algu­ma das letras humanas [9]. O ensi­na­men­to oral das ver­dades rev­e­ladas, não ape­nas pre­cedeu a existên­cia das escrit­uras, mas os escritores inspi­ra­dos se servi­ram da Tradição div­ina como de uma fonte. Os home­ns que o Espíri­to San­to ilu­mi­nou com a luz celeste afim de que colo­cassem por escrito as vidas admiráveis e as doutri­nas sub­limes do Sal­vador tirara da Tradição da Igre­ja uma grande parte dos fatos e das ver­dades que lemos nos seus escritos [10]; e atingin­do a sacra dout­ri­na a esta fonte div­ina, eles não a teri­am drena­do, como afir­mam os protes­tantes, mas a tem fecun­da­do acres­cen­tan­do as ver­dades já notáveis, as ver­dades que Deus a eles inspirou. A própria lin­guagem em uso na Igre­ja, e o sen­ti­do teológi­co dos ter­mos que empre­gavam podem ser deter­mi­na­dos ape­nas pelo ensi­na­men­to oral dos após­to­los. Então, é necessário con­sid­er­ar as Escrit­uras como um potente sus­ten­to, como uma sanção duradoura da Tradição div­ina, e não como fonte úni­ca de toda a ver­dade cristã.

É impos­sív­el afir­mar que a Tradição, assim inti­ma­mente uni­da a Escrit­u­ra des­de o princí­pio, dela ten­ha sido sep­a­ra­do mais tarde; nos tem­pos suces­sivos a sabedo­ria div­ina não destru­iu a insti­tu­ição orig­inária de Jesus Cristo, o qual quer que a letra mor­ta da Sagra­da Bíblia rece­ba a vida da Tradição oral e depen­da da von­tade da Igre­ja, afim de que, em todos os tem­pos pudesse se dis­cernir o ver­dadeiro sen­ti­do da rev­e­lação, do sen­ti­do que a here­sia ou o capri­cho dos home­ns lhes atribuía. A Tradição div­ina foi então des­ti­na­da no princí­pio a exi­s­tir per­pet­u­a­mente ao lado das Escrit­uras enquan­to expressão vivente do pen­sa­men­to dos escritores sacros, para atribuir aos livros san­tos o seu ver­dadeiro sen­ti­do dog­máti­co, mais ou menos como as vozes são colo­cadas ao lado das con­soantes para con­ferir seu som e for­mar o sen­ti­do gra­mat­i­cal da frase. A Tradição, emb­o­ra ten­ha ain­da como escopo o con­ser­var algu­mas ver­dades rev­e­ladas da qual em vão se bus­cari­am os traços nos nos­sos livros san­tos, sobre­tu­do, devem servir-nos para deter­mi­nar a dout­ri­na das Escrit­uras, da qual é por assim diz­er a fonte e a vida; e se ain­da não adi­cionasse algu­ma ver­dade essen­cial, a ver­dade con­ti­da nos nos­sos livros san­tos, não obstante, seria necessária a Igre­ja para ilu­mi­nar as Escrit­uras e como regra infalív­el das nos­sas crenças. Nós não con­sid­er­amos a Tradição como um ensi­na­men­to suple­men­tar, total­mente dis­tin­to do ensi­na­men­to dado pelas Escrit­uras, mas como um ensi­na­men­to por assim diz­er colat­er­al àquele da Sagra­da Bíblia, sob cer­tos aspec­tos mais abun­dantes e sem­pre muitos pre­ciosos, porque ofer­ece a dúplice van­tagem de fixar o sen­ti­do das Escrit­uras e de con­ser­var-nos um grande número de ver­dades não colo­cadas por escrito. Se os min­istros protes­tantes têm reti­do que a Tradição div­ina para nós não fos­se out­ra coisa, que um con­jun­to de ver­dades não escritas, que os fiéis tem sem­pre pro­fes­sa­do na Igre­ja, fiz­er­am uma ideia fal­sa da nos­sa dout­ri­na; porque os nos­sos teól­o­gos não ensi­naram nun­ca que a Tradição apos­tóli­ca fos­se um ensi­na­men­to suple­men­tar (no sen­ti­do que tais min­istros dão a este ter­mo) ao ensi­na­men­to das Escrit­uras. [11]

Destes fatos orig­inários podemos ulte­ri­or­mente deduzir que o Sal­vador e os após­to­los nun­ca impuser­am aos fiéis a obri­gação de ler a Sagra­da Bíblia. E que os judeus e os gen­tios rece­ber­am da boca dos após­to­los e dos seus primeiros dis­cípu­los as ver­dades da fé, enquan­to os cristãos de hoje não pode­ri­am mais ser instruí­dos naque­la mes­ma fé, escu­tan­do aten­ta­mente o ensi­na­men­to dos Pas­tores aos quais o Sal­vador con­feriu a mis­são de anun­ciar a palavra sacra e de con­tin­uar a obra ini­ci­a­da no dia de Pen­te­costes? Por qual curiosa rev­olução a pre­gação da Fé, que Deus colo­cou em relação com a con­ver­são do mun­do, tornou-se insu­fi­ciente para ensi­nar os fiéis, as vias da sal­vação e as regras da vida cristã? As vias do céu aber­tas pelo Sal­vador talvez este­jam fechadas no dia de hoje? As condições colo­cadas para obter a sal­vação talvez este­jam mais rig­orosas? No nasci­men­to da Igre­ja pode­ria nos sal­var acred­i­tan­do nas ver­dades a viva voz e obe­de­cen­do aos Bis­pos depositários da Tradição… por que hoje não se pode mais? Os min­istros protes­tantes nos expli­cam de graça, os motivos que atual­mente obrigam os seus fiéis a ler a Sacra Bíblia sob pena de danação [12]!… A Refor­ma talvez ten­ha rece­bido o poder de abrir e fechar a seu gos­to as por­tas do céu? Talvez, não nos impon­ha, com a sua pri­va­da autori­dade, um jul­go insu­portáv­el que os após­to­los não nos impuser­am e que foi descon­heci­do por quinze sécu­los de Igre­ja?

Mas a Igre­ja Católi­ca acred­i­ta que nos pos­sa sal­var acred­i­tan­do nas ver­dades anun­ci­adas a viva voz e obe­de­cen­do aos Bis­pos depositários da tradição e, mais sabi­a­mente que os refor­madores, retém assaz menos impor­tante faz­er ler a Sacra Bíblia, que faz­er obser­var as leis impostas a nós por Deus, e é per­sua­di­da que a Bíblia seja de proveito para todos os fiéis, muito mais por meio do ensi­na­men­to dos pas­tores, para os quais, na ver­dade, foi escri­ta e aos quais foram espe­cial­mente con­fi­adas, que por meio de uma leitu­ra pes­soal: o Após­to­lo ensi­nou que toda Escrit­u­ra inspi­ra­da é útil para ENSINAR, para REPREENDER, para CORRIGIR e para CONDUZIR a justiça e a piedade [13], isto é, para diri­gir os pas­tores no gov­er­no de suas greis. Qual­quer que sejam as ideias que os protes­tantes fiz­er­am da hier­ar­quia sacra, é de fé para eles como para nós que não todos os fiéis são doutores, após­to­los, intér­pretes, pas­tores [14] e que não todos foram esta­b­ele­ci­dos pelo Espíri­to San­to para apas­cen­tar a grei de Jesus Cristo [15]: segue-se evi­den­te­mente que não todos rece­ber­am as Escrit­uras para ensi­nar, repreen­der, cor­ri­gir e con­duzir, e que os fiéis podem con­tar com a sabedo­ria e o zelo dos Bis­pos que Deus con­sti­tu­iu chefes de seu povo para con­hecer as Escrit­uras e con­for­mar as suas crenças e os seus cos­tumes a lei do Sen­hor. San­to Ambró­sio chama a Bíblia de o livro sac­er­do­tal, e San­to Agostin­ho dizia que o homem que se apoia sobre a fé, a esper­ança e a cari­dade, não tem neces­si­dade da Escrit­u­ra QUE PARA INSTRUIR OS OUTROS [16]. A dout­ri­na do Após­to­lo era então aque­la dos San­tos Padres, e deve ain­da ser a nos­sa.

Tam­bém os protes­tantes aceitari­am tal dout­ri­na, se a neces­si­dade impe­riosa de negar a autori­dade da Igre­ja e o depósi­to da Tradição não lhes forçasse de qual­quer modo a descon­hecê-la; remove aos protes­tantes o inter­esse pela sua sei­ta, fazei com que pos­sam defend­er a sua causa sem sub­sti­tuir a Sacra Bíblia pela Igre­ja e o juí­zo indi­vid­ual pela autori­dade espir­i­tu­al, e não terão mais difi­cul­dade a recon­hecer conosco que, emb­o­ra se todos os home­ns são obri­ga­dos a aderir a ver­dade rev­e­la­da, a obri­gação de con­hecer tal ver­dade por meio da leitu­ra dos Livros sacros, existe ape­nas para os pas­tores; não é a sã razão, nem a evidên­cia da ver­dade que lhes obri­ga a atribuir a leitu­ra pes­soal da Bíblia uma sim­i­lar importân­cia, ver­dadeira­mente ridícu­la. Um pouco menos pre­ocu­pação, um pouco mais de cal­ma faria com que com­preen­dessem aqui­lo que nós com­preen­demos que isto, a leitu­ra, é somente um meio para alcançar o con­hec­i­men­to da ver­dade, o qual por out­ro lado, se man­i­fes­ta em várias for­mas difer­entes. Que impor­ta em ulti­ma análise a maneiracom a qual a ver­dade pen­e­tra a alma dos fiéis? No momen­to no qual estes gozam da con­so­lação das escrit­uras [17], que con­siste na med­i­tação das promes­sas de Deus, o Espíri­to San­to que inspirou a Sacra Bíblia, talvez não ten­ha chega­do ao fim, e as Escrit­uras não são, talvez, estadas de proveito para todos os cristãos? Faz desa­pare­cer o pre­jul­ga­men­to protes­tante, e a neces­si­dade de ler a Bíblia será reduzi­da a seu jus­to val­or: a se acon­sel­har a muitos como um meio útil, mas não a se imporá a todos como dev­er essen­cial; se recon­hecerá que o ensi­na­men­to oral dos pas­tores faz com que os fiéis se ben­e­fi­ciem das ver­dades con­ti­das na Bíblia, e que uma só coisa é ver­dadeira­mente necessária em matéria de ensi­na­men­to cristão e de sacras Escrit­uras, e isto é, con­hecer a ver­dade e aderir a esta [18].

Reduzi­da ao val­or de meio mate­r­i­al, a leitu­ra da Sagra­da Bíblia não é mais obje­to de uma lei div­ina, mas de uma lei dis­ci­pli­nar da Igre­ja, a qual varia com a neces­si­dade dos fiéis e a exigên­cia dos tem­pos. A Igre­ja, para reg­u­lar-lhe o uso, não faz out­ra coisa, que empre­gar as regras da prudên­cia cristã; qual que seja a sua decisão, essa obe­de­cerá a palavra de Deus se dis­tan­ciar das almas frágeis e car­nais o ter­rív­el risco de trans­for­mar o nutri­men­to sub­stan­cial das Escrit­uras em veneno mor­tal, e se impedirá com leis sev­eras e inflexíveis os exces­sos que a here­sia em todos os sécu­los nos ofer­ece, como um des­o­lador espetácu­lo.

[Tradução do francês para o ital­iano: C.S.A.B.]

[CONTINUA]

Fonte: Prog­et­to Bar­ru­el

NOTAS:

[1] Ter­tull. De prae­script. cap. XVI: «Nihil proficit con­gres­sio Scrip­turarum nisi plane ut stom­achi quis ineat ever­sionem aut cere­bri.»

[2] Joan. XXI. 15.

[3] Matth. XVI. 18. — XVIII 18.

[4] Act. I.

[5] Rom I. 8. Col I. 6.

[6] Euseb. Hist. eccl. lib. III. c. 25. p. 118. Os livros deute­ro­canôni­cos do N.T. são as Epís­tu­las de S. Tia­go, de S. Judas, a segun­da de S. Pedro, a segun­da e a ter­ceira de S. João, a Epís­to­la aos Hebreus e o Apoc­alipse; as dúvi­das lev­an­tadas con­tra estes livros desa­pare­ce­r­am na Igre­ja Católi­ca no V ou no VI sécu­lo, bem que o canône das Escrit­uras não ten­ha sido pro­mul­ga­do nes­ta época como lei uni­ver­sal. Estas dúvi­das revivi­das pelos primeiros refor­madores foram aban­don­adas pelos protes­tantes mod­er­nos, que rejeitam ape­nas os livros deute­ro­canôni­cos do Anti­go Tes­ta­men­to.

[7] «Matthaeus apud Hebraeos pro­pria eorum lin­gua con­scrip­tum evan­geli­um edid­it, dum Petrus et Paulus Romae Chris­tum praedi­car­ent et eccle­si­ae fun­da­men­ta jac­er­ent.» Euseb. Hist. l. V. c. 8. p. 219. ex Ire­naeo. — «Pri­mum Evan­geli­um scrip­tum est a Matthaeo, qui illud hebraico ser­mone con­scrip­tum Judaeis ad fidem con­ver­sis pub­li­cav­it… Ter­tium Evan­geli­um Lucae, in gra­ti­am gen­til­i­um con­scrip­tum.» Euseb. ibid. l. VI. c. 25. p. 290. ex Ori­gene. — «Mar­cum Petri sec­ta­torem enixe orarunt (Romani), ut doc­tri­nae illius, quam audi­tu acceper­ant, scrip­tum aliquod mon­u­men­tum apud se relin­queret. Nec prius des­titerunt, quamhominem expug­nassent, auc­toresque scriben­di illius, quod secun­dum Mar­cum dic­i­tur, Evan­gelii exsti­tis­sent.» Euseb. ibid. lib. II. cap. 15. p. 64. — «Aiunt Joan­nem ab ami­cis roga­tum… res a Ser­va­tore ges­tas… in Evan­geli­um suum con­je­cisse.» Euseb. ibid. l. III. cap. 24. p. 117.

[8] Não afir­mamos que «os após­to­los redi­gi­ram as suas obras por con­ta própria e não por ordem de Deus», como asse­gu­ra Oster, pg.150, mas que o Espíri­to San­to comu­ni­cou as próprias luzes na ocasião de deter­mi­nadas neces­si­dades dos fiéis, sem man­i­fes­tar a própria von­tade for­mal de impor qual­quer livro a cada fiel como uma lei imutáv­el. Em out­ros ter­mos a pro­mul­gação dos livros do N.T. não foi acom­pan­ha­da da solenidade que cir­cun­da a pro­mul­gação da lei anti­ga sobre o monte e a insti­tu­ição do min­istério da palavra sob a lei da graça.

[9] S. Ire­neo. lib. III. c. IV. n. 2. p. 178. Gentes bar­barae sine lit­teris fidem didicerunt.

[10] Luc. I. 2 e 3.

[11] Esta obser­vação responde em parte a questão que Oster nos endereçou nestes ter­mos: «Quais são as ver­dades essen­ci­ais que a tradição acres­cen­ta a Escrit­u­ra?» p. 148- Indi­care­mos estas ver­dades em out­ro lugar, mas ain­da que não tivesse algu­ma, a tradição seria necessária como regra inter­pre­ta­ti­va. Esta obser­vação responde ain­da a difi­cul­dade colo­ca­da por Mon­od, pg. 174.

[12] É uma opinião de Girod, na pg. 36 do seu Avver­tisse­ment.

[13] II Tim. III. 16.

[14] I Cor. XII. 29. — Ephes. IV. 11. — I Tim. I 7.

[15] Act. XX. 28.

[16] «Homo fide, spe, car­i­tate sub­nixus, non indi­get Scrip­turis,nisi ad alios instru­en­dos.» De doct. christ. l. I. c. 49.

[17] Rom. XV. 4.

[18] Os min­istros protes­tantes, quan­do estão sem a sua pre­ocu­pação sec­tária, chegam a alcançar a ver­dade; aqui como um deles recon­hece o princí­pio que nós ape­nas esta­b­ele­ce­mos: «A mul­ti­dão inu­meráv­el de pes­soas, afir­ma que foram con­ver­tidas a Deus, o foram por meio da Bíblia SEJA dire­ta­mente pela sua leitu­ra, SEJA indi­re­ta­mente por meio da pre­gação da ver­dade que ela encer­ra» Bouch­er, pg 89. «Não nos podemos recusar a admi­tir, diz (pg.193), que a inteligên­cia da dout­ri­na de Deus, é ape­nas um meio para chegar ao fim, que é com­preen­der a von­tade de Deus.» — «Sem dúvi­da se pode chegar ao con­hec­i­men­to do Sal­vador ape­nas com a pre­gação!» Girod p. 36.  Neste caso, que é feito do dev­er abso­lu­to de ler a Bíblia e de procu­rar por si mes­mo, as ver­dades da sal­vação?