CARDEAL SIRI: A PROPÓSITO DA HERMENÊUTICA


Direito, Filosofia, Teologia / sábado, setembro 7th, 2013

Extraí­do do livro
Get­se­mani
Reflexões sobre o movi­men­to teológi­co con­tem­porâ­neo
Cardeal Giuseppe Siri
[Tradução: Ged­er­son Fal­cometa]

O ver­bo do homem foi o resul­ta­do de uma ordem de supre­ma har­mô­nia. É este um imutáv­el e fun­da­men­tal con­hec­i­men­to. Esse ver­bo do homem é resul­ta­do da ordem da Inteligên­cia eter­na do Cri­ador. Nen­hum recur­so a ima­gens do homem e da sociedade humana, no pas­sa­do mais remo­to, nen­hu­ma análise dos dados das lín­guas e das lin­gua­gens, nen­hu­ma espec­u­lação sobre dados da psi­colo­gia, dita exper­i­men­tal, nen­hu­ma pesquisa em qual­quer cam­po, podem alter­ar esta grande e pro­fun­da ver­dade, que é e deve ser sem­pre a base de toda med­i­tação e de toda espec­u­lação a propósi­to da ver­dade, de Deus, do homem e dos seus eter­nos des­ti­nos. O ver­bo do homem tem a sua origem no Ver­bo de Deus.

Assis­ti­mos, já há algum tem­po, um obsti­na­do esforço para ren­o­var a noção fun­da­men­tal da palavra e das relações do homem com a sua própria palavra e com a palavra dos out­ros. Isto, quer queira ou não, con­duz a princí­pio a negação ou ao esquec­i­men­to da origem e da natureza do ver­bo do homem, e então inelu­tavel­mente a destru­ição no homem das fun­da­men­tais bases ontológ­i­cas da palavra humana.

Tal alter­ação se cumpre no seio da her­menêu­ti­ca, alteran­do rad­i­cal­mente toda nor­ma de lóg­i­ca eter­na de Inter­pre­tação. Em todas as direções e em todas as ativi­dades int­elec­tu­ais, se nota facil­mente uma efer­vescên­cia na pesquisa de uma nova lin­guagem, pesquisa patéti­ca de uma nova leitu­ra dos tex­tos, e não ape­nas daque­les da Sagra­da Escrit­u­ra, pesquisa de uma con­cepção do fato de “com­preen­der”; novo nome, sem­pre hábeis para inter­pre­tação dos tex­tos, dos sinais e ain­da dos fatos. Esta pesquisa con­duz, por força das coisas, a um esforço de anális­es das relações entre tex­to e autor, entre tex­to e leitor, entre autor e leitor, entre inter­locu­tores, entre obra e ambi­ente históri­co; anális­es sem fim, enquan­to não é pos­sív­el esta­b­ele­cer um pon­to qual­quer fixo de refer­ên­cia; porque todas as noções e con­tatos entre as obras e os home­ns são toma­dos na dança de um “impalpáv­el exis­ten­cial”.

Este esforço de anális­es faz desa­pare­cer da con­sciên­cia as bases ontológ­i­cas do ver­bo do homem. E o homem se sente toma­do em um inter­mináv­el fluxo e refluxo entre sujeito e obje­to, entre real­i­dade fugaz e a per­cepção des­ta fugaz real­i­dade. O homem assim não tem algum pon­to de apoio, no seu nat­ur­al movi­men­to de con­hec­i­men­to; perde toda pos­si­bil­i­dade de equi­líbrio ref­er­ente ao seu próprio ser, não tem mais a nor­ma inte­ri­or, imutáv­el, da palavra humana. Os tex­tos, o saber, as lem­branças, a gramáti­ca, o sen­ti­do de si e o sen­ti­do do out­ro, são assim colo­ca­dos a pro­va e sofrem como uma diluição, per­den­do toda con­sistên­cia. Há cada instante, a palavra vac­ila; no dese­jo de col­her, não uma coisa ou uma ideia, mas a quin­tes­sên­cia de um “momen­to de com­preen­são”, as palavras per­doam as suas relações intrínse­cas com a ordem orig­inária da palavra; as palavras per­doam toda pos­si­bil­i­dade de tornar estáv­el um sig­nifi­ca­do.

Desa­pare­cen­do, então, com os sig­nifi­ca­dos de base, desa­pare­cem tam­bém todas as pos­si­bil­i­dades mati­zadas das palavras e de seus sig­nifi­ca­dos. Assim, o homem tor­na-se inca­paz de rece­ber uma certeza. Esta é maior pro­va para a palavra do homem, no quadro da her­menêu­ti­ca do nos­so tem­po.

Nos sécu­los que lev­am a mar­ca do desen­volvi­men­to da men­tal­i­dade his­toricista, tomou for­ma e se desen­volveu uma leitu­ra sem­pre nova dos tex­tos do Anti­go e do Novo Tes­ta­men­to. E de tal modo nasce­r­am e se desen­volver­am todas as pecu­liares for­mas da nova críti­ca da Escrit­u­ra Sagra­da.

Esta nova, e sem­pre mais nova leitu­ra, esta críti­ca  emergiu e se desen­volveu sobre um dúplice critério his­toricista: de um lado, recon­tro­lar todos fatos e todos os teste­munhos obti­dos da própria Sagra­da Escrit­u­ra, através de critérios e fontes de infor­mações da história ger­al; por out­ro, rece­ber a men­sagem da Escrit­u­ra, como uma men­sagem escat­ológ­i­ca intra-históri­ca.

Con­tem­po­ranea­mente, este mes­mo con­t­role e esta mes­ma análise dos tex­tos da Sagra­da Escrit­u­ra, foram efe­t­u­a­dos sobre bases literárias, filológ­i­cas, arque­ológ­i­cas, etnológ­i­cas, e ain­da segun­do os dados sem­pre novos da ciên­cia exper­i­men­tal, como a físi­ca e a astrono­mia.

Como todas as coisas sobre esta ter­ra, em para­le­lo a esta críti­ca históri­ca, que evoluiu no sen­ti­do da men­tal­i­dade his­toricista, um estu­do criti­co, um apro­fun­da­men­to da Sagra­da Escrit­u­ra, con­tin­u­ou a trans­mi­tir até aos nos­sos dias, de for­ma mais ou menos imper­fei­ta, mas sem­pre fiel a Ver­dade rev­e­la­da, o sen­ti­do real do mais pro­fun­do mis­tério do Anti­go e do Novo Tes­ta­men­to e dos fatos da História Sacra, da Encar­nação do Ver­bo de Deus e da Ressur­reição de Jesus Cristo.

Este pro­gredir em para­le­lo rara­mente se cumpre na vida do mun­do como o pro­longa­men­to de dois tril­hos de uma fer­rovia. Existe uma inter­pre­tação a qual dom­i­na ou uma, ou out­ra tendên­cia, às vezes na mes­ma pes­soa ou em uma mes­ma época.

A críti­ca históri­ca literária e filológ­i­ca não se lim­i­tou ape­nas aos quadros da Sagra­da Escrit­u­ra; se esten­deu a todos os tex­tos apos­tóli­cos, patrís­ti­cos, aos Atos dos Con­cílios e de todo ao Mag­istério da Igre­ja.

E de tal modo tomou for­ma uma tendên­cia a rein­ter­pre­tar os tex­tos escrit­u­rais, os tex­tos teológi­cos dos Padres, os tex­tos dog­máti­cos da Igre­ja; tendên­cia que acabou com “rein­ter­pre­tar” cada escrito, cada fato e ensi­na­men­to que chegou até a nós através da Tradição; “rein­ter­pre­tar” inteira­mente o adven­to e a men­sagem de Cristo.

É evi­dente que tudo isto mostra que o vas­to even­to da nova críti­ca, tem fun­da­men­tal­mente influ­en­ci­a­do em muitos a noção da fé da Igre­ja, e con­se­quente­mente a ori­en­tação da teolo­gia, assim dita bíbli­ca, e da teolo­gia em gênero, sendo colo­ca­da a pro­va pelas exces­si­vas “inter­pre­tações”, o fun­da­men­to dog­máti­co da Igre­ja.

Mais um olhar cir­cu­lar e apro­fun­da­do sobre todos estes fenô­menos her­menêu­ti­cos, emerge, ain­da mais impor­tante e sig­ni­fica­ti­vo, que este empurrão que quase se pode­ria definir instin­ti­vo por uma rein­ter­pre­tação de cada coisa, revestiu o carác­ter de uma teo­ria ger­al do con­hec­i­men­to. E neste pon­to se falou de uma her­menêu­ti­ca filosó­fi­ca. Então não se tra­ta mais ape­nas de inter­pre­tação de um tex­to ou de uma nar­ração que nos é dada para trans­mi­tir oral­mente; se tra­ta de uma teo­ria que con­cerne a natureza do entendi­men­to, da com­preen­são em si.

Esta “bus­ca” foi a jus­ti­fi­cação teóri­ca, jus­ti­fi­cação na con­sciên­cia hes­i­tante, da eman­ci­pação ger­al do homem; eman­ci­pação visan­do um con­hec­i­men­to da ver­dade rev­e­la­da e uma per­cepção de uma “leitu­ra” do uni­ver­so nat­ur­al e da história humana, segun­do nomas escritas no homem como bases ontológ­i­cas da palavra.

Esta eman­ci­pação, este esforço mais ou menos con­sciente  e mais ou menos inten­so de eman­ci­pação, tomou a for­ma de uma rev­olução que afe­tou todos os cam­pos do pen­sa­men­to e a cari­dade da vida cristã. Esta eman­ci­pação vai além das divergên­cias e ideias de dout­ri­na, divergên­cia que se ver­i­fi­cam sobre as mes­mas bases da palavra humana. A causa da eman­ci­pação, de fato, o Amor e o Con­hec­i­men­to, foram colo­ca­dos a dura pro­va na cri­stan­dade, porque o ver­bo, a noção do ver­bo foi abal­a­da nas suas bases humanas ontológ­i­cas e de ordem eter­na.

O nos­so jovem poderá perce­ber, cer­ta­mente, toda esta efer­vescên­cia da evolução her­menêu­ti­ca; mas lhe será muito difí­cil dom­i­nar a sua exper­iên­cia e orga­ni­zar a sua infor­mação. Além dis­so, se sen­tirá quase na impos­si­bil­i­dade de encon­trar um meio para comu­nicar com os out­ros, porque o rel­a­tivis­mo do ver­bo, tor­na­do ago­ra fun­da­men­to doutri­nal da nova her­menêu­ti­ca, suprime todo pon­to de refer­ên­cia. Em sinal deste per­pé­tuo recolo­car em dis­cussão cada per­cepção e cada trans­mis­são, cada noção a propósi­to da palavra, do enten­der e do con­hecer, o jovem será lev­a­do a assim se referir mais que nun­ca, a cada coisa e para cada sua palavra e para aque­la dos out­ros, a base de toda uma vida humana e de cada ver­dadeiro con­hec­i­men­to; aque­le fun­da­men­to uni­ver­sal do ver­bo inte­ri­or. De fato o ver­bo inte­ri­or per­tence a essên­cia do homem, enquan­to ser e enquan­to existên­cia.

O jovem, seguin­do, por perío­dos pro­lon­ga­dos de tem­po, exposições históri­c­as sobre difer­entes está­gios da exegese, da críti­ca dos tex­tos, as diver­sas mas­sas a pon­to de Mag­istério, e os comen­tários inter­mináveis e as anális­es filológ­i­cas diver­gentes dos tex­tos e das doutri­nas, se dara con­ta ain­da de duas coisas.

-      Pri­mari­a­mente: os diver­sos itin­erários da her­menêu­ti­ca, difer­entes como são, con­duzem no entan­to, a con­clusões que as divergên­cias de opinião den­tro do his­tori­cis­mo não fazem que con­fir­mar a iden­ti­dade his­toricista de todas as suas ram­i­fi­cações na teolo­gia e na exegese.

-      Secun­dari­a­mente: é ago­ra pouco clar­i­f­i­cante, naqui­lo que diz respeito a real­i­dade essen­cial da atu­al teolo­gia, con­tin­uar a exam­i­nar todas as anális­es dos tex­tos, todas as diver­gentes argu­men­tações, todos os comen­tários e todas as inter­pre­tações que tem preenchi­do e preenchem, cada dia, o mun­do do estu­do e tam­bém o mun­do da pre­gação.

Terá de fato já con­stata­do que as três car­ac­terís­ti­cas gerais: a con­sciên­cia históri­ca, a her­menêu­ti­ca e a refer­ên­cia exis­ten­cial, per­tencem ao mes­mo aglom­er­a­do int­elec­tu­al no atu­al movi­men­to teológi­co; e isto, de tal maneira, a  não poder mais senão difi­cil­mente, dis­tin­guir-lhe sep­a­rada­mente em qual­quer proposição exegéti­ca e teológ­i­ca.

E esta certeza lhe será con­fir­ma­da pelo exame de cada man­i­fes­tação das cor­rentes teológ­i­cas surgi­das da men­tal­i­dade his­toricista. Verá implan­tar-se diante dele o arco de todas as cor­rentes teológ­i­cas que exprimem a grande pro­va da Igre­ja, da Cri­stan­dade inteira e do mun­do.